Disparam os preços do arroz, do milho, do petróleo, o dólar cai, cresce o medo de mais inflação no mundo e, por tudo isso, tinha gente no mercado financeiro nos EUA apostando que os juros lá iriam subir hoje.
Juro mais alto = menos consumo, menos inflação, mais dinheiro aplicado nos títulos do governo dos EUA = dólar mais forte. Além disso, a crise financeira, que levou a quedas nas taxas de juros, parecia estar sob controle.
Pois o FOMC, o comitê que reúne os responsáveis pela política monetária nos EUA, preferiu ir contra os pessimistas e baixar os juros.
No mesmo dia, a Standard & Poors acaba de anunciar que classifica o Brasil com grau de investimento _ isto é: o país é sólido e confiável pagador de dívidas. Mostrou mais confiança no país que o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, um que perdeu ontem uma ótima oportunidade de descansar a língua.
Tem grande fundo de pensão que só esperava essa promoção do Brasil para aplicar aqui, já que seus estatutos só deixam botar dinheiro em papéis com grau de investimento.
Vai chover dinheiro de fora no país, derreter ainda mais o dólar, encarecer nossa mão de obra e mercadorias no mercado internacional, sabotar, ainda mais fortemente, nossas exportações.
abril 2008 Archives
Que Glauber, que nada. Merda é o aeroporto da Cidade do México.
No fim de semana conto detalhes. Se valer a pena, falo da cervejinha que tomei em Cancún com um sujeito bastante afável, e entrevistado bem razoável (leia o Valor, nesta terça, ou espere que boto aqui depois): um tal de Thomas Shannon.
Grande brother, big mesmo. Dá entrevistas em inglês, mas faz questão de bater papo em espanhol e português.
Ele quase me convence que um outro mundo é possível. Mas aí vem meu maldito ceticismo.
Aliás, o cara que vem assessorando o Obama para América Latina tem umas complicaçõezinhas aí, coisa de advogado de Deus e do diabo. Oliveira, o canalha da redação, diz que vai ser engraçado se ainda escutar suspiros no Planalto, por saudade do Shannon.
Olha só o que a falta d e infra-estrutura não faz: o governador gente boa Jaques Wagner estava louco para levar pra Bahia o Fórum Econômico Mundial, na versão latino-americana, que aconteceu no Chile, no ano passado, e acontece agora em Cancún, de onde escrevo essas mal traçadas. O Wagner soube, aqui, que não dá pé, o Rio chegou primeiro. Ou melhor, chegou junto, mas acontece que os participantes latino-americanos do Fórum preferem viajar para uma cidade com vôos diretos desde seus locais de trabalho. O Jaques Wagner anda tentando puxar umas linhas aéreas para Salvador, mas acho que é tarde demais.
O curioso é que os governadores da base política do Lula, que hoje disputam o Fórum, eram, há poucos anos, o tipo de convidado preferencial do alternativo Fórum Social Mundial, criado para se contrapor ao Fórum Econômico que reúne líderes mundiais em Davos, na Suíça. Nesse eu nunca fui, e me diz o Clóvis Rossi que não é exatamente uma cobertura das mais confortáveis. Frio é bom para quem pode esquiar na neve. Nós ficamos patinando na notícia.
São muito bacanas essas viagens a lugares turísticos em que você passa boa parte do tempo dentro de enormes hotéis, em que as praias são miragens avistada por vitrines colossais. Para quem gosta de aventura, tem os desafios do nfuso horário: escrever nessas bandas americanas significa ter duas horas ou mais contra você; quando as coisas começam a acontecer, o pessoal já está lá, no Brasil, fechando o jornal, cobrando as matérias que você prometeu.
Se você bater aqui nos próximos dias e não encontrar texto novo, liga não. Dê uma olhadinha nos antigos, garanto que tem coisa não lida, até merecedora de uma atençãozinha.
O Alon, que já até trabalhou no governo Lula, é jornalista sério, inteligente e respeitável, como mostra ao desmontar a farsa do tal dossiê do palácio do Planalto, com perguntinhas simples e bem formuladas, AQUI.
São perguntas objetivas, jornalísticas, e não respondidas até agora pelo Planalto. Como:
Se o banco de dados do Palácio do Planalto é só administrativo, por que o governo não afirmou desde o início que as planilhas impressas sobre despesas de Fernando Henrique Cardoso foram produzidas ilegalmente a partir desse banco e não chamou na mesma hora a Polícia Federal?
Se melhorar a eficiência gerencial é o objetivo do banco de dados de informações sobre despesas com suprimento de fundos na Presidência da República, por que alimentá-lo com gastos de um governo que já terminou? Que tipo de medida administrativa pode ser adotada para aumentar a eficiência de um governo que já se foi?
Vale a pena ler a lista toda. Quando Dilma responder a essas perguntas, se responder decentemente, coisa que duvido, quem sabe eu até conseguirei entender a campanha contra essa notícia movida pelo Luiz Nassif.
Ah, é irrelevante, uma questão menor, não deveria ser o foco da cobertura? Concordo que há destaque excessivo, que há muito debate político importante fora das páginas dos jornais. Mas, nas democracias consolidadas, mentiras públcias de governantes, uso da máquina do Estado para atender a objetivos partidários do governo, constrangimentos políticos de candidatos públicos à sucessão presidencial são sempre notícia, e das grandes. Interessam a todo mundo, incomodam a alguns.
Me espanta que isso não seja reconhecido por gente da qualidade do Nassif (aliás, não entendo por que não consultou as fontes que deve ter no Palácio do Planalto, para ver que aderiu a teorias conspiratórias absolutamente furadas lá no blogue dele).
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Está na Folha, hoje, e não é conspiração de midia: o Valdo Cruz e o Gustavo Patu fizeram as contas de mostram que o anunciado "corte" de R$ 20 bilhões no orçamento foi praticamente anulado por outras duas decisões do governo: a de aumentar em R$ 3 bilhões a receita prevista para o orçamento (dinheiro logo destinado ao superávit do orçamento) e aumentar em R$16 bilhões a previsão de despesas obrigatórias (algumas não tão obrigatórias assim, já que são verba para investimento, do PAC, decisão do governo).
Na minha escola, isso se chamava remanejamento, não corte de verbas. O governo cancelou despesas que os parlamentares tinham definido, com emendas ao orçamento, e direcionou a verba para outras prioridades. Mágica do titio Mantega, que conseguiu fazer o truque encher os olhos de muita gente.
A medida pode até ser justificada, com o argumento de que estão se cortando despesas de custeio para aumentar as de investimento. Mas nem tudo que foi cortado é custeio, e nem tudo que aumentou de despesa é para investimentos. Com o governo confortavelmente usando meias verdades para agerir a economia, fica difícil travar um debate sério, como o propposto pelo Beluzzo, economista dos menos ortodoxos, que recomendou maior controle nas contas públicas...
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Jornalismo se faz desconfiando. Jornalista tem de desconfiar do que querem que ele escreva, e do que ele mesmo pensa em escrever. Quem acha que tem uma causa a defender uma bandeira a carregar acaba tropeçando na bandeira e traindo a principal causa, a busca da verdade dos fatos. Por isso há bons jornalistas de direita e de esquerda. Há princípios éticos que não têm lado.
"Pasquim que ... considero uma ferida purulenta no corpo das letras mundiais _ isso devido à presença em suas páginas de John Simon, cujo amálgama estarrecedor de arrogância e selvageria, ao longo dos anos foi apreciada pela parcela dos leitores que vive em busca de um endosso da mediocridade proativa"
Esse é o novo ai jesus dos sujeitos que se dizem de direita, o diretor David Mamet, no texto em que ele explica como abandonou as idéias da esquerda dos EUA para abraçar os ideais de Estado mínimo, amor à farda e cinismo em relação ao ser humano. Recém traduzido pela Folha, o texto foi publicado originalmente pelo Village Voice, e não sei por quê, a Folha não reproduziu o título original, "Why I Am No Longer a 'Brain-Dead Liberal'", que pode ser traduzido como "Por que não sou mais um esquerdista descerebrado".
Não quero saber da polêmica sobre a conversão do sexagenário Mamet. Divertido é fazer uma experiência: esqueça que o sujeito estava falando da revista New York, pense em alguma publicação tupiniquim que você tenha aprendido a detestar e substitua o nome do tal John Simon pelo de algum conhecido colunista brasileiro.
Notou? Há vários, no Brasil, que se encaixam à perfeição na descrição genial do texto acima, "amálgama estarrecedor de arrogância e selvageria, ao longo dos anos foi apreciada pela parcela dos leitores que vive em busca de um endosso da mediocridade proativa". E, mais engraçado ainda, pelo menos um desses adorou a confissão do Mamet, mas, ao falar dela, traduziu estupidamente "brain dead liberal" como "esquerdista clinicamente morto". Hehe, nisso que dá ser descerebrado e usar qualquer desses tradutores automático da Internet.
Mediocridade proativa é espetacular. Grande escritor, esse que a esquerda perdeu.
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E, na imprensa, o espetáculo de morbidez com a garotinha morta em circunstâncias misteriosas estabelece uma competição de mau gosto entre as emissoras. Em uma delas, o apresentador volta ao prédio onde a menina foi assassinada e refaz os passos prováveis do pai e da garota; na Globo, refazem de carro o trajeto da família. A Patrícia Poeta entrevista a mãe da menina, para informar nada, e avisa ao espectador: "a qualquer momento nesta edição, voltaremos com novas notícias sobre o caso".
Novas notícias sobre o caso, Poeta? No domingo à noite???!!! Minutos mais tarde, ela chama o estúdio em São Paulo, onde dois repórteres da Globo esperam para falar mais do assunto. Tenho mesmo entendimento curto. A garota morta virou recurso para que o espectador não mude de canal antes do fim do programa.
Jamais pensei ter algum momento de felicidade com o fechamento de uma livraria. Tive, pequei, e o culpado disso é o Lourenço Flores, repórter, subeditor no Correio Braziliense, figura maravilhosa e, até o fim de semana que passou, dono da simpática "Esquina da Palavra", vitimada, entre outras agressões, por um roubo sacana de uns R$ 14 mil em livros, num sábado de Carnaval, pelas dificuldades de quem quer viver de literatura no Brasil e pela concorrência das mega livrarias.
O Lourenço, grande cara, abriu pela última vez a livraria no sábado e no domingo para vender o estoque pela metade do preço de capa (que, na "Esquina", já era, muitas vezes, inferior ao da concorrência, coisa de maluco que gosta de ver gente lendo). Saí de lá com 22 livros, daí esse peso na consciência. Me diz o Lourenço que outra livraria de Brasília, a Dom Quixote, vai manter o ponto, numa quadra, a 406 norte, em que já há o que é, hoje, o melhor sebo da capital, o Sebunho (que, aliás, levou uma boa parcela do estoque da "Esquina").
Entre os livros, que talvez eu deixasse na lista de compras futuras, não fosse a liqüidação do Lourenço, "Fantoches e outros contos", do Érico Veríssimo, numa edição primorosa da Companhia das Letras, em que o pai do Veríssimo mostra saber desenhar bem melhor que ele, em observações e notas críticas reproduzidas no livro sobre os originais dos contos escritos por ele, fernando, quando era jovem.
Achei também "A Vigília do Almirante", do Augusto Roa Bastos, que conta a viagem de Colombo às Américas, em umr elato que não posso comentar, ainda. Não se lê tudo que se gostria num fim de semana. Roa Bastos era um dos retratos num café em Assunção, em frente à espelunca onde me hospedei no Paraguai em uma das cobertusas de reuniões de Mercosul que me levou ao país. Impressionado com a quantidade de escritores paraguaios retratados na parde do café, dos quais eu nunca tinha ouvido falar, me fiz a promessa de aproveitar todas as viagens nesse continente para comprar títulos menos conhecidos no Brasil, da literatura sul-americana, restrita, em nossa editoras, a umas poucas estrelas.
Foi numa dessas compras, aliás, que conheci o extraordinário César Aira, argentino divertido, prolífico e brilhante. Falo dele depois, estava eu contando do saque à livraria fechada do Lourenço, grande sujeito. A menos de uma semana do aniversário de um ano da morte de Kurt Vonnegut, achei, na "Esquina", também, um exemplar de "Matadouro Cinco", que eu não havia lido. Vonnegut faz, em "Matadouro", algo que o Aira tentou, sem êxito, em uma de suas raras novelas publicadas em portugês, "As Noites de Flores": uma parábola fantástica da crise contemporâena do seu país.
Em Aira, a parábola tem como protagonistas um casal de aposentados que entrega pizzas ao lado de motoboys que infestam as ruas de Buenos Aires. O texto é cativante, e a trama, como gosta Aira, vai se tornando absurda (até um anão morcego com bico de papagaio dse junta às caminhadas noturnas do casal), mas chega a um arremate artificial e grosseiro. É um livro ruim, que só me fez apreviar ainda mais os outros três que li dele, todos brilhantemente elaborados: "Um acontecimento na vida do pintor viajante", que recomendo entusiasmado, e os excelentes e ainda não traduzidos "Una novela china" (pode-se baixar AQUI)e "Parmenides" (que nada tem a ver com o filósofo grego; o filósofo, no livro, é outro, e Parmênides um mecenas).
Mas o Aira fica para outra vez. Só lembrei dele porque, em Matadouro Cinco, Vonnegut faz o que o argentino não conseguiu com seu "Noite de Flores": introduz absurdos na trama (no caso, o protagonista é abduzido por extraterrestres que vivem em quatro dimensões, e têm a forma de uma mão com um olho na palma, sobre corpos compridos e cilindricos) que se enaixam perfeitamente na trama, e reforçam a crítica aguda que o autor faz da propaganda militarista, da estupidez das decisões de guerra e do deslocamento dos indivíduos em sociedades onde não têm poder de deixar qualquer marca.
Idéia e forma em Vonnegut se mesclam admiravelmente, o texto, como convém a um personagem que viaja no tempo, vai e vem, desdobra-se e redobra, no que poderia ser uma sucessão de flash backs delirantes. Um amante de ficção científica pode ler superficalmente o romance como um exemplar do gênero, mas alguém que deteste esse tipo de literatura encontrrá no texto elementos suficientes para ler as referências a extraterrestres e viagens temporais como delírios não do autor, mas do eprsonagem, naquela imprecisão narrativa que Jorge Luis Borges considerava essencial para se fazer um bom conto. É um livro impactante, que rendeu ao autor a fama imediata nos EUA da Guerra do Vietnã, e que merece ser lido nesses tempos de quatro mil amercianos (e incontados iraquianos) mortos no Iraque.
Pedi ao Lourenço que me deixasse guardar o letreiro luminoso do "Esquina da Palavra". Brasília, ao contrário da lenda, tem dessas e outras esquinas, e eu bem gostaria de instalar esse letreiro cá em casa para reunir no Sítio alguns amantes de literatura.
Em suma eu achava, e ainda hoje acho, que Machado de Assis era um monstro. Um monstro que não fazia mal a ninguém, que nunca haveria de fazer mal a ninguém, mas não obstante um monstro."
Manoel Bandeira, como disse um biógrafo, conheceu Machado de Assis e sobreviveu a Graciliano Ramos. Adolescente, engasgou ao recitar uma estrofe do Lusíadas para o bruxo _ o "grande esquizóide", define Bandeira. E, me conta o Alex Ribeiro, a Piauí publica, agora, um inédito do poeta, contando encontros com o bruxo e falando de outras literariedades, como a crítica ao amigo Oswald de Andrade, de um tempo em que os críticos literários não tinham medo de desancar os amigos...
Assim como um bando de escritores hispano-americanos (alguns bons, até) decidiu, tempos atrás, que falar mal do Garcia Marques era de bom tom, para se diferenciar no mercado, ensaiaram-se no Brasil umas pedradas no Machado, que caíram no vazio, pelo ridículo. Bandeira desanca o mestre, mas a pessoa, não o monstro literário. Como este Sítio ainda não comemorou os cem anos de Machado fica aí esse link, como.
Vida de repórter não faz inveja a cachorro. Pense, por exemplo, num almoço no Itamaraty, de Lula com algum chefe de Estado, como o de ontem, para o qual me convidaram. Fim do repasto, levanta-se o presidente e, com ele, os repórteres (que ficam em mesas próximas, nunca na dele), que o cercam, enquanto assessores palacianos rosnam, indignados por, nesse cerco, terem deixado para trás a autoridade estrangeira, que assiste à cena com ar de antropólogo interessado.
Como algozes romanos em frente a um benevolente São Cristóvão de barba, os repórteres cravam em Lula as perguntas da ocasião, que ele responde _ ou não _ até que os assessores o arrastam para fora (onde o espera uma horda de repórteres sem-convite). Ontem, Lula falava da conversa dele com o presidente da Colômbia, sobre as tentativas de libertar a sequestrada Ingrid Betancourt, das Farc, quando eu lhe disse que queria saber de outra conversa, a que ele havia comandado poucas horas antes, com o presidente do Banco Central, Henrique Meireles e o ministro da Fazenda, Guido Mantega.
_Esse é o tipo de pergunta que não respondo de jeito nenhum _ respondeu, rindo, e aproveitou a deixa, para se mandar dali. Alguém meteu uma pergunta sobre Dilma Roussef, e ele pára, defende a ministra, e volta a andar rápido, para fora do local do almoço.
Vamos atrás, nós os caninos ladrando educadamente enquanto passa a caravana. Tento fazer com que ele conte algo da conversa, pergunto sobre a proposta de aumentar o aperto nas despesas do governo, ele só diz "não, não vou falar"; até que outra repórter, às costas de Lula, pergunta se ele vai aumentar o superávit fiscal. O presidente, já mais à frente, ao lado do presidente visitante e da tropa que o acompanha, mal vira o rosto, e fala, abanando a mão: "superávit? Não, de forma alguma".
Não, o quê, presidente? O senhor ouviu direito a pergunta? De forma alguma vai mexer na meta de superávit nas contas do governo? De forma alguma vai permitir que, mesmo sem mexer na meta, o ministro Mantega busque informalmente um superávit maior, e aperte mais o orçamento? Ainda tentei esclarecer, mas um assessor deixou de rosnar e ameaçou morder minha batata da perna. Tchau, presidente, tenha um bom dia. Foi um prazer.
Reunidos, os repórteres checam anotações (gravadores estão proibidos). Descartam a frase sobre superávit, ambígua, alguém diz que o ouviu simplesmente se negando a falar do assunto. Depois, os jornalistas concluem que não, ele se manifestou mesmo sobre o superávit fiscal, tema de debate entre Mantega, o ministério do Planejamento, o Banco Central. Saio agoniado.
Entrevista de correria é um problema. As respostas sempre são incompletas, quando não totalmente cifradas. Você não pode assegurar que o entrevistado ouviu corretamente a pergunta, nem que a resposta foi entendida adequadamente. E, no caso de nosso presidente, há um fator adicional. Lula tem uma maneira toda própria de se expressar; o que ele diz nem sempre é exatamente o que ele quis dizer.
Que o diga o candidato à presidência do Paraguai, Fernando Lugo, que encontrou-se com Lula no mesmo dia, logo após o almoço, e saiu contando que o presidente havia topado negociar o acordo da hidrelétrica de Itaipu. Foi necessário mandar assessores à imprensa para dizer que Lula tinha topado sentar para conversar sobre vários assuntos com Lugo, mas que nem sob choque elétrico o governo negociará o acordo de Itaipu, que vence em 2023, jamais.
Isso tudo acontece num terreno lodoso onde entrou a cobertura política, que, cada vez mais, despreza o contexto das declarações, abandona qualquer tentativa de explicar aos leitores o verdadeiro sentido das manifestações das autoridades, para se fixar na frase de efeito, na declaração bombástica, mesmo que ela nada tenha a ver com o que, de fato, o personagem da notícia quis dizer. Na dúvida, às favas com a traiçoeira interpretação, e que se publique a frase descolada do contexto em que foi dita. O repórter tem, sempre pronta, a desculpa de que não inventou nada, apenas reproduziu o que foi dito.
Não importa se, no momento seguinte, o que foi dito e publicado não faz o menor sentido. É o vírus do apressado noticiário on line entranhando-se nas fibras de papel jornal.
No caso do almoço com Lula, só à noite, um dos assessores palacianos me telefonou, para responder, finalmente, às várias ligações que fiz para checar o que, afinal, quis dizer o presidente com seu "superávit? não, de forma alguma".
A essa altura, todos os noticiosos on line traziam a notícia de que Lula havia rejeitado as propostas de aumentar o superávit nas contas públicas. Namorados deixaram de se beijar por causa disso, galinhas evitaram atravessar a rua, os mercados financeiros comentaram o tema, especuladores precificaram a informação, os jornais editaram as matérias para o dia seguinte. E o sujeito, comigo ao telefone, me deixa boquiaberto.
"Perguntaram a ele sobre esse negócio, e ele respondeu que não falou nada sobre isso; não respondeu a nenhuma pergunta sobre o assunto". Como é que é? É. O presidente diz que não falou nada sobre qual é sua opinião sobre o superávit.
Só tem uma coisa, acrescenta o assessor: "mas ele comentou que, se tivessem perguntado, provavelmente diria isso mesmo: aumentar o superávit, nem pensar".
_ E agora, ministro?
_ Agora a gente chama uns repórteres, que estou com umas idéias novas para evitar a alta de juros.
Questionado pela Reuters, Mantega negou que a Fazenda teria lançado um "balão de ensaio" para medir a reação do mercado ao assunto. "Vocês deveriam procurar verificar a fonte dessas informações... aqui da Fazenda nós não costumamos fazer nenhum tipo de ensaio."
O ministro Mantega procurou desfazer a impressão, que está na imprensa, de que há uma disputa interna dentro do governo em relação à definição da taxa Selic na próxima reunião do Copom, marcada para os dias 15 e 16 deste mês. "Não vejo onde está esta discussão de juros dentro do governo", disse. "Sempre que me perguntam sobre juros, digo que isso é atribuição do Banco Central", completou. Mantega afirmou que o Copom tem "autonomia para avaliar a questão dos juros".




