
O Enrique Vila-Matas, escritor acolhido na biblioteca lá de casa, fez um artigo sobre o papel que resta aos intelectuais nessa contemporaneidade malvada, e fala em duas opções: recolher-se ao silêncio doméstico, com os amigos e livros mais queridos, ou aderir à frivolidade geral. Lembra o Enrique que também há uma terceira opção, que ele parece preferir, a defendida pelo velho Erasmo de Roterdã, em seu elogio à loucura. É a de não levar a sério essa canalhice imperante, e, pelo humor e ironia, defender as cores da bandeira do pensamento, se é que me entendem.
J
á dizia Paulo Coelho, ridendo castigat mores, é avacalhando que a gente pega o touro na unha. Por isso atendi à convocação do Ilimar, quando ele pediu concorrentes para o tema do bloco comandado por ele em Brasília, o Nós que nos amamos tanto. O bloco, que herdou do Pacotão a vocação para tradição candanga, faz concentração no bar Monumental, de onde parte para a esquina (sim senhores, Brasília tem esquina sim, quem diz o contrário quer só difamar a capital), faz uma voltinha no balão (rotunda, como queiram), e volta ao bar. Impossível ser mais jornalísticamente carnavalesco.
Bom, aí compareci com minhas mal-traçadas, ontem à noite no Monumental, onde conheci meus parceiros de infância, o Dinho do Cavaco e o Claudinho Vagareza. Lapidamos minha marcha-frevo que disputará a honra de embalar os foliões, e que trago para os freqüentadores deste Sítio, convocando os de Brasília a comparecer no sábado, a partir das duas da tarde, para, se for o caso, sufragar a obra, no escrutínio que advirá.
Pena que o celular não grava coisa que preste, senão vocês poderiam ouvir na íntegra a bela melodia criada na hora pelos meus parceiros de fé. É muito melhor que a letra, posso garantir. NUM FURO DE RPORTAGEM E INÉDITA PROEZA TÉCNICA, CONSEGUI PASAR DO CELULAR PARA A REDE O RARO VÍDEO DA CRIAÇÃO DA MARCHJINHA. PARA VOCÊS, PRIVILEGIADOS FREQÜENTADORES DESTE SÍTIO:
Vamos à marcha-frevo do trepidante (dizem que por delirium tremens) Nós que nos amamos tanto (se eleito for, evidentemente). Que me perdoem por minha marchinha fiscalista os bons freqüentadores deste Sítio com amores pelo governo, mas, como dizia Erasmo, o tremendão de Roterdã, não existe humor a favor. (Ah, o tema "Relaxa e Goza" é imposição dos cartolas do bloco):
.
Relaxa e goza
goza e relaxa
O Lula está todo prosa
não bobeia que ele encaixa <............REFRÃO
Nós que nos amamos tanto,
esse bloco ou vai ou racha
.
Não existe caos aéreo nem amante de Renan
Se o caso é muito sério, deixa a crise pra amanhã
O hospital está lotado e a escola está inchada
o aluno é reprovado, a saúde, estropiada
É raquítico o Estado, minha base é que é faminta,
pede emprego pro cunhado, quer vaguinha pra mais trinta
.
Relaxa e goza/goza e relaxa....
.
Liberando o orçamento eu me ajeito no Congresso
Deputado é investimento, gasto público é progresso
Essa midia é golpista só gosta da oposição
mas o povo nem faz vista, paga imposto 'inda acha bão
Meus trinta e sete ministro são uma celebridade
Nem sei como administro, mas não perco a majestade
.
Relaxa e goza
goza e relaxa
o Lula está todo prosa
não bobeia que ele encaixa
Nós que nos amamos tanto,
esse bloco ou vai ou racha
.
É isso aí, convoco os eleitores. Quem achou grande, saiba que a primeira versão era mais extensa, mas mostrei ao Orelana, meu consultor com azia, e ele avisou que eu estava compondo uma marchinha, não uma Ópera. "Parece até o Hino Nacional", resmungou o Orelana. E eu encurtei o bicho.

O Bloco Nós que nos amamos tanto tem um blog com as fotos dos dois primeiros desfiles. Está em http://nosquenosamamos.blogspot.com.
Na foto de cima você é aquele com a camisa no ombro? Ficou melhor que na foto do valor.
Serjão, ficou melhor do que aquela composição que hoje só poderia ser chamada de Samba do Afrodescendente Portador de Sofrimento Psíquico, do Stanislaw Ponte Preta.
Obrigado, marcelo, mas se um dia chegar perto da flor dos POnte Preta, terei realizado um sonho de infância (é, eu lia o cara em tenra diade). Caro, Fred, agora pode ver o vídeo do ensaio, ainda qeu falte o gran finale da estrofe, cortado por capricho do Motorola. Depois da votação, que devo perder porque há um outro sambinha muito bom, volto e ponho aqui um vídeo melhorzinho, com a marcha toda.
Pode faltar ética na política mas não faltou criatividade nessa marchinha.Salve o samba!E salvem o Brasil...