Pedro Américo usou instrumentos fotográficos e até um projetor para pintar, em 1875, sua impressionante "Batalha do Avahy", aí em cima, que já deu muita briga entre os contemporâneos de nossos tataravôs. É uma tese polêmica, intrigante para os que ainda reclamam dos pintores contemporâneos chegados a esse tipo de recurso, e, se verdadeira, mostra que o artista, louvado pela sua habilidade técnica, teve uma mãozinha da tecnologia para deslumbrar o público.
Seguindo a linha de David Hockney, que inflamou discussões ao apontar inumeráveis e insuspeitos casos de artistas clássicos que se apoiaram em recursos da fotografia para criar suas obras, antes mesmo da invenção do daguerreótipo, o pesquisador Vladimir Machado faz um trabalho de detetive aproveitando a aplicação de técnicas contemporâneas de restauração à tela do Pedro Américo, e mostra indícios convicentes de que o quadro gigantesco, da bunda do cavalo ao rosto do Duque de Caxias, foi montado como uma colagem de imagens projetadas sobre a tela antes da aplicação da tinta. (não, não há referências a códigos cabalísticos nem à Ordem dos Templários ou coisa parecida na obra do Pedro Américo, esqueça esse maldito código da Vinci).
Já se dizia que Américo teria usado fotografias que começavam a se popularizar, na época, o que desmentiria o preconceito contra ele, acusado por uns e outros na historiografia oficial de pintor conservador, ainda que claramente influenciado pelo movimento romântico. O cara estava na ponta tecnológica, diz o trabalho de Machado, com argumentos interessantíssimos. Para quem gosta do tema, uma leitura deliciosa. Está na revista Dezenovevinte, especializada na arte brasileira do século XIX e da virada do século XX, que recomendo com o empenho de um Caxias. Os acadêmicos (pesquisadores, digo) vêm buscando fontes primárias, deixando de lado a mera repetição de argumentos de obras anteriores, fazendo um trabalho adnmirável de pesquisa sobre momentos antes mal tratados da arte brasileira. Negócio bacana.
**
Mas desconfio que a próxima batalha com o Paraguai poderá exigir câmeras submarinas, ou à prova de choque. Vai saber.


Grande Sergio,obrigado pelos links, vou dar uma olhada com calma. Costumávamos fazer uns passeios com os alunos ao Museu Nacional de Belas Artes (quando não está em greve pelo plano de carreira da cultura) e os debates junto aos quadros do Pedro Américo sempre eram muito bons.Mas te confesso que meu pintor favorito da guerra do Paraguai é o argentino Candido Lopez. Acho fascinante seus panoramas das batalhas e do cotidiano das tropas.Abraços
Dois comentários bobos, sem seguir os links indicados e portanto provavelmente redundantes:É improvável que Pedro Américo tenha usado slides. Acho que as pessoas estão esquecendo que houve um tempo em que pintores (que ainda não eram "artistas plásticos") sabiam desenhar.Além disso, mesmo que usasse projetor, isso não tiraria o título de conservador de Pedro Américo. Ainda que estivesse na ponta tencológica, usava a tecnologia para embasar melhor uma concepção artística conservadora. É o que importa.De qualquer forma, acadêmico ou não, esse quadro é uma maravilha. :)
Caríssimo Rafael, se te interessa o tema, recomendo que leia o trabalho. O tema de seu primeiro comentário é tratado por ele, de maneira espetacular (claro, sempre como hipótese; mas há ótimos argumentos, que o raio X proporcionou). Quanto ao segundo, o negócio é que, ao recorrer à fotografia, naquela época, Padro Américo revelou uma visão nada acadêmica do fazer da pintura _ ele chega a escrever um artigo em frances para defender o uso da fotografia como base para pinturas da época, contra os mais conservadores que deploravam isso por achar que artista bom mesmo era só o que pintava sem recorrer a esse tipo de artifício; isso é uma discussão moderna. Você tem razão, ele mantém uma rever~encia fortíssima aos cânones acadêmicos, mas, ao mesmo tempo, traz elem,entos do romantismo, tratamentos inovadores da figura (buscados na fotografia...). O negócio é que por muito tempo os acadêmicos brasileiros foram tratados pela crítica como meros copiadores das modas européias, acadêmicos sem brilho e relevãncia para a História da Arte. Os pesquisadores contemporâneos têm feito um trabalho interessante,r ecorrendo a fontes primárias, para mostrar que eles merecm uma atenção maior. Nem todas as pedras dos modernistas de 22 tinham alvo correto.
Mudando o rumo do debate, noto que a nota de Itaipu é assinada pela Sala de Imprensa - Margem Esquerda.Seguindo o curso do rio, é o lado brasileiro, né?Será que do lado de lá não tem ninguém nem mesmo pra assinar uma nota defendendo o empreendimento binacional?