março 2008 Archives

Veríssimo e a cafetina

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O culto nacional à marafona, às cachorras, às pistoleiras transformadas em apresentadoras de TV e às vadias dos BBBs só poderia acabar onde acabou: nossas cafetinas já são produto de exportação.

Até recentemente, a única marca visível da brasileirada em Nova York, além das hordas de turistas, era a rua 46. Ela deixou de ser a Brazil Street há muito tempo, desbancada pelo real forte e pelo contrabando sul-americano, e hoje funciona como ponto de encontro de malemolentes imigrantes verdamarelos em época de Carnaval. Agora, porém, podemos nos orgulhar de ter sido uma compatriota a testemunha-chave que botou na rua um governador hipócrita eleito pelos novaiorquinos. Êta nós, digo, êita ela. Prevejo um novo marco na saudação de turistas em reconhecimento à cultura nacional lá fora:

_ Brazil? Oh, Brazil! Ronaldo! Ronaldínou! Kakáh! Andreia Schwartz!

O brasileiro infla o peito e diz: é isso mesmo, Braziul, o da cafetina que derrubou o governador. Ouvi gente reclamando porque a Infraero deu tratamento VIP à moça na chegada ao Brasil, com furgão exclusivo e despiste da imprensa. Merecia carro de Bombeiros e desfile a céu aberto. Quem já derrubou um governador nos States que atire a primeira pedra.
Demorei a falar disso porque é tema delicado; nossos corpos nos pertencem, e, se, por falta de opção, cultura ou por gosto, as moças querem aproveitar o capitalismo e se transformar em mercadoria, não será este Sítio quem vai condenar as praticantes de uma profissão tão, tão bíblica.

E, aí, o Veríssimo, esse filósofo da contemporaneidade disfarçado de humorista, fez a mistura irresistível, juntou bandalheira com etimologia, dois assuntos dos quais não entendo nada, mas que me chamam uma atenção tremenda. Qual a origem da palavra cafetina?, pergunta ele, nas páginas do Estadão.

Etimologia, como se sabe, é campo aberto para chute de todo jeito; já vi picareta viajar em interpretações estapafúrdias após consulta apressada ao dicionário e, flagrado na besteira, botando a culpa no pobre do Houaiss. Dúvida do Veríssimo também é coisa séria, e, só por isso, me arrisquei em uma investigação nesse terreno perigoso (de perigo, do latim pericullum: ensaio, tentativa, prova, ensaio literário; risco, doença, mal. Pelo menos é o que diz o Houaiss):

***

_ Vejamos, o que o senhor tem aqui? _ perguntei ao sujeito gordinho, calvo, com óculos grandes e ar inteligente que havia entrado em meu escritório naquela tarde modorrenta, estragando a modorra e espalhando as baratas, que se refugiaram na pilha de pastas do arquivo morto, ao lado da porta.


_ Estou à procura da etimologia da cafetina; tudo que sei é que vem do lunfardo, mas não fiquei muito satisfeito com essa explicação _ respondeu o sujeito, sem me olhar direito.

_ Hummm _ resmunguei, olhando para umas gotinhas de suor na cabeça do careca, que, não sei porque, me parecia ter cara de saxofonista _ Acho que conheço esse tal de Lunfardo. Me falaram desse tipo quando eu andava por uns lugares barra-pesada em Buenos Aires. Só tem uma coisa, camarada: isso não vai ser barato.

_ Dinheiro não é problema _ me disse o sujeito com cara de saxofonista, ganhando minha simpatia imediata. Eu disse que ele tinha um ar inteligente? Vi, pelo olhar, que era um intelectual. Geralmente não gosto de intelectuais, mas aquele sujeito tinha charme.
A grana ele me explicou ganhar de jornais e palestras que dava pelo país afora (as palestras, não os jornais). Aquilo me pareceu suspeito, o sujeito era claramente um tímido, não parecia capaz de palestrar por aí. Mas não costumo questionar a origem do dinheiro dos meus clientes, muito menos quando passa ao meu bolso em grande quantidade. Fui a Buenos Aires, para encontrar o tal Lunfardo, única pista da perdida etimologia da cafetina. Só no avião, quando mastigava uma barra de cereal, percebi que nem tinha perguntado o nome da tal alcoviteira. Parecia enrolada num caso com um governador estrangeiro, provavelmente algum paraguaio. Se a pista do Lunfardo não desse certo, quem sabe eu teria de esticar a viagem a Assunção.
Após uns contatos, soube que o Lunfardo era um elemento entrosado. "Tem ligações com o italiano, o alemão, o espanhol", me contou uma jovem simpática, loura pintada, muito maquiada, com quem encontrei em uma livraria, onde eu havia entrado à procura de algum lugar onde tomar café. A loura era até bonitinha, mas logo vi que buscava casamento ("estoy sin novio", me disse, lambendo os lábios, com um sorriso maroto. "Vá continuar sin noivo si depiender de mi, mas qualquer cosa estamos allá" respondi, com meu espanhol aprendido na vida dura, e meu melhor sorriso canalha. Ela fechou a cara e saiu da livraria batendo o salto alto. Estranho, geralmente meu sorriso é infalível).

O único italiano que eu conhecia trabalhava perto dali, na Universidade de Buenos Aires. Rocco Carbone era seu nome, e era doutor, e calabrês. Vi que estava com sorte: ele não só conhecia o tal Lunfardo como sabia até o que era etimologia, o negócio da cafetina que meu cliente procurava e que, na pressa até esqueci de perguntar que diabos era. "Tem a ver com língua", me disse. Eu já desconfiava, ninguém se torna cafetina de sucesso sem diversificar os negócios na única atividade humana em que não é desleal acertar abaixo da linha da cintura.

Rocco vasculhou a estante repleta de dossiês, e me deu um, do qual não entendi patavina. No título, falava de um certo Roberto Arlt ("esse Rocco", pensei, olhando compadecido a confusão de consoantes atropeladas no sobrenome "nunca vai aprender a datilografar direito").
Cheguei a pensar que Roberto Alto seria o verdadeiro nome do Lunfardo, ou talvez, tivesse alguma relação com a cafetina da etimologia? "Não", me explicou o Rocco, num espanhol do qual eu conseguia compreender um terço. Pelo que entendi, o Roberto não tinha nada a ver com a cafetina, embora andasse com rufiões e malandros de rua. Também não era o Lunfardo, mas era íntimo dele, me garantiu o calabrês, antes de me botar para fora do gabinete, irritado com minha incapacidade de entender seu espanhol incompreensível.

Na porta, me deu o dossiê, no qual havia marcado um trecho, em tinta amarela:

_ Entregue a seu cliente, ele vai entender, porca miséria!

Temperamentais, esses italianos. Então o dossiê trazia informações de um íntimo do Lunfardo, hein? Eu estava chegando perto, podia sentir o cheiro. Mas minha animação evaporou, quando pus os olhos no que o maldito Rocco havia grifado no tal dossiê:

Cafishio: la prostitución en Arlt es un rasgo de alta circulación. O cafisho, en su forma sincopada. Con sus variantes: cafiolo, canfinflero, cafife. O las formas vésricas shofica y fioca217. Palabras de fuerte economía y eminentemente connotativas. ¿Por qué? De inmediato: porque se refieren a un vividor o un aprovechador, pero también al rufián que sólo explota a una mujer (Gobello 1998: 54). Y dos: se distinguen de caften, palabra que procede probablemente de kaftan, voz turca de origen persa (ibid.: 49; también, Teruggi 1998: 63) y que significa rufián u hombre que tiene varias mujeres. Y como si esto no alcanzara para demostrar la economía de esta palabra, su eficacia designativa y sus connotaciones, valga recordar también que:
Procede del ya perdido cafifero y éste de la expresión tirar el cafife, que parece corresponder al germanesco tirar el cairo y al véneto tirar il calesse: hacer el rufián.

O texto era grafado no mesmo espanhol ininteligível falado pelo Rocco (e por quase toda a Buenos Aires, aliás, nem parecia a mesma língua falada pelo dono do restaurante espanhol, no térreo do prédio onde funcionava meu escritório). Vi, porém, que lá estava a palavra Caften, masculino de cafetina. Falava também em uma turca de origem persa.

A coisa estava se complicando. O Oriente Médio estava envolvido no negócio. Devia ser a tal da Tríplice Fronteira, eu havia lido sobre isso. Hoje em dia não há crime que não tenha alguma conexão com o terrorismo internacional; fiz bem em cobrar pela tabela mais alta, pensei. Talvez eu fosse mesmo obrigado a comprar uma passagem para Assunção.
Quando telefonei ao cliente, para contar dos resulatdos da investigação, ele não entendeu, mas me pediu que enviasse a página marcada por Rocco, por fax, para um número em Porto Alegre. Minutos após o envio, ele me ligava, eufórico.

_ É isso! É isso! O lunfardo foi buscar o caften e caftina no turco, na fala dos imigrantes ou dos comerciantes! O Houaiss não registra, mas Cafta é também uma roupa turca, de sultões, vestida em tribos de homens com muitas mulheres! Por metonímia e por metáfora, acabou designando o cafetão, na gíria portenha!!!!


Meu cliente havia enlouquecido. Cafta, qualquer um sabe, é espetinho de carne em restaurante árabe. De que imigrantes ele estava falando? Que comerciantes? Que tribos de homens com muitas mulheres? Seriam amigos da cafetina? De onde saiu esse Uais do registro? E de que cafetão ele estava falando? Nisso que dá me meter com um intelectual; foi receber um texto em espanhol arcaico e o cara desandou a falar grego.

Mas me mandou direitinho a grana combinada, nem quis que eu fosse ao Paraguai. Fiquei sem saber se a cafetina encontrou a etimologia perdida, mas também sou pago para não fazer perguntas.

As baratas ainda saíram ganhando, terão migalhas pelo resto do mês. E uns pedaços de espetinho de carne, que comprei no árabe no fundo da galeria, no térreo do prédio.



Cineasta é uma merda. Me desculpem os doutos frequentadores deste Sítio, o assunto não admite sinônimos. Acontece que o Marcelo Madureira, com a verve escatológica ao gosto do Casseta e Planeta, comparou os filmes do Glauber Rocha a excremento . Os cineastas, corporação que se leva a sério e, pelo jeito, só gosta das próprias piadas, acionaram Deus e o Diabo na Terra e saíram em defesa furibunda do ilustre defunto. A família até pensa em processar o Madureira.

Não concordo com o Casseta, mas ele está coberto de razão ao manifestar o que pensa, e tem o direito de dizer as merdas que lhe vierem à cabeça. O que querem os cineastas? É ataque preventivo? "É evidente, se deixam alguém chamar o Glauber, logo ele, de merda, imagine o que não falarão do Jabor, do Bressane, desses bostas todos, ainda em vida", comentou Oliveira, o canalha da redação, sacudindo de riso.
É isso aí Madureira, titica neles.

O que mais me chama atenção nessa sharia levantada pelos cineastas do torrão pátrio é que, semanas atrás, li no Estadão uma entrevista da musa do Cinema Novo, a insuperável Helena Ignez, que foi mulher do indigitado Glauber e o trocou por outro mito, o Rogério Sganzerla. Explicou a Ignez que um dos motivos da troca foi o desempenho pífio do grande Glauber no campo amoroso.
Era um machista, ruim de jogo, grosseirão e incompetente na cama. Isso diz a Ignez, que tem elementos para dar lá a opinião dela e garante que só descobriu o prazer quando encontrou o Sganzerla. Aliás, um grande cineasta, não sei a opinião do Madureira.
"Fomos extremamente companheiros, mas ele era bastante machista. Fazia parte de uma geração que cresceu freqüentando prostitutas e que vai para o sexo sem intenção de dar prazer", explicou elegantemente a musa, para a jornalista Fabiana Caso.

A Ignez avacalhou o cara, ninguém na terra ficou em transe, ninguém se levantou, ninguém defendeu o morto. Sim, ela não estava exatamente falando da obra dele (se bem que, no caso da Helena Ignez há até uma obra do Glauber com ela nesse campo citado, a boa Paloma, filha de ambos, que só merece elogios). Mas, de certa maneira, o chamou de merda, e num território que, tenho certeza, incomodaria o Glauber muito mais. Porque ninguém duvida que as aparições dele no programa Abertura foram algumas das melhores coisas que já surgiram na TV brasileira, e incompreensão para a excelente obra do baiano já era fichinha quando o cineasta estava vivo; ele sabia quem tinha razão.

Se algo doeria em Glauber, seria essa avaliação da ex-mulher. Do Madureira, ele poderia, no mínimo, dizer que é tudo despeito, porque os filmes do Casseta se mostraram uma bomba intragável, e não deixarão saudade na história do cinema brasileiro.
A inveja, diria Glauber, é uma merda.
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2º clichê - Diversão de humorista é ver o público sair do sério. O Madureira, velho provocador da imrpensa, deve estar se divertindo com a gritaria. E muita gente boa, que nunca engoliu o cinema novo, ameaça sair em coro com o casseta. O grande Marona já endossou: o cinema do Glauber era uma caca mesmo, brada ele, AQUI. Daqui a pouco vai sobrar até pro velho Mario Peixoto. "Filme mais chato que o Limite, nem A Noite, do Antonioni", cospe o Oliveira, aqui do lado.


Bear market (a hora da onça beber água)

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"Lembre a sexta-feira, 14 de março de 2008: foi o dia em que o sonho de um capitalismo de livre mercado morreu. Por três décadas, nós nos deslocamos na direção de sistemas financeiros movidos pelo mercado. Por meio da sua decisão de resgatar do Bear Stearns, o Federal Reserve, a instituição responsável pela política monetária nos EUA, o protagonista-chefe do capitalismo de livre mercado, declarou esta era encerrada. Ele mostrou com atos a sua concordância com a observação feita por Joseph Ackerman, executivo-chefe do Deutsche Bank, de que "já não acredito no poder de autoterapia do mercado". A desregulamentação atingiu os seus limites. "




Artigo interessante, hoje, no Valor. Vale a pena ler o resto, AQUI.




Quando comentei o assunto neste Sítio, teve gente acusando jornalista de não entender nada mesmo de economia, opinião com a qual tenho de conrodar. Martin Wolf é colunista do Financial Times. Escreve em inglês, língua de maior credbilidade nos meios financeiros.

Fez também, e daí?

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O novo governador de Nova York, David Paterson é, ou diz que foi, do balacobaco. Finalmente os EUA têm um político que dispensa tablóides sensacionalistas; é ele próprio o autor das manchetes escandalosas a respeito de si mesmo. Depois de assumir o posto com a revelação de que traiu, sim, a mulher, e foi traído por ela, agora abre a boca para declarar: fumou, cheirou, e não está nem vendo.

Tá lá, no G1:

O governador do Estado de Nova York, David Paterson, admitiu que consumiu cocaína na juventude. Ele está no cargo há uma semana, quando substituiu Eliot Spitzer, envolvido em um escândalo de prostituição, Paterson, que assumiu o governo em 17 de março, aparentemente com uma imagem limpa, informou ao canal de televisão NY1 que consumiu tanto maconha como cocaína na década de 70.
"Diria que tinha 22 ou 23 anos. Provei um par de vezes, sim", admitiu Paterson, de 53 anos, sobre o consumo de cocaína. A lua-de-mel política de Paterson, que é cego, terminou rapidamente logo após sua posse, quando ele e sua esposa admitiram ter mantido relações extraconjugais

Na semana que vem, pretende revelar que, além de ter experimentado o homossexualismo e freqüentado festas com troca de casais, foi adepto do bestialismo e da pedofilia. Mas que, agora, não recomenda isso a ninguém. A pedofilia, claro.

Oliveira, o canalha da redação, que pretendia requerer título eleitoral no Rio, para votar no Gabeira, mudou de idéia: anda perguntando como faz para ganhar um green card e mudar-se para Manhattan. "O cara nunca usou tanga de crochê, mas, nitidamente, tem aquilo roxo, ainda que ele mesmo não possa atestar in loco", me explicou o sacripanta, que é um cínmico, mas não resiste a um político sincero.

Ah, a imprensa anti-burguesa...

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Elas são mulheres, têm cada uma seu fã clube e, claro, foram assunto de toda a imprensa na semana passada, essas pré-candidatas à prefeitura de Porto Alegre.

"Aliás, esse olhar de Capitu da Manuela do PC do B, não sei não", comenta o Oliveira, o canalha da redação, olhando a tela do computador. "Eu se fosse o deputado dela amarrava a moça com boleadeira, botava as barbas de molho, sei lá. Dormir tranqüilo é que não dormia", diz ele. Um invejoso, esse Oliveira.

Mas, por sugestão do canalha, leio a Carta Capital que tratou do mesmo assunto. Os assinantes do PSOL e do PC do B devem estar meio cabreiros com a revista. A matéria, assinada pelo competente Maurício Dias fala bastante... da candidata do PT. Das outras, nem o nome:

"As mulheres estão em ascensão na esquerda. Além da petista, duas outras mulheres vão estar na eleição de Porto Alegre. Mas essa vitória, além do aspecto cultural – contra o celebrado machismo gaúcho –, tem um importante significado político. Maria do Rosário explica: 'O PT isolou-se no Rio Grande do Sul a partir de políticas erradas, a exemplo do que ocorreu no governo Olívio Dutra, quando houve o rompimento com o PDT'. "

"Duas outras mulheres?E elas não têm nome?", pensarão os leitores gaúchos de esquera da Carta Capital. Faz sentido. A imprensa golpista deve ter citado a Manuela e da Luciana Genro só porque, como se sabe, o PC do B e o PSOL estão fazendo o jogo da burguesia, atrapalhando a revolução promovida pelo PT.

O Pinto e o Padre

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A primeira autoridade, a gente nunca esquece. Quando cheguei a Brasília, perto do fim do século passado, a autoridade, para mim, tinha o nome de Almir Pazianotto Pinto, ex-advoagdo de sindicatos, então ministro do Trabalho da Nova República, a que seria de Tancredo Neves e acabou sob os bigodes de José Sarney.

Nas mãos do Pazzianotto estava a discussão da nova Lei de Greve, assunto de interesse então (com regras que, hoje, o governo Lula tenta aplicar às greves do serviço público, brincadeiras da História). Eu, repórter, em uma redação aterrorizada e incentivada por Ricardo Noblat, levei a sério a orientação de atazanar o ministro, e, claro, não ganhei a simpatia dele. Formal, centralizador, um tanto autoritário, Pazzianotto era personagem na sala de imprensa de histórias como a do dia em que descobriu faltar um sobrenome em um punhado de impressos do ministério, para divulgar sei lá que iniciativa burocrática. Um barnabé econômico havia posto "Almir Pazzianotto", e ficou faltando justo o que não devia. O ministro reclamou, furibundo, com a secretária:

_ Ué???!!! Cadê meu Pinto???

E ela, ingênua:

_ E o senhor usa o Pinto, ministro?

_ Claro, herdei o Pinto do meu pai!!!

Assim como o finado Tancredo, o muito vivo Pazzianotto, com Pinto e tudo, saiu das brumas de minha memória em grande estilo, quando eu navegava, neste fim de plantão de quinta-feira, no blogue da Embaixada de Portugal, do meu amigo embaixador Francisco Seixas, e descobri que criraram uma seção toda dedicada ao padre Antônio Vieira, leitura imperdível (a seção e o próprio Vieira, claro).
Acontece que neste ano se comemoram 400 anos de nascimento do padre Vieira, religioso escritor e político astuto, que foi lembrado por poucos, entre eles o ex-ministro, que está lá, no blogue, citando conhecidos e excelentes trecho do Vieira. Grande Pazzianotto, me valeu o dia:

"Sob distintos pontos de vista é insuperável a obra sacra e documental deixada por Vieira. São 15 volumes de sermões e três de cartas, escritos esparsos, alguns extraviados e outros não concluídos, apesar de haver trabalhado doente e quase cego até as vésperas da morte, em 18 de julho de 1697, aos 90 anos de idade. Algumas das obras-primas de Vieira permanecem surpreendentemente atuais, como a Carta de 1654, em que D. João IV pede-lhe que opine sobre haver na capitania do Pará dois capitães-mores ou um só governador. Responde o jesuíta que 'menos mal lhe parecia que houvesse um só ladrão do que dois”, e que “mais dificultoso serão de achar dois homens de bem do que um'.

Invoca, a seguir, o romano Catão, a quem fora indicada a designação de dois comandantes para provimento de duas praças-fortes. Redargüiu o imperador que nenhum dos dois nomes o satisfaziam, 'um porque nada tinha; outro porque nada lhe bastava'. Conclui Vieira, 'e eu não sei qual a maior tentação, se a necessidade, se a cobiça'.

Revestido do mesmo ímpeto acusatório é o sermão do Bom Ladrão, pregado na Igreja da Misericórdia de Lisboa, em 1655. Narra Vieira que, tendo D. J oão III solicitado a São Francisco Xavier que o informasse sobre o estado em que se encontravam os interesses portugueses na Índia, respondeu-lhe o santo que ali o verbo rapio (arrebatar, roubar, pilhar, saquear) era conjugado em todos os tempos e modos. Furtava-se no indicativo, imperativo, mandativo, optativo, conjuntivo, potencial, permissivo, infinitivo, 'porque não tem fim o furtar com o fim do governo, e sempre lhe deixam raízes em que se vão continuando os furtos'.

Acrescentou Vieira: 'Não lhes escapam os imperfeitos, perfeitos, plusquam perfeitos e quaisquer outros, porque furtam, furtaram, furtavam, furtariam e haveriam de furtar mais, se houvesse'.

Numa época em que a moralidade pública baixou a níveis críticos, e tanto a política como as confissões religiosas transformaram-se em fontes de súbito e duvidoso enriquecimento, não é de surpreender o silêncio que se fez em torno do quarto centenário de nascimento do extraordinário e santo jesuíta. Padre Vieira, com efeito, caiu no esquecimento. "


O resto do texto está AQUI. E a parte do blogue da embaixada dedicada ao Vieira é essa AQUI.



***

Estou devendo um texto sobre a crise americana, não esqueci. Mas gastei no plantão o ânimo de tratar de coisa ruim. Devo, não nego, pagarei em breve.

Agora é que ninguém segura esse Aécio

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Pensava eu em comentar notícia que me impressionou, mas o Hermenauta sacou primeiro. Copio, desavergonhadamente:





À meia noite encarnarei no teu PMDB
Deu no Estadão:
Túmulo de Tancredo Neves é destruído parcialmente em MG
A peça de mármore foi quebrada e, a princípio, as hipóteses são ato de vandalismo ou acidente

Pelo visto ninguém ainda pensou no pior:
_ Ele pode ter saído!

Ando acompanhando a crise nos EUA por publicações eletrônicas que devem custar uma fortuna, mas que amigos generosamente compartilham com esse húmil repórter assalariado (sim, sou um dos últimos assalariados do jornalismo; a maioria dos meus amigos, por algum fenômeno radioativo contemporâneo, se transformou em pessoa jurídica, pobres mutantes).

Numa dessas, botei os olhos na publicação do John Williams, quase homônimo daquele sujeito que ficou para a história como "pai" do Consenso de Washington, só porque fez uma listinha do credo compartilhado pelos paladinos das reformas econômicas liberais. O cara é bom, a começar pelo título da carta eletrônica dele, "Shadow Government Statistics", algo como "As estatísticas ocultas do governo". O melhor mesmo é o subtítulo: "analysis behind and beyond government economic reporting". Adorei o troço, pensei até em copiar, até que o Oliveira, o canalha da redação, traduziu mais rápido e me alertou: "Ô Sergio Leo, 'análise atrás e além...'? Isso é coisa de proctologista".

Insuportável o Oliveira. Mas está melhor que certos colunistas arrendados da grande imprensa; dia desses, um traduziu "brain dead leftist", algo como esquerdista descerebrado, em português, por "esquerdista clinicamente morto". Por aí se mede os desvios que as idéias importadas percorrem na cabeça dessa turma mal educada.

Volto em breve para falar, afinal, do que diz o John Williams.

Para afogar os liberais

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Muita gente, por motivos ideológicos, não gosta desta senhora, mas eu, que escolho muito bem meus inimigos, só lembro das lições de profissionalismo que já tive trabalhando ao lado dela, e, apesar de discordar com freqüência da moça, e me irritar mesmo com alguns comentários dela em matéria de política externa, devo dizer que a respeito muito; a mulher é uma máquina: séria a ponto de ser insuportável, de madrugada já está na televisão, durante o dia faz rádio, tv, blogue e jornal e viaja como piloto de linha aérea. Pois hoje ela faz o seguinte comentário sobre a nova tropeçada da economia nos Estados Unidos, onde um grande banco faliu e foi amparado pela apavorada mão do Banco central deles lá:

O Fed deu dinheiro para pagar os rombos do Bear Stearns e empurrou um outro banco, o JPMorgan, para comprar o que restou de bom do Bear. Mas o que restou foi menos de 10%. O BC entrou com dinheiro do contribuinte para salvar o banco e Henry Paulson participou ativamente das negociações. Aquela história de economia de mercado se regulando sozinha, com o mercado resolvendo tudo, foi simplesmente arquivado pelos americanos. O que os Estados Unidos fizeram foi um intervencionismo na economia.

O resto do comentário da Míriam está aqui. Está cada vez mais difícil encontrar um país que acredite em suas próprias recomendações a respeito do livre mercado e da redução do Estado.

Seria muito dura a vida dos liberais, muito dura, não fossem alguns deles escandalosamente bem remunerados. No Brasil, claro, tem quem ainda acredite na propaganda dessa turma, de graça.

Dureza mesmo será a vida do Banco Central americano. Os tubarões do mercado, como os aquáticos, não podem sentir o gosto de sangue, que alucinam. E quem anda bracejando desesperadamente neste mar, agora é o Lehman Brothers. Que Iemanjá e Santa Edwiges os protejam.

Stand up filosófico

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"Esse rapaz, o Platão, vive falando no mito da caverna, e eu já realizei o sonho da casa própria!"

Esse é o Nélson, um dos melhores humoristas da blogolândia. O restante do stand up do Aristófanes está AQUI.


Pedro Américo usou instrumentos fotográficos e até um projetor para pintar, em 1875, sua impressionante "Batalha do Avahy", aí em cima, que já deu muita briga entre os contemporâneos de nossos tataravôs. É uma tese polêmica, intrigante para os que ainda reclamam dos pintores contemporâneos chegados a esse tipo de recurso, e, se verdadeira, mostra que o artista, louvado pela sua habilidade técnica, teve uma mãozinha da tecnologia para deslumbrar o público.

Seguindo a linha de David Hockney, que inflamou discussões ao apontar inumeráveis e insuspeitos casos de artistas clássicos que se apoiaram em recursos da fotografia para criar suas obras, antes mesmo da invenção do daguerreótipo, o pesquisador Vladimir Machado faz um trabalho de detetive aproveitando a aplicação de técnicas contemporâneas de restauração à tela do Pedro Américo, e mostra indícios convicentes de que o quadro gigantesco, da bunda do cavalo ao rosto do Duque de Caxias, foi montado como uma colagem de imagens projetadas sobre a tela antes da aplicação da tinta. (não, não há referências a códigos cabalísticos nem à Ordem dos Templários ou coisa parecida na obra do Pedro Américo, esqueça esse maldito código da Vinci).

Já se dizia que Américo teria usado fotografias que começavam a se popularizar, na época, o que desmentiria o preconceito contra ele, acusado por uns e outros na historiografia oficial de pintor conservador, ainda que claramente influenciado pelo movimento romântico. O cara estava na ponta tecnológica, diz o trabalho de Machado, com argumentos interessantíssimos. Para quem gosta do tema, uma leitura deliciosa. Está na revista Dezenovevinte, especializada na arte brasileira do século XIX e da virada do século XX, que recomendo com o empenho de um Caxias. Os acadêmicos (pesquisadores, digo) vêm buscando fontes primárias, deixando de lado a mera repetição de argumentos de obras anteriores, fazendo um trabalho adnmirável de pesquisa sobre momentos antes mal tratados da arte brasileira. Negócio bacana.
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Mas desconfio que a próxima batalha com o Paraguai poderá exigir câmeras submarinas, ou à prova de choque. Vai saber.

O Quinta Coluna

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Visto por dentro, o mundo da política é mesmo um cada qual por si e salve-se quem puder, mas o César Maia, na propaganda eleitoral do DEM, que ouvi ontem na CBN, mostrou que é mesmo do balacobaco. Graças à eficiência e ao combate à corrupção, explica ele, as obras contratadas no Rio de Janeiro tem preços, no mínimo, inferiores em 30% às de "qualquer outro lugar no país".

A fala bacana do prefeito maluquinho é seguida de outra do correligionário José Roberto Arruda, governador do GDF, anunciando obras e obras no metrô de Brasília, onde pretende derramar mais R$ 600 milhões ou quantia parecida.

Pelo que indica César Maia, Rio à parte, há superfaturamento nas obras de todas as outras cidades e nos Estados brasileiros. Pela lógica maiista, nós cidadãos de Brasília deveríamos cobrar do Arruda um corte de, pelo menos, uns R$ 180 milhões nesse metrô anunciado na propaganda do DEM.

Mal posso esperar pela próxima propaganda com novas revelações do César Maia,grande cara, sobre os descaminhos das administrações do partido dele no país.

Favoritismo

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Nesa confusão dos brasileiros barrados na Espanha, um detalhe chama a atenção. Alegam barrar estrangeiros porque competem com os espanhóis no apertado mercado de trabalho de lá. Preferem barrar as moças jovens desacompanhadas porque suspeitam que vão para lá para entrar na prostituição. Então a preocupação do governo europeu é com a competição estrangeira contra as prostitutas locais, é isso?

Categoria poderosa, essa a das piranhas espanholas.


Gosto da Espanha, adoro a cultura espanhola, detestaria me indispor com os espanhóis, e fico ouvindo uma vozinha que me diz "por que no te callas? por que no te callas?". Mas não dá opara ficar calado quando o governo espanhol começa a barrar indiscriminadamente a entrada de brasileiros no continente europeu.

Experiência pessoal é fogo. Em Miami, no aeroporto, pós-11 de setembro, um senhor verifica meu passaporte, vê minha foto com barba, olha meu rosto escanhoado e me pede para que saia da fila. Me encaminha até um grupo de policiais mal-encarados, que, educadamente, verificam minha bagagem de mão, pedem para que eu me sente em um banquinho, passam delicadamente um aparelho detetor de sei lá o que pelas minhas pernas. Uma moça me pergunta o que é um pacotinho que trago na mala. São palhetas para saxofone, explico. "Ah, o senhor toca saxofone?", diz, sorridente. "Se eu respondesse que sim, na frente de algum vizinho, ele lhe diria indignado que não, de maneira nenhuma", respondi. Os policiais, riem, me devolvem passaporte, pertences, e me liberam, com um pedido de desculpas pelo transtorno.

Madri, 1992. Policiais mal encarados me detém, com minha mulher, no desembarque, no aeroporto de Barajas. Nem olham para mim, e pedem ríspidamente para que minha mulhar acompanhe uma policial até não sei onde. Espero, sob a vigilância de um sujeito mal encarado e mal barbeado, enquanto minha mulher, como me contou ela depois, era submetida a uma revista minuciosa, de alcance ginecológico. Não encontram o que quer que esperavam encontrar no estranho _ para eles _ casal brasileiro, ele barbudo com cara de iraniano ou descendente árabe sul-americano; ela branquíssima, ruiva e de olhos verdes. Nos liberam sem um comentário, um cumprimento, contrafeitos. Voltei depois à Espanha, nunca mais tive problemas. Pretendo voltar.

Mas, sei lá se não escapei de sofrer a indignidade a que o governo da Espanha vem submetendo brasileiros hoje em dia, por "não se enquadrarem nos critérios da União Européia". Aparentemente esses critérios são, atualmente: não ser mulher de pele escura, nem ser jovem aventureiro sem 70 euros para cada dia que pretende ficar em continente europeu, e ter dinheiro para hospedar-se em hotéis. Só que não adianta cumprir os requisitos, se o brasileiro em viagem simplesmente provocar, no policial de plantão, a amargura de alma que o magnífico _ ainda que amigo de facistas _ espanhol Ortega y Gasset via nos conterrâneos, cuja "moradia íntima", dizia ele, "foi tomada há tempo pelo ódio, que vive ali artilhado, movendo guerra ao mundo". O policial da imigração tem poder para te arrebentar a viagem, se não for com sua cara. E, a Espanha, eles não têm ido com a cara de gente a pampa.

No caso, a guerra espanhola não é contra o mundo, como exagerava o filósofo, mas contra o que seus sabujos da Imigração acreditam ser a escória do mundo, os brasileiros e outros latinos que chegam à Europa, muitos deles , invertendo o fluxo que, no século passado, levou centenas de milhares de espanhóis a buscarem melhores oportunidades de vida na América Latina.

Retaliar, barrando turistas espanhóis que vêm ao Brasil só criará problemas para os pobres coitados da classe média espanhola que, contra todos os preconceitos e avisos sobre a violência nas cidades brasileiras, acreditaram que aqui há belezas naturais e gente simpática. Há outro tipo de espanhol que levaria mais eficientemente a mensagem de desagrado do Brasil ao governo da Espanha.

Ora, não há classe com maior acesso aos corredores do poder que a emprsarial. E os empresários espanhóis estão aqui, ao nosso lado, contentes com as oportunidades do mercado brasileiro, dispostos a satisfazer as necessidades do consumidor brasileiro; certamente tão sensíveis quanto nós às maldades feitas por oficiais de imigração, que tratam turistas ou sonhadores brasileiros como lixo, trancados sem seus telefones celulares em salas sem alimentação, sem condições decentes de higiene, sob tortura psicológica.

Falar com embaixador adianta pouco. Além do desgosto de ouvir uma explicação cínica, quem manda nesse assunto não é o ministério de Relações Exteriores, mas o do Interior. Que, aparentemente, não se preocupa com um punhado de basbaques do terceiro mundo que, vejam só, querem fazer turismo, ou, pretensão das pretensões, apresentar trabalhos em algum congresso europeu. Os diplomatas sérios da Espanha devem estar constrangidos, mas pouco fazem além de entrar numa disputa de burocracias por lá. Já os empresários, as empresas, essas têm acesso, e voz grossa.

No Brasil, os espanhóis, hoje, estão estão na aviação (Ibéria), no setor bancário (Santander, BBVA), no mercado editorial (Planeta, Alfaguara, Editora Moderna-Santillana), hotéis (Sol-Melliá), na telefonia (Telefónica, de péssimo desempenho, aliás, nos Procons da vida), e em muitos setores mais.. Em meu modesto papel de moderadíssimo consumidor, fico imaginando o que aconteceria se eu me abstivese de consumir produtos espanhóis ou de empresas espanholas enquanto a Espanha não mostrar que, em seu legítimo direito de conter a crescente onda de imigração para a Europa, pode tratar os brasileiros como gente, e não como escória. Fico imaginando o que aconteceria se muitos outros brasileiros passassem a fazer o mesmo.

Chávez não se atreveria

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Volto ao assunto andino, perigo de guerra, essas coisas, aproveitando para exibir a bem guarnecida retaguarda colombiana, cobiçadíssima na vizinhança. Mais detalhes no Ralações Internacionais, AQUI.

Botei coisa nova sobre isso, lá no Ralações Internacionais. AQUI.

Musica a mancheias

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Essa é pro Milton Ribeiro, melômano e revisor querido. Mais um vídeo do Lasse Gjertsen, desses gênios que o You Tube nos traz.


continua aqui:

Cobaias humanas beberam vinhos de diferentes recipientes e diferentes preços (de US$ 5 a US$ 90), e sensores conectados aos cérebros constataram que os vinhos mais caros proporcionavam maior prazer. O que as cobaias não sabiam é que estavam bebendo o mesmo vinho. Como acreditavam que os vinhos mais caros certamente eram os melhores, os bebedores fizeram suas papilas gustativas comprovar a tese e sentiram diferença onde não havia nenhuma.

Deve ser por isso que tantos leitores adoram certas porcarias publicadas nos jornais e na Internet: convencidos de que estão consumindo coisa boa, saboreiam batata podre com o prazer de quem come trufas do Piemonte. Aviso aos leitores: esse Sítio é caro, muito caro.

Publicada no Boston.com. ao qual cheguei pelo Arts&Letters Daily, a pesquisa sobre os vinhos confirma o que outros experimentos científicos já haviam mostrado: as expectativas influem na maneira como as pessoas sentem o mundo. Quem ama o feio, bonito lhe parece, essas coisas. Outra experiência mostrou que, submetidas a choques elétricos, pessoas diziam sentir menos dor quando recebiam uma aplicação de um creme inócuo que pensavam ser um anestésico. E, de fato, sentiam menos dor, como comprovaram scanners aplicados ao cérebro.

Poder da mente, camarada. Os filósofos, ébrios ou abstêmios, vêm se estapeando por isso há séculos. Ponto parao velho Kant, esse idealista incorrigível. Deve ser a tal intencionalidade da consciência, de que falava o padre Brentano. É claro que essa capacidade de moldar o mundo pelas expectativas da mente tem limites. Experimente dar soda cáustica a alguém jurando que é um Château Pétrus da melhor safra, e entenderá o que digo.

A experiência do vinho explica, porém, muita coisa, como a aversão de tanta gente à arte contemporânea e o êxtase que ela desperta nos iniciados. Não há como sentir prazer com objetos feitos de gordura e feltro, por exemplo, quando se suspeita estar em frente a uma impostura bancada pelos esnobes do mundo artístico. Mas, quando alguém se envolve com a história da cultura, ou joga fora os preconceitos sobre o que deve ou não ser Arte, é possível ter epifanias até com um urinol.








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Presença de Lolita

Já pensaram se o velho amigo de Kafka, Max Brod, decidisse atender ao pedido do escritor e queimasse os originais ainda não publicados do mestre tcheco? E se o mundo estivesse povoado de sacanas como o Alex Castro, incentivando: "queima! queima! " O Castelo, O Processo, América, todos queridos amigos cá em minha biblioteca estariam no inferno das obras não lidas, pobres nós.

Pois o Nabokov, o tarado de Lolita, tem seus dias de Kafka. E um filho dele ganhou o papel de Max Brod contemporâneo, só que ainda não decidiu se publica ou manda uma obra do pai para o forno.

O lento processo de aterrisagem, nos últimos dias de férias, inclui a leitura dos jornais acumulados (então o dólar continua derretendo? Cuba está sem Fidel mas ninguém, nem fora do Cuba o aposenta? Há uma reforma tributária em marcha? Evo Morales partiu para o tudo ou nada? Puxa vida, morreu o Gerchman?). E uma passeada inevitável pelas minas da Intetnet, como o citado acima Arts&Letters Daily, pena que não o traduzam. Foi lá que vi também essa história do Nabokov, que saiu na Slate. Jornalista e escritor afamado, Ron Rosenbaum conta que se meteu numa discussão sobre o destino de "Os Originais de Laura", livro inacabado de Nabokov, que ele, no leito de morte, pediu ao filho para incinerar.

O filho ficou numa dúvida hamletiana, ou melhor, freudiana (aliás, o Arts&Letteres tem também um belo artigo sobre a exposição do Lucien Freud no Moma, mas vamos ignorar essa). Queima ou não queima o livro do pai, eis a questão.

Diz o Rosenbaum que se despertou polêmica nos meios literários; uns, como o Alex, defendendo o holocausto da obra; outros bradando pela preservação. Defende o Rosenbaum que o mundo precisa botar os olhos no manuscrito, suspeito de ser uma revisão madura do Lolita, a obra que deu fama ao excelente Nabokov, criou neologismos e deu distinção literária ao amor pedófilo de um sujeito atormentado por uma garotinha sapeca e impúbere.

Dmitri Nabokov deu a entender que vai mandar o livro à fogueira, Rosenbaum cita imitadores de Nabokov e trechos do que pode (ou não) ser a obra em questão. E menciona insinuações (falsas? verdadeiras?) do Dmitiri, que teria conversado com o fantasma do pai e pode estar só esperando ganhar alguma prata com a publicação. Tremenda novela, que, por enquanto, não chegou aos cadernos culturais da Pátria Amada.

Para quem lê inglês, está aqui.



sitio do sergio leo

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