Dá-lhe Cristina


Saiu repleta de elogios, de Brasília, a futura presidente da Argentina _ segundo garantem as pesquisas _ Cristina Kirchner. Eu cá comigo tenho desconfianças em relação a pessoas que fogem de responder a perguntas de repórteres, e depois saem reclamando da imprensa; mas jornalista é raça braba mesmo, não dê confiança a essa cáfila, Cristina.


A Kirchner, além de alguns cacoetes discursivos (encaixa um "fundamentalmente" a cada três frases, essas coisas), tem uma capacidade fenomenal, que até hoje pensei ter encontrado apenas no saudoso Fernando Henrique Cardoso. Quando se ouve o discurso, ele faz sentido, parece articulado, e até interessante. Quando se transcreve a gravação do dito-cujo, há frases que ficam soltas no ar, parágrafos que brigam entre si como habitantes da faixa de Gaza, pensamentos inconclusos, exuberância de apostos e uma saborosa embromação.


Dirão meus bons amigos da Embaixada Argentina que exagero. É maldade, claro; tente você fazer um discurso em frente ao PIB brasileiro, como fez a candidata hoje, para ver o que sai. Pero escuchemos juntos, entonces:


"Creio sinceramente, que, neste mundo que se avizinha, neste ciclo econômico em que o mundo demanda grande quantidade de alimentos, nós, aqui na América Latina, Brasil e Argentina, nessa associação estratégica que temos há tanto tempo, que, creio que, talvez, como nunca, nessa presidência de Lula e Kirchner tenha havido tão fina sintonia entre os países, e creio que temos de aprofundar essa sintonia".


E segue a futura presidenta:


"Estamos ante uma oportunidade histórica, ambos os países, de qualificar essa associação estratégica. Por vários motivos: em princípio porque somos uma zona que, como grande produtora de alimentos, além disso, não tão densamente povoada como outras zonas; o que não só nos coloca em uma pole position como, além disso se vê mais qualificada pela ausência de conflitos étnicos, religiosos, enfrentamentos entre países (enterradas as hipóteses velhas, tontas de conflito entre ambos os países), creio que estamos ante um momento histórico, econômico _ e também político, porque não dizê-lo, com grandes zonas de conflitividades em outras partes _ o que nos coloca em uma situação de privilégios, e devemos aproveitar; mas, para isso precisamos sustentar essa projeção com caráter estratégico em matéria energética."


E eu que imaginava que sofria o tradutor do Lula, nos discursos de improviso do homem. A cabine de tradução vai ser um local divertido de se ver, nas futuras reuniões do Mercosul.



sitio do sergio leo


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