Suassuna e a coragem da cor

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Aprecio todo radicalismo que não envolva derramamento de sangue.

Por isso adoro o Ariano Suassuna, um arretado radical, sobre o qual me dizem que esculachava o Chico Science por considerá-lo um traidor das raízes populares. Numa de suas aulas-espectáculo me lembro de ouvir uns resmungos irritados do velho contra o Chico _ "que, se é brasileiro, devia se chamar Chico Ciência".
Pois me contam que, secretário ou coisa parecida, não barrou verbas públicas para o pessoal do Mangue Beat e, quando o Science morreu num acidente besta, ao ser enterrado em Pernambuco, quem segurava uma das alças do caixão, num choro desconsolado? O Suassuna.
Aos quase 80 anos, que completa neste 2007, o Ariano deu, dias desses em Brasilia, mais um de seus comícios literários _ chamam de aula-espetáculo, depois que ele deu piti ao falarem que daria uma aula-show, mas o que ele faz é comício mesmo, erudito, humorístico, em favor da cultura nacional.

Nesse último anunciou que decidira não morrer. "Andei pensando, e concluí que não é bom negócio, não recomendo a ninguém. Agora tento convencer os amigos, digo: morra não!", disse, sob as gargalhadas da platéia que, conquistada, ria até de espirro dele.
Eu ri também, mas me comoveu esse comentário bem-humorado sobre o que deve ser uma das piores maldições da velhice, a morte dos conhecidos, e o sumiço de coisas com que nos afeiçoamos ao longo da vida. Eu, por exemplo, perdi cedo o desodorante English Lavender, da Atkinsons, e hoje me incomodo com a perspectiva de algum dia me ver obrigado a trocar de pasta de dentes (me levaram o cheiro, vão me levar o hálito).

Mas falava do Suassuna, e, como ele fez, fico tentado a repetir um ex-colega de escola, que, chamado por um professor, Luís Delgado, para apresentar uma dissertação sobre Rui Barbosa, foi personagem da cena que deixo o próprio Suassuna contar:

"O estudante levantou-se e falou:
_ Para falar de um gênio da estatura moral e intelectual de Ruii barbosa, fica-se de pé, enquanto a alma está de joelhos!
O doutor Delgado só lhe disse:
_ Sente-se e deixe de ridículo" .

O homem não é assunto para blogue, pede uma monografia; acho que por isso demorei tanto a escrever sobre ele.


Me pareceu abatido, envelhecido, menos aprumado, menos aquela figura tesa de sertanejo que nunca foi, bicho urbano desde pequeno. Mas Suassuna brilha, não só metaforicamente; tem aquele fogo nos olhos que nos obriga a uma doce deferência.

Fez uns discursos meio panfletários sobre a importância do Lula chegar onde chegou (a militância na platéia e a politicanalhada na primeira fila aplaudiram, menos o Inocêncio Oliveira, acho, que estava lá na condição de pernambucano, mas de direita).

Irônico, contou da carta que recebeu da Universidade de pernambuco, onde lecionava: "Professor, solicitamos que informe se é ou não professor desta Universidade". Informou: "como consta no cabeçalho desta carta, sou realmente professor da Universidade. Aceitaram".

Isso para falar por que se recusou a mudar o nome de sua disciplina "História da Cultura do Brasil" por "História da Cultura no Brasil", como queriam os burocratas.
As duas maiores vertentes da cultura brasileira são a barroca, herança ibérica, e a popular, vinda dos pobres negros, índios e imigrantes, ensinou.

Suassuna mostrou o clássico (nas aulas dele) slide da mostra "500 anos de Arte Brasileira", para, com razão, criticar a exposição do MEC que descurava dos milênios de arte rupestre e indígena no país. E fez um belo discurso em favor das cores fortes na arquitetura brasileira, com slides de comoventes casas do interior do Nordeste (Piauí, se não me confundo).

Bandeiras orgulhosas, de reboco e tijolos, essas fachadas quase me fazem concordar com a implicância dele com a arquitetura brasileira contemporânea ("falta cor nela"), especialmente Brasília, cidade muito branca, "pálida de susto".


Falei da diferença entre o sertanejo de Graciliano Ramos e o dele Suassuna, em outro post. Um dos momentos altos da palestra-comício, quando ele contrasta a imagem de guerreiro empoeirado e baço com que o Euclides da Cunha descreve o sertanejo dos Sertões com uma foto de um vaqueiro imponente, face curtida, gibão de couro trabalhado, "um vitorioso", disse ele.

Gostei da comparação, da foto e da idéia, detestei o comentário, meio chavão. Os populistas, claro, irromperam em aplausos, um lugar comum para saudar outro lugar comum. Mas aprovei a conclusão, inspirada no gibão de couro do vaqueiro: "é disso que sinto falta na arquitetura contemporânea, essa força, essa imaginação, essa coragem da cor".

Era só parte da longa exposição que fez sobre a arquitetura brasileira, nascida, segundo ele, do barroco, cria do românico e do gótico. Mas, como eu previa, esse post começa a ficar excessivo. Extrapola, como tudo relativo ao Suassuna.

Ariano contou que um amigo insone disse ser inútil o que ele fazia, porque só o que faz falta mesmo é o que faz o criador de animais, o agricultor e o minerador. No dia seguinte, diz ele, comprou umas cabras. Como se criar bicho fosse o que faz dele indispensável.

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Só tive a sorte de ver (anos e anos ago) a aula-espetáculo do Suassuna na TV, num "compacto" da Globo Recife para a Globo News. Não sei se o conteúdo muda, mas nesse ele fazia a comparação entre algumas manifestações populares brasileiras e outras, árabes e ibéricas, que seriam suas matrizes. Me lembrei disso ao ler um artigo do Gilberto Freyre, republicado numa antologia que comprei no sebo (o nome era algo como "Mensagem aos Moços", da Zé Olympio). Ele conta que tinha convencido um coreógrafo do primeiro time (tinha impressão que era o Sergei Diaghilev, mas na Wikipedia as datas não batem) pra fazer um troço semelhante à "aula-espetáculo" sobre ritmos musicais e danças brasileiras. Aí, combinou de se encontrarem com um amigo que tinha prometido dar uma forcinha junto ao "governo provisório" do Vargas (não lembro agora se Pedro Ernesto ou João Alberto, ambos pernambucanos como Freyre). Freyre conta, contrariado, que antes de eles chegarem, o gabinete do amigo já tinha sido tomado por piadas sobre a viadagem do coreógrafo estrangeiro. E o anfitrião do encontro, preocupado em ser alvo de fofocas, recebeu-os de forma apressada e ríspida e não deu a mínima esperança de apoiar o projeto. P.S.: estou te passando a história de ouvido, mas se você achar que merece qualquer interesse, tento achar o livro em meio ao criadouro de ratos que minha mulher já ameaçou algumas vezes doar ou vender ao quilo para alguma empresa de reciclagem.

Ele varia os exemplos e a linha da exposição, mas essas aulas têm muito em comum, Dourivan. Bela história essa do Dighilev ou quem quer que seja o bailarino. Achei curioso, na edição comemorativa do Grande Sertão Veredas recém-lançada, o depoimento gravado em cd, do Décio Pignatari, acho, em que fala de homossexualidade no Guimarães Rosa. Não sabia disso (nem creio que seja lá de enorme importrância). Mas digo uma coisa: para ser viado no começo do século XX o cara trinha de ser muito macho.



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