
Há jornalista de economia que não se preocupa em escrever para gente. E fala em swap reverso, subprime, derivativos, trade offs, ativos fungíveis, superavit disso ou daquilo, como se estivesse descrevendo pão com manteiga. Outros acreditam que há, de fato, essa abstração conhecida nas redações como "o leitor", um ser de inteligência razoável e um conhecimento genérico das coisas, interessado em assuntos que estejam fora de sua especialidade. Escrever para essa figura mitológica dá um trabalho danado.
.
Não falo nem da tradução desses termos abstrusos com que os economistas recobtrem saus banalidades para evitar palpites da patuléia. O problema, para o dia-a-dia do repórter interessado, é a sinonímia. Encontrar sinônimos para as palavras que ocupam, monotematicamente, o noticiário. Quantos sinônimos você encontra para superávit, por exemplo? Em uma matéria de vinte parágrafos, você gasta todos nos primeiros quatro. E toca a repetir vocábulo, um horror estilístico.
.
Agora que, com as bolsas despencando e o dólar disparando, a crise mostra suas bochechas risonhas, os repórteres espanam seus dicionários de sinônimos, porque vão faltar adjetivos para descrever o que vem por aí.
Agora que o temor começa a sombrear as redações, adianto o trabalho para os que ainda não têm esse instrumento indispensável, e, com a ajuda do meu encardido Francisco Fernandes (Editora Globo, 1953, grande aquisição de sebo), dou uma mãozinha aos redatores mais pessimistas. A começar opor uma palavra que já não agüento mais ver escrita nas páginas:
Turbulência _ Inquietação, perturbação, desordem, agitação, alvorôto (esse últimom é bom, hein? "Alvorôto em Wall Street derruba mercados em todo mundo". Ainda hei de emplacar essa no Valor).
Crise - (essa fico devendo, não tem no dicionário do Francisco. Ah, como eram bons os anos 50!)
Tombo (para as Bolsas de Valores) - Queda, baque, cambalhota, derubada, desabamento.
Pânico - Medo, susto, terror, pavor.
Engraçado, há poucos sinônimos para acompanhar as próximas reportagens sobre o que nos espera no mercado financeiro. Ou o Francisco será mais útil aos otimistas, ou preciso desempoeirar os outros dicoonários de sinônimo que deixo em casa.

Sergio,Tenho todos os dicionários do ínclito Franscico Fernandes: o comum, o de verbos, o de regência nominal, o gramatical, todos velhos da antiga Editora Globo (a gaúcha, nada a ver com a contrafação que tal ectoplasma mal formado inda perambula por aí)dos anos 1950, herdados do meu avô ou adquiridos em sebos, todos ótimos. Eles, é claro, não são culpados pelos meus freqüentes erros, agora lhes imputo boa parte dos meus acertos.Amplexos,Joaquim