Um aspecto diferencia brutalmente a Índia do Brasil: o pragmatismo dos governantes, e da inteligentsia local. Tanto o primeiro-ministro, Manmohan Singh, quanto o vice-diretor da Comissão de Planejamento (lá, planejamento é levado a sério), Singh Ahluwalya, são gente transitada pelo FMI e Banco Mundial, falantes do tal Consenso de Washington . Perguntei a eles o que explicava o tremendo sucesso da Índia, país com uma colosal multidão de miseráveis, apagões diários, déficit público altíssimo, controle estatal, montes de pecados para a sapiência convencional. Embatucavam. Um segredo, me disseram, é que a Ìndia fez o que devia gradualmente, de acordo com as conveniências do país; mantém até hoje, por exemplo, controle sobre a entrada de dinheiro especulativo vindo do exterior. E investiu, lá atrás, em educação.
Não foi para agradar ás agências de classificação de risco, que, como comentou para mim um empresário brasileiro, tiveram de correr atrás e dar à Índia o que negam até hoje o Brasil: classificação de "grau de investimento", aval necessário para que os fundos de pensão americanos possam derramar seu dinheirinho em papéis do governo.
Não dá para acreditar que o Brasil não está em melhores condições que a Índia para aproveitar a onda de crescimento mundial, no dia em que os economistas do governo voltarem a acreditar em planejamento, e na criação de condições autônomas de crescimento econômico, sem aprofundar a dependência do capital externo.
Infelizmente, a onda já está passando, corremos o risco de ficar encalhados nas rochas.

Mestre Sergio,O Celso Furtado disse que os economistas indianos foram os mais qualificados que ele conheceu, não apenas pelo conhecimento técnico mas pela capacidade de pensar a própria cultura. Tive algum contato com diplomatas e acadêmicos indianos em projetos de cooperação internacional e também fiquei muito bem-impressionado. A importância do planejamento, como você ressaltou, é algo que chama a atenção.Abraços
Indiano é fogo, professor.