Já que o assunto é lama...

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"Sergio, o que se oferece a um lama?"

Essa era a dúvida da Marta, hoje cedo. Eu já estou devendo aos freqüentadores deste Sítio o relato da palestra do Ariano Suassuna, como me cobrou o Patrick no comentário do post aí embaixo; mas vi que, antes, tinha uma missão de utilidade pública: o relato que vem a seguir pode ajudar aos leitores, qualquer dia desses, como dica de etiqueta caso alguém tenha de receber em casa um líder espiritual budista.

Os sogros de visita cá em casa, minha cunhada anunciou uma visita; e como ela se tornou uma espécie de assessora do monge enviado da França ao Brasil, para instalação de um templo budista em uma cidade satélite de Brasília, me vi recebendo, para o almoço, a cunhada e dois lamas.

Um era O Lama, ao que parece o bambambam do templo. Francês, branco, de barba cuidadosamente aparada e uma cara que me lembrou terrivelmente o Eric Touissant, militante alterglobalização cujo livro em favor do calote da dívida externa eu resenhei, para o Valor. O outro, também lama, bem baixinho, era ligeiramente cervicalmente diferenciado (que é, acho, como chamam hoje em dia os portadores de uma pequena corcunda) e indiano, com cara de tibetano (nasceu perto da fronteira). Serenos, os dois. Simpáticos. Extremamente agradáveis, destroçaram com bonomia minha aversão a sacerdotes em geral.

O que se serve a um lama? Quando se tem um sogro mineiro, serve-se lombinho com couve e canjiquinha. De sobremesa, goiabada cascão com queijo de Minas (que me permitiu longa digressão sobre a existência de queijos idênticos em países andinos, como a Bolívia, onde comi um bem salgado, por sinal. Nas minas de Potosí também deviam gostar desse tipo de queijo, teorizei, ante o olhar interessado dos dois lamas). Café para o francês, chá para o indiano/tibetano. Não reparei se adoçaram a bebida. Os lamas encararam o lombinho numa boa, o francês só botou de lado as gordurinhas. Rabino e Aiatolá é que cria encrenca nessas horas.

Felizmente, tive minha carga de leituras orientalistas (além de uma espiadela nas colunas do Paulo Coelho, no Globo de Domingo), para aproveitar a oportunidade que meu carma apresentou a esse cínico esqueleto de jornalista. Sabia eu que o budismo vê beleza e sabedoria nas coisas simples da vida, por isso reparei: era essa apreciação da simplicidade que o lama-Eric Touissant pretendeu me revelar quando passou a brincar, maravilhado, com os caleidoscópios que viu em minha mesa de centro, na sala. Ele lá, girando o caleidoscópio, e eu me perguntando se o almoço com lombinho de porco não seria uma forçação de barra capaz de me fazer reencarnar como, sei lá, um deputado do PTB.

Também de olho nos ensinamentos do Paulo Coelho, e no exemplo histórico de Sócrates (o filósofo, de desleixada aparência, não o comentarista de futebol), tive certeza de que, apesar de mais calado, humilde e bem menorzinho, era o monge indiano, provavelmente, o verdadeiramente capaz de me levar à iluminação. Meu sogro lá, paparicando o francês e eu cuidadoso em não deixar o pequenininho à margem da conversa. Minha sogra me contou depois que, antes de sair, o lama que-não-era-francês (ah, o contorcionismo para evitar designações politicamente incorretas!) brincou um pouco com meu pandeiro. Tá na cara, em retribuição pela minha hospitalidade, abençoou o instrumento! Mal posso esperar para estrear minha percussão bendita no Clube do Choro! É a nova revelação do partido alto aí, geeente! Pena que ele não benzeu a clarineta, mais precisada.

Bela conversa, companhia agradável, deixei-os com sogros e cunhada e saí correndo como um ninja em fuga para voltar ao batente. Ao entrar no prédio do jornal, encontro o Zarur, amigo velho, que me conta da experiência do sobrinho com outro lama, em outro templo budista da capital. O sobrinho luta caratê periodicamente com o lama, esse outro. Que, velhinho, luta como um azougue, mas, aparentemente, se amarra numa cachaça. O sobrinho perguntou ao Lama se não havia alguma restrição a esse hábito de, religiosamente, encher o caveirão com água que passarinho não bebe. "O budismo não trata dessas coisas", respondeu o monge, tranqüilo e com a voz pastosa.

E eu que ofereci suco de laranja a meus lamas. Juro que vou me redimir, ainda nessa encarnação.

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Hehehehehe. Mais uma crônica deliciosa.

Abençoar o pandeiro não quer dizer que a partir de agora ele faça mágica... heheheh



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