fevereiro 2007 Archives

É, voltei

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Perdão leitores. Pretendia retomar o Sítio contando algumas interessantes histórias do hemisfério norte, como a da moça artista que fez sabonete do próprio corpo, do canadense otimista que me desejou um bom verão num frio de menos três graus, e na diferença de qualidade da imprensa do primeiro mundo, que, em vez de perder tempo com essas bobajadas dos bororos daqui, tem dedicado páginas e minutos valiosos ao cadáver e herança de uma tal Ana Nicole Smith, vadia de sucesso, exemplo para a garotada.

Mas isso dá trabalho, foi mais fácil dar os palpites abaixo. Fica o relato para quando tiver tempo, e peço a compreensão de vocês para a grama mal cortada, a porteira desengonçada e o desleixo aqui deste Sítio. Já, já, encontrarão aqui as notícias irrelevantes que merecem atenção e a história da moça aí em cima.

Cinzas da quarta-feira

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O minuto de silêncio no desfile das Escolas de Samba, para homenagear o garoto morto num crime horrendo, tem tudo a ver com a reação da classe média apavorada, com esse debate em favor de botar menor de idade em cana. No Sambódromo, a turma pára a bagunça por um minutinho, alguém avisa que o tempo acabou e, iskindô, inskindô, todo mundo na farra de novo. No restaurante de luxo, ou em seu apartamento de três quartos e dependências de empregada, o acadêmico solta um arroto indigniado, diz que semopre foi contra a pena de morte mas que, nesse caso, defende até a volta da tortura para quem não sabe que lugar de crime hediondo é na favela ou na perferia, contra filho de pobre.

Em um caso e no outro, o ridículo. Abrir lugar nas cadeis inchadas para enfiar menores de idade pode até servir para aplacar o legítimo desejo de vingança, de quem teve parente ou conhecido vitimado por crime bárbaro. Mas nunca serviu para impedir que outros crimes idênticos aconteçam. Vai servir para que o Brasil ganhe novo título honorífico, para uma coleção já bem grandinha: depois de ser o país com as mais altas taxas de juros do mundo, e com a maior desigualdade social, poderá se orgulhar também de ser a nação que gasta mais para botar os jovens na cadeia que para mantê-los na escola.

A perda dos que não tiveram

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Leio na Época que o Brasil está perdendo para Chávez a influência que tinha o Brasil no continente sul-americano. Gostaria muito que me apontassem essa influência perdida. Até a década de 70, o Paraguai, antes da Usina de Itaipu, estava mais na órbita da Argentina que na do Brasil; o Uruguai se manteve mais ligado à Argentina até os anos 90, antes do Mercosul, que aumentou a presença de empreas brasileiras lá (não me consta que tenham saído, pelo contrário, houve interferência do Planalto para a Ambev aliviar atritos pelo fechamento de uma fábrica de cerveja lá).

A Bolívia passou a depender mais do Brasil no governo liberal de Gonzalo Sanchez de Losada, um típico exemplo da elite local, que falava espanhol com sotaque anglo-saxão, detestava aquilo lá e foi derrubado por corrupção, dando lugar a uma sucessão de crises políticas, de onde o país não saiu até hoje. Os outros andinos sempre estiveram de costas para o Brasil, com comércio fortemente influenciado pelas vendas aos EUA (inclusive a Venezuela, até hoje).

O comércio entre o Brasil e esses países vem aumentando; a presença de empresas brasileiras (Ambev, Gerdau, Petrobras, Itau, empreiteiras) idem. Os ciontatos entre universidades se intensificaram (ainda são pequenos) e todo mandatário na vizinhança tem decidido como primeiro ato internacional após eleito, uma visitinha a Lula.

O Brasil nunca foi determinante nas políticas externas desses países, e hoje, creio, dá mais palpites nelas do que dava no passado. O Brasil sempre foi ativo nas iniciativas regionais, mas nunca com o destaque que tem hoje no G-20, ou mesmo na OEA.

No passado, aliás, deixados de lado negociações de fronteira e ações clandestinas do aparato repressivo das ditaduras, a presença brasileira palpável, flagrante, mesmo, era a das novelas da Globo. E nisso a diplomacia brasileira é um fracasso mesmo. Até hoje esses cucarachos da vizinhança se recusam a seguir como padrão de comportamento a histeria nefelibata do pessoal da Zona Sul que vagueia pelos enredos da emissora. Mas um dia ainda aprenderão a valorizar o Leblon.

Pegando carona no defunto

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Dez anos da morte do Paulo Francis, todo mundo que conheceu o cara faz o panegírico, e, claro, tira uma casquinha da fama, contando como cruzou com o sujeito (no bom sentido), como ele era um pedaço abençoado de Deus na terra, essas coisas. O Francis era genial, divertidíssimo, e conseguia dizer as maiores bestialidades sem ranço, ao contrário da cáfila de imitadores que tenta hoje, sem sucesso, ocupar o espaço dele na midia.
Vi o material sobre ele nos jornais do fim de semana, e, levado pela Folha, procurei os vídeos com o cara, no You Tube, a TV do século XXI. Material fraquinho, uns documentários quando houve o passamento da figura, e, num deles, uma seção com erros de gravação e gravações de bastidores, onde o homem profere um PQP a cada dez segundos. Esse é bom. Dá para sentir um pouco a simpatia do cara, atrás das câmeras, e quem já gravou para tv não tem como se solidarizar com a hilária tentativa dele, de gravar um stand up num estádio onde é interrompido o tempo todo.
Morreu, dizem, atarantado com um processo que lhe moveu a Petrobras, por uma das irresponsabildiadesd que preferia em vídeo.
Eu sempre o considerei um grande humorista. De direita, radicalmente preconceituoso, mas inteligente, divertido, provocativo, instigante, carismático. Acho que era visto assim pelos amigos (o que eu não era), mas entendo quem o odeia, pela influência catártica que exercia sobre a multidão de idiotas babujantes com idéias chovinistas adquiridas por osmose ou compradas a quilo na Siciliano, ou noutra livraria de carregação por aí.

Vendo o vídeo, me lembrei que eu também cruzei com o Paulo Francis. No bom sentido, extra-dérmico, claro. Trabalhava na Folha, onde ele mantinha o Diário da Corte e era o correspodente em Nova York, e, na primeira viagem de Fernando Collor a Manhattan, liguei para ele, assim que cheguei e me instalei no Plaza, numa água furtada onde quase tinha de me curvar para chegar à janela.
Fui atendido por um sujeito com sotaque carioca, mas em nada parecido com aquela voz arrastada que ouvimos no vídeo. Era o próprio, muito gentil, amigável mesmo; combinamos nos encontrar no saguão do hotel.
Mais tarde, passo no saguão e vejo o Collor, no restaurante do Plaza, com três jornalistas (o Francis, o Élio Gaspari e o Mário Rosa, do JB, amigo do presidente, ex-assessor da Zélia cardoso de Mello). Passei, olhei de longe, e não sei se foi o Mário Rosa quem disse a ele quem eu era, o fato é que o Paulo Francis saiu da mesa para falar comigo, me explicar que o Collor os havia chamado, que ele conversaria com o presidente, só com o Gaspari e o Rosa, e que me contaria depois a conversa para combinarmos o que fazer. Combinarmos! Deve ser a tal generosidade de que falam tanto dele nos panegíricos. Raros correspondentes com a estrada que ele tinha dariam essa atenção a um moleque enviado por São Paulo para seu terreiro.
Combinamos juntos a cobertura, sem nenhuma arrogãncia por parte dele, muito pelo contrário, me deixou até ficar com a melhor matéria, manchete de página no dia seguinte. Não o vi mais, desde então, mas fiquei com essa imagem de um senhor jovial, simpático, afável e generoso. Gostaria de ter sido amigo dele.
Como não fui, fico até mais à vontade para fazer uma canalhice e desafinar um pouco nesse coro de louvações ao Francis. Meter o pau, mesmo, só meteram (a meu ver injustamente, mas tenho péssimo gosto, adorei o Brejal dos Guajás, do Sarney) nos romances que ele escreveu. Não vi, nos artigos sobre ele, exemplos dos brutais erros que cometia, escudado em suas leituras variadísimas, mas muitas vezes superficiais. Não se falou da malçdade que fez com a mulher, a jornalista Sônia Nolasco, excelente e pouco conhecida escritora, a quem reprimiu de maneira rude quando ela ganhou um prêmio de contos eróticos na finada Status (isso, confesso, li há muito tempo, de um editor da Status, nunca confirmei); não se lembrou a briga dele com o pessoal do Pasquim, e dos vitupérios com que respondeu ao Jaguar, quando, em uma entrevista por escrito, o ex-editor do Pasquim insinuou que ele teria tido encontros homossexuais em Búzios (ou Angra, não lembro).
Só o velho hábito nacional de tirar uma onda em cima do morto ilustre insinuando intimidade, e cobrí-lo de elogios (entremeados por ressalvas anódinas como "polêmico", "autêntico", "iconoclasta", querendo dizer "reacionário", "racista" e elitista).

Um dia o país aprende a cultuar os mortos geniais sem apelar para a maquiagem condescendente.

Calor no Banco Central

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Essa história toda de aquecimento global só preocupa porque ainda não recorrerram ao Banco Central do Brasil, onde as sapiências econômicas já têm pronta a solução para o problema: é só aumentar os juros, claro.

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O governo Lula conseguiu, de fato, algo nunca feito na história desse país: transformou o Delfim Neto em um dos mais lúcidos economistas de esquerda do governo.

E tornou o José Serra a voz de esquerda capaz de fazer a mais acachapante crítica aos juros altos que fizeram do país a economia de mais baixo crescimento da região, levaram o real a uma valorização suicida em relação ao dólar e afundam as oportunidades de investimento. Essa crítica, acreditem ou não está na coluna da Míriam Leitão deste sábado (e é por isso que, sem deixar de discordar, respeito tanto a moça). Que fale a Míriam, ou o Serra, por meio dela:

“A taxa de juros básica da economia continua sendo a mais alta do mundo em termos reais. Isso apesar da economia semi-estagnada, com déficit fiscal moderado para os padrões internacionais e inflação baixa.”Ele discorda da tese, defendida por economistas que trabalharam no governo tucano, como Edmar Bacha, de que é a incerteza jurídica e regulatória do Brasil uma das causas dos juros altos. “Se assim fosse, quais seriam as taxas de juros reais da Rússia, da China ou da Argentina?”

OU, ainda:

Ele também não acredita que a causa dos juros altos seja a falta de poupança no Brasil. “Estamos exportando poupança pela primeira vez na História. Os grandes empresários reclamam que têm recursos, mas faltam oportunidades rentáveis para investimentos produtivos.”
Serra admite que há outros fatores impedindo a criação de um bom ambiente de investimento, como a carga tributária, o enfraquecimento das agências, a falta de investimentos e o aumento “exagerado” dos gastos públicos. Mas acredita que os juros altos têm sido um dos fatores que impedem a criação do ambiente propício ao investimento no Brasil por três fatores.Primeiro, aumentam os gastos públicos ao encarecer a dívida. Segundo, aumentam outros custos: “A Selic real elevada estabelece um piso também elevado para o retorno exigido dos investimentos privados em infra-estrutura. Quem, nos três níveis de governo, procura atrair investimentos privados sabe disso.”

E mais:

Terceiro, distorcem os preços relativos, barateando exageradamente as importações e ameaçando indústrias mesmo fisicamente competitivas e eficientes. Foi por causa dos juros que o real se valorizou mais que qualquer outra moeda, lembra Serra.“Por que o yuan chinês e o peso argentino não foram valorizados como o real?”, Serra se pergunta. Ele mesmo responde que, na Argentina, por causa dos juros baixos, o governo pode comprar reservas com um custo fiscal pequeno. “No Brasil, isso é inviável. Em face dos juros elevados, o custo fiscal de uma acumulação muito mais intensa de reservas seria insuportável.”
Serra lembra que isso produz uma contradição inesperada: a melhora nos termos de troca, resultado da elevação do preço do que o Brasil exporta, é transformada numa “maldição”.

Já estou quase copiando toda a coluna da Míriam, fico por aqui com essa conclusão do perigoso e irresponsável esquerdista José Serra (o Carlos Lessa diz coisa parecida, mas, como se sabe, esse tipo de análise é coisa de maluco mesmo):

“Essa diretoria tem cometido erros de análise econômica incríveis, por ideologia ou falta de formação e estudo, não sei. Aliás, a melhor prova de que essa política não funciona bem é o fato de que o risco-Argentina hoje equivale, em certos momentos fica até abaixo, ao risco-Brasil, apesar de que eles sofreram hiperinflação recente, deram calote na dívida externa, fazem controle de preços, tributam exportação de commodities e têm inflação bem mais alta que a nossa.”

Triste, para quem votou no Lula, é saber que esse discurso do Serra não é jogo político, o homem sempre pensou assim (e, por isso, Fernando Henrique Cardoso o catapultou para fora da equipe econômica) . Duro vai ser quando o Fernando Collor começar a criticar os erros absurdos do liberalismo do governo.

Os planos do presidente

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Encantado com a sonoridade do novo plano econômico, o PAC, o presidente da República decidiu que todas as ações do governo agora terão, mais que uma sigla, uma onomatopéia.
_ Onomato o que?
_ Onomatopéia, animal! Nunca na história desse país, o povo pôde ter um nome de plano que além de um nome, tem som que já diz tudo. Era pra destravar o Brasil? PAC! Essa turma neoliberal estava lá, apostando contra o governo?PAC! Ó, na cara deles, um plano arretado, não sei quantos bilhões de investimento, corte de imposto pra computador, reajuste do salário mínimo, medida pra todo gosto.
O plano de ajuste da Previdência, para seguir o novo modelo, vai se chamar PIMBA. Plano de Investimentos para Melhorar o Balanço das Aposentadorias.
_ Para agradar os velhinhos. A gente chega e anuncia: ó, vocês vão e PIMBA! O nome já dá uma animação à coisa, tive essa idéia quando o Hugo Chávez me cobrou um Viagra político no Mercosul.
A equipe econômica chegou a analisar uma idéia do ministro Guido Mantega, um plano para enquadrar o Banco Central, que se chamaria TROLHA. Técnica de Revisão da Ortodoxia Liberal pelos Heterodoxos na Admnistração. Não deu certo, o pessoal do BC devolveu a TROLHA para o Planalto e ainda diminuiu o corte dos juros. Mas a Dilma Roussef está a todo vapor com o plano para substituir o gás da Bolívia pelo produzido nos vastos rebanhos nacionais, o Plano de Utilização do Metano, ou PUM.
_ Esse vai ser um sucesso, ou seja: um estouro!
_ Sei não Presidente, essa história não está cheirando bem.

Publicando gato por lebre

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A foto acima é só uma referência aos que bebem para esquecer. Eu esqueço, sóbrio, até de beber. Mas quem não o faz? Quem nunca trocou um nome que atire o primeiro mouse.
Existe, é claro a ignorância, como a do sujeito com que trabalhei na Globo, que trocou Cordon Bleu por candomblé, inspirado, quem sabe, por algum Exu decidido a botar macumba na
culinária francesa. Mas sou solidário com quem troca nomes de entrevistado, até porque esse é um de meus esportes involuntários.
Me lembro do afável Graça Lima, embaixador de grande caráter, adorado pelo reportariado, explicando-me por telefone: "ficou muito boa a entrevista, mas dá para corrigir e dizer aos leitores que meu nome é José Alfredo, e não João Alfredo? Sabe como é, a família fica chateada....".
Em outra entrevista, o mesmo Exu do Cordon Bleu, talvez enjoado de acarajé com queijo brie, resolveu baixar no meu texto, no momento em que eu transcrevia delcarações de um conhecido de dez anos, o Renato Baumann, da Cepal. Que, por todo o texto, apareceu citado como Régis Bonelli, economista com as mesmas iniciais e idéias beeem diferentes das do surpreso Baumann. Ele, até hoje, quando me encontra, me dá um cartão de visitas. Just in case, explica, ignorando esportivamente a coleção de cartões dele que já acumulo na gaveta.

É na seção Erramos, da Folha, que me conforto e encontro sócios nessa amnésia onomástica. Hoje, por exemplo, vejo a carta do publicitário Carlos Righi, que merece transcrição:

"Acho que estou ficando maluco. Ao ler a reportagem 'Cervejarias afirmam não haver desrespeito' sobre propaganda de cerveja, dou de cara com uma declaração minha que me deixou preocupadíssimo. Primeiro porque não me lembro de ter conversado com a repórter... jamais falaria tamanha asnice. Não faço idéia do que essas frases, juntas ou separadas, significam. Meu raciocínio e meu vocabulário são mais simples e diretos. (Falar em ) ' Test drive do momento do consumo' é de uma sofisticação que me envergonha. Por favor tirem meu nome daí".

Mais embaixo, no Erramos que acompanha a carta, a explicação:

"A reportagem.. atribuiu erroneamente uma declaração ao ex-presidente do Clube de criação de São Paulo, Carlos Righi. A frase ' propaganda de cerveja é test-drive de consumo. A propaganda quer que o consumidor se sinta naquele momento com os amigos, falando de mulher, de futebol' foi dita por Eduardo Martins, atual presidente do clube, e não por Righi".

Já vi muito disso em redação. O repórter volta e percebe que não anotou o nome, só o cargo do entrevistado. E pergunta a um colega, ou, hoje em dia, ao tio Google. Erro fatal. Pode acontecer como agora, em que, por causa da distração do jornalista, o ex-presidente de um clube de publicitários se diz envergonhado em ver atribuídas a ele "asnices" ditas, na verdade... pelo sucessor dele.
As reuniões do Clube de Criação de São Paulo devem estar divertidíssimas por esses dias.



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