dezembro 2006 Archives

Adeus Anos Velhos

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Vejo o excelente documentário sobre a Elis Regina na TV Globo (e aqui, pausa para a ressalva: excelente em se tratando de coisa para tv; tem boas dramatizações, belas cenas de época, bons depoimentos, revelações do Gilberto Gil e do Milton Nascimento, ambos se dizendo apaixonados, no sentido de tesão mesmo, por ela; mas tem também omissões vergonhosas: não fala que a diva morreu de overdose, não conta como ela adquiriu aquela extraordinária técnica vocal, não explica por que não parecem depoimentos dos ex-maridos _ o Boscoli, tudo bem, já morreu; mas onde estava o César Camargo Mariano? E a apresentadora, aquela moça que era modelo e virou atriz de novela e que nunca me lembro o nome, ganha o Kikito de roupa mais inadequada para apresentadora. Que shortinho era aquele, meu Deus?).

Elis é daquelas cantoras que marcam, a história, cantam a trilha sonora da nossa vida.

Vim trabalhar, no último expediente do ano, ouvindo os CDs da memorável caixa editada pela Velas em 1994, com as gravações salvas pelo Zuza Homem de Melo, dos programas da TV Record, O Fino da Bossa, que ela apresentava, desde os 20 anos (!). O dado concreto é que nunca nesse país se fez coisa tão boa em matéria de música popular brasileira, como diria o Lula, se não preferisse os sertanejos que agora povoam a página da Velas (onde não se acha link para o CD memorável dO Fino da Bossa). O CD nº 1 tem um Dorival Caimmy acelerado, inacreditábvel; dizem que Vinícius terminou ainda no estúdio a letra de Canto de Ossanha...


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Quando falo de trilha sonora da nossa vida de quarentões, lembro O Bêbado e a Equilibrista, de que nem gosto muito, mas que é tão grudada às lembranças dessa época quanto os discursos do Brizola e o livro Que É Isso Companheiro, do Gabeira de tangas de crochê. No documentário sobre a Elis aparece lá o Betinho, quando ainda era o irmão do Henfil e não o inspirador do Fome Zero (que sumiu e virou Bolsa Família, é? Ah, é, fazer o quê).

O Betinho é, para mim, um daqueles personagens históricos que cruzam sem perceber pela nossa vida, e também sem notar viram personagens dela. Figuras de primeiro plano na História, sustentam uma figuração em nossa historinha pessoal.

(na família, conta-se a história da tia que, mineira, postou-se entre as macacas de auditório do programa de Ary barroso no rádio _ a história é antiga _ e, ao ver possar o ídolo, pôs-se a berrar: "Ary! Ary! Eu também sou de Ubá! Eu também sou de Ubá". Ary parou, olhou a dona com seu ar mal-humorado, e a brindou com sua atenção de estrela: "E eu com isso, minha senhora?")

Deu-se que a Marta conhecia muito o Betinho, lá pelo início da década de 80; já naquela época ela mostrava o excelente _ e raro _ trabalho jornalístico com políticas públicas que marca a reportagem dela até hoje, e, quando eu disse que até casaria na Igreja, mas só se o padre fosse comunista, foi ao irmão do Henfil que ela recorreu para pedir uma indicação. E o Betinho arrumou um padre comunista para que eu casasse na igreja do palácio da Guanabara, o templo mais baratinho para casamentos naqueles tempos bicudos (falava-se em tempos bicudos naquela época).

O que a gente não sabia era que a igreja já tinha um padre, que não admitia ceder as luzes da ribalta para outro religioso, e que as regras do Palácio Guanabara quase impediram o noivo de ir ao próprio casamento. Mas isso é outra história, e vocês não estão interessados mesmo, né?

Yes, temos bolivarianismo



Uma das coisas interessantes que notei na Bolívia foi que, embora considerado dioscípulo de Hugo Chávez, Evo Morales não tem lá grande simpatia por Simon Bolívar, o ídolo do venezuelano. É que Bolivar está mais identificado com a elite branca, ainda que anti-colonial. E com colônia ou independência, a indiada não se deu muito bem com os branquelos lá naquele país andino, onde os indígenas eram proibidos de andar pelo centro da capita, La Paz, ainda na segunda metade do século XX. Na Bolívia, o quente é Tupac Amaru, ou Tupac Katari, indiada boa de briga.

Já no Brasil onde a maioria dos que conhecem o nome Bolivar acha que é apenas uma rua em Copacabana, acaba de ser fundado um partido bolivariano. O fundador, ex-assessor de César Maia (caramba, a coisa pega), diz que quer juntar Chávez, Evo Morales, o equatoriano Correa, o peruano autocrático Ollanta Humala, o mexicano Lopes Obrador, o nicaraguense Ortega, todos numa grande Internacional Bolivariana. É, está fazendo mesmo um calor de rachar o crânio lá no Rio de Janeiro, de onde saiu essa novidade.

A ótima matéria sobre o novo partido saiu no DCI, e pode ser lida AQUI.

O bimbalhar dos chatos

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O fetichismo, como toda mania, nem sempre é patológico. O gosto por cartões de Natal, por exemplo. Pode ser o prazer simples de se sentir lembrado, querido, pode ser apenas uma tara por pedaços recortados de papel colorido, com frases simpáticas, clichês sazonais e imagens entre o agradável e o kitsch. Receber cartões de Natal é uma alegria até para o mais empedernido ateu, o mais virulento inimigo do espírito consumista e conciliador que ronda as festas de fim de ano.

Não importa se quem mandou foi seu banco, que o ignora para qualquer fim prático que não seja empurrar algum produto financeiro caro e desnecessário. E daí, se o cartão traz errado seu sobrenome, ou vem com assinatura impressa e chegou, idêntico, para todos seus companheiros de trabalho? Seja cartão vindo de lobista desconhecido, ou de político muito manjado, são adoráveis essas pequenas peças impressas, e é um gozo raro vê-las empilhando-se na mesa de trabalho, ou ao pé da árvore de Natal. Lembraram de mim! Puseram meu nome em alguma lista, seja qual for, seja com quem for! Existo, importo para alguma coisa!

Esses cartõezinhos são o verdadeiro Papai Noel, a materialização do gasoso e fugidio espírito de Natal. Louvados sejam todos os remetentes, ainda que eu vá ouvir falar deles só no próximo dezembro.

Aí veio um gênio da inconveniência e decidiu que correio eletrônico também serve para mandar mensagens de Boas Festas. E as caixas postais _ já assediadas por anônimos que mandam cartões com vírus, por tarados insistindo em vender fórmulas mágicas para emagrecer ou fazer crescerem os pênis, nigerianos propondo negócios da China e mulheres casadas desejosas de adultério com internautas disponíveis _ passaram a ser entupidas por e-mails com arquivinhos natalinos.

Cartões do chefe do departamento de Relações Humanas da firma; mensagens com filmetes bregas enviadas pelo colega de escritório de alguém da família; milhares de peças pouco inspiradas das assessorias de imprensa que lhe negaram notícia decente durante o ano; megabytes e megabytes de mensagens enviadas por pessoas que decidiram não se dar ao trabalho de comprar um cartãozinho, selos e depositar seus votos de bom Natal e feliz Ano Novo em alguma das incontáveis agências de correio do país. Baixaram os desejos de Boas Festas ao nível rasteiro das mensagens com ofertas de Viagra sem receita.

A pretexto do espírito natalino, os espíritos de porco invadiram os computadores das pessoas de boa vontade. A eles meu desejo de Ano Novo: que, no próximo Natal, sejam todos atropelados por uma manada de renas descontroladas. Que seja salgado o teclado onde puseram as patas e sua descendência amaldiçoada até o último byte.

As estripulias do bom velhinho

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Estou falando de Sigmund Freud, evidentemente; ou você acredita em Papai Noel?

Vejo, no Arts and Letters Daily, que as relações entre o imaginário freudiano e nosso Nélson Rodrigues são maiores do que autoriza nossa vã psicologia. Um pesquisador _ claramente sem nada o que fazer _ descobriu em um hotelzinho nos Alpes suíços o que considera uma prova irrefutável de que o velho Sigmund, na época quarentão, deitava a cunhada no divã para vasculhar o Id da moça por via intradérmica.

Jung, outro velho safado, já havia dedurado o mestre e seus atos nada falhos com a cunhadinha, mas disseram que era intriga, sabe como é, não dá para levar ao pé da letra um junguiano, ainda mais quando esse tal é o próprio. O pesquisador-sociólogo, provavelmente da Caras, sacou, porém, um livro de hotel em que o Sigmund registrou-se, com a cunhada, como marido e mulher. Não é preciso ser um mago da semiologia para deduzir que o falso matrimônio não se limitou ao duro registro da caneta do pai da Psicanálise no livro denunciador.

Dizem que, já no Psicopatologia da Vida Cotidiana o próprio Freud faz referência ao caso (no caso, caso no sentido de caso mesmo, entende?), atribuindo a um laranja um lapso linguístico que revelaria o mal estar com o adultério/incesto. É uma história constrangedora para os ortodoxos que, especialmente nos EUA, até admitiam que Freud falasse em sacanagem, mas não aceitavam que as praticasse, a não ser em metáfora, ou no modo de segurar o charuto.

Mais constrangedora, acho eu, é a foto que ilustra a matéria do Arts and Letters Daily, em que aparece o alvo da paixão proibida. É, essa sim, a prova de que doutor Freud era um tarado irrecuperável. A do meio, aqui em baixo, é dona Martha, a esposa. A cunhada é essa senhora à esquerda, vagamente semelhante ao Nélson Jobim. E esse com ar de peixe morto, tentando te despir com os olhos, é ele, o danadinho Palhares austríaco apanhado por um sociólogo bisbilhoteiro.

Agora voa!!

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O Congresso acaba de aprovar o acordo de cooperação aérea com a Nigéria!!!!!

Era o que faltava para importarmos, finalmente, um modelo de reconhecida eficiência internacional, e dar fim ao caos nos aeroportos.

O presidente Olegusun Obasanjo, para acabar a corrupção por lá, criou até um ministério. Suspeito que não deu certo porque não pagaram propina. A Nigéria é o único lugar do mundo onde ouvi caso de funcionário da alfàndega que cobrou um ajutório para devolver o passaporte de um viajante.

Por aqui, até hoje, o máximo que havia nos aeroportos era brigadeiro aceitando viagenzinhas de cortesia das companhias aéreas.

Mitologias

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A mitologia das redações, tempos atrás, determinava que todo jornalista deveria passar pelo batismo da reportagem de polícia. Isso sempre me pareceu ou um trote de mau gosto ou uma espécie de antropologia de boteco, coisa comum nas redações, aliás. Mas há alguma razão nesse mito: além do treino de reportagem, a cobertura de polícia é uma espécie de teste de ética para o jornalista, um mergulho no terreno das paixões humanas mais destrambelhadas, e dos maiores riscos de desvios nas relações com as fontes.

Passei meteoricamente por esse universo, como estagiário dO Globo, e desse teste só me lembro de ter sofrido diretamente o do "boneco" da vítima. "Boneco" era a gíria dos fotógrafos para a foto posada ou três por quatro, que os jornais costumavam publicar das vítimas de crimes, ou de criminosos, e que os jornalistas tinham de pedir para a família, nos muotos casos em que não era possível encontrar o fotografado. Troço constrangedor; o sujeito lá chorando a mulher que tinha matado os filhos e fugido com o eletricista do bairro e o repórter, compreensivo: "o senhor não poderia me conseguir uma fotinha dela?"

Até nisso o admirável mundo novo muda a prática periodística. Agora uma multidão mantém fotos e perfis disponíveis na Internet, para uso e abuso de quem precisar, como vemos com o provável maluco homicida da Inglaterra. O sujeito ainda é considerado suspeito, mas a cara dele, em poses esdrúxulas e ar amalucado está em jornais do mundo inteiro. O perfil dele no My Space foi retirado, mas um pouco tarde para quem não quer notoriedade.

A história do sujeito, aliás, mostra por que foi na Inglaterra que nasceu Agatha Christie. O caso todo se parece cada vez mais com um conto policial. Antes da sucessão de assassinatos de prostitutas, o cara deu uma festa para oito moças de sexo pago, cinco das quais foram, uma a uma, convocadas a prestar contas ao Criador. Foram convidadas pelo cara e um amigo conhecido como "O Tio" para a festinha que antecedeu a série de homicídios. Eram usuárias de drogas, foram encontradas sem sinais de resistência ao assassino.

Escapando ou não da prisão, o provável matador deve ficar milionário, só com os direitos para o cinema.

Promessa é dívida

Dia de gripe avassaladora e de indigestão á frente, com um almoço, no Itamaraty, com a delegação boliviana. Para quem veio parar neste Sítio, deixo, então, a coluna de hoje, no Valor:


O presidente Luiz Inácio Lula da Silva já anunciou sua prioridade para o Mercosul, e para a correção dos erros passados em relação ao bloco, no segundo mandato. A reunião dos ministros do Mercosul, na sexta-feira, mostrou também que é urgente dar solução à insatisfação dos sócios menores com os pequenos resultados econômicos que obtiveram - e, agora, também à crise com bloqueio argentino à tentativa uruguaia de turbinar seu setor industrial instalando duas fábricas de celulose à margem do rio Uruguai. Alguns sinais emitidos pelo governo brasileiro, na semana passada, vão, porém, em direção contrária à prioridade anunciada por Lula.

A pretexto de formular seu programa econômico para o segundo mandato, o presidente Lula, na terça-feira, convocou ministros para uma longa discussão sobre os planos do governo para o setor de infra-estrutura. O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, não participou. Nem foi convidado. Ausência estranha, já que parte importante do projeto de integração do governo brasileiro está ligado à chamada IIRSA - Iniciativa para Integração da Infra-Estrutura Regional Sul-Americana.

(continua AQUI)

Dessa escapei

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O ministro de Negócios Estrangeiros da Rússia, Serguei Lavrov, é um sujeito elegante, diplomata respeitadíssimo, fala inglês praticamente sem sotaque, é muito sério e, posso atestar desde ontem, está em boas relações com o chefe, Vladimir Putin. Digo isso porque participei do almoço que ofereceram a ele, ontem, em Brasília; e, após cuidadosos exames, não detetei em mim nenhum sinal de Polônio 210, nem traço de radioatividade.

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E ainda ouvi a história do diplomata que, ao discutir com os russos o acordo de cooperação sobre o Veículo Lançador de Satélites brasileiro, confundiu-se e falou em GLS quando queria dizer VLS. Antes que viessem as piadinhas preconceituosas de praxe sobre nossos infatigáveis itamaratecas, uma diplomata apressou-se em me explicar: VLS é na Aeronáutica; GLS deve ser na Marinha.

Não entendi. GLS pode ser algum código naval. Sempre achei que tinha alguma mensagem cifrada no Cisne Branco.

Pausa para o café

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Sempre fui perseguido por defender a tese herética de que, apesar de ser uma mulher muito bela, com pernas de excelente arquitetura, a senhorita Gisele Bindchen não fazia jus ao sobrenome e lhe faltaria, bem, alguma retaguarda _ o que a obriga a uma lordose forçada, nas fotos em que têm de fazer alguma concessão à preferência nacional. Pois a Mônica Bérgamo (AQUI, para assinantes) e o JB, na capa de hoje, mostram que foi preciso um papparazzo para confirmar minha opinião, com uma imagem (muito inspiradora, por sinal, que vale mais que mil retóricas.

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E já que entramos no terreno do voyeurismo, algum de meus amados 500 leitores poderia explicar por que as revistas masculinas costumam exibir fotos de mulheres belas, em poses provocantes e as revistas femininas costumam exibir ... fotos de mulheres belas em poses provocantes?

Como se indagava, entre charutadas, o velho macróbio de Viena: o que querem as mulheres, afinal?

Corporativismo

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Você imagina o dia em que bandidos sairão em passeata cobrando melhores condições de trabalho, ou, quem sabe, equiparação salarial aos membros da categoria integrantes do Legislativo?
Esse dia ainda não chegou. Mas vejo sinais de fim do mundo, nesse tipo de protesto AQUI.



Vai ser divertido assistir às próximas reuniões do Mercosul. A Venezuela, que ainda não assumiu todos os compromissos para ser membro integral do bloco, tem direito a voz, mas não a voto, nas reuniões. Um diplomata amigo meu me dizia, esta semana: "melhor seria termos dado voto, e não voz ao Chávez". Tem gente separando travesseiro, para levar às reuniões. Ou tapa-ouvidos.

A última do venezuelano foi aproveitar a reunião de cúpula da Comunidade Sul Americana de Nações para dizer que é preciso "enterrar" o Mercosul e defender um "viagra político" para que a integração regional saia do papel. Lula, quem sabe prevendo onde vai se enfiar esse ímpeto de Chávez depois do viagra bolivariano, deu-lhe um chega para lá.

Mas me parece pouco. Por via das dúvidas, se for escalado para a cobertura das próximas reuniões, não desencosto da parede.

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Além de enviagrado, Chávez parece estar assombrado por algum Exu; não pára de falar no coisa ruim. Na ONU, disse ter sentido cheiro de enxofre do demônio George Bush; semana passada, disse que ele e Fidel eram dois diabos, e que a capetada estava crescendo, com os governos de esquerda eleitos na América Latina.

Vade retro, pé de pato mangalô três vezes. Espero que não esteja sugerindo que os novos governos vão fazer do continente um inferno. No meu tempo, quando os governantes ganhavam chifres metafóricos, eram as primeiras-damas as endiabradas.

Suassuna e a coragem da cor

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Aprecio todo radicalismo que não envolva derramamento de sangue.

Por isso adoro o Ariano Suassuna, um arretado radical, sobre o qual me dizem que esculachava o Chico Science por considerá-lo um traidor das raízes populares. Numa de suas aulas-espectáculo me lembro de ouvir uns resmungos irritados do velho contra o Chico _ "que, se é brasileiro, devia se chamar Chico Ciência".
Pois me contam que, secretário ou coisa parecida, não barrou verbas públicas para o pessoal do Mangue Beat e, quando o Science morreu num acidente besta, ao ser enterrado em Pernambuco, quem segurava uma das alças do caixão, num choro desconsolado? O Suassuna.
Aos quase 80 anos, que completa neste 2007, o Ariano deu, dias desses em Brasilia, mais um de seus comícios literários _ chamam de aula-espetáculo, depois que ele deu piti ao falarem que daria uma aula-show, mas o que ele faz é comício mesmo, erudito, humorístico, em favor da cultura nacional.

Nesse último anunciou que decidira não morrer. "Andei pensando, e concluí que não é bom negócio, não recomendo a ninguém. Agora tento convencer os amigos, digo: morra não!", disse, sob as gargalhadas da platéia que, conquistada, ria até de espirro dele.
Eu ri também, mas me comoveu esse comentário bem-humorado sobre o que deve ser uma das piores maldições da velhice, a morte dos conhecidos, e o sumiço de coisas com que nos afeiçoamos ao longo da vida. Eu, por exemplo, perdi cedo o desodorante English Lavender, da Atkinsons, e hoje me incomodo com a perspectiva de algum dia me ver obrigado a trocar de pasta de dentes (me levaram o cheiro, vão me levar o hálito).

Mas falava do Suassuna, e, como ele fez, fico tentado a repetir um ex-colega de escola, que, chamado por um professor, Luís Delgado, para apresentar uma dissertação sobre Rui Barbosa, foi personagem da cena que deixo o próprio Suassuna contar:

"O estudante levantou-se e falou:
_ Para falar de um gênio da estatura moral e intelectual de Ruii barbosa, fica-se de pé, enquanto a alma está de joelhos!
O doutor Delgado só lhe disse:
_ Sente-se e deixe de ridículo" .

O homem não é assunto para blogue, pede uma monografia; acho que por isso demorei tanto a escrever sobre ele.


Me pareceu abatido, envelhecido, menos aprumado, menos aquela figura tesa de sertanejo que nunca foi, bicho urbano desde pequeno. Mas Suassuna brilha, não só metaforicamente; tem aquele fogo nos olhos que nos obriga a uma doce deferência.

Fez uns discursos meio panfletários sobre a importância do Lula chegar onde chegou (a militância na platéia e a politicanalhada na primeira fila aplaudiram, menos o Inocêncio Oliveira, acho, que estava lá na condição de pernambucano, mas de direita).

Irônico, contou da carta que recebeu da Universidade de pernambuco, onde lecionava: "Professor, solicitamos que informe se é ou não professor desta Universidade". Informou: "como consta no cabeçalho desta carta, sou realmente professor da Universidade. Aceitaram".

Isso para falar por que se recusou a mudar o nome de sua disciplina "História da Cultura do Brasil" por "História da Cultura no Brasil", como queriam os burocratas.
As duas maiores vertentes da cultura brasileira são a barroca, herança ibérica, e a popular, vinda dos pobres negros, índios e imigrantes, ensinou.

Suassuna mostrou o clássico (nas aulas dele) slide da mostra "500 anos de Arte Brasileira", para, com razão, criticar a exposição do MEC que descurava dos milênios de arte rupestre e indígena no país. E fez um belo discurso em favor das cores fortes na arquitetura brasileira, com slides de comoventes casas do interior do Nordeste (Piauí, se não me confundo).

Bandeiras orgulhosas, de reboco e tijolos, essas fachadas quase me fazem concordar com a implicância dele com a arquitetura brasileira contemporânea ("falta cor nela"), especialmente Brasília, cidade muito branca, "pálida de susto".


Falei da diferença entre o sertanejo de Graciliano Ramos e o dele Suassuna, em outro post. Um dos momentos altos da palestra-comício, quando ele contrasta a imagem de guerreiro empoeirado e baço com que o Euclides da Cunha descreve o sertanejo dos Sertões com uma foto de um vaqueiro imponente, face curtida, gibão de couro trabalhado, "um vitorioso", disse ele.

Gostei da comparação, da foto e da idéia, detestei o comentário, meio chavão. Os populistas, claro, irromperam em aplausos, um lugar comum para saudar outro lugar comum. Mas aprovei a conclusão, inspirada no gibão de couro do vaqueiro: "é disso que sinto falta na arquitetura contemporânea, essa força, essa imaginação, essa coragem da cor".

Era só parte da longa exposição que fez sobre a arquitetura brasileira, nascida, segundo ele, do barroco, cria do românico e do gótico. Mas, como eu previa, esse post começa a ficar excessivo. Extrapola, como tudo relativo ao Suassuna.

Ariano contou que um amigo insone disse ser inútil o que ele fazia, porque só o que faz falta mesmo é o que faz o criador de animais, o agricultor e o minerador. No dia seguinte, diz ele, comprou umas cabras. Como se criar bicho fosse o que faz dele indispensável.

Já que o assunto é lama...

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"Sergio, o que se oferece a um lama?"

Essa era a dúvida da Marta, hoje cedo. Eu já estou devendo aos freqüentadores deste Sítio o relato da palestra do Ariano Suassuna, como me cobrou o Patrick no comentário do post aí embaixo; mas vi que, antes, tinha uma missão de utilidade pública: o relato que vem a seguir pode ajudar aos leitores, qualquer dia desses, como dica de etiqueta caso alguém tenha de receber em casa um líder espiritual budista.

Os sogros de visita cá em casa, minha cunhada anunciou uma visita; e como ela se tornou uma espécie de assessora do monge enviado da França ao Brasil, para instalação de um templo budista em uma cidade satélite de Brasília, me vi recebendo, para o almoço, a cunhada e dois lamas.

Um era O Lama, ao que parece o bambambam do templo. Francês, branco, de barba cuidadosamente aparada e uma cara que me lembrou terrivelmente o Eric Touissant, militante alterglobalização cujo livro em favor do calote da dívida externa eu resenhei, para o Valor. O outro, também lama, bem baixinho, era ligeiramente cervicalmente diferenciado (que é, acho, como chamam hoje em dia os portadores de uma pequena corcunda) e indiano, com cara de tibetano (nasceu perto da fronteira). Serenos, os dois. Simpáticos. Extremamente agradáveis, destroçaram com bonomia minha aversão a sacerdotes em geral.

O que se serve a um lama? Quando se tem um sogro mineiro, serve-se lombinho com couve e canjiquinha. De sobremesa, goiabada cascão com queijo de Minas (que me permitiu longa digressão sobre a existência de queijos idênticos em países andinos, como a Bolívia, onde comi um bem salgado, por sinal. Nas minas de Potosí também deviam gostar desse tipo de queijo, teorizei, ante o olhar interessado dos dois lamas). Café para o francês, chá para o indiano/tibetano. Não reparei se adoçaram a bebida. Os lamas encararam o lombinho numa boa, o francês só botou de lado as gordurinhas. Rabino e Aiatolá é que cria encrenca nessas horas.

Felizmente, tive minha carga de leituras orientalistas (além de uma espiadela nas colunas do Paulo Coelho, no Globo de Domingo), para aproveitar a oportunidade que meu carma apresentou a esse cínico esqueleto de jornalista. Sabia eu que o budismo vê beleza e sabedoria nas coisas simples da vida, por isso reparei: era essa apreciação da simplicidade que o lama-Eric Touissant pretendeu me revelar quando passou a brincar, maravilhado, com os caleidoscópios que viu em minha mesa de centro, na sala. Ele lá, girando o caleidoscópio, e eu me perguntando se o almoço com lombinho de porco não seria uma forçação de barra capaz de me fazer reencarnar como, sei lá, um deputado do PTB.

Também de olho nos ensinamentos do Paulo Coelho, e no exemplo histórico de Sócrates (o filósofo, de desleixada aparência, não o comentarista de futebol), tive certeza de que, apesar de mais calado, humilde e bem menorzinho, era o monge indiano, provavelmente, o verdadeiramente capaz de me levar à iluminação. Meu sogro lá, paparicando o francês e eu cuidadoso em não deixar o pequenininho à margem da conversa. Minha sogra me contou depois que, antes de sair, o lama que-não-era-francês (ah, o contorcionismo para evitar designações politicamente incorretas!) brincou um pouco com meu pandeiro. Tá na cara, em retribuição pela minha hospitalidade, abençoou o instrumento! Mal posso esperar para estrear minha percussão bendita no Clube do Choro! É a nova revelação do partido alto aí, geeente! Pena que ele não benzeu a clarineta, mais precisada.

Bela conversa, companhia agradável, deixei-os com sogros e cunhada e saí correndo como um ninja em fuga para voltar ao batente. Ao entrar no prédio do jornal, encontro o Zarur, amigo velho, que me conta da experiência do sobrinho com outro lama, em outro templo budista da capital. O sobrinho luta caratê periodicamente com o lama, esse outro. Que, velhinho, luta como um azougue, mas, aparentemente, se amarra numa cachaça. O sobrinho perguntou ao Lama se não havia alguma restrição a esse hábito de, religiosamente, encher o caveirão com água que passarinho não bebe. "O budismo não trata dessas coisas", respondeu o monge, tranqüilo e com a voz pastosa.

E eu que ofereci suco de laranja a meus lamas. Juro que vou me redimir, ainda nessa encarnação.

Lula, bem na foto.Mas, para que?

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O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, prestes a confirmar mais um mandato presidencial, não fala com o vizinho peruano, Alan Garcia, que não tem a simpatia do recém-eleito presidente esquerdista do Equador, Rafael Correa. O presidente da Colômbia, Álvaro Uribe, também tem problemas com Chávez. Ao sul, o presidente da Argentina, Néstor Kirchner, promove uma escalada de hostilidades contra o vizinho presidente do Uruguai, Tabaré Vazquez.

Um único chefe de Estado na região tem reconhecimento internacional e trânsito relativamente fácil nos palácios de todos esses políticos: Luiz Inácio Lula da Silva.

A inclinação do continente à esquerda com as eleições presidenciais em vários países sul-americanos - ressalvada a exceção peruana, que, de todo modo, levou um populista ao poder - tem importantes repercussões no campo comercial, entre elas a criação de dificuldades para a atuação da Petrobras em vizinhos cada vez mais nacionalistas.

Dessas repercussões, uma das principais é a divisão clara entre os poucos países com acordos de comércio firmados com os Estados Unidos e outros que repelem esse vínculo comercial - e que parecem dispostos a compor um Mercosul ampliado, algo muito do agrado de Lula.

A vitória democrata no Congresso americano fortaleceu o lobby agrícola que tem determinado uma postura protecionista dos EUA nas discussões de comércio. Mas também reforçou a preocupação da elite política americana com temas sociais na América Latina, e, teoricamente, pode ressaltar o papel de Lula como elemento moderador.

Apesar das acusações de antiamericanismo, o presidente brasileiro tem se mostrado disposto ao papel de parceiro dos EUA nas relações com os países mais à esquerda no continente, e de exemplo de esquerda reformista em uma região sob ameaça do projeto bolivariano de Chávez e da ascensão de governos populistas montados no fracasso das políticas liberais.


(Esses trechos são da minha coluna desta semana, no Valor. O resto voce pode ler AQUI.)

A vingança das anoréxicas

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Passado um tempo mínimo, para a hipocrisia do luto pelas mocinhas anoréxicas mortas tentando a vida de modelo, volta o mundo a trombetear que corpo de mulher perfeita é o da garota com costelas visíveis sob as carnes magras de famélica. Pensei que os jornais, televisões e formadores de opinião mudariam um pouco a forma de tratar a figura feminina, depois da evidência de que o modelo estapafúrdio da mulher-cabide é uma excrescência dos estilistas. Minha crença não valia um xenical.

Na mesma semana em que morreu uma das faquires do mundo-fashion, minha amiga Monica Bérgamo já botava na coluna dela, na Folha, foto de quase duas colunas de outras dessas modelos pernaltas de cintura de efebo. Nesta semana, os jornais publicaram encantados a escolha da nova estrela da Ford Models. Vanessa Cruz, uma adolescente de quase metro e oitenta de altura e 45 quilos.

Parabéns à Natália Zonta, a única que viu, de cara, que a moça deve estar devolvendo escondida no banheiro o pouco que come, como publicou o Estadão nessa matéria AQUI. Só não entendi por que não foi parar na primeira página. Era notícia de alta leitura, mas essa Ford Models deve ser mesmo poderosa. A foto do José Patrício, da Agência Estado, não deixa dúvida de que as matérias laudatórias ao concurso foram feitas por gente cega, ou pouco atenta:

E, nesta semana, a agência Globo publica este belo exemplo de jornalismo social, com elogios do repórter às medidas "perfeitas da filha" da Monique Evans, com 1,73 metro e 45 quilos. Três arrobas! Bate na trave do mínimo índice de massa corporal exigido para uma adolescente, se o peso e altura que a mãe-coruja informou à reportagem estiverem certos. A filha está, hoje, comendo até melhor que antes, diz a Evans, que não deixou a cria entrar no mundo da moda enquanto ela não emagreceu uns quilinhos.

Daqui a algum tempo, morre outra garota e o pessoal volta a fingir que condena essa indústria neurótica de magrelas para cabide. Fico com o Oliveira, o canalha da redação, para quem "mulher tem de ter superfície, para podermos sentí-la em todas suas dimensões".

Isso quando ele está poético. Em geral comenta que quem gosta de osso é cachorro.



sitio do sergio leo

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