Fomos eu, minha mulher e meu filho ver "Fabricando Tom Zé". Quando digo fomos, é porque só estávamos nós, no cine Academia, entre as dezenas de cadeiras vazias. Me lembrei de uma vez, no século passado, quando eu e a Marta fomos ver um espetáculo do Jards Macalé, perto da Praça Tiradentes, e ouvimos do próprio, no palco mal separado das mesas do Instituto dos Arquitetos, que não haveria show por falta de público. Perguntei onde poderia comprar um CD dele, e, naquela época, segundo me contou, não tinha CD gravado.
Em favor dos brasilienses, diga-se que era segunda-feira à noite, de julho, e a última sessão. Acho que até estariam vazias algumas cadeiras de Harry Potter.
Pois perderam os que não foram. O filme é espetacular, um ritmo excelente, e, como diz alguém, acho que o Kid Vinil (!), em algum momento: Tom Zé é o verdadeiro punk brasileiro. Aliás, punk é o cacete, como diria ele, talvez usando palavra mais contundente. É um Macunaíma sem preguiça. Como bom brasileiro, um dos momentos altos é o samba Angélica, em que ele cria uma melodia romântica com os nomes de logradouros de São Paulo. Fazer romance de logradouro não é para qualquer um não.
O homem é um saci, um babalaô, um fenômeno, dessas figuras fabricadas com rapadura que temos aqui, como o Hermeto Paschoal, e, pena, é preciso ver como fazem sucesso lá fora para ter a perfeita noção de quanta porcaria nos empulham nas rádios atoladas em jabaculê.
David Byrne, que redescobriu Tom Zé para os botocudos que o haviam esquecido, parece personagem de sátira de documentário, novaiorquiníssmo e blasé, de óculos escuros, cabelos inacreditavelmente penteados (especialmente em constraste com a carapinha iconoclasta do herói do documentário), NY ao fundo. E a transbordante genialidade de Tom Zé, inclusive algumas de suas idossincrasias (que levaram meu filho a comentar: "o cara é fantástico, mas pessoalmente deve ser um chato"), está tudo lá. O que ele faz com agogô e esmeril para uma platéia européia em delírio já vale a entrada.
E, de brinde, descobri, vendo o filme, um caso de identidade secreta, troço totalmente nada a ver com o Tom Zé (ou não, como diria Gilberto Gil _ que, com Caetano, faz o papel de vilão arrependido no filme). Eu estava reparando no Kid Vinil, alguma coisa muito familiar nele, que já tinha visto em outras circunstâncias, quando me veio a iluminação: Kid Vinil e Celso Lafer são a mesma pessoa!!!
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O sisudo professor da USP pensa que passaria desapercebido pintando o cavanhaque de cor de cenoura. Tolinho, a dicção entregou o disfarce. A voz e o jeito de falar são inconfundíveis.
Só não descobri até agora se é o Kid Vinil que bota peruca para falar de Relações Internacionais, ou o Lafer que põe uma careca postiça para tocar guitarra e pontificar sobre música pop..
