maio 2007 Archives

Problemas com Chávez

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Nas vezes em que estive em Caracas, no Hotel Hiton _ que acaba de ser comprado pelo governo e se tornará Alba hotel ou coisa parecida _ tinha vários livros sobre Hugo Chávez na vitrina de sua livraria. Todos contra Chávez. Os jornais falavam mal do presidente, e na TV havia até slogans tranbsmitidos de hora em hora com ataques ao governo. Não me pareceu uma ditadura sem liberdade de expressão, como se vendia por aqui.

A cassação da concessão de um canal de tv, como fez Chávez, na base da palavra do soberano, foi um mau passo, ainda que as versões que chegam até o Brasil sejam terrivelmente deturpadas. Fala-se sempre que as decisões do governo escudadas no Congresso ou na Justiça não são legítimas porque ele controla o Legislativo e o Judiciário. Ora, a esmagadora maioria governista no Congresso só existe porque a oposição, golpista, boicotou as eleições porque sabia que não teria votos. E no Judiciário, ninguém jamais sonharia dizer que há uma ditadura nos EUA porque os republicanos são maioria na Suprema Corte. Menas, pessoal, menas.

A forma de agir de Chávez é autoritária, e, pena que não achei na Internet, mas a entrevista concedida pela nomeada por ele para a nova tv estatal mostra que ela imagina a nova emissora como uma máquina de propaganda governista, não como uma tv pública, do Estado. Péssimo sinal.

Vale a pena acompanhar o que vai se dar na Venezuela, pena que não tenhamos fontes confiáveis. Até a semana passada, a RCTV, emissora que não teve a concessão renovada, era apresentada por muitas publicações como a "única" emissora de oposição a Chávez. Pouca gente disse corretamente, que era a única com alcance nacional (pelas províncias há várias emissoras que não cansam de desancar o Chávez.

Já acho estranho os jornalistas não se incomodarem com o fato de uma emissora fazer oposição (e não crítica, ou investigação) contra um governo; mais estranho ainda é ver que, agora que Chávz desastradamente aponta as armas contra outra emissora, terem esquecido rapidamente que, a julgar pelas notícias anteriores, o oposicionismo havia saído do ar com a RCTV.

Fica difícil para os que, como eu, criticam a ação de Chávez, deixar de sair apontando os exageros nas críticas ao venezuelano. Nesse mundo sem nuances da cobertura sobre a Venezuela, parece que só há os que amam ou os que odeiam o comandante. Há iniciativas importantes na Venezuela, há besteiras feitas com dinheiro do petróleo, há idéias legítimas de Chávez e há um periogoso projeto messiânico em curso por lá.

Quem conhecer uma fonte de informação confiável que me indique. Espero que o Maisonave, da Folha, que é excelente jornalista como bem reconhece a revista Imprensa, consiga traduzir o que acontece nas terras bolivarianas.

Em busca de Ganesh

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Parto para a Índia no fim de semana, o que é um mau augúrio para este Sítio, que corre o risco de ficar com a grama meio crescida por uns dias. Em Nova Delhi, o fuso horário faz os relógios estarem oito horas e meia na frente. Essa e meia não nos ensinaram na escola, e é uma óbvia invenção de Shiva para me ferrar nos cálculos para o horário de entrega das matérias no jornal. Na última vez em que quis blogar e cobrir algum evento com fuso horário tão disparatado, fiquei desparafusado e quase briguei com um samurai chinês ou coisa parecida. Mas juro que tentarei.




Nos preparativos, conheci um diplomata indiano com excelente bom humor (numa churrascaria, ao ouvir de um brasileiro que não poderia toca na carne por ser hindu, respondeu: "a vaca é sagrada na Índia; aqui no Brasil, não"). Apaixonado pela América Latina, ele mantém um blogue sobre aspectos da cultura, com críticas de livros e filmes tão imperdíveis quanto as do Maurício Santoro (que, aliás, também escreveu sobre a greve da USP, a favor. fica como acréscimo ao post abaixo, sobre a greve). Para quem lê inglês, sugiro frequentar o Viswanathan, AQUI.

Borges, o memoriado

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"Um curso sobre Borges. É mais ou menos como se um moleque de 13 anos, especialista em sorvetes, chegasse na Amor aos Pedaços, em Sampa, para escolher um sabor. São 14 semanas, com 2 horas e meia de contato em sala de aula por semana. Seria possível dedicar todo esse tempo a dois livros de Borges: Ficciones (1944 - cuja primeira metade saiu em 1941 como El jardín de los senderos que se bifurcan, volume depois completado em 1944 por Artificios) e El aleph (1949).




Desses dois livros saem os grandes clássicos da contística borgeana: "Funes, o memorioso", "O jardim dos caminhos que se bifurcam", "Pierre Menard, autor do Quixote", "Emma Zunz", "Três versões de Judas", "A morte e a bússola", "As ruínas circulares", "A biblioteca de Babel", "Tlön, Uqbar, Orbis Tertius", "Loteria de Babilônia", "O milagre secreto", "O aleph". Todos esses contos são paradas obrigatórias.




Decidir de qual ponto de vista lê-los já é um exercício que pode tomar um tempo considerável, posto que essas duas dezenas de contos --- que a grande maioria dos leitores considera "a obra de Borges" -- geraram, e eu não exagero, algumas centenas de livros e alguns milhares de artigos dedicados a analisá-los.



Borges tem essa singularidade: é um minimalista enciclopédico. Jamais escreveu, eu acredito, nada que tivesse mais de dezesseis páginas. E gerou essas bibliotecas imensas, escrevendo, concisamente, sobre o infinito.



Neste curso eu decidi enveredar por outro caminho e examinar algumas coisas insólitas que escreveu Borges ".






Esse é o Idelber, meu professor e crítico de literatura favorito, falando de uma das divindades de meu panteão literário. E ele promete bastante sobre Jorge Luis Borges, AQUI.

O Bundansman

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Neste Sítio, inauguro hoje a figura do Bundansman, cujo nome se dá porque o sujeito escolhido para o cargo, de fiapo de palha na boca, na falta do que fazer fica bundando pelo terreno, lendo os jornais do dia e resmungando em meu ouvido. Era cargo para o Wilson Tosta, meu resmungão favorito, mas ele mora longe e não gosta de Brasília. Ficou para meu caseiro, o Chico, a doce tarefa de criticar obra feita. Ou não feita.


Meu bundansman apreciou deveras (palavras dele, que tem lá sua instrução) as reportagem sobre o Luz Para Todos que viu nas edições dominicais. Quem diria, o programa, tão elogiado por Lula, tornou-se exemplo de obra daquele tipo de picareta que sempre antes nesse país esvaziou os cofres dos governos, encheu os bolsos dos espertalhões e deixou a patuléia a ver navios, com serviço público de má qualidade. No caso, o povo ficou no escuro mesmo, sem ver direito o que se passava.


O Estadão tripudia: Lamparina para Todos, diz o título da matéria em que conta as estrepulias do empreiteiro Charles Bronson, da Gatunama.


"Vítimas da corrupção têm nome e endereço, mas não contam com energia elétrica. Em planilhas fictícias, representam números de beneficiados pelo Programa Luz para Todos. Nas comunidades em que vivem, são brasileiros que já deveriam ter geladeira e TV funcionando, mas a Construtora Gautama não fez as obras que diz estar fazendo. Deixou a maioria no breu. E o que aflige esses milhares de piauienses é que, mais uma vez, a luz não chegue.", escreve eduardo Numomura.


A Folha conta história pior: nas casas piauienses atendidas pela Gatunama, o poviléu corre o risco de ser até eletrocutado:


No dia da chegada de energia elétrica ao assentamento 17 de Abril, em Teresina (PI), as 81 famílias que esperavam por uma comemoração tiveram uma desagradável surpresa: 40% das mais de 160 lâmpadas do assentamento queimaram quando ligadas.
A obra foi concluída pela Gautama no programa Luz para Todos, do governo federal. Os moradores reclamam ainda de tomadas e bocais quebrados, aterramentos malfeitos e choques com eletrodomésticos.A obra foi orçada pela Gautama em R$ 111.678,40. Os moradores tiveram de pagar novas lâmpadas.
Algumas famílias se queixam de que levam choques ao tocar nos eletrodomésticos. "A TV, o som e o vídeo, desde que ligou a luz, dão choque", afirma Adelino Alves de Azevedo, 39.


Comenta o meu Bundansman que as matérias mostram tambem um apagão da imprensa. Como é que ninguém, até agora, havia mandado algum repórter para conferir Brasil afora o propalado sucesso do Luz para Todos??? Foi preciso o grampo da Polícia Federal para que a turma encontrasse o fio desencapado da meada?


Cá no Sítio, temos uma tese, que vai agradar aos paranóicos da conspiração da midia. Ninguém botou o dedo na tomada do Luz para Todos porque a tropa acreditou na convencente propaganda de Lula sobre o programa. Ninguém se animou a ir a campo para conferir, porque nenhum jornal está aí para encher a bola de governo, não é mesmo?


Fique a lição: ainda estamos passeando muito nos salões verde e azul do Congresso, sem conferir no mundo real o que se fala nos gabinetes e nos palanques. Seja para criticar, seja para mostrar que, afinal, um governo pode ser bem sucedido no que faz.


Nesse caso, o governo foi um fiasco. E nós, jornalistas, também. Fica o consolo das excelentes reportagens da Folha e do Estadão, deste domingo. Para as próximas edições, o que não falta é programa de governo sendo executado por aí.

patente, sim, ma non troppo

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Está lá, meio escondida, na página A20 do Estadão de hoje, a notícia que me serve de argumento para defender que saúde não é coisa que se possa tratar só pelos mecanismos de mercado. Pelo menos, é assim que pensam os governos do mundo. Menos o dos EUA e de alguns países fortemente influenciados pelos interesses das copororações farmacêuticas...

Com a oposição declarada do maior responsável por registros de patentes no mundo - os Estados Unidos -, o Brasil conseguiu aprovar na Organização Mundial da Saúde (OMS) uma resolução que serve como uma espécie de aval para as políticas seguidas pelo País no setor de medicamentos, principalmente depois da decisão de quebrar a patente de um remédio da Merck. A resolução estabelece a criação de uma estratégia internacional de acesso a remédios contra a aids e o apoio da agência da ONU para a Saúde aos países que queiram quebrar patentes de medicamentos.
O texto ainda pede que mecanismos, como um fundo, sejam estudados para permitir o financiamento de pesquisa de novos remédios em países emergentes. Os governos alegam que a única forma de financiar novos produtos colocados no mercado pelas empresas tem sido a venda dos remédios a preços altos.


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Para funcionários dentro da OMS, porém, a aprovação pode ser considerada como uma vitória dos países em desenvolvimento. "O Brasil conseguiu trazer de volta para o centro de discussões da OMS a questão das patentes", afirmou German Velasquez, diretor do departamento de medicamento da entidade.

(essa parte a seguir não está na versão publicada no estadão, mas na da ag~encia, para a qual dei o link acima:)

De fato, o tema da propriedade intelectual também foi tratado no combate à malária como forma de facilitar acesso aos remédios. Outro debate envolvendo patentes foi o da gripe aviária. A Indonésia havia se queixado de que entregou à OMS uma mostra de um vírus e que, meses depois, teve de comprar vacinas de uma empresa australiana produzidos com base no vírus cedido por Jacarta. Os indonésios sugeriram, então, que apenas compartilhariam o vírus do H5N1 se todos os resultados de pesquisas fossem também compartilhados, sem patentes.

Greve para quê mesmo?

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Autonomia para a Universidade não significa esconder da patuléia onde os doutos estão gastando seu dinheiro. Minha longa convivência universitária me mostrou que, onde não há transparência, há desvios, desperdício, autoritarismo no uso do dinheiro público. E por isso fico cabreiro com essa greve na USP.







que será que eles estão fazendo com essa autonomia, a ponto de ela não resistir a uma olhada da patuléia?????


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SEGUNDO CLICHÊ : Como seria de se esperar, há um debate interessante sobre o tema na blogsfera. Para a defesa da greve, o mestre Idelber escreve AQUI (vale também ver o link que ele dá para o blog do Gravatá Merengue, contra a greve). Para um argumento contra a greve, AQUI.


Ah, para constar: discordo dos argumentos de ambos.

Procurar a nossa turma

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O José Luiz Fiori escreveu hoje, no Valor, um interessantíssimo artigo sobre as diferenças entre Brasil, China, Índia e África do Sul, em que fala dos destinos dos quatro países. Nós e os africanos ficaremos como a turma do deixa disso, conta ele. Fiz uma maldade danada, e extraí dois dos melhroes pedaços do texto, aqui, para os frequentadores do Sítio:


" Brasil e África do Sul compartem com a China e a Índia o fato de serem os estados e as economias mais importantes de suas respectivas regiões, responsáveis por uma parte expressiva da população, do produto, e do comércio interno e externo da América do Sul e da África. Mas não têm disputas territoriais com seus vizinhos, não enfrentam ameaças internas ou externas à sua segurança, e não são potências militares relevantes.

...

E daqui para frente, a China deve seguir os passos de todas as Grandes Potências que fazem, ou já fizeram parte do "círculo dirigente" do sistema mundial, e o mesmo deverá acontecer progressivamente com a Índia. Mas o Brasil e a África do Sul não contam com a unidade, as ferramentas de poder e com os desafios externos indispensáveis, e devem se manter na sua condição de "estados relevantes" mas não expansivos, porta-vozes pacíficos do "bom senso ético universal". Uma espécie de "turma do deixa disso". "

Vale a pena ler o troço todo. Como o Valor só se abre para assinante, sugiro o link AQUI, de um pessoal que chupou o texto; o problema é que as aspas viraram pontos de interrogação, mas nada que um pouco de abstração não conserte.

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Sempre achei que esses leitores de auto-ajuda levam as coisas muito ao pé da letra. Mas o espírito empresarial anglo-saxão pode levar a exageros, como reproduz a Agência Estado, AQUI:

23 de maio de 2007 -
Roubadas 10 toneladas de queijo nos EUA
O trailer com mais de 10.000 kg de queijo desapareceu em uma rodovia
Associated Press
SNOW SHOE, EUA - Desaparecido: um trailer refrigerado contendo 10,4 toneladas de queijo. A carga foi roubada na madrugada de segunda para terça-feira, 22, de uma parada de descanso em uma estrada dos Estados Unidos.
O caminhoneiro havia desconectado o trailer, deixando-o no descanso, para levar o caminhão a uma oficina mecânica. O trailer - e o queijo - não estavam mais lá quando o home m voltou, diz a polícia.
O trailer é avaliado em US$ 14.000 (R$ 28.000), mas as autoridades não souberam informar o valor estimado do queijo.




"E agora, verdão, o que a gente faz com isso?"
"Pelo que entendi, agora temos de encontrar um labirinto..."

Aí o papa, ó

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. (na foto, o carismático comandante enquadra o pastor alemão)



Enquanto Lula quase fez o ministro da Saúde se ajoelhar no milho porque falou de aborto durante a visita do Papa, o Hugo Chávez deuum sermão no Santo Pontífice, que tinha chamado de pacífica a evangelização na América Latina.

Pacífico, o diabo. A ação da padrecada na América colonial foi um verdadeiro holocausto, lembrou o Chávez. Pede desculpas, papa!, mandou o venezuelano.

Aí o Papa vem, e hoje se penitencia: foi mal, pessoal, a indiada sofreu maus tratos à bessa, em nome de Deus.


Ponto para o Chávez. E depois ficam reclamando quando o cara começa a juntar gente em sua sanha bolivariana.


Quando vi, no Ancelmo, que a Tulane University, em Nova Orleans, vai receber o Paulo César Araujo, aquele da biografia do Roberto condenada à fogueira, eu sabia que só podia ser coisa desse cara AQUI.

Por que toco nesse assunto? Por que, como bem diz o Araújo ao Idelber, está em jogo o direito a noticiar fatos sobre a vida de pessoas públicas, que não são caluniosos ou injuriosos. São de interesse cultural e histórico.

Em breve voltaremos a falar do tema, mas sobre os herdeiros que proxenetam a obra cultural de seus antepassados. Aqui, neste Sítio.

No me llenem la pelota!

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O novo mantra oposicionista é dizer que o Paraguai vai tentar tomar Itaipu dos brasileiros, inspirado no que Evo Morales fez com o gás, na Bolívia. Como discurso para meter o pau do governo está bom; como raciocínio é uma estupidez.




Esse cantochão sobre Itaipu é coisa de quem confunde maia com asteca, inca com guarani, e acha que a América hispânica é toda a mesma coisa, com sujeitos de bigodes à Catinflas dizendo a toda hora "Ay, caramba, qué pasa?" O dono deste Sítio bota dinheiro nessa aposta: quem quiser apostar se o Paraguai vai ou não fazer alguma porra-louquice com Itaipu, pode entrar em contato, que estou dentro.




Ora, concordemos ou não com a maneira tosca que a Bolívia fez a nacionalização, o gás é deles, está no território deles, e pertence a eles como o céu é do Condor e o petróleo de oputros países do mundo também é estatal. A energia de Itaipu é outra coisa, é gerada por uma barragem na fronteira, metade dela em cada país, com linhas de transmissão que passam pelo Brasil. E seria inconcebível cortar a energia de Itaipu ao mercado brasileiro, enquanto o gás boliviano tem importância marginal na matriz energética do Brasil (claro, motoristas no Rio e indústria de São Paulo iriam sofrer barbaridades com uma brusca interrupção no fornecimento, mas por um período; depois quem ia se danar seria a Bolívia).




Itaipu é matéria de segurança nacional; mesmo um paraguaio com a cabeça cheia de coca saberia que alguma ameaça à hidrelétrica provocaria invasão das tropas, mas as brasileiras.




O que se ouve, em guarani e castelhano, do outro lado do rio Paraná é uma justa esperneação, na tentativa de arrancar mais uns cobres da única grande geradora de riqueza do país; e, claro, exploração política cotnra um governo que se elegeu para acabar com a corrupção no país e não tem sido lá muito exitoso nessa tarefa.




Haverá concessões brasilerias, a ninguém interessa afundar ainda mais o Paraguai, cuja fragilidade institucional o transforma em alvo fácil para o crime organizado em busca de poder político. O Brasil tem de fortalecer a economia paraguaia, estimular o surgimento de empresários sérios, com interesse em acabar com o pacto de corrupção que lá, como em alguns lugares por aqui, avacalha o país. Mas Itaipu continuará como sempre esteve, alvo da cobiça de alguns políticos paraguaios, presa de interesses políticos também no Brasil, e gerando boa parte da energia que me permite manter ligado o computador onde escrevo minhas bobagens para este Sítio.




Convém, claro, prestar atenção à insatifação política lá, e aos desdobramentos eleitorais, que podem, sim botar algum populistra maluco na presidência. Os discursos de lá prometem fazer a alegria dos editorialistas do estadão, pelos meses que virão. Mas quem estudar um pouquinho a história política paraguaia, a sociedade local e as forças economicas e sociais que lá existem, saberá que Paraguai não é Bolívia. A não ser para a cúpula do PSDB, que tem dificuldade em entender o que há além de São Paulo e Ceará.

Amigos, amigos, blogosfera à parte

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Quando um amigo seu fala besteira, ou algo do qual você discorde, sua única preocupação deve ser o grau de suscetibilidade do sujeito. Alguns você pode mandar às favas (ou a algum lugar mais pastoso); outros exigem alguma psicologia. Mas, e se seu amigo escreve em jornal, e espalha aquilo que você considera enormes bobagens pela midia afora? Que fazer, que fazer? Não adianta procurar o cara e tentar convencê-lo do contrário; à exceção de minha humilde pessoa, a maioria dos jornalistas que conheço acredita ter talhado em pedra com substância divina as palavras pespegadas nas colunas que trazem seu nome.

Por experiência própria, recomendo, em caso de amigo íntimo, deixar para lá. Afinal, as discussões que temos com amizades muito próximas estão no que se chama esfera privada, envolvem detalhes de nossas personalidades que só mostramos aos que confiamos, e jornal é terreno público, praça central, terra de ninguém e de todo mundo. Passar a mão na bunda de amigo, como brincadeira podeser até engraçado, mas não se deve fazer a brincadeira se o amigo acaba de ser empossado ministro, por exemplo, e ainda está ao lado do presidente no auditório do Planalto. Só para comparar.

Tem besteira que nem vale a pena. Quando o fernando Rodrigues fala de Brasília, por exemplo. Ele faz isso em todo aniversário da cidade, e esparsamente durante o ano. O cara é uma beleza de pessoa, gente boa mesmo, uma família linda, companheirão, bom papo, excelente humor, uma disciplina que um dia ainda há de me servir de exemplo... mas quando fala de Brasília é o paulista do lugar comum. É como falar mal de político; macheza é defender um. Mas ele faz isso só para provocar (e, pior, acredita no que escreve, acho que só por espírito de porco). Não, não vou mandar carta para a Folha defendendo Brasília. Quero mais é que odeiem a cidade, já está ficando com carro demais, e emprego de menos.

Mas o Sardenberg, esse me faz sofrer. me considero amigo dele, como de outros editorialistas do Estadão de quem acho que discordarei até a morte, mas que, diabos, são pessoas tão simpáticas, tão inteligentes, conversas tão agradáveis...gosto dos caras, fazer o quê. Ah, e são dos poucos que não errariam o acento nesse quê. Ainda por cima conhecem o português.

Bom, então ouço o Sardenberg na CBN, leio no estadão, não sou íntimo do homem, poderia criticar, fico fulo com alguns dogmas que ele repete como mantras, mas não, não vou contestar. Abaixo o volume quando ele conversa com a Míriam Leitão (outra por quem tenho amizade, caramba), e aumento quando ele conversa com o Renato Machado, ou nas hilariantes conversas dele com a Mara Luquet.

Mas aí, um leitor de meus artigos no Valor desancou educadamente os comentários dele no estadão, sobre patentes. Chama-se Paulo Lotufo, tem um blogue interessante sobre assuntos médicos, indústria farmacêutica e quetais. Daí que recomendo que o leiam, AQUI.

Aos costumes

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Eu estava impressionado com a hiperatividade da Polícia Federal; não há dia em que não apareça alguma operação de nome bizarro, e fotos de gente na cadeia. Mas a notícia de hoje nO Globo me deu a certeza de que, realmente, estão pegando os criminosos de colarinho branco, aquele pessoal que frequenta o Fasano, o Piantela, o Troigros...


É essa notícia AQUI.

Patentes, para que servem?

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(Essa imagem, de uma campanha anti-Aids, sob o título "Aids não te preocupa?" é tão interessante que não resisti a botar aqui, como ilustração. Mas é tão forte que perturba a leitura do texto. O tema, aqui é Patentes. Agora tira o olho aí da figura e pense em patentes, direitos de propriedade intelectual, essas coisas sem genitália. Pensou? Vamos lá).
Quando foram criadas, serviam para estimular os inventores a divulgar seu conhecimento. Hoje em dia, cada vez mais parecem uma carta real concedida a monopólios em expansão, como insinua o Hermenauta, AQUI, sobre a Microsoft, com detalhes sobre a preocupação que a coisa já provoca até na Suprema Corte americana.


Pena que eu não soubesse dessa história da Suprema Corte quando escrevi a coluna desta semana para o Valor. Decidi escrever sobre o tema para dar uma opinião diferente da do Cláudio Haddad, que, no mesmo espaço, na quinta-feira anterior, chamou de demagogia o licenciamento compulsório do Efavirenz.


Bom, aí eu escrevi as mal traçadas abaixo:


As patentes e os dogmas


Quando se fala em medicamentos e China, duas notícias curiosas se repetem. Uma é o desrespeito aos direitos de propriedade intelectual no país, com uma pirataria recorde de remédios. Outra é a euforia das indústrias farmacêuticas com o mercado chinês, que fez do país um dos mais fervilhantes centros de pesquisa e produção do mundo. O paradoxo não indica que o Brasil deva seguir o exemplo chinês nessa matéria, mas recomenda menos ligeireza na análise de fatos como o recente licenciamento compulsório decretado pelo governo brasileiro para um remédio anti-aids.


A China demonstra que o mercado farmacêutico e a discussão sobre propriedade intelectual não são assunto para se tratar por critérios abstratos, na base dos dogmas de livro-texto. O mercado farmacêutico é tipicamente falho; não se pode falar, nele, em ajustes ditados simplesmente pelo mecanismo de oferta e demanda. Há fatores, além da garantia de monopólio, a estimular a pesquisa científica e a inovação, a criação e instalação de laboratórios e a produção de remédios. Renda e mercado consumidor, por exemplo.


As patentes, especialmente, impõem outra discussão, já que são um direito de monopólio, um golpe na concorrência, permitido aos inventores (ou a inovadores com espírito empresarial e inteligência para reclamar direitos sobre aperfeiçoamentos de invenções não patenteadas).Criada por liberais, para facilitar a disseminação do conhecimento e a produtividade econômica, a lógica da patente é garantir remuneração e monopólio na invenção, suficiente para recompensar devidamente os esforços do inventor. Mas sob condições e por tempo limitado, para que não se transforme em fator de atraso e ineficiência.


Quando um país, como o Brasil, lança um programa com dinheiro público para compra de um medicamento, claramente amplia mercado para esse remédio e as receitas que seu inventor previa ao iniciar pesquisas para fabricá-lo.


O sucesso desse programa leva a um aumento da receita dos fabricantes, e, como já demonstrou nesse jornal o repórter Daniel Rittner, pode criar também um problema fiscal, já que a sobrevivência de pacientes antes condenados à morte gera despesas crescentes, agravadas caso os detentores do monopólio na venda dos remédios não sejam submetidos a algum tipo de controle.


Nesses casos, como aconteceu no Brasil, não se deve falar em "demagogia", como querem alguns críticos, mas em responsabilidade fiscal. O que está em jogo não são só os US$ 30 milhões economizados com o licenciamento do Efavirenz, mas o custo do programa de combate à Aids para a sociedade e a lógica que deve orientar todos os laboratórios privados nas negociações de preço com o consumidor forçado, o Estado.


O resto está no Valor, para quem tem assinatura, ou nesse site AQUI, onde roubaram a coluna sem pagar o copyright. Esse mundo está perdido.



Quando a gente achava que já estava começando a entender as mulheres, a Unicamp me vem com um e-mail, e diz nele que elas também têm próstata.


Fica mais ou menos próximo ao ponto G, parece, à direita de quem chega.




AGORA, SIM, O CÉU É NOSSO!!!!!






Essa papa é uma parada

Ouço no rádio o Papa Ratzinger dizer, num português milagroso, que a mídia não dá o devido respeito ao casamento. Palmas eufóricas ao fundo. Animado, ele, que já havia defendido a castidade fora e dentro (!) do tálamo conjugal, engrena a alavanca ortodoxa e diz que também temos de preservar a virgindade antes de casar. Entre os fiéis, pelo menos na CBN, silêncio tumular, de basílica abandonada.

Tolinho. Começo a acreditar que faz parte da minoria clerical que, de fato, se mantém afastados dos pecados da carne. Nada que um vinhozinho de boa qualidade não possa remediar.

O dia em que Lula abortou o protocolo

"

"Mash, Lulah, focê se recusou a beixar o anel do papa?"
"O Estado é laico, e era uma questão de saúde pública, Sobel. Você já viu quanta gente botou a boca naquele troço? Agora tira o olho de minha gravata , que essa já tem dono!"

Quem mandou ter multinacional?

. "Caramba, compañero, que pasa? "


Para os que ainda poem o KIrchner na conta dos aliados incondicionais de Hugo Chávez (e para os que pensam que é caso único a aporrinhação de Evo Morales em cima da Petrobras), convém saber que a euforia nacionalista venezuelana agora pisa nos calos dos argentinos.


Chávez ameaça estatizar uma poderosa multinacional. Poderosa mesmo. A Techint, argentina, com fortes laços no governo Kirchner. A imprensa argentina acompanha o caso de perto. A nossa, nem tanto. Está no Clarín, AQUI.

Fumaça nos olhos dos outros é refresco


Depois, quando digo que consumo de drogas é coisa da direita, acham que sou careta. Mas o Pedro Dória é quem dá o link para esse sítio AQUI.

Uma lágrima, por um bom homem

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"Meu nome era Enéééas!!"



Papa poderoso: nem bem chegou e já desencarnou um capeta. Como todo exu, o deputado Enéas teve o mérito de trazer ao povo uma mensagem relevante. Sobre a pedreira ainda à frente da democracia brasileira. Que descanse em paz Sua Excelência, e que, com ele, sejam enterrados os picaretas do Prona que ajudou a eleger para o Congresso. Todos, hoje, na base governista, pé de pato mangalô três vezes.
***
2º clichê: a Helena Chagas, no excelente blog dos blogs, que mantém com meu compadre Tales Faria, conta por que Enéas fará falta amanhã, no Congresso. AQUI.

Sei lá, tantas emoções

"Pô, bicho, se me chamarem de pé de chumbo, atropelo os caras, morou?"



Comovido com a angústia de meu tio Aguinaldo, fã de longa data (mas muuuuito longa mesmo) do Rei, este Sítio dá o caminho para quem, como meu padrinho de crisma, queira ler a censurada autobiografia do papo-firme.


É uma brasa, mora!


Leia a biografia proibida, copiada, entre outros, no blogue do Ligeirinho, AQUI.

ò o papa aí gente!




O centro de São Paulo terá ruas interditadas, a segurança será reforçada, serão proibidos os vôos na cidade com maior número de helicópteros de executivos da América Latina, e o noticiário promete tornar-se monotemático. Tudo pela visita de Sua Santidade, o papa Ratzinger XVI.




Ou seja, a visita do sujeito vai tornar a vida dos paulistas um inferno.



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O nascimento do menino Enzo Gallafassi foi um dos "milagres" reponsáveis pela canonização do frei Galvão , e o pessoal abençoado pelo novo santo vai também beijar a mão do Sumo Pontífice. Mas não é que, segundo conta hoje a Laura Capriglione, na Folha, só agora, às vésperas de ver o papa, e SETE anos depois de nascido o filho, a mãe e o pai de Enzo decidiram casar-se na Igreja?


Foram dois milagres, então, os do frei: permitiu o nascimento do garoto e fez com que a furunfada dos pais deixasse de ser pecado. Grande Galvão.


Imagino o papa fechando os olhos para o fruto concebido em pecado e avisando ao casal: "por essa, passa, mas não vão casar de novo, hein? esse negócio de segundo casamento é uma praga!".


Se faltou pílula à mãe do pequeno Enzo, para sorte dele, pílulas é que não faltarão para aliemntar a fama do santo verdeamarelo: já estão oferecendo as pílulas do Frei Galvão pelo correio, como uma espécie de bombril da farmacopéia nacional. Mas não adianta pedir desse pessoal o registro na Anvisa. É mais fácil quebrar patente de remédio estrangeiro que responsabilizar alguém pelo eventual mau uso da pílula do santo.


Culto às patentes é doença

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Estava com uma preguiça danada de escrever sobre uma polêmica importante, essa da quebra da patente de um medicamento anti-aids. A religião professada por boa parte dos economistas e jornalistas de economia faz coro às ameaças dos empresários do setror, para quem essa heresia vai trazer como castigo o fim dos investimentos na busca de medicamentos. Como quase todo misticismo, isso é uma grande besteira, mas contagiosa. E, felizmente, (já que estou sem paciência para discorrer sobre o assunto), o Hermenauta já comentou o caso, e muito bem.


Copio aqui o post mais curto dele sobre o assunto ( e a inspiração para a ilustração). Mas recomendo aos interessados ler o anterior, muito melhor, esse AQUI, em que ele consegue até estender sua erudição às influências lingüísticas do uso das privadas britânicas por nádegas nacionais. Influência benéfica; mais que a de certas idéias mal digeridas, alojadas na massa cinzenta de alguns sábios em terras tropicais.


Vai o segundo texto do hermê:



A Tailândia foi o primeiro país a conceder uma licença compulsória do Efavirenz, um medicamento da Merck. O Brasil rompeu negociações com a Merck porque esta não aceitou dar ao Brasil o mesmo desconto dado à Tailândia.
O laboratório Abbot,
ao qual pertencem as patentes negociadas por José Serra quando era ministro da Saúde, já pediu uma licença compulsória em uma litigação nos EUA sobre uma patente, contra a empresa Innogenetics.
Nos EUA (e na Europa), o instituto da licença compulsória
é fartamente utilizado.
E em 2001, após o ataque com antrax via cartas,
houve uma grande agitação nos EUA quanto à necessidade de uma licença compulsória sobre o medicamento Cipro, fabricado pela Bayer alemã, por medo de que a empresa não tivesse capacidade produtiva suficiente para responder a um ataque em grande escala. E o Canadá chegou, efetivamente, a quebrar a patente alemã _ embora depois o governo canadense, pressionado, tenha voltado atrás e feito um acordo com a Bayer. Nos EUA, a quebra da patente foi evitada não só porque não surgiram novos casos de ataques como porque a Bayer fez um acordo com o Dept. of Health norte-americano.

No tempo dos videogames

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Lula, no Chile, disse que, depois de lançar o PAC e o PAC da educação, vai lançar um PACzinho da Saúde, outro PACzinho social.

Está convencido: é o PAC-man.

Lições do Chávez ao amigo Evo

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De um presidente fraco e inexperiente, pode-se esperar tudo. Até que não faça nada. Aparentemente, foi essa a opção do Evo Morales, ontem, quando completou um ano de minha visita ao país, num dia ensolarado e seco em La Paz, em que todos esperavam um discurso de anúncio do novo _ pífio _ salário mínimo, e o presidente boliviano decidiu fazer uma supresinha, com o envio de tropas às instalações da Petrobras e o anúncio da nacionalização. A poucos metros da praça principal de La Paz, eu era o único repórter brasileiro na cidade, mas tive de cobrir o principal fato do dia pela televisão do hotel mesmo, pois o Evo, seu ministro boca de jacaré e grande comitiva estavam em um dos campos de gás operados pela estatal brasileira, na parte mais oriental do país _ a mesma que ameaça um movimento separatista, hoje em dia.


Já em 2005 eu imaginava que ouviríamos falar muito da Bolívia dali em diante. Comecei este mês comentando de novo o imbrólho lá. Como as coisas andam meio bagunçadas neste Sítio, remeto pois meus obstinados freqüentadores à coluna desta semana, do Valor, que apurei a partir do banheiro do Fórum Econômico Mundial, ao me ver, por uma dessas constrangedoras coincidências do destino, ao lado do presidente da Braskem, quando ambos nos encontrávamos frente a frente a peças como aquela que Marcel Duchamp tornou um marco na história da arte contemporânea.


Vamos, pois, à coluna:



Sem Bolívia, investidor aposta na Venezuela

Frustrado em seus planos de construir um complexo petroquímico na Bolívia de Evo Morales, o presidente da Braskem, José Carlos Grubisich está muito satisfeito. Com a Venezuela de Hugo Chávez. Durante o Fórum Econômico Mundial, semana passada, no Chile, Grubisich contou que já em 2009 começa a colher resultados da associação com a estatal PDVSA em um projeto de produção de polipropileno, do qual espera sacar resultados de US$ 700 milhões anuais. Em outro projeto mais ambicioso, de polietileno, que iniciará a produção em 2011, planeja uma receita de até US$ 2 bilhões.


As contas externas da Venezuela agradecem. E mostram que Chávez ainda tem muito a ensinar a Morales, freqüentemente - e equivocadamente - considerado um discípulo do venezuelano em matéria de nacionalizações no setor de gás e petróleo. A nacionalização do setor de hidrocarbonetos na Bolívia completa um ano, e os resultados colhidos mostram que certas decisões de governo guiadas por um estilo sui generis de marketing político, podem se transformar em peças da mais pura antipropaganda.


Oposicionistas como o ex-vice-ministro de Relações Exteriores boliviano Manfredo Kempf, escrevem artigos ironizando o precário resultado de um ano de nacionalização, e lembram que Chávez, enquanto envia técnicos e médicos ao vizinho país andino, começa a fazer crer ao Brasil que é melhor sócio que a Bolívia. Enquanto em 1998 os investimentos em exploração e comercialização do gás boliviano chegaram a US$ 604 milhões, em 2006 estavam em medíocres US$ 197 milhões. Servem para manter as instalações existentes no país, mas não para aumentar a produção, já insuficiente para os compromissos assumidos pelo governo Morales com o Brasil, a Argentina e o mercado interno.
A falta de garantias para o fornecimento de gás tornaram inviáveis os planos da Braskem para o país (e, se isso não fosse suficiente, o clima, no governo boliviano, é de franca hostilidade contra as grandes empresas brasileiras). Grubisich, para justificar a decisão da Braskem de congelar planos para a Bolívia, lembra que a produção dos materiais plásticos como as 540 mil toneladas de polipropileno da frustrada fábrica boliviana exigem um grande fluxo de gás como matéria prima. Com menos de 34 milhões de metros cúbicos de gás como fornecimento, é economicamente inviável investir em instalações petroquímicas lá.


A garantia que Evo Morales não deu foi providenciada generosamente por Chávez, com produção venezuelana. A Pecven, estatal petroquímica da Venezuela, aceitou dividir, meio a meio, o controle da futura indústria, também financiada em comum, 50% para cada. É, como diz Grubisich, um paradigma do negócio considerado desejável na região. A empresa brasileira investiu US$ 1,5 bilhão, dos quais 30% em ações (equity) e 70% com empréstimo, numa "boa equação financeira" que teve apoio da Corporação Andina de Fomento (CAF), Banco Interamericano de Desenvolvimento, BNDES e até o IFC, braço financeiro do Banco Mundial.


(A coluna continua AQUI, e termino o texto já com desconfianças de que esse discurso de 1º de maio do Morales ia ser um tremendo factóide.)



sitio do sergio leo

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