março 2007 Archives

O purgatório fica em Miami

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(na foto acima, deste sítio AQUI, o momento em que Henry Sobel conta pra Lula que seus fortes princípios morais o impossibilitam de engolir alguns dos nomes do novo ministério)



Como integrante da elite branca deste país (embora todos os taxistas de Nova York, quando solicitados a advinhar de onde sou, garantam que sou iraniano) cumpro o dever de me solidarizar, neste Sítio, com o companheiro rabino Henry Sobel, preso em Palm Beach quando afanava umas gravatinhas de R$1,4 mil. Quem nunca roubou Sundown em supermercado e se bronzeou impune, que atire a primeira pedra. Pobre não vale.




Bom, o rabino já não era criança, nem adolescente, apesar dos cabelos anacronicos, estilo surfista dos anos 80. Em sua defesa pode-se alegar que ele escolheu as vizinhanças de Miami para sua pequena transgressão, o que contribuiu para evitar aumento nos índices de criminalidade nacionais e para mostrar que lá, quando pegam gente roubando coisa cara ficham, processam, mas não jogam em celas superlotadas por tempo indefinido, como fazem por aqui quando pobre é flagrado roubando biscoito.




Isso é tolerância zero, tem efeito moral, ajuda a combater o crime. Um pouco diferente do que defendem para a patuléia aqui, onde garotão de classe média flagrado roubando leva uma bronca na delegacia (quando leva) e sai com a intervenção paterna, e pai de família pobre é jogado no inferno antes mesmo de levar processo nas costas. Querem jogar também a criançada, para aprender que crime hediondo com direito a liberdade durante o processo, só acima de determinado padrão de renda.




Me solidarizo como rabino, que sempre foi um cara progressista, pela forma abnegada com que entrou no debate sobre a violência no Brasil, destruindo a própria reputação para mostrar como funciona a manutenção da lei e da ordem no primeiro mundo. Crime pequeno não fica sem punição, mas o sujeito responde a processo em liberdade. Bom, não digo que lá é uma maravilha; até hoje não descobriram como compensar e reverter o castigo para inocentes condenados à pena de morte e executados, por exemplo. A crítica do Sobel é bem focalizda; ele não escolheu roubar gravatas em Los Angeles, por exemplo, onde o racismo da polícia já virou até tema de filme.




Na infância, quando não sabia ainda o certo e o errado, mais ou menos como um deputado da base governista, confesso que roubei bronzeadores, bolinhas de jogo de botão (!) e livros de escritores progressistas ou até comunistas mesmo (ok, confesso, já era bem grandinho quando furtei esses últimos, mas naquela época tinha gente que sequestrava pela revolução, caramba, isso deve ser considerado como atenuante).




Hoje, a única coisa que roubo é o tempo dos amigos. Mas tenho pena do Sobel, claramente vítima de uma doença, e demonstração viva de que trajar gravatas caríssimas é coisa que não leva a bom caminho (o Collor e suas Hermès está aí, também, para provar). Se aceita uma sugestão, recomendo a ele que corte o cabelo no estilo escovinha, use uma das gravatas que deve ter no armário, mesmo que meio gastas, releia o Velho Testamento com atenção e tente uma nova oportunidade como pastor evangélico. Essa comunidade parece ser bem mais tolerante com pecadilhos em Miami.






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O Oliveira reagiu à notícia com um discurso excitado sobre cleptomania crônica da elite paulista ("Roubam até vaso de cemitério! De cemitério!" bradava na redação). Agora, tenta me convencer que tudo não passa de uma conspiração dos fabricantes de gravatas para obrigar o rabino a abandonar de vez o adereço.
"Armaram alguma para ele, está na cara; nunca reparou o nó hororroso que ele fazia?". Coisa da máfia a soldo da casa Yves Saint-Laurent, jura o Oliveira.


2º Clichê: agora falando sério; para saber o que o espírito de porco nacional jamais falará sobre o Sobel, vale esse link AQUI.





(Observação do proprietário: a leitura deste post não é recomendada para quem não entende o significado da palavra ironia, e comentários só são desejados de quem tiver a pachorra de clicar nos links espalhados ao longo do texto)

Pré-conceitos

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Machado de Assis é genial; só ignorantes ou pretendentes a escritor com macaquices de enfant terrible ousam dizer o contrário. Pena que, afro-descendente, tenha fechado os olhos à escravidão e à situação do negro na sociedade brasileira da época dele.






Ou não? O Idelber _ na verdade um amigo dele _ diz que não mesmo. AQUI.








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POr falar em africanidades, Brasília sofreu uma das ações mais hediondas em matéria de racismo, nesta semana. Um grupo, descontente com a política de cotas para estudantes africanos, incendiou o alojamento onde moravam uns rapazes de Guiné Bissau, depois de esvaziar os extintores. Ninguém se feriu, e as pessoas decentes da Universidade de Brasília (e da cidade, claro) estão indignadas. Depois, com tempo, falo disso aqui no Sítio, com os links devidos. Perdão pela pressa, leitores.

Soletre comigo: t-v-l-u-l-a

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Posso dizer que tenho um amigo ministro. Este Sítio mantém porteira aberta e escancarada para o excelente bom caráter e invejável jornalista que é o Franklin Martins. Agora a coisa vai.


Só fiquei preocupado ao ouvir o presidente Lula discursando sobre a tv pública dos sonhos dele.

Disse que defende a televisão pública porque quer ver na tv cursos de matemática e outras disciplinas para os trabalhadores, na hor do almoço, tarde da noite, em todos os horários...

Ele não quer uma tv estatal, nem pública. Quer é lançar um telecurso de segundo grau.

O Franklin sempre foi bastante didático, mas acho que não acho que foi para isso que subiu a rampa.

Da necessidade de diversificar leituras

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Como qualquer jornalista com alguma experiência, respeito o Mino Carta (que, além de tudo, é pintor), de quem fui repórter nos anos 90; e já fui colega e chefe do Sérgio Lírio, repórter de grande competência, e faro. Mas, depois de provocado por dois frequentadores deste Sítio, que chegaram a por em xeque minha independência (logo eu, que procuro nesse blogue ser independente até da lógica e da veracidade!) tive de comentar a matéria, feita pelo Lírio e pela Márcia Pinheiro, na Carta Capital desta semana, sobre encontros "sigilosos" do BC e analistas de mercado há poucos dias, em que teriam conspírado contra o bem público e os princípios republicanos.


Ora, o BC fazendo besteira contra o bolso do povo não é exatamente uma novidade, mas a blogosfera e as listas de discussão arrepiam-se de indignação pelo complô da grande imprensa, que ignorou covardemente tão dramática revelação de escândalo anti-patriótico.


Têm razão de se indignar o leitor quando a imprensa fecha os olhos para os escandalosos benefícios ao mercado financeiro (vi poucos blogues, aliás, reclamando da absurda mudança na TR, que deu mais competitividade aos fundos de investimento e cascou um naco dos rendimentos da poupança de do FGTS). Mas, nessa matéria da carta capital, foi preciso o Nassif para descobrir algo próximo de um escãndalo.


A tal reunião sigilosa nunca o foi; os jornalistas de economia sabem que o BC se encontra com gente do mercado financeiro _ e , diferentemente do que diz a revista, também de empresas e associações empresariais _ para saber das previsões de seus departamentos de análises e evitar opiniões muito discrepantes das próprias análises do BC, divulgadas ad nauseam com as atas do Copom e os relatórios de Inflação. Como nas antigas reuniões do CMN, esses encontros têm gente à pampa, e essas pessoas são procuradas e entrevistadas pelos repórteres, que noticiam o que foi discutido quando há algo a ser noticiado.


Você vai me dizer que deveriam chamar periodicamente professores de Universidade para fazer discussão semelhante? Concordo. Só que não acho que seja um escândalo isso não acontecer; vivemos em uma sociedade livre, a academia recebe informação suficiente para comentar e criticar as ações e idéias do BC. Aliás, fazem isso, e muito; não falta no BC material para crítica.


O escândalo, se existe, como indicado pelo Nassif, aliás, está na direção contrária à apontada pela carta capital, que incendiou os bem intencionados.


A matéria da revista toma como ponto de apoio a idéia equivocada de que o BC faz reuniões clandestinas com gente do mercado financeiro, onde trocam informações sonegadas aos pobres (pobres e a classe média também). Curiosamente, as informações que teriam sido sonegadas à patuléia e passadas aos analistas são aquelas que ouvimos todos os dias, das autoridades monetárias. Exemplos de informação privilegiada: que o BC continuaria comprando dólares (ué, mas não é isso que o meirelles disse dia desses mesmo, no Senado? E que o BC não deixaria se espalharem as pressões inflacionárias (mas não é isso que diz a ata do Copom, AQUI?).


Bom, até agora, nada a ser repercutido pela imprensa burguesa que já não tenha sido noticiado às catadupas. Até que o Nassif, sabendo que o Lírio e a Pinheiro são gente séria, achou algo interessante na reunião do BC relatada pela revista.


Diz ele, AQUI, que é inaceitável ver o BC aproveitando reuniões com analistas financeiros para constranger os que criticam a polícia de juros tacanha do governo.


Opa! Quer dizer que o escândalo é o fato de o BC ter uma avaliação diferente da que têm os analistas de mercado? E que seus diretores tentam, na reunião, reprimir que acha as análises do BC são equivocadas? Nesse caso, onde está o complô do governo com o mercado para ferrar com o povo? Em vez de informações privilegiadas, o BC estaria dando um calor no tal mercado, para ver se param de reclamar das barbeiragens em Brasília? É por isso que nunca entenderei de economia.


Numa coisa concordo: com a crítica sobre a falta de repercussão das matérias econômicas. E acho até que tenho a solução. De agora em diante, as análises dos jornalistas sobre economia e finanças devem ser publicadas nas colunas hoje ocupadas pelos comentaristas esportivos. O dinheiro pago para transmissões de jogo de futebol será usado para contratar repórteres de economia (eu! eu!) que traduzirão, em linguagem popular, o que já vem sendo noticiado fartamente nos jornais e na Internet.


Quem sabe, aí, a turma deixa de se espantar com o noticiário três anos depois de acontecida a notícia.



(a imagem que ilustra esse post é deste site AQUI, que recomendo a leitura, embora não tenha nada a ver com o que estou falando).

Piada pronta II

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No pará, a recém-governadora Ana Júlia Carepa nomeou como assessoras no gabinete a cabeleireira e a esteticista que a atendem, há anos, onde ela quiser. Pelo jeito ela quis atendimento no gabinete, com dinheiro público e cafezinho.


Nada de mais. A governadora queria uma assessoria que realmente lhe fizesse a cabeça. É justo.


E a esteticista? Se eu soubesse o que faz uma esteticista de governadora bolaria uma piadinha com a moça também.


Hoje é dia da Água!!!! E por causa disso, este Sítio abre as porteiras para homenagear o presidente que mais teve sensibilidade para o tema, nosso inolvidável Jânio Quadros, o Jaqa, mandatário que, como se sabe, vivia na maior água. Um visionário (alguns preferem a palavra alucinado, o sentido é o mesmo).


Em homenagem ao dia e ao presidente que primeiro percebeu as vantagens do álcool como combustível (outro tema da moda, vale tudo hoje), pretendo comemorar com porções de água, em seu mais nobre estado, o sólido, que porei a flutuar em um copo de puro malte. Tim tim para todos vocês, líquidos do meu Brasil.
Sugeri que fizéssmos a comemoração, todos, na sucursal do Valor, durante a tarde, mas a Cláudia Safatle vetou.


Esses jornalistas de economia não dão a mínima atenção a essas coisas de ecologia.

Piada pronta

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Acaba de assumir no Congresso o suplente de Geddel Vieira LIma. É forrozeiro e se chama Mão Branca.

_ Mão leve?
_ Mão BRANCA.
_ Ah.

Quosque tandem

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bbbbbbb

Agora está no catecismo, AQUI: quando o Papa falou que o segundo casamento é uma praga, era praga mesmo o que ele queria dizer, e não chaga, ou ferida, como interpretaram alguns carolas, embora as duas palavras derivem da mesma raiz no latim, e possam ter os mesmos sinônimos.

Parece uma discussão bizantina, e é, mas, afinal, foi a Igreja quem inventou esse gênero, com debates acalorados sobre quantos anjos caberiam em uma cabeça de alfinete, e, mais importante, se anjos teriam sexo (algo muito relevante para a paz celestial, aliás; o sexo faria enorme diferença, a depender do número de anjos encostadinhos uns aos outros em algo tão apertado quanto a cabeça de um alfinete).

Eu evito discutir religião, porque detesto dogmas e paixões irracionais; por isso fico longe de debates sobre crenças esotéricas, futebol ou a política monetária da atual diretoria do Banco Central. Mas esse debate sobre praga ou chaga é engraçado, (e, como contou o Hermenauta, até deixou o Reinaldo Azevedo de nádegas de fora, quando, em sua campanha para ser eleito como Arnaldo Jabor da intelectualidade paulista, tentou usar o latinório para meter o pau na imprensa).


Como toda discussão irrelevante, ela excitou o Oliveira, o canalha da redação, para quem o importante é que, chaga ou praga, quem crê no Papa deve evitar o segundo casamento, como o diabo foge da cruz.

"Nessa boto fé no Santo Padre; minha segunda mulher foi mesmo uma praga", comentou o Oliveira. "O alemão está certo: nesse negócio de casamento, o negócio é passar direto para o terceiro."
***
2º Clichê
Do Hermenauta, para quem o Reinaldo é uma chaga que se recusa a sarar:
Eu tenho a impressão de que se Ratz em pessoa chegar para o Reinaldo Azevedo e disser "meu filho, presta atenção: eu quis dizer PRAGA, mesmo, porra!", o RA vai tentar convencê-lo de que não foi bem o que ele disse que ele quis dizer.

No intuito de resolver de uma vez por todas esse imbróglio é que eu lanço agora a campanha
"AJUDE REINALDO AZEVEDO A REFUTAR O PAPA"

Basta que cada um de nós envie R$1,00 para a conta de Reinaldo Azevedo no Banco Ambrosiano para que ele possa comprar uma passagem até Aparecida e encontrar-se pessoalmente com o Papa, ocasião em que ele poderá tirar a dúvida ao vivo e a cores com o Pontifex Maximus, e perguntar: "Arre, Bento: é praga ou chaga?".
***
O Reinaldo Azevedo, quando quer ser engraçado, pode chegar à genialidade, como num texto que inventou parodiando escritores famosos em relato sobre o episódio do dólar na cueca do PT . É uma pena que tenha perdido o humor, e, com ele, a racionalidade. Uma praga, mesmo.

Estou convencido de que nunca nesse país

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Para mim, gripe cura-se com banho gelado e descanso, dor de cabeça com banho tépido e sono, dor de barriga com carvão ativado ou chá de ervas. Por isso nunca me espanto quando encontro notícias como essa aqui, mas essa é especial, está na cara que tem relevância política. É o verdadeiro bastidor da reforma ministerial:

FDA adverte contra efeitos colaterais estranhos de remédios para dormir
15/03 - 15:50 - The New York Times

Os remédios prescritos para dormir mais populares podem causar comportamentos estranhos como dirigir e comer durante o sono, declarou o FDA na quarta-feira, anunciando que novas advertências serão colocadas nos rótulos de 13 medicamentos.
O FDA também exigiu que os fabricantes dos conhecidos medicamentos Ambien (Stilnox no Brasil) e Lunesta, além dos fabricantes de 11 outros remédios populares para dormir criem folhetos para pacientes em pontos-de-venda explicando como utilizá-los corretamente.
Embora o FDA afirme que os problemas com os remédios sejam raros, relatórios sobre os raros efeitos colaterais subiram com o aumento do uso das pílulas para dormir.
As vendas americanas do Ambien e Lunesta excederam os US$3 bilhões. O uso destas medicações e outros remédios similares aumentou mais de 60% nos Estados Unidos desde 2000, estimulado pela televisão, anúncios e outros tipos de propaganda. No ano passado, os fabricantes de remédios para dormir gastaram mais de US$600 milhões em propaganda ao consumidor.
O relatório do FDA foi estimulado, em parte, por perguntas feitas pelo The New York Times no ano passado, após alguns usuários do Ambien reclamarem online e para seus médicos sobre reações estranhas, desde episódios de sonambulismo até alucinações, explosões de violência, compulsão alimentar noturna e - o mais perturbador - dirigir automóveis durante o sono.
Comedores noturnos relataram acordar e encontrar embalagens de alimentos em suas camas, falta de comida, armários de cozinha sujos com farinha, e até mesmo fogões ligados. As pessoas que dirigiam durante o sono reportaram episódios assustadores, nos quais se lembravam de deitar, porém acordavam e descobriam que haviam sido presos na estrada usando roupas íntimas e pijamas.
O FDA disse não ter conhecimento de mortes causadas pelos motoristas sonâmbulos.
A agência também recebeu relatos de pessoas fazendo ligações de celular, compras na internet ou sexo sob a influência dos medicamentos para dormir. Em todos os casos, os pacientes não possuíam memória dos eventos, os quais afirmam ter acontecido após a ingestão do medicamento na cama.
O dr. Russell Katz, diretor de produtos de neurologia do FDA, disse que a ingestão de álcool antes ou depois do consumo do medicamento aumenta as chances de tais reações.
- Stephanie Saul




D. Marisa, faz favor, joga fora esses comprimidos na cabeceira do presidente.

O Xis da questão

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Quando me diziam que o jornalismo abandonou a reportagem, e que hoje em dia o pessoal está publicando a pauta e deixando para lá a apuração da matéria, eu achava um exagero. Isso até o Oliveira me aparecer com essa notícia do Folha on line AQUI. Que reproduzo em parte, para o caso de sair o link do ar:

15/03/2007 - 08h19
Bovespa sobe/cai XX% após PPI americano; dólar sobe X%, para R$ 2,xx
da Folha Online

A Bovespa (Bolsa de Valores de São Paulo) opera em alta/baixa de X%, aos XX pontos, no pregão desta quinta-feira. Ontem, a Bolsa fechou em alta de 1,26%, puxada pela recuperação das Bolsas americanas próximo ao encerramento dos negócios.
O dólar comercial é negociado a R$ 2,Xx para venda, em queda/avanço de X%. Ontem, a moeda americana foi cotada a R$ 2,099, em queda de 0,23%, com um cenário externo em dia de relativa tranquilidade.
O mercado foi posto à prova nesta manhã com o primeiro dos dois principais indicadores econômicos da semana: o PPI (sigla em inglês para índice de preços no atacado) dos EUA. Em fevereiro, a inflação foi de XX%, com núcleo em XX%.O consenso de mercado apontava para uma taxa de 0,4% em fevereiro (para o índice cheio) e de 0,2% para o núcleo do indicador.

Discípulos de Schopenhauer

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Só o desconhecimento, no Brasil, a respeito do que se passa na vizinhança explica certas imbecilidades de sucesso na Internet, como um texto atribuído ao Stephen Kanitz (não parece dele, carece de inteligência) com "explicações" sobre a visita de Bush à América Latina.

O tema é, mais uma vez, a ameaça de Hugo Chávez ao Brasil. Deixaram, pelo menos, de computar o Uruguai na lista dos países atrelados ao projeto bolivariano da Venezuela. Claro que os uruguaios sempre aceitarão qualquer benesse que lhe oferecer o Chávez, mas ficou difícil falar em aliança tabaré Vazquez-Chávez depois que ficou clara a americanofilia de parte do governo em Montevidéu. Mas como ninguém cojnhece direito Paraguai, Bolívia e outros pobres da região, fica fácil reproduzir besteiras como as seguintes:

A vinda do Bush não tem nada a ver com o Brasil, muito menos com o etanol. Os Estados Unidos não querem estreitar os laços comerciais com o Brasil. Tentaram a ALCA, mas nós recusamos.

É asim que começa o texto. A primeira frase não encontra âncora na realidade; claro que a visita teve a ver com o Brasil, e o etanol foi a agenda que encontraram para estreitar laços com um governante de esquerda num momento em que os círculos pensantes de Washington vinham criticando Bush por não dar a devida atenção ás alternativas de Chávez na América Latina. Hoje em dia, nem os EUA querem a Alca; mas isso é polêmico, vamos aos trechos mais evidentemente autistas, ou ignorantes:

Chávez quer unir a América Latina, para somente depois atacar os Estados Unidos. E, para unir a América Latina, ele está mostrando as injustiças e o imperialismo estatal brasileiro. Já convenceu Evo Morales a romper com a Petrobrás. Sua próxima cartada é fazer o Paraguai romper com a Eletrobrás.

Quer dizer que, até agora, Chávez vem fazendo carinhos nos EUA? Francamente. Quem ainda acredita que Morales só nacionalizou o gás por influência do Chávez desconhece a história da Bolívia, e dos quatro presidentes que precederam Morales em La Paz, além do movimento popular que aprovou a lei de nacionalização por lá, muito antes da eleição do próprio Morales. Chávez deu um empurrãozinho, claro, mas Evo Morales iria nacionalizar o gás de qualquer maneira. Apesar da fumaça, quem está na Bolívia é a Petrobras, não a PDVSA, de Chávez. Quanto ao Paraguai, a briga lá com Itaipu nada tem a ver com Chávez, e sim com grupos políuticos locais, entre os quais o que comanda o jornal ABC, há dois anos em campanha para renegociar os contratos de Itaipu. Um candidato ligado ao ex-presidente Lino oviedo fez disso tema de campanha, e não tem nenhuma ligação com Chávez.

Lentamente, ele vai encarecendo a matriz energética brasileira e enfraquece a economia brasileira. Chávez irá lentamente isolar o Brasil da América Latina.

Quem encareceu a matriz energética brasileira foi o apagão no governo Fernando henrique Cardoso, a pressão ecológica (legítima) contra grandes hidrelétricas e o aumento do preço internacional de petróleo. Só nesse último item Chávez tem alguma responsabilidade.

E dizer que ele vai isolar o Brasil na América Latina já é delírio febril. Quer dizer que o Chávez já se aliou à Colômbia (onde o acusam de fomentar a Farc), ao Uruguai e ao Chile, para deixar o Brasil no sereno? Isso para não falar da Argentina, que seria uma larga discussão, porque ainda há muita gente que não entende o jogo de Néstor Kirchner, mais voltado à política interna que a continental. Quem acha que Kirchner está na órbita de Chávez ainda vai ter de engolir a própria catilinária, em pouco tempo. Como fizeram com as besteiras que diziam do Uruguai.

Enquanto Lula gastou quatro anos querendo ser o líder do Terceiro Mundo, Chávez vai se consolidar como o LÍDER inconteste da América Latina.

Hãhã.

Bush vem comprar matérias-primas do Brasil, como faz a China, e não produtos industrializados.

Essa bullshit é prova de que o artigo não é do Kanitz. Ele sabe bem que nossa pauta de exportações para os EUA é, principalmente, de manufaturados. O que a gente exporta para os EUA são automóveis, aço, celulares, aviões. E matérias primas, também, mas o Bush, no Brasil, vetou reuniões com o pessoal do agronegócio, porque o que impede a venda de matérias-primas do Brasil aos EUA são as barreiras que ELES põem a nossos produtos.

Coisas desse tipo infestam a Internet, e tem gente usando essas patuscadas como agumento em discussão. Coitado do Kanitz, usaram o nome dele como se fosse um Olavo de Carvalho qualquer.

A pândega do presidente

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Ainda tem gente se perguntando o que queria dizer o presidente Lula quando declarou que não vai incluir os ministérios da Saúde e o da Educação na farra de distribuição de cargos, também chamada montagem do ministério. "Com Saúde e Educação a gente não brinca: na Saúde, se brincar, é morte: na Educação, se você brincar, é analfabeto", disse, na oratória dele, sempre peculiar. Ora, o que quis dizer... quis dizer isso mesmo, Educação e Saúde são coisa séria, vai duvidar?


Bom, já na previdência, dá para brincar: deu o ministério do PDT, que luta no Congresso contra as regras que o próprio ministério tenta aprovar para acabar com a avalancha descontrolada de fraudes por auxílio-doença.

Na infra-estrutura dá para brincar: tirou do ministério dos Transportes o setor de Portos para agradar ao PSB; e o PR (!), que ganhou a pasta dos Transportes, esperneia dizendo _ com razão_ que o setor de portos é indissociável do restante da malha de transportes do país. Ou seja, os dois partidos vão brigar o tempo todo, enquanto o povo fica a ver navios.

Na Integração Nacional dá para brincar. Geddel Vieira Lima de ministro é mesmo uma brincadeira.

Na Agricultura, sempre brincalhão, o presidente botou um usineiro que usava a documentção dos funcionários para transformá-los em laranja (afinal, estamos na área rural) e pegar dinheiro de bancos do governo.

Bom, nas excelentes reportagens dO Globo de hoje, onde se retrata a faceta lúdica do presidente, dizem também que o da Agricultura não vai tomar posse com os outros ministros novos, hoje de manhã; só na semana que vem.


Até lá, o presidente vai decidir se essa nomeação é mesmo só mais uma brincadeira, ou se, nesse caso, já é sacanagem mesmo.

Agora vai II

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O terceiro homem na hierarquia da Al Caída, Khalid Sheik Mohhammed, preso nos EUA, já confessou ter comandado o ataque às torres gêmeas em Nova York, uma série de ataques a uma casa noturna em Bali, na Indonésia, um atentado ao World Trade Center em 1993, e planos para assassinar o papa João Paulo II e o ex-presidente americano Bill Clinton.


Mais um mês em Guantánamo, e ele vai revelar que foi quem jogou uma bomba no centro cultural hebraico Amia, há 12 anos, em Buenos Aires,. E que é o verdadeiro autor das mortes em Londres atribuídas a Jack, o Estripador.

A volta do capeta. E ele vem verde.


Fernando Collor de Mello começa daqui a pouco a discursar no Senado, para contar que a corrupção no governo dele e as razões que o derrubaram do governo foram um caso de alucinação coletiva no país. A imprensa até tentou ignorar a volta do moço, de cabelos negros como a asa da graúna, falas pomposas e ar empertigado. Não durou muito. Collor já sacou o caminho da volta à mitologia política.


Antes caçador de marajás, agora ele é um defensor da ecologia. Anda se mexendo para trazer ao Brasil o Al Gore, com quem tem boas relações desde o tempo de governo. Num país em que deputado verde é acusado de estelionato eleitoral e o governo de esquerda escolhe usineiro com processo na Justiça para o ministério da Agricultura, Collor é bem capaz de ainda voltar à Presidência em um ultraleve do Greenpeace.

Reforma Ministerial

_ Presidente, já tem gente até no PT dizendo que seu governo não deslancha enquanto não resolver a questão do marco regulatório.
_ Tenha a santa paciência! Agora não dá. Primeiro deixa eu resolver a questão da Marta e do PMDB. Se esse Marco for bom em comércio exterior, de repente a gente arranja um lugar para ele no ministério do Desenvolvimento.

A poesia das pequenas coisas



Shigeo Kodama nunca alcançaria a celebridade apenas por ter o mesmo sobrenome da secretária e viúva de Jorge Luis Borges, a misteriosa Maria. Japonês, da cidade de Hiroshma, o Kodama, no caso,tem mais parentesco com o velho platônico de Garcia Marques que com os fabulescos personagens do argentino. É um amante do virtual, um romântico inofensivo e imaginativo. Hoje, celebridade em toda a web, por despachos de agências como esse, da reuters:, que resumo para quem não gosta de mudar de página:


TÓQUIO - A polícia de Hiroshima encontrou mais de 4.000 peças de lingerie na casa do operário de construção japonês Shigeo Kodama, 54 anos. que aprendeu no trabalho a escalar prédios e usava essa habilidade para roubar roupas íntimas. Na casa dele, aonde foi a polícia depois de prendê-lo em flagrante, foram encontradas 3.977 calcinhas e 355 sutiãs e 10 pares de meias finas. "Ele não roubou outros tipos de roupa. Mas, contanto que fosse roupa íntima, aparentemente qualquer coisa servia", disse o porta-voz.

Infleizmente não achei na Internet a foto, publicada com a notícia, hoje, no Correio Brasiliense, de matar de inveja muito artista contemporâneo. Claro, seu guarda, que qualquer roupa servia, desde que fosse íntima. O primo afastado da viúva do Borges não era um ladrãozinho qualquer, nem um dilapidador do patrimônio alheio. O descasamento entre número de calcinhas e sutiãs indica ainda que Shigeo não roubava as peças para usá-las em festas de travestis de Hiroshima, mas para ter, perto, um sinal de intimidade com milhares de japonesinhas que ele jamais teria (ou quereria) pessoalmente.

Um amante virtual, que celebrava pelo tato ou olfato o mistério e deslumbramento da alma feminina (eu disse alma? vá lá). Fetichista, sim, mas roupa íntima não é coisa assim tão cara, deixassem o nipônico com suas fantasias inofensivas.

Espero que seja branda a punição por roubo de calcinhas no Japão.

O tremendo perigo desses fundamentalistas

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Indiferente aos apelos mundiais para redução da ameaça nuclear, esses fundamentalistas continuam investindo em armas dinheiro que poderia ser usado para alimentar seu povo; mas, ainda bem que a comunidade internacional e toda a imprensa estão atentas às absurdas pretensões belicistas desses inimigos da democracia e da paz mundial. Ou NÃO?

Êta nós

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Ficam falando por aí em etanol, e, no estadão, passa batida a notícia sobre uma outra área em que a cooperação bilateral entre Brasil e Estados Unidos poderia botar para, bom, para quebrar. Dou o link AQUI, mas reproduzo a matéria, para os mais preguiçosos:


Brasil é vice na produção pornô, segundo o TopTenReviews

País ficou com a segunda posição,atrás dos EUA, em ranking elaborado pelo site

SÃO PAULO - O Brasil ficou com a segunda posição, atrás dos Estados Unidos, no ranking dos países que mais produziram vídeos pornográficos em 2006, divulgado pelo site de tecnologia e entretenimento TopTenReviews.
De acordo com o site, a pornografia movimentou US$ 97 bilhões em 2006, e só o Brasil um total de US$ 10 bilhões. A China movimentou a maior quantia, US$ 27, 40 bilhões.
As principais empresas brasileiras responsáveis pela produção são Brazil Frenesi Films, Pau Brazil e MarcoStudio.
Os outros países presentes no ranking são, em ordem crescente, Holanda, Espanha, Japão, Rússia, Alemanha, Reino

De um Ansioso
- Bom, doutor, eu vim ao seu consultório por conta de meu transtorno de ansiedade. Já acabou minha hora? Posso ir embora?
- Sua hora acabou de começar.
- Pois é, doutor. Não vejo a hora de terminarmos a sessão. Aliás, não vejo a hora do tratamento acabar. Que tal pularmos para a última sessão, com o senhor me dando alta, e...

O resto dessa história, com outras, está lá, no Almirante, ou melhor nesse linque AQUI. É por ele e outros que sonho em montar uma editora, assim que receber o devido pela Mega-Sena, só para publicar os talentos que inexplicavelmente ainda não se derramaram da Internet para as livrarias. Mas já falei disso antes.

Pele de asno







Terivelmente kitsch, insuportavelmente cafona, um dos filmes mais nojentos que já assisti, tudo por culpa das críticas de jornal, que me fizeram acreditar na existência de um filme decente (e estrelado pela Nicole Kidman!) sobre a fotógrafa Diane Arbus, artista meio chegada a figuras aberrantes, e a aberrações, como as pessoas consideradas normais na América dos anos 50/60.






O material _ a vida da Arbus _ é espetacular, a Nicole Kidman (embora com pouco physique du rôle para se bancar como uma morena pequenina de olhar aguçado) é um espetáculo. O filme, involuntariamente, é uma versão pretensiosamente rococó da fábula da Bela e a Fera, com toques de discreta perversão.




Em linguagem técnica, uma bosta.






A idéia é imaginar o que levou Diane a mergulhar na carreira com um olhar tão único para os freaks, para a estranheza que cobra seu direito à normalidade. O filme, que avisa não ter nhuma pretensão a ser um relato fiel da vida da artista, mostra, de fato, a atração da Nicole/Diane pelo bizarro, sua sensação de pertencer a esse outro mundo, oculto à vida cotidiana das pessoas aparentemente normais. Mas é uma sucessão de clichês, a começar pelas cenas iniciais, até bacanas, logo seguidas por uma imagem do exterior de uma rua com a legenda: "three months before" (eram três meses, acho).






A musiquinha, os cenários, a dona de casa que se insurge contra a vida-pacata-de-mãe-e-esposa-dedicada, o monstro gentleman e bonzinho (clichê, clichê; ah, que saudades do John Merrick, de O Homem Elefante), tudo é açucarado, berrantemente artificial e metido a besta, como uma hostess de casa noturna da moda.






Mas as resenhas nos jornais nacionais são todas pega-otário, seguem candidamente o truque de proxenetar uma artista exótica e interessante (a Arbus), interpretada por uma atriz interessante e meio exótica. Com direito à Kidman pelada corcoveando sobre o amante, alguns escassos segundos de loura calipígia.






A tradução já é um engano. "Fur", admito, é difícil. É pele, mas pele de animais, com os pelos que a natureza lhes deu, o que faz mais sentido, embora fosse esquisito intitular um filme como "pelo", ou "Casaco de pele". Mas esse é o engano menos grave. Malditos. Custava para os críticos nacionais darem uma checadinha no que se disse e nas descrições do filme feitas por onde passou?






"Abominação monumental", descreveu um crítico. Outros partiram para trocadilhos flando em pelos e cabelos (o personagem ficcional que contracena com Diane Arbus sofre de uma doença que o faz todo peludo, como aquele tio sem rosto da Família Admas, só que com rosto). Os menos severos tacham o filme de medíocre, ou normalzinho. Vi no link que descobri quando procurei algo para juntar neste texto aqui. Não que os críticos nacionais devessem copiar os estrangeiros, mas poderiam, ao menos, ter desconfiado, posto umas ressalvinhas no cnvite para conferir o troço.






Tem engenho no tal filme? Tem. Ele mostra direitinho como o ofício do bom fotógrafo equivale a cativar a alma do fotografado, conquistar sua confiança, o que só se faz confiando também, um pouco ("me conte um segredo", sussura a Nicole Kidman a uma moça, num campo nudista. Se a Marta não me aperta o braço eu contava tudo pra ela, berrando, no cinema). A relação dela com o peludo inventado pelo roteirista, especialmente a maneira como o relacionamento chega ao nível intradérmico, é uma bela e sutil argumentação sobre o respeito da Arbus por seus freaks.





Como toda coisa cafona, é fascinante, tantalizante. As buzinas que soaram no meu cérebro aos primeiros chavões cinematográficos uivavam feito gatas parindo em minha cabeça, minha irritação me fazia ferrar as unhas na poltrona, de ódio, e ainda assim não tive coragem de sair do cinema. A danada da curiosidade (Satisfeito? Era escandalosamente ruim, como parecia nos primeiros três muinutos de película). Saí do cinema envergonhado, como quem se deixa flagrar assistindo o Big Brother. Testemunha e cúmplice da mediocridade humana.






Pelo menos me fez desistir definitivamente de ver Borat. Fim de semana que vem vou do velho e confiável Woody Allen. E a gostosa da Scarlet Johansen, ô mocinha de cara rebarbativa, sô.









O papo pífio da Opep

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Pena mesmo que tenha morrido o Baudrillard, muito bem louvado pelo erudito mestre Idelber . Ele certamente se divertiria com a nossa capacidade (digo nós da imprensa) de criarmos uma realidade e depois fazermos o mundo girar em torno dela, como fez magistralmente, durante a visita do Bush, um dos jornais em que mais gostei de trabalhar, o vetusto Estadão. Vamos dar um passeio por instalações da maravilhosa fábrica de factóides, essa potência ubíqua e prolífica com sucursal em todos os jornais, rádios e tvs. Passamos, primeiro, por AQUI.

Repararam? Ora no quê, no texto, aí do link. Num um esforço legítimo de didatismo, a repórter usa como recurso estilístico a metáfora "Opep do etanol". Ah, não viu. Repito aqui, para você:

"A idéia, gestada dentro do Departamento de Estado, é expandir a produção de etanol em vários países da América Latina, principalmente no Caribe e na América Central, para garantir um fornecimento estável do biocombustível. Trata-se de uma Opep do etanol. Para isso, Brasil e Estados Unidos devem fechar parcerias".

Ora, metáfora tão bem bolada que os editores a transformaram em manchete, logo reproduzida por jornais América Latina afora. Como sacada, para facilitar a compreensão do leitor, nada a criticar. Mas era um pouco exagerada, já que não se pensa fazer, como no petróleo, um cartel capaz de ditar preços no mundo. Mas foi o próprio Estadão quem notou o exagero, só que esqueceu ter sido o jornal seu criador. Como se vê no editorial que critica a idéia, aqui .

Não clicou aí em cima? Conto para você: o editorial faz uma sensata avaliação do alcance real (pequeno) das promessas de Bush sobre cooperação em biocombustíveis, mas ironiza, criticando por duas vezes a "retórica da Opep do etanol". Só não diz ao leitor que a retórica foi invenção da casa. Mas que estou escrevendo, o pessoal do Observatório da Imprensa já tinha cantado a pedra. Como se pode ler AQUI. Ou AQUI.

O negócio é que o jornal voltou, neste sábado, a criticar a "retórica da Opep do etanol". Deve ser coisa do ombudsman lá deles.

Criticavam o Baudrillard, e até o chamaram de bufão, por causa da retórica retorcida dele. Mas Nós, por aqui, já tivemos o Proálcool, também podemos nos orgulhar de ter avançada tecnologia nacional em matéria de retórica, límpida como uma equação de Pitágoras. E tão falsa quanto um discurso dos sofistas.

Alta filosofia. E começando com o Bush, quem diria.

Agora vai. Mas logo para lá, Lula?

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Lula e Bush dão entrevista juntos, enquanto, provavelmente, Hugo Chávez lota o tímpano e estoura os bagos de uma audiência argentina, no país vizinho, bradando contra o namoro dos dois. O brasileiro diz que precisam, ele e Bush, chamar seus ministros negociadores na Organização Mundial de Comércio e dar uma instrução definitiva:

"negociem logo um acordo".

Ah, agora sim, com uma instrução tão precisa, sai, finalmente, o empacado acordo mundial de derrubada de tarifas e subsídios que distorcem o comércio mundial.

Estava faltando alguém para falar claro. Evidentemente, os diplomatas não decidiam nada até agora porque não sabiam que era para andar logo.

Opa! Opa! Oliveira, o canalha da redação caiu no chão contorcendo-se em espasmos, os dentes arreganhados, estranhos ruídos lhe saem da garganta. O que foi, Oliveira?

_Não vai acreditar no que o Lula acabou de dizer. Ele falou que estamos no ponto G para um acordo!!!

_ Ponto G? Você só pensa nisso, Oliveira!

_ Sério, não sei como a tradutora se arranjou com essa, mas o Bush arqueou uma sobrancelha.

_ Oliveira, só quem arqueia a sobrancelha é personagem de mau romance. Vai ver é um recado sutil do Lula sobre a razão da falta de êxito do Itamaraty na rodada da OMC, ninguém lá sabe onde fica esse tal ponto, preconceito dele contra os diplomatas...

_ Dona Marisa deve explicações à nação, o presidente está desarvorado, ele sim só pensa naquilo. Semana passada desancou a Igreja e reclamando que nem todo mundo gosta do babado. Agora chamou o Bush para botar o dedo logo onde.


Eu já não prestava atenção ao Oliveira. Boquiaberto, olhava para o mapa da América do Sul que colocaram atrás dos dois presidentes, onde um Brasil enorme açambarcava a parte norte do continente. Deus do céu, o Brasil absorveu a Venezuela e a Colômbia!!!!!!!

Sabia que esses americanos tinham algo escondido na bagagem. Ou o mapa é ato falho, ou vazamento do que discutiram os dois, à sós, já cheios de álcool, digo, cheios desse papo de etanol.
*********

Ih, agora o Lula disse que fazer um acordo na OMC só depende da inteligências deles, presidentes....

Já adivinho a manchete do Estadão: Lula diz ser impossível acordo na OMC.

Retruca o Oliveira: "melhor que isso vai ser o infográfico colorido da Folha, ao lado das fotos dos presidentes: saiba onde fica o Ponto G".

Esse Oliveira. Talento desperdiçado, um dia ainda será editor da Veja.


E o presidente não tem dó dos assessores. Diz que não vai divulgar a proposta brasileira porque negociação é que nem penalti, o jogador não diz antes para que canto vai chutar. Vai ser duro explicar essa para o Bush, presidente. Tremenda bola nas costas do tradutor.

Oliveira, o canalha da redação, está embevecido com a última declaração do presidente Lula, em discurso pelo Dia da Mulher. Disse o mandatário:

Não tem como um pai ou uma mãe dizer: “a minha filha só vai fazer sexo, ou o meu filho, quando eu quiser”. Primeiro porque sexo é uma coisa que quase todo mundo gosta e é uma necessidade orgânica, é uma necessidade da espécie humana e da espécie animal.

O Oliveira, um sentimental, ficou bolado com essa história de "quase todo mundo". Depois lembrou que as mulheres de certos deputados provavelmente casaram sem experiência prévia, são chamadas a comparecer ao tálamo de vez em quando. Vão, claro, e pode ser confundam com sexo aquilo que fazem com os maridos, daí a ressalva do presidente, conhecedor das vicissitudes do mundo político.

Necessidade orgânica é muito bom. "Quem sabe o Lula convence o Papa, quando ele visitar o Brasil, e aí as moças carolas ficam liberadas para fazer besteira sem a obrigação de ter neném", sonha o Oliveira, que não sabe ainda a qual espécie pertence, se à humana ou à animal ou alguma coisa entre uma e outra.


Dá-lhe Bush.

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Inda hei de descobrir que tipo de erva andam botando no chimarrão dos uruguaios, para acreditarem que é possível um acordo de comércio com os Estados Unidos. Depois que li a entrevista concedida por George Bush para o Estadão (e outros jornais latinio-americanos), então, fico me perguntando: por que a Miriam Leitão e outros jornalistas tão sérios e dedicados ainda insistem em dizer que o Lula faz concessões ao Uruguai por medo de um acordo dos gaúchos lá com os EUA, e que o Uruguai já está na boca de sair do mercosul por causa desse acordo?

Alguém ainda acredita nessa cascata de acordo Uruguai-EUA? Bom, se acredita, me explique essa declaração do Bush, reproduzida pela Patrícia Campos Melo, no vetusto de hoje:

"Em outros momentos, Bush mostrou franqueza incomum em presidentes. “As pessoas não deveriam dar como certo que os Estados Unidos querem fechar acordos de livre-comércio. Na realidade, há um forte protecionismo nos EUA”, admitiu, quando questionado sobre as chances de assinar acordo bilateral de comércio na passagem pelo Uruguai. Nessa área, as declarações do presidente americano foram uma ducha de água fria nos uruguaios - e, na mesma medida, uma boa notícia para o presidente Lula, que tem se esforçado para manter o vizinho no Mercosul." (grifo meu).

Já tinha escrito no Valor que a principal negociadora dos EUA, Susan Schwab, nem sequer acompanha Bush na viagem ao uruguai, para ficar no Brasil e falar com a Fiesp e com o Celso Amorim. Como ninguém me lê, continuaram papagueando nos jornais essa quimera do acordo do Uruguai e a fantasia maior ainda, de desligamento dos uruguaios do Mercosul. O que é discurso das autoridades uruguaias para o público interno e blefe do Uruguai para o Brasil é tomado ingenuamente como verdade; afinal, nada como mais um bom motivo para meter o pau na política externa.

Na bela matéria da Patrícia, só um reparo: ao contrário do que diz a sabedoria convencional, Lula não tem se esforçado para manter o vizinho no Mercosul (ele iria para onde?), mas para baixar a bola das reclamações, que desmoralizam o bloco, já suficientemente avacalhado.

É mais fácil Portugal descolar-se fisicamente do continente europeu, vagando no Atlântico como uma jangada de pedra (ei a idéia é boa, acho que vou escrever um romance com isso), que o Uruguai abandonar o acordo que lhe dá acesso ao mercado brasileiro, com direito a reclamar das barreiras que os gaúchos riograndenses lhes arranjam de vez em quando.

Explico por que acredito nisso: para os uruguaios até seria vantajoso se pudessem se livrar da obrigação do Mercosul, de negociar acordos só em conjunto, com os sócios do blocol. Eles não têm indústria, poderiam tentar abrir mercados para seu leite, suas carnes, seus tecidos, em troca de escancarar as fronteiras para industrializados de outros países. O problema é que carnes, leite e têxteis são produtos protegidos em todos os potenciais parceiros de acordos como os que querem os uruguaios; e ao liberar geral a importação de manufaturados, o Uruguai teria fechadas proporcionalmente as porteiras abertas no Brasil e na Argentina para os produtos do vizinho menor no Mercosul, correndo o risco de perder, e não ganhar, mercados.

Daí que, por favor: vão parar de encher o saco com essa história de namoro entre Uruguai e EUA. Se é para falar de coisa que não existe, vamos conversar sobre a Maria Fernanda Cândido. Troço muito mais divertido, e tão imaginário quanto.

Às armas, cidadãos!!!

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Diz o JB hoje: "EUA insultam o Brasil"!!!!! Lá dentro a explicação detalhada, sob o título sóbrio de "Desaforo americano": no relatório que o departamento de Estado divulga todos os anos, falando do mundo todo, o capítulo sobre o Brasil comete a afronta de dizer _ como sempre, aliás _ que, no país, a polícia tortura presos e espanca inimigos dos policiais e de agentes penitenciários, são péssimas as condições nos presídios, e os julgamentos demorados afetam o respeito aos direitos humanos!!!!


Como pode alguém falar isso de nossa polícia? De nossos presídios? De nossa Justiça???


Sugiro como resposta, que o Brasil envie tropas para invadir os EUA, e, em seguida o Vaticano, porque, como todos asbem, a Igreja católica também levanta regularmente essas calúnias contra nossa Nação impoluta.


O mais divertido nessa lamentável incursão do JB pelo jornalismo marrom é o subtítulo da primeira página: "na véspera da chegada de Bush, relatório acirra os ânimos". Não entendi. Os ânimos entre os dois governos raramente foram tão amistosos; os caras já estão trocando tapinhas nas costas. Será que o reconhecimento americano de que nossa política de segurança é um desastre vai fazer com que os presidentes partam para o beijo na boca?
(quem mesmo disse que o patriotismo é o último efúgio dos canalhas? não sei a razão, me veio essa dúvida, agora)


Bye bye Baudrillard

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Morreu o Baudrillard, menos uma estrela real nesse mundo de brilhos de latão. Para quem não conhece o sujeito, recomendo como aperitivo a excelente entrevista que o Giron fez com ele para a Época, em 2003. Nela, ele conta que nunca fez um livro sobre o Brasil porque a realidade daqui é muito complexa para o caminhãozinho dele, diz por que não aceitou quando os diretores de Matrix (que se basearam na obra dele) o chamaram para assessorar filosoficamente as continuações do filme (ele não topou dizendo não entender de Kung Fu) e comenta que prefere os filmes O Mundo de Truman e Cidade dos Sonhos como tradução de suas idéias sobre a maneira torta como lidamos com a realidade e com o mundo de signos que a captura.


Disse o sujeito, ao Giron:


"Os signos evoluíram, tomaram conta do mundo e hoje o dominam. Os sistemas de signos operam no lugar dos objetos e progridem exponencialmente em representações cada vez mais complexas. O objeto é o discurso, que promove intercâmbios virtuais incontroláveis, para além do objeto. No começo de minha carreira intelectual, nos anos 60, escrevi um ensaio intitulado 'A Economia Política dos Signos', a indústria do espetáculo ainda engatinhava e os signos cumpriam a função simples de substituir objetos reais. Analisei o papel do valor dos signos nas trocas humanas. Atualmente, cada signo está se transformando em um objeto em si mesmo e materializando o fetiche, virou valor de uso e troca a um só tempo. Os signos estão criando novas estruturas diferenciais que ultrapassam qualquer conhecimento atual. Ainda não sabemos onde isso vai dar. "


Traduzindo: lá pela década de 60, os meios de comunicação de massa começavam a se disseminar com mais força, transformando em mercadoria _ e fazendo circular como nunca _ valores, mensagens, idéias, objetos, traduzidos em signos. Isso já criava desafios para o entendimento das coisas reais, a partir desses signos. Pior está hoje: esses signos ganharam independência e nem precisam mais de seu correspondente real para terem valor e serem aceitos como mercadoria. OU até, podem fazer com que a realidade se esforce em corresponder a esses signos, invertendo a relação que ocorria antes.


A tradução ficou ainda mais confusa? Bom, resumindo: nos anos 60, as coisas simples da vida ganharam embalagens cada vez mais impressionantes; hoje em dia, as embalagens tomaram conta do mercado, e nem precisam mais ter coisa dentro. Ou seja, se antes a embalagem já podia enganar o consumidor a respeito do conteúdo, hoje ela nem precisa mais de conteúdo; criou-se um faminto mercado de consumidores de embalagens. Mais ou menos isso. Baudrillard deve estar se revolvendo no velório com essa.


O resto está AQUI.
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Like a woman who has applied her make-up before hurrying to her first tryst, the world, when it rushes toward us at the moment of our birth, is already made-up, masked, reinterpreted. And the conformists won't be the only ones fooled; the rebel types, eager to stand up against everything and everyone, will not realise how obedient they themselves are; they will rebel only against what is interpreted (or pre-interpreted) as worthy of rebellion.
O texto aí em cima, para quem lê em inglês (se pedirem muito traduzo, mas sei que isso não acontecerá, vai assim mesmo) vai na linha do baudrillar, mas é do Milan Kundera, num ensaio espetacular sobre literatura, verdades, mentira, memória e eternidade, da seção de livros do Guardian. Para quem aprecia, recomendo.

Agora vai. E, se duvidar, não volta mais.

Ouvi pela primeira vez o nome de Geddel Vieira Lima quando apurava, pela Isto É, o escândalo dos anões do orçamento, um grupo de deputados baixinhos (alguns nem tanto) que controlavam as emendas orçamentárias de maneira a fazer pingar alguns caraminguás dos cofres públicos no bolsinho deles. Certamente era algum intriguento, descontente com a estatura do parlamentar baiano. Seu maior feito foi ter ajudado a derrotar o hoje desmoralizado imperador da Bahia, inhô Antônio Carlos Magalhães, que Deus o tenha em bom lugar. (Ah, ainda está vivo? Desculpe, eu estava de férias, acontece tanta coisa quando a gente está viajando).
Agora Lula escolhe Geddel para ministro da Integração. Até o ano passado o novo ministro estava na oposição, mas isso é um detalhe de quem ainda acredita que o Brasil um dia fará uma reforma política.
Na entrevista que ele concedeu ao Andrei Meireles, na Época, poucos anos atrás, para a qual dei um link aí em cima, é uma boa pista sobre a escolha de Lula:

ÉPOCA – O senhor, afinal, é oposição ou independente?

GEDDEL– Sem essa de terceira via. Oposição é oposição. O processo eleitoral estabelece que aquele que ganha governa; quem perde fica na oposição. A sociedade optou pelo projeto do PT e nos colocou na oposição. Essa também é a postura ética.

Postura, para mim, é coisa que se faz no galinheiro. Já ética, pelo jeito, é, para o Geddel e o Lula (a quem o deputado já chamou de ladrão, no passado), coisa diferente do que aprendi em casa.

O baralhinho do momento


Sei que não paro de falar na turma do Pasquim, mas é que sou nostálgico e os caras influenciaram boa parte do humor inteligente que por aí está (ok, ok, o Sérgio Porto e o Millor já estavam antes na estrada, mas você entendeu o que eu disse). Um dos segredos dos pasquineiros foi levar para a imprensa o linguajar da rua (das ruas cariocas, claro), misturado com fina ironia, escracho total e sinais uma formação cultural que não se encontrava nos programs de rádio, como não se vê nem de longe nos programas de tv de hoje em dia.

Feito o nariz de cera, vamos ao assunto: na blogosfera vez por outra a gente esbarra na semente do que seria uma nova geração de humoristas, gente com idéias novas, textos interessantes e essa capacidade nada fácil de trazer a fala contemporânea para o traiçoeiro terreno do humor selvagem. Um dos mais brilhantes é o Nélson, do Ao Mirante . Outro momento alto do humor blogal é o Jesus me Chicoteia, quando o Marco Aurélio se dedica à reescrever genialmente a Bíblia (não sei porque as Edições Paulinas ainda não fecharam contrato com o cara).

Agora o Tiagón me apresenta um garoto divertidíssimo, e seu Baralhinho do Momento . Como em todos os blogues, nem sempre as páginas sustentam a mesma graça, mas ele é excelente, como mostra na crítica de mídia (o nome técnico escolhido por ele é "Eles tão de ácido", onde ele comenta peças publicitárias. A avaliação lúcida sobre a publicidade do Fantasma da Ópera e da Neosaldina é um dos instantes mágicos da semiologia aplicada.
Sobre a ilustração deste texto, deixo o criador do baralhinho do momento explicar:
Carta CALMA

Mensagem: Calma

Número: 3

Comentário:

A carta calma tem uma mensagem muito bonita, que é:

Calma.

Você que acabou de ler essa palavra já sentiu a calma. Tenho certeza. Todos nós somos assim. Todos nós estamos nervosos e preocupados com as coisas do dia a dia e do nosso sofrimento contínuo de não conseguir ser mais do que somos e a calma é importante pra tudo. A calma, aliás, é fundamental.

Você tem que pagar o aluguel e tá sem grana? Calma. Vai driblar o goleiro aos 49 do segundo tempo, 5 a 5 o jogo? Calma. Acabou de saber que sua esposa está grávida do seu pai? Calma. Vai cair da escada cheio de facas e copos de vidro na mão? calma pô. Tá preso no elevador despencando barulhão morrendo? Calma. Entrou no banco ficou preso na porta giratória no meio de um assalto pipocando bala? Calma.

No blogue dele tem mais.


A caminho de Nova York, via Toronto (caminhos tortuosos de quem usa milhagens acumuladas na Varig), leio no Globe and Mail que um artista usou o produto da lipoaspiração feita nele mesmo para fazer umas almôndegas, dando ao público uma rara oportunidade de consumir uma obra, no sentido estrito. Isso é que é cair de boca na arte conceitual. Tremenda coincidência: no simpático Chelsea Museum of Art, roteiro imperdível para quem gosta de arte contemporânea, eu e Marta encontramos uma versão mais feminina para essa história de usar o próprio tecido adiposo como material criativo. Nicola Constantino, artista argentina que chamou a atenção do cenário artístico com peças em que critica a moda, os tabus corporais e nossas relações com comida de origem animal, expõe, lá, um de seus "savons de corps", cheirosos sabonetes, em que a gordura lipoaspirada da artista entra como um dos ingredientes.
São deliciosos (como fica estranha essa metáfora gustativa aqui) o texto e o vídeo que acompanham o sabonete, fabricado em tiragem de 100 e vendido com o cartaz e a saboneteira de mármore de carrara aí da foto. O filmete, com a calipígia moça, reproduz clichês da publicidade de cosméticos (tem até a mão que afasta a espuminha para mostrar o sabonete, e cenas da moça, lânguida, num banheirão). A gordura dela entra só com 3% da composição do saponáceo, que tem os mesmos óleo de coco (côco, repito) e lanolina usados no Lux ou no Phebo da sua casa. Os sabões domésticos também costumam ter gordurinhas, mas de animais, não de artistas, e você vive ensaboando-se sem fazer essa cara de nojo que fez para a obra da Nicola. Aliás, se isso tem algum significado, a moça é argentina.
Mais tarde eu falo um pouco mais sobre esse tipo de trabalho, reproduzo aqui um dos textos, e a foto que fiz, em zoom, do atraente sabonetinho. Estava adiando esse post, porque iria escrevê-lo acompanhado de uma crítica minha à ausência, na midia cultural brasileira, de uma materiazinha que fosse sobre a exposição em que o encontrei, no Chelsea.
Chamada Dangerous Bauty, a exposição não se limita à Constantino, tem trabalhos interessantíssimos de body art, com clássicos como a veterana Orlan (cuja obra consiste em operações plásticas a que ela própria se submete, transfigurando o rosto de acordo com padrões extraídos dos cânones da arte) e um texto de apresentação que faz referência à irracionalidade da moda e dos padrões de beleza contemporâneos. Assunto fundamental, e abordado de forma provocativa, como se pode imaginar pela amostra da Nicola.
Até a morte da modelo brasileira anoréxica é lembrada no texto da exposição, o que só torna mais inexplicável a ausência de notícias sobre ela no Brasil, que tem tantos correspondentes em Manhattan. Ausência até hoje, quando a Folha on line publica essa matéria AQUI.
Matéria, por sinal, da agência espanhola EFE.



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