maio 2008 Archives

O coelho dos livros

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Confesso, nem precisa insistir muito: sou um voyeur, um intrometido. Nas cidades, estico o olho para os janelões dos prédios, tentando flagrar as pessoas, ver que tipo de coisa penduram nas paredes, bisbilhotar a vida dos outros; na casa dos amigos e nos gabinetes dos burocratas, vasculho as estantes, tentando capturar, nos títulos das obras dispostas, e na maneira como são arrumadas, alguma coisa da alma dos leitores. Não, meu voyeurismo passa longe do Big Brother Brasil.

Imaginava que em algum canto da Internet haveria um sítio ou vários dedicados o voyeurismo biblioteconômico, essa tara que carrego sem culpa. Não valem as estantes do Dória (alguém já comentou por aqui que ele apóia o Gabeira para a prefeitura do Rio? Pois é, apóia, e o TRE não admite isso), queria estantes de gente identificada, com a livraiada exposta aos olhos curiosos da patuléia.

Fui descobrir não um sítio com estantes, mas toda uma comunidade de relacionamento dedicada à troca de leituras, livros e impressões sobre os dito-cujos e seus autores, pena que em inglês. E descobri onde nem imaginaria: lendo um número da semana passada, do Valor, onde a reprodução de uma reportagem do Financial Times conta a existência do BookRabbit.com.
A pretensão do sítio, diz o FT (em português, só para quem lê o Valor, sorry, não achei atalho na rede) é superar sites de livrarias e de troca de livros existentes, dando um toque pessoal à brincadeira. Em nenhum outro lugar você pode comprar um livro usado de alguém que te mostra a própria estante, abre discussão sobre as obras expostas, comenta as opiniões dos outros sobre livros... isso na minha terra dá até em casamento.


Empreendedores de toda a Internet brasileira, uni-vos! Falta só algum craque adaptar a idéia para o português, e mandar bala. (Digo, mandar página. Temos de parar com essa mania de metáforas bélicas, saravá.)

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O Pedro Dória apóia o Fernando Gabeira para a prefeitura do Rio, isso é uma notícia. Mais que isso, quando gabeira fazia doce, o Dória lançou campanha para que ele se lançasse candidato. O TRE do Rio não aceita que o Pedro Dória ponha em seu blogue um destaque com a defesa da candidatura do Gabeira, e exigiu o fim da divulgação, caso contrário a candudatura pode ser impugnada por desrespeitar a legislação de propaganda eleitoral.


O Pedro Dória acha que é censura. Não tenho opinião formada sobre isso. Mas acho que é notícia. E acho que todos os blogues deveriam divulgar isso, sem que configure propaganda ilegal informar que o Dória apóia o Gabeira, porque a legislação eleitoral não pode impedir a divulgação de fatos.


Quando digo não ter opinião formada, estou sendo sincero. O próprio Dória diz que o blogue dele é um veículo jornalístico _ diferentemente deste Sítio aqui, onde me diu ao direito de escrever um monte de bobagens que não passaria pelo crivo do Sérgio Leo editor nos meus tempos de jornalão (o Valor não é jornalão, é um jornalaço, antes que me perguntem).


É necessária uma legislação para impédir que candidatos com poder econômico imponham uma avalanche de propaganda sobre os concorrentes, de recursos mais modestos. Mas, ao mesmo tempo, a Internet é uma espécie de praça virtual, onde as gentes do século XXI às vezes se comportam até com um temerário desprezo pela própria intimidade. É um espaço realtivamente mais democrático que os dos joranis, e mais precário, também, em certo sentido.


É um debate interessante, levantado pelo fato de que o Pedro Dória apóia a candidatura do Fernando Gabeira, como cidadão e blogueiro.

A adorável comunicação do século XXI

Tenho recebido muitos e-mails, e de gente que se diz funcionário de governos africanos, viúvas de ex-ditadores, representantes de especuladores ou emissários de alguma loteria britânica, todos me garantindo que ganhei uma bolada, ou posso ganhar, se topar entrar num esquema com eles. Respondo a todos, pedindo que enviem uma amostra dos dólares que ganharei, só para sentir o cheiro das verdinhas. Pessoal mal-educado, eles nem dão pelota para essas minhas cartinhas.

Mas o sujeito tem de ser muito crédulo ou carregar uma tremenda consciência culpada para acreditar que a Serasa, um banco qualquer ou alguma repartição pública costume enviar cobranças ou intimações por e-mails. Como essa aqui, do remtente dpf.gov.br:

PROCEDIMENTO INVESTIGATORIO N.º 324/2008.
Assunto: INTIMACAO PARA COMPARECIMENTO EM AUDIENCIA, relativa ao procedimento investigatorio em epigrafe, em tramitacao nesta Regional, conforme despacho
ANEXO INTIMACAO.ZIP (50kb) 5 Dias Restantes para responder.

Por curiosidade baixei o arquivo zip que veio anexado, mas não dá para dizer o que vinha nele. Não consigo abrir mais nenhum arquivo. Meu computador vem agindo estranhamente, desde então. Penso em comprar outro, se me enviarem algum adiantamento dos dólares que me prometeram.

Chorando de tanque cheio

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Com as barbas de molho e os carros na garagem, os consumidores nos Estados Unidos estão segurando as carteiras por causa do preço da gasolina. Afinal, a gasosa, por lá, já custa entre US$ 3,5 a US$ 4,00 o galão, quase US$ 1 o litro!!!

Peraí, por um dólar o litro, mesmo abastecendo com o cambista da esquina, o preço da gasolina, lá, é menor que R$ 2, o litro. E eles estão apavorados, cortando até a junk food das crianças!

Enquanto isso, por aqui, o pessoal formado em universidade americana reclama do populismo da Petrobras, que não reajusta o preço da gasolina, mesmo com os aumentos do petróleo, lá fora. Agora entendi a queixa: também quero reajuste, para menos, que me permita pagar pela gasolina o mesmo que os eleitores do John McCain. E suspeito que, mesmo usando os mesmos carrões que eles, vou baixar minha conta do posto. Moro em Brasília, caramba.

Café literomusical, sem música

Já contei aqui a vez em que, cobrindo alguma patuscada do Mercosul, no Paraguai, me espantei num café com a quantidade de escritores sul-americanos de quem eu nunca tinha ouvido falar. Como mais latino-americanos continuam escrevendo (para quem? para quem?), essa lista só cresce, desde então, saudando com risinhos sardonicos as tentativas de vencer minha ignorância literária (sempre quis usar um riso sardonico em um texto, desde que li a expressão, num pocket book dos anos 70, tradução portuguesa; tratava guarda de "tira" ou, melhor, de "chuí").

É hoje, uma literatura universal, cosmopolita sem ser alienada, avessa a rótulos e a fôrmas. Os modelos estão também no primeiro mundo, mas não só:

"Mientras los escritores europeos o norteamericanos suelen leer sólo literatura de sus propios países, en América Latina se puede encontrar a mexicanos que leen a Kawabata, argentinos que apuestan por Janet Malcolm, colombianos que siguen a Conrad, peruanos aficionados a Modiano, puertorriqueños fanáticos de Ngugi Wa Thiongo, guatemaltecos fervorosos de Vila-Matas, chilenos obsesionados con Clarice Lispector". Lecturas universales combinadas con las de sus paisanos clásicos, como José Eustasio Rivera, Alejo Carpentier, Jorge Luis Borges, Juan Carlos Onetti, Juan Rulfo, Rómulo Gallegos, Mario Vargas Llosa, Julio Cortázar, Carlos Fuentes, Augusto Roa Bastos o Gabriel García Márquez.

Casi todos han renunciado al afán totalizador de construir novelas o proyectos literarios que explicaban una época y que ha caracterizado a la literatura latinoamericana, asegura el escritor peruano Diego Tréllez (El círculo de los escritores asesinos), que publicará en verano una antología con autores de la última generación. Los nuevos narradores describen mundos más cercanos, íntimos. Hacen de lo particular y singular lo universal. El amor, la soledad, el desconcierto, la muerte, la inmigración, el éxito, la envidia, las repercusiones del 11-S, los nuevos miedos, el desamparo, las ilusiones, las dudas o las diferentes formas de violencia que van moldeando el mundo. "

Esse é um artigo do Babelia, suplemento literário do El País e socorro de muito blogueiro sem assunto, que comenta para onde vai essa literatura latino-americana, que, para meu alívio, deixou de lado a mania idiota e deseprada de falar mal de Garcia Marquez e outros monstros da hispanoliteratura (assim como esteve em moda, tempos atrás, entre pobres de espírito, falar mal de Machado de Assis, inveja é uma merda).

Una o que?

Há tempos não falta energia elétrica em Brasília. Hoje faltou, quando falava o presidente da Bolívia, Evo Morales, na reunião de cúpula dos presidentes da América do Sul, para fundar a Unasul _ embrião do protótipo do projeto da idéia de uma comunidade sul-anmericana, como a da Europa.

Bom, energia e Evo Morales sempre são coisas que, juntas, dão encrenca no Brasil. Faltou energia de novo quando falava a Michele Bachelet, do Chile. E faltou mais umas duaz vezes. ora os jornalistas viam imagem e não tinham som da reunião dos presidentes, ora vinha o som mas falhava a imagem.

Tenho cá minhas hipóteses. Está na cara que foi um recado para o Evo Morales, a Cristina Krichner e o futuro presidente do Paraguai, Fernando Lugo, para mostrar que não tem energia sobrando por aqui.

O colchão áereo

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Como nosso líder, estrou convencido de que o fato concreto é que nunca nesse país um governo vibrou tanto com uns queixões queimados. Estava eu no gabinete de alta autoridade republicana quando a Globo News, na barriga do ano, informou que um avião havia caído no centro de São Paulo.

"Por mim fechava aquele aeroporto! Mas vai falar disso para a elite paulista!", esbravejou preventivamente a fonte, depois fazer uma ironia sobre a falta de grooving na rua Santo Amaro, de onde saia o fumacéu mostrado pela televisão.

Justa indginação. Quando houve o acidente da TAM (veja o último link, aí em cima), a turma correu para culpar o governo pelod esastre, antes mesmo de ter informações sobre as verdadeiras causas do acidente. Por algum tempo, o responsável pelas mortes foram as ranhuras na pista de Congonhas, até se concluir que a lambança estava mesmo no avião e no treino dos pilotos. O fato de Congonhas ter intenso movimento e ficar no meio da cidade teve lá sua culpa no tamanho da tragédia, mas isso, como vociferava a autoridade, a minha frente, parece ter sido logo esquecido pelos habitués dos vôos na capital paulista. Aliás, lembrei eu, até o ministro Jobim parece ter esquecido disso.

_ Mas, peraí, que é isso, incêndio em São Paulo? Não era queda de avião? _ reparou a fonte, olhando a legenda na imagem, a fumaçada atrás dos prédios. Logo, a tv explicava: não tinha avião nenhum, e sim um fogo numa fábrica de colchões, na região próxima a Congonhas.

Àquela altura, minha fonte já tinha apurado que de fao existia um avião da companhia Pantanal, que, segundo as primeiras informações da Globonews havia despencado no meio da selva de pedra paulista. Só que o avião estava na pista, para decolar, quando o piloto viu a fumaça e avisou que não ia levantar vôo.

_ Lá ia eu metendo o pau à toa na elite paulista..._ desabafou a autoridade. À toa nada, excelência.

Sempre iluminador, conversar com os mais jovens


_ Pai, descobri que não corro mais o risco de passar fome.

_ Por que, filho?

_ Estava conversando com meus amigos, a gente descobriu que doar órgão dá a maior grana. Sabe quanto custa um rim?

_ Sabe o que podem fazer contigo quando estiver anestesiado, na maca, para tirarem seu rim?

_ Pensamos nisso. O Felipe teve a idéia bizarra de levar a mãe dele junto, para ficar vigiando.

O lixo do Rauschenberg


Ele foi comparado a Picasso por Jerry Saltz,crítico rítico do Village Voice, o mítico pasquim distribuido gratuitamente em Nova York. Ninguém, além de Picasso, teria incorporado tantos elementos do mundo ao trabalho artístico como Robert Rauschenberg, que morreu no começo da semana passada.

Foi o sujeito que ligou o expressionismo abstrato dos anos 50 à arte Pop que veio a seguir, e, de quebra, virou um dos papas dese tipo de arte conceitual, que dá prioridade aos processo de criação e aos materiais usados, mais que à forma final, a uma possível mensagem, ou ideal estético. O tipo de coisa que perturba o leigo e vem sendo tão apedrejado por certos críticos de arte alheios ao metier.

Os "combines", montagens de objetos e materiais disparatados, como esse simpático bode empneuzado aí em cima, são uma das marcas registradas de Rauschenberg, que abriu uma estrada gigantesca de possibilidades para os artistas que vieram a seguir.

Os que procuram na arte coisas bonitinhas para adoçar a alma têm dificuldades compreensíveis de engolir artistas como o Rauschenberg _ que legitimou muita inovação no campo da Arte, mas, é verdade, abriu a cancela também para muito picareta, artistas de fórmula pronta se fazendo passar por gênio iconoclasta.

Os jornais brasileiros escolheram bem uma frase dele que traduz uma certa didática do mundo, a razão que faz parte do método construtivo lá dele: "Tenho pena das pessoas que pensam que as coisas como os pratos da sopa, espelhos ou garrafas de Coca-cola são feias porque estão cercadas por coisas dessas todos os dias, o que deve fazer delas miseráveis”.

Picasso colava recortes de jornais nas telas cubistas; Rauschenberg fez montagens com tudo, até coisa catada no lixo. Num dos trabalhos mais famosos, pegou os próprios lençóis, edredons e travasseiro e os pintou com esmalte, pasta de dente e temo descobrirem o que mais.

Embora o objetivo de artistas como Rauschenberg seja bem mais que isso, os trabalhos perturbadores que eles produzem têm essa capacidade de trazer a atenção para as coisas de que estamos cercados, para a possível beleza do cotidiano mais vagabundo. Rauschenberg fala de processos de construção do mundo, do olhar crítico ou deslumbrado sobre o universo de imagens que nos cerca e condiciona a maneira de percebermos a realidade. Mas há quem diga que falta na obra de Rauschenberg, em seu trabalho de coleta de significados, um botãozinho de edição, de escolha e seleção. Um certo esforço artístico de descartar experiências mal sucedidas na tradicional tentativa artística de deixar uma marca no mundo.

Nos anos 60, Rauschenberg também trabalhou com colagens de imagens pré-fabricadas, transferidas em tela por serigrafia e trabalhadas com pinceladas expressivas, do tipo que fazia o gosto dos expressionistas abstratos que dizem terem sido contestados por ele. Uma das peças mais famosas do Rauschenberg, aliás, é o "De Kooning apagado", que se trata de um desenho fornecido pelo expressionista abstrato Willelm De Kooning ao amigo Rauschenberg, que o apagou com uma borracha. Não sei o que o Ferreira Gullar diria disso.

Falo do Rauschenberg só porque, por uma dessas coincidências que costumam avacalhar o trabalho de quem trabalha em publicação mensal, o artista morreu logo na semana em que chegava às bancas a revista Art News, com uma matéria chamada em capa sobre ... "A confusão com o lixo de Rauschenberg".

No caso, a coincidência tornou mais interessante a revista, que, é bem capaz, deve sair com o morto ilustre na capa da próxima edição. Lixo, no caso, é lixo mesmo: a história, infelizmente indisponível na Internet, fala de um sujeito que quando garoto achou uns negativos coloridos na lata de lixod a casa do artista, alguns assinados RR, e, anos mais tarde, copiou e passou a vender (por até US$ 10 mil) as "obras" de Rauschenberg.
Rauschenberg, o próprio, acionou seus advogados, que processaram o cara. Não sei como fica o processo com a morte do artista.

Lixo, processo... não poderia ser mais apropriado, tudo a ver com as pesquisas artísticas do defunto.

Um ministro Minconfundível

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Pode ser até _ e torço para _ que o Carlos Minc consiga fazer o que Marina Silva não fez, e agilize as licenças ambientais para projetos de desenvo,vimento ao mesmo tempo em que torna mais rígidos os controles e a prtoeção ao meio ambiente. Mas, até agora, o que conseguiu foi ficar, em Brasília, com fama de falastrão e adepto de um factóide. Anunciou um monte de projetos, mas saiu do Planalto sem garantia de Lula que teria orçamento, poder e respaldo, que disse serem pré-condições para aceitar o cargo.

Como carioca aculturado, fico chateado com a chegada do novo ministro, já derrapando na própria língua. Gosto do cara e me pareceu o tipo do sujeito capaz de dar brilho a qualquer conversa de boteco; e, quem sabe, ser um gerente do terceiro milênio, cabeça arejada, daqueles que, no vale do Silício até inventaria alguma empresa bilionária.

Mas o fato concreto, como gosta de dizer o presidente da República, é que o Minc dizia que queria mudar a legislação das licenças ambeitnais e ontem já falava que não precisava mudar lei nenhuma; disse que botaria o exército para pro0teger a floresta, e ontem já falava numa etérea Guarda nacional Ambiental; desdenhou do Managabeira Unger como coordenador do programa Amazônia Sustentável e saiu da conversa com Lula defendendo envergonhado a capacitação do professor de sotaque americano para o posto.

Falou que teria de ter orçamento, citou até as verbas contingenciadas que deveriam ir para o Meio Ambiente, e saiu comemroando uma promessa vaga de, quem sabe, uns trocados gradualmente liberados para saneamento e empresas de projetos sustentáveis. Criticou o governador do Mato Grosso, Blairo Maggi e, ontem, falava que, para cuidar do meio ambiente, descrentralizará tarefas e deixará com os Estados granbde parte da função de fiscalização e controle (com vigilância para que não façam "lambanças", advertiu, sempre performático).

A cada pergunta de repórter, Minc sacava do colete uma resposta longa e cheia de elocubrações. Se era pergunta delicada, então, corporificava uma curiosa transgenia entre o Conselheiro Acácio, do Eça, e o Rolando Lero, do Chico Anísio. O caso Magabeira foi exemplar:

_ Ministro, o Magabeira continua na coordenação do PAS?_ Eu não perguntei, mas o presidente me explicou que o ministro Magbaira é um intelectual, que há vários ministérios tratando do PAS, e que cada ministrério tem saus funções, suas especializações, e bla bla bla bla

_ Ô ministro, então o Magabeira fica, né?

_ Bom, o Mangabeira bla bla bla Amazônia, blabla sustentável bla bla

_ O Mangabeira fica, então, né ministro?

Essa última pergunta já foi lançada em perigoso tom de galhofa. O ministro que se cuide, porque se não mostrar logo ao que veio vai virar Minc de circo, me sussurrou Oliveira, o canalha da redação, divertindo-se na quinta entrevista coletiva do novo personagem da selva brasiliense.

Fidelize você também

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Consegui abater mais um anglicismo em pleno vôo; troquei, na redação, um "customizar" por "personalizar" _daqui ouvi os suspiros de gratidão do Camões e do Austregésilo, em seus honrados túmulos.

Mas aí apareceu um "fidelizar". Ora, é um neologismo dos mais caninos, ainda mais criado pelo pessoal de marketing. Mas não dá para acusar de estrangeirismo, está aí o radical latino para provar a fidelidade às raízes, se me permitem o trocadilho. Eu prefiro "conquistar" para o mesmo efeito, mas tenho de admitir que o terrível "fidelizar" tem suas conotações próprias lá dele. Oliveira, o canalha da redação, adora etimologia, como tudo que tenha língua no meio; e meu dilema provocou nele uma logorréia interminável, de teorias sobre o assunto.

Conquistar, diz ele, é trazer para si, mas não quer dizer que haja exig~encia de exclusividade. O conquistador, no mais das vezes, não exige direito absoluto sobre o objeto conquistado, disse o Oliveira, conhecedor do assunto. Já quem fideliza ganha o monopólio; fidelizar é assegurar a monogamia, ou a devoção absoluta. Coisa de mente escravocrata, concluiu o canalha, olhando distraído a nova estagiária contratada pelo jornal no programa Primeiro Emprego.

Conquistar, em resumo, pode distrair as almas, mas só fidelizar garante dinheiro certo, exagera o Oliveira, que, em seguida, solta uma exclamação ao ler um velho Correio Braziliense largado perto da xerox de onde se afastou a estagiária. "Rapaz, infidelizar também pode dar uma graninha!", comenta ele, exibindo uma curiosa notícia, digna dos anais jurídicos (no bom sentido):

ADULTÉRIO GERA DANOS MORAIS: Ex-marido traído ganha direito à indenização por danos morais
11/05/2008 21:26


O adultério foi flagrado por ele dentro da própria casa e no leito do casal

A 1ª Turma Recursal do TJDFT confirmou sentença do juiz do 1º Juizado Especial Cível de Planaltina que condenou uma mulher a pagar indenização por danos morais ao ex-marido. Ela foi flagrada pelo cônjuge, nua, em conjunção carnal com outro homem, na residência e na própria cama do casal. Porém, a indenização, inicialmente fixada em 14 mil reais pelo juiz, foi reduzida para 7mil reais pela turma recursal.

O autor da ação impetrou o pedido de indenização após a homologação da separação litigiosa pela vara de família competente. Na época do litígio, ficou comprovada a culpa da esposa que, segundo a sentença homologatória, “incorreu em quebra do dever de fidelidade, previsto no art. 1.566 do Código Civil”. Testemunhas ouvidas em juízo confirmaram o flagrante.


O sujeito chega em casa, cansado do trabalho, encontra a esposa nua, em conjunção carnal com um vagabundo, na própria cama, e recebe, como compensação, quatroze mil reais, logo reduzidos para sete mil? Até chegar à última instãncia, o coitado provavelmente vai levar uns 500 contos, prevê o Oliveira, que conclui, julgando o caso: "É o preço de um bom colchão novo; não dá para dizer que não é justo".

Alegria de pobre

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Não é nada sério não, mas ri um bocado com um detalhe bobo da matéria da AP sobre a queda da Marina Silva.

Marina Silva, who is not related to the president, resigned at a moment when Brazil's rain forest is threatened by dams and other big public works projects, as well as farmers bent on tilling the region's soil to meet the world's growing demand for food and biofuels.

A gente lembra como se sabe pouco do Brasil no exterior quando um repórter de agência internacional se sente obrigado a explicar que Lula e Marina são Silva, mas não são parentes...

Tá, me divirto com pouco. Queria o que? Sou jornalista, caramba.

Ah a dura lide do noticiário

Ontem, falo com um alto assessor da Presidência sobre os possíveis substitutos da Marina Silva no ministério do Meio Ambiente, e ele insiste que, ao contrário do que anunciavam agências e a Rede Globo, não estava confirmda a nomeação de Carlos Minc, como substituto.

_ Mas o governador Sérgio Cabral já anunciou, pela assessoria, que o LUla pediu para que ele liberasse o Minc da Secretaria do Meio Ambiente no Rio _ argumento eu. _ O Cabral é político experiente, não anunciaria se o Lula não tivesse dado sinal forte de que quer o Minc.

_ Isso é uma tese sua.

_ Não faz sentido?

_ Sim, como também a tese de que o Cabral está querendo se livrar do Minc. Tudo tese.

A Folha bancou que seria o Jorge Vianna o ministro. No dia seguinte, hoje, o Minc dá entrevista dizendo que se comprometeu com o Cabral em permanecer na secretaria, que não iria de jeito nenhum ao ministério.

Me pareceu uma versão diferente para a velha piada do Tancredo Neves, ao receber um correligionário que queria pertencer à secretaria do recém-eleito governador de Minas Gerais: "Todos os meus amigos e partidários dizem que o senhor iria me convidar, há uma enorme expectativa, não sei mais o que dizer", disse o candidato a cargo no governo. Respondeu Tancredo: "faz o seguinte, meu filho: diga que eu o convidei, e que você não aceitou".

Enquanto isso, Lula conversa com aquele que apontavam, no Planalto, como alternativa para ocupar o ministério, o Jorge Vianna. Vianna sai, vai conversar com a Marina, e, no fim da tarde, o Minc é anunciado como o novo ministro do Meio Ambiente.

Se o Cabral estiver muito sorridente, começo a achar que o alto assessor não estava só curtindo com a minha cara.


2º clichê : O Tales também se lembrou da historinha do Tancredo, mas dá uma outra explicação para a coisa, e argumenta que o Minc era o escolhido desde o começo. AQUI.


3º clichê : o engraçado nisso tudo é que a esquerda torce o nariz para o Minc porque ele ajudou a dar licença ambiental para instalação de uma plantação de eucaliptos da Aracruz Celulose. Ambientalista, como se sabe, não gosta de eucalipto nem em essência de sauna, e tem a Aracruz como diabo preferencial. Já o Jorge Viana, que, dizem, recusou o cargo ao ser convidado por Lula, alegou, segundo a agência Globo, que prefere continuar a tocar a vida do jeito que está, e não pretende dispensar a boa grana que recebe como conselheiro... da Aracruz celulose.(4º clichê: diferentemente do que diz O Globo, vejo no site da Aracruz que o Viana não é conselheiro, mas assessor do conselho de administração; participa de um "Comitê de Sustentabilidade", do qual faz parte também um assessor do WWF).

O desconforto dos liberais

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Aprendi cedo na vida que explicações simples e diretas sobre os fatos do mundo são muito úteis na vida prática e, em geral, levam a erros tremendos. Parte do sucesso dos ismos, o marxismo, o liberalismo, o budismo, o abismo, vem dessa sensação avassaladora que provocam, de que tudo que cai dentro deles se rende docemente às mesmas leis universais.

No caso dos liberais, é aquela idéia de que todas as relações humanas podem ser entendidas segundo as leis do mercado, que todos agem segundo uma certa razão dirigida em última instãncia ao consumo, que tudo é uma questão de sinalizar com os incentivos certos para a ação humana. Ah, e, em caso de crise o que se deve fazer é cortar gastos do governo e aumentar os juros; e as estatais estão sempre desperdiçando esforços e dinheiro que opoderiam ser melhor aproveitados pela iniciativa privada.

Esse tipo de raciocínio simplista fez delirarem os comentaristas econômicos no início do ano, quando foram anunciados os lucros abaixo do esperado para a Petrobras, uma das empresas mais eficientes do setor de petróleo e das mais avançadas tecnologicamente e prestigidas no mundo. Cheia de problemas, como toda grande emprsa, especialmente no setor público, mas eficiente, e lucrativa, e provavelmente mais voltada aos interesses nacionais que muita empresa privatizada por aí.

Pois é, acabam de sair os resultados trimestrais da Petrobras. Ó o que diz O Globo:

Analista diz que redução de despesas operacionais e alta do petróleo contribuíram para lucro maior da PetrobrasPlantão Publicada em 12/05/2008 às 19h11m

Juliana Rangel - O Globo
RIO - A redução de despesas operacionais e a alta do preço do petróleo no mercado internacional fizeram com que o lucro líquido da Petrobras ficasse acima do esperado por analistas de mercado. A empresa registrou ganhos de R$ 6,925 bilhões no primeiro trimestre do ano, com aumento de 68%.
Segundo o analista Luiz Otávio Broad, da Ágora Corretora, o resultado foi muito bom. Ele esperava um lucro líquido de R$ R$ 5,7 bilhões.
- A gente destaca a redução de 8,6% nas despesas com operações em relação ao mesmo período do ano passado. E isso, aliado ao aumento do lucro bruto (que ficou em R$ 2,051 bilhões) permitiu um aumento de 26% no Ebitda (ganhos antes do pagamento de juros, impostos, depreciação e amortização) - destacou.
O analista atribui o aumento do lucro bruto, de 13%, ao aumento da receita em função de alguns derivados que excluem gasolina, diesel e gás liquefeito de petróleo (de botijão).
- Há itens que têm reajustes trimestrais e contribuíram para este resultado, como QAV (querosene de aviação), nafta, óleo combustível e gás natural.


Um aumento de quase 70!!!!! E isso aconteceu antes da recente correção dos preços dos combustíveis, no primeiro trimestre, num momento em que os analistas vociferavam contra as ineficiências da estatal.Ou seja, quando saíram os resultados (bons, mas abaixo do esperado) da Petrobras relativos ao ano passado, a estatal já podia mostrar melhores resultados, sem lançar mão, ainda, do reajuste inflacionários nos preços dos combustíveis.

Mas os "analistas", em vez de investigar o que acontecia, aproveitaram para fazer proselitismo ideológico. É triste; de vez em quando a turma deveria largar os manuais e botar um pouco mais o olho no mundo real, antes de tirar das gavetas as explicações já prontas.

Agora, falando sério:

Claro, vão lembrar que o setor de refino teve prejuízo, que o lucro de deve a fatores "pontuais" como a comparação com um primeiro trimestre de 2007 em que bateram feio nas contas da Petrobras as perdas com o fundo de pensão dos funcionários... mas foram exatamente essas perdas que levaram a empresa a ter lucro menor que o esperado no ano passado (quando ninguém falou que a perda era só por causa de um fator "pontual"); e o prejuízo do refino com o combustível sem reajuste foi inferior a R$ 600 milhões, enquanto o lucro (surpreendente para todos) acumulado nesse período foi de R$ 6,9 bilhões. Mais que compensou a perda, sem que a estatal contribuísse para aumentar as pressões inflacionárias, que não foram poucas.

O mundo não é simples, pessoal, já dizia o tiranossauro ao amigo velociraptor preso no pântano, em vias de se transformar em combustível fóssil.

Mantega, garantindo presença

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O ministro da Fazenda entrou na discussão da política industrial como carrasco de propostas, cortando as pretensões dos outros ministérios e do setor privado, que queriam reduzir impostos no setor. Mas o Mantega correu para os holofotes hoje, assumindo como suas medidas geradas no ministério do Desenvolvimento e do BNDES. Foi tão entuisiasmado que trocou as bolas; disse que o governo estava estendendo benefícios da navegação de cabotagem para a navegação de longo curso, quando na verdade foram estendidas vantagens fiscais da navegação de longo curso (grandes distãncias) para a navegação de cabotagem (no litoral).

Mas bacana mesmo foi a declaração sobre o fundo criado no BNDES para empresas exportadoras, reproduzida no UOL:


"O objetivo [do fundo] é apoiar a internacionalização das empresas brasileiras no exterior", disse Mantega. Segundo ele, o BNDES será o gerente dessa política.


Internacionalização no exterior, é? E eu que pensava que as empresas iriam se internacionalizar no Piauí...

Lygia



Mais uma goleada da indústria cultural. A imprensa especializada, nos últimos dias, deu tudo sobre o futuro blockbuster Speed Racer e deixou passar em branco os 20 anos da morte da Lygia Clark, uma das artistas seminais da arte contemporânea brasileira. No fim do ano, a Associação Cultura Mundode Lygia, dos filhos dela, parece que prepara alguma coisa, de uma artista que merecia ser mais conhecida. Esse filme aí é feito por eles, direção de um dos filhos e, claro, já devidamente postado sem autorização no You Tube, viva ele.

Ela fez esculturas que são manipuláveis, sem verso ou reverso, pinturas que "explodiram" para fora da tela, construções singelas a partir de elementos simples como caixas de fósforos. Desde o fim dos anos 60 e até o fim da vida, Lygia, uma das artistas que deu caráter excepcional e singular ao concretismo brasileiro, desdenhou do conforto que lhe traria sua obra plástica, inovadora e sucesso de público e crítica, e passou a explorar conceitos psicológicos muito particulares, trabalhou bastante com as sensações e experiências individuais, investigando o "corpo".

Como diz Suely Rolnik, esse "corpo" não era um corpo transformado em cosia, suporte para uma proposta artística qualuqer; ela não partiu para o "narcisismo rançoso", a auto-flagelação, o masoquismo que caracteriza certas obras contemporâneas, nem para o exibicionismo de outras. Fez um esforço de trazer para a arte a sensação pura, o conhecimento do corpo que perdemos no processo de assumir nossos papéis sociais, de encontrar um lugar no mundo.

É, é papo-cabeça mesmo. Vale a pena conhecer mais a obra da Lygia Clark, para afastar um pouco o preconceito comum sobre arte, que faz muita gente acreditar ainda que artista é uma espécie de artesão habilidoso com alguma matéria na mão e idéias na cabeça. Lygia mostra que a matéria podemos ser nós mesmos, e o artista, a pessoa que nos faz dispensar objetos e artesanias para viver uma experiência que somos capazes de compartilhar, mas dificilmente de comunicar de uma maneira tradicional, do jeito que se faz na escola.

Agripino, um amador na inquisição

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Com essa, nem a Dilma Roussef contava, e os jornais hoje comentam que foi um sucesso a aparição dela para explicar o vazamento de dados sobre despesas no governo FHC, em parte porque ela já saiu marcando gol, graças a uma jogada desastrosa do adversário. O adversário, no caso, era o deputado demo Agripino Maia, e a jogada foi acusar Dilma de mentir, porque ela mesma admitiu que mentiu aos torturadores que a pegaram quando estava na guerrilha.

A história está nos jornais; Dilma saiu muito bem e o senador derrapou porque não se tocou com o fato de que eram torturadores aqueles para quem Dilma mentiu (como não ligou para o fato de que seu partido nos anos 70 e 80, a Arena, tinha nos torturadores um apoio no exercício do poder).

Agripino deve ter ficado impressionado com a segurança da Dilma, em uma histórica entrevista para o Luis Maklouf de Carvalho, em que a hoje ministra teoriza sobre como mentir em interrogatório:

Pergunta - Como era essa história de mentir diante da tortura?
Dilma - A gente tinha que fazer uma moldura e só se lembrar da moldura, da história que se inventava, e não saía disso. Tinha que ter uma história. Na relação do torturador com o torturado a única coisa que não pode acontecer é você falar "não falo". Se você falar "não falo", dali a cinco minutos você pode ser obrigado a falar, porque eles sabem que você tem algo a dizer. Se você falar "não falo", você diz pra eles o seguinte: "Eu sei o que você quer saber e não te direi". Aí você entrega a arma pra ele te torturar e te perguntar. Sua história não pode ser "não falo". Tem que ser uma história e dali para a frente você não sabe mais nada, não pode saber.
Pergunta - É um jogo difícil.
Dilma - É uma arte. A dificuldade é convencê-lo de que você não sabe mais do que aquela moldura. Não é um jogo só de resistência física, é de resistência psíquica. Até porque uma das coisas que você descobre é que você está sozinho.

"Peguei a mentirosa", deve ter pensado o senador, que fez pouco caso ou não leu o resto da conversa. Que resto. Torna de uma monstruosidade tacanha usar essa história como arma política para atacar qualquer pessoa:

Pergunta - Quais são as cenas que estão vindo na sua cabeça, agora?
Dilma - Eu lembro de chegar na Operação Bandeirante, presa, no início de 70. Era aquele negócio meio terreno baldio, não tinha nem muro, direito. Eu entrei no pátio da Operação Bandeirante e começaram a gritar "mata!", "tira a roupa", "terrorista", "filha da puta", "deve ter matado gente". E lembro também perfeitamente que me botaram numa cela. Muito estranho. Uma porção de mulheres. Tinha uma menina grávida que perguntou meu nome. Eu dei meu nome verdadeiro. Ela disse: "Xi, você está ferrada". Foi o meu primeiro contato com o esperar. A pior coisa que tem na tortura é esperar, esperar para apanhar. Eu senti ali que a barra era pesada. E foi. Também estou lembrando muito bem do chão do banheiro, do azulejo branco. Porque vai formando crosta de sangue, sujeira, você fica com um cheiro...
Pergunta - Por onde a tortura começou?
Dilma - Palmatória. Levei muita palmatória.
Pergunta - Quem batia?
Dilma - O capitão Maurício sempre aparecia. Ele não era interrogador, era da equipe de busca. Dos que dirigiam, o primeiro era o Homero, o segundo era o Albernaz. O terceiro eu não me lembro o nome. Era um baixinho. Quem comandava era o major Waldir [Coelho], que a gente chamava de major Lingüinha, porque ele falava assim [com língua presa].
Pergunta - Quem torturava?
Dilma - O Albernaz e o substituto dele, que se chamava Tomás. Eu não sei se é nome de guerra. Quem mandava era o Albernaz, quem interrogava era o Albernaz. O Albernaz batia e dava soco. Ele dava muito soco nas pessoas. Ele começava a te interrogar. Se não gostasse das respostas, ele te dava soco. Depois da palmatória, eu fui pro pau-de-arara.
Pergunta - Dá pra relembrar?
Dilma - Mandaram eu tirar a roupa. Eu não tirei, porque a primeira reação é não tirar, pô. Eles me arrancaram a parte de cima e me botaram com o resto no pau-de-arara. Aí começou a prender a circulação. Um outro xingou não sei quem, aí me tiraram a roupa toda. Daí depois me botaram outra vez.
Pergunta - Com choques nas partes genitais, como acontecia?
Dilma - Não. Isso não fizeram. Mas fizeram choque, muito choque, mas muito choque. Eu lembro, nos primeiros dias, que eu tinha uma exaustão física, que eu queria desmaiar, não agüentava mais tanto choque. Eu comecei a ter hemorragia.
Pergunta - Onde eram esses choques?
Dilma - Em tudo quanto é lugar. Nos pés, nas mãos, na parte interna das coxas, nas orelhas. Na cabeça, é um horror. No bico do seio. Botavam uma coisa assim, no bico do seio, era uma coisa que prendia, segurava. Aí cansavam de fazer isso, porque tinha que ter um envoltório, pra enrolar, e largava. Aí você se urina, você se caga todo, você...
Pergunta - Quanto tempo durava uma sessão dessas?Dilma - Nos primeiros dias, muito tempo. A gente perde a noção. Você não sabe quanto tempo, nem que tempo que é. Sabe por quê? Porque pára, e quando pára não melhora, porque ele fala o seguinte: "Agora você pensa um pouco". Parava, me retiravam e me jogavam nesse lugar do ladrilho, que era um banheiro, no primeiro andar do DOI-Codi. Com sangue, com tudo. Te largam. Depois, você treme muito, você tem muito frio. Você está nu, né? É muito frio. Aí voltava. Nesse dia foi muito tempo. Teve uma hora que eu estava em posição fetal.
Pergunta - Dá pra pensar em resistir, em não falar?Dilma - A forma de resistir era dizer comigo mesmo: "Daqui a pouco eu vou contar tudo o que eu sei". Falava pra mim mesmo. Aí passava um pouquinho. E mais um pouco. E aí você vai indo. Você não pode imaginar que vai durar uma hora, duas. Só pode pensar no daqui a pouco. Não pode pensar na dor.
Pergunta - A sra. agüentou?
Dilma - Eu agüentei. Não disse nem onde eu morava. Não disse quem era o Max [codinome de Carlos Franklin Paixão de Araújo, então seu marido]. Não entreguei o Breno [Carlos Alberto Bueno de Freitas], porque tinha muita dó. Vou dizer uma coisa que uma tupamara, presa com a gente, disse pra mim. A tupamara ficou até com lesão cerebral. Ela disse: "Sabe por que eu não disse, naquele dia, quem era quem? Porque eu era mulher do fulano de tal e queria provar que o uruguaio é tão bom quanto o brasileiro".
Pergunta - Qual é o significado da frase?
Dilma - Que as razões que levam a gente a não falar são as mais variadas possíveis.
Pergunta - Quais foram as suas?
Dilma - Tinha um menino da ALN que chamava "Mister X". Eu o vi completamente destruído. Não sei o que foi feito dele. Nunca vou esquecer o quadro em que ele estava. Primeiro, eu não queria que meus companheiros estivessem numa situação daquelas. Segundo, eu tinha medo que algum deles morresse. Terceiro, porque teve um dia que eu tive uma hemorragia muito grande, foi o dia em que eu estive pior. Hemorragia, mesmo, que nem menstruação. Eles tiveram que me levar para o Hospital Central do Exército. Encontrei uma menina da ALN. Ela disse: "Pula um pouco no quarto para a hemorragia não parar e você não ter que voltar".
Pergunta - Palmatória, pau-de-arara, choque. O que mais?
Dilma - Não comer. O frio. A noite. Eles te botam na sala e falam: "Daqui a duas horas eu volto pra te interrogar". Ficar esperando a tortura. Tem um nível de dor em que você apaga, em que você não agüenta mais. A dor tem que ser infligida com o controle deles. Ele tem que demonstrar que tem o poder de controlar tua dor.
Pergunta - E o torturado?D
ilma - O jogo é jamais revelar pra ele o que você acha. Ele não pode saber o que você pensa e ele nunca pode achar que você só fala depois de apanhar. Jamais. É melhor você não deixar ele perceber que te tira informação por tortura. Tem que ter uma história. O ruim é quando a sua história rui, por qualquer motivo. Ele acha que você mentiu. Se ele achar que você mentiu, você está roubada. Ele descobriu qual é o jogo. Quando você volta, e é por isso que voltar é ruim, ele diz: "Você mentiu, pô, o negócio é que você mente".
Pergunta - A sua história caiu?
Dilma - Uma vez caiu tudo, mas aí era tarde demais. Caiu tudinho da Silva. Porque eu dizia que o meu marido tinha seqüestrado o avião e que, se eu não tinha saído com ele, é que eu era uma pessoa que não sabia de nada, que, se soubesse, teria ido junto. Aí eles descobrem que eu era da direção da VAR, e que portanto era impossível não saber do seqüestro. Tava zebrado. Aí tem que falar: "Não, eu era da direção, mas estava separada dele". Se a sua história cai, você está roubado.
Pergunta - O que é que ajuda, nesses momentos?
Dilma - Se eu tivesse ficado sozinha na cadeia, teria muito mais problemas. Devo grande parte de ter superado, absorvido e em alguns momentos chegado até a ironizar a tortura, para agüentar, às minhas companheiras. Eu lembro do povo do [presídio] Tiradentes, que esteve comigo.
Pergunta - De algum momento em particular?
Dilma - Quando alguma de nós era chamada para o repique, que era voltar à Oban, havia um processo de contágio, de medo, e de uma identificação muito forte entre nós. Como forma de ter controle da situação, a gente dessolenizava. Então, tinha uma variante de grito de guerra. Não mostra que a gente foi heroína, coisíssima nenhuma, e não é nesse sentido. Mas foi a tentativa mais humana de dominar o indizível, que era dizer: "Fulana, não liga não, se você for torturada a gente denuncia". E ria disso, pela ironia absoluta que é. O que é que adianta denunciar? Para torturado, o que é que adianta? Mas a gente gritava isso na hora que a pessoa estava saindo da cela, como uma forma de manter o nível de controle sob seu destino, que você não tinha. Você não sabia para onde você ia ou para onde a sua companheira ia.

Dilma, se cedesse, tinha muito a dizer, como relata o texto aqui, puxado desse blogue aqui:

Dilma Rousseff, no entanto, teve uma militância armada muito mais ativa e muito mais importante. Ela, ao contrário de José Dirceu, pegou em armas, foi duramente perseguida, presa e torturada e teve papel relevante numa das ações mais espetaculares da guerrilha urbana no Brasil — o célebre roubo do cofre do governador paulista Adhemar de Barros, que rendeu 2,5 milhões de dólares. O assalto ao cofre ocorreu na tarde de 18 de julho de 1969, no Rio de Janeiro. Até então, fora "o maior golpe da história do terrorismo mundial", segundo informa o jornalista Elio Gaspari em seu livro A Ditadura Escancarada.
Naquela tarde, a bordo de três veículos, um grupo formado por onze homens e duas mulheres, todos da VAR-Palmares, chegou à mansão do irmão de Ana Capriglioni, amante do governador, no bairro de Santa Teresa, no Rio.
Quatro guerrilheiros ficaram em frente à casa. Nove entraram, renderam os empregados, cortaram as duas linhas telefônicas e dividiram-se: um grupo ficou vigiando os empregados e outro subiu ao quarto para chegar ao cofre. Pesava 350 quilos. Devia deslizar sobre uma prancha de madeira pela escadaria de mármore, mas acabou rolando escada abaixo.
A ação durou 28 minutos e foi coordenada por Dilma Rousseff e Carlos Franklin Paixão de Araújo, que então comandava a guerrilha urbana da VAR-Palmares em todo o país e mais tarde se tornaria pai da única filha de Dilma. O casal planejou, monitorou e coordenou o assalto ao cofre de Adhemar de Barros. Dilma, no entanto, não teve participação física na ação.
"Se tivesse tido, não teria nenhum problema em admitir", diz a ministra, com orgulho de seu passado de combatente. "A Dilma era tão importante que não podia ir para a linha de frente. Ela tinha tanta informação que sua prisão colocaria em risco toda a organização. Era o cérebro da ação", diz o ex-sargento e ex-guerrilheiro Darcy Rodrigues, que adotava o codinome "Leo" e, em outra ação espetacular, ajudou o capitão Carlos Lamarca a roubar uma Kombi carregada de fuzis de dentro de um quartel do Exército, em Osasco, na região metropolitana de São Paulo. "Quem passava as orientações do comando nacional para a gente era ela."

Dilma, na entrevista para o Maklouf, ainda teoriza sobre como não se deve acusar quem confessou em tortura, entregou companheiros. Ela mesma foi vítima de delação, e, ao fim da entrevista, manda um abraço ao companheiro que a delatou. Condenar o delator é fazer o jogo da tortura, que obriga o sujeito a contar o que não quer e o faz conviver com a culpa pela vida inteira, diz ela.

É um dos atos mais nojentos e covardes de que o ser humano é capaz, a tortura; e muita gente na oposição compartilha dessa opinião. Mas, a essa altura, deve ter gente no DEM e no PSDB querendo botar o Agripino no pau de arara.

O Dourivan, que andava sumido do Sítio, cobra um comentário sobre a excelente iniciativa jornalística do Ricardo Balthazar, no Valor, que usou a lei de abertura de informações dos EUA para pedir documentos reservados sobre as relações do governo Bush com o governo Lula. Dourivan fala que não viu o tema em vários blogues; mas ele não consultou o excelente Maurício Santoro, que fala do asusnto, AQUI.

É muito interessante a revelação de que José Dirceu andou prometendo conter Chávez e afirmou que Evo Morales estaria "sob controle" (o Baltha diz que "sob controle" do Brasil, mas publica versão de Dirceu, de que falava apenas em "situação sob controle"). Hoje há outras matérias do Baltha, em que mostra mais uma vez uma certa bicefalia na política externa, entre os contatos dos EUA com Dirceu e a atuação do Itamaraty.

A divulgação dos relatos das autoridades sobre as conversas deixa mal José Dirceu, que teria até falado em ressuscitar a Alca, quando já estava claro que não havia como fazer o acordo sem abrir mão de reivindicações importantes e ceder em pontos que reduziriam fortemente o espaço para uma política autônoma de desenvolviemnto.

Mas, os documentos divulgados pelo Valor, em geral, mostram o governo brasileiro preocupado em defender interesses dos vizinhos (a própria venezuela, a Bolívia, a Argentina) em seus contatos com os EUA. Uma lição interessante que fica para as autoridades brasilerias é a de que, quando falam em nome do país,falam para a história, e suas conversas um dia poderão ganhar publicidade. Bravatas, traições, jogos duplos podem chegar ao conhecimento do público antes do que se pensa.

Mas isso só é mais perigoso com países democráticos. A maioria dos regimes autoritários não deixa muito registro. O governo Bush diminuiu a transparência dos arquivos de governo por lá _ e, é claro, há muita coisa que jamais saberemos sobre as andanças de emissários dos EUA no continente. Mas que a gente devia cobrar leis semelhantes, de abertura de arquivos, aqui no Brasil, ah, isso devia.

O Baltha não ficou nos documentos, entrevistou gente enviolvida, e saiu com histórias saborosas, como essa:

O ex-ministro José Dirceu virou um interlocutor privilegiado do governo americano no primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, quando os Estados Unidos buscaram um canal paralelo de diálogo com o círculo íntimo do presidente para driblar resistências que encontraram na diplomacia brasileira a uma aproximação maior dos dois países. "O Itamaraty via a relação com Washington como um jogo de soma zero, em que um lado só ganha se o outro perder", disse ao Valor o ex-secretário-assistente de Estado dos EUA para a América Latina Roger Noriega, que ocupou o posto de 2003 a 2005. "Era importante ter um canal que passasse por cima disso e achávamos que Dirceu podia ser um interlocutor prático."

O ex-ministro desempenhou o papel com grande desenvoltura. Em 2005, semanas depois de se reunir em Washington com a secretária Condoleezza Rice, ele viajou às pressas para Caracas para falar com o presidente venezuelano, Hugo Chávez. Dirceu voltou correndo para contar o que ouvira a Condoleezza, que encontrou novamente durante uma visita de dois dias que ela fez a Brasília na mesma época.

"O sentido da [nossa] mensagem era que o Brasil, que os Estados Unidos não deviam interferir nem na Venezuela, nem na Bolívia", disse Dirceu ao Valor, oferecendo uma versão diferente da que foi registrada no informe sobre sua conversa com Condoleezza. "A situação da Bolívia, não é que estava sob nosso controle. Estava sob controle. Não havia nada na Bolívia que pudesse ameaçar qualquer interesse." O ex-ministro diz que não foi a Caracas levar recados dos EUA nem transmitiu mensagens de Chávez para Condoleezza na volta. Mas uma pessoa que foi informada sobre as conversas de Dirceu na época disse ao Valor que ele indicou a Condoleezza em Brasília que o presidente venezuelano manifestara interesse numa reaproximação com os americanos, exatamente o contrário do que aconteceu depois.

As matérias do Baltha estão AQUI, AQUI, AQUI e AQUI. Mas só quem tem assinatura do Valor tem acesso aos fac símiles, bem interessantes. Sorry. A assinatura está baratinha.

A irmã da Lolita

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falei disso aqui, e agora é boa notícia: o último livro, inédito e incompleto, de Vladimir Nabokov, que ele pediu ao filho para queimar após sua morte, será impresso. É o filho, Dmitri quem garante, ingressando no abençoado clube dos traidores testamentários, ao qual pertence também o amigo de Franz Kafka, Max Brod, não importa o que diga o tarado (porém muito culto) do Alex Castro.


Isso é o que conta o jornal O Público, de Portugal:


A última obra de Vladimir Nabokov, um dos mais importantes romancistas do século XX, não vai ser destruída. O filho do escritor russo, Dmitri Nabokov, disse numa entrevista à BBC que não vai cumprir o desejo do pai - que, pouco antes de morrer, em 1977, deu instruções à família para que queimasse o manuscrito parcial de The Original of Laura.


Há três décadas que o destino desta obra se arrasta. Antevendo que não conseguiria completar o livro, Nabokov deixou explícito à mulher, Vera, que deveria destruir os 50 cartões escritos a lápis que compunham o original.Mas Vera nunca o chegou a fazer até à sua morte, em 1991. A responsabilidade passou para o filho de Nabokov.Ao longo de vários anos, a curiosidade de jornalistas e académicos sobre o último livro de Nabokov manteve-se acesa.


Os cartões continuaram num banco suíço, enquanto Dmitri Nabokov (tradutor e editor da obra do pai) se mantinha indeciso.Essa curiosidade acentuou-se porque Dmitri Nabokov tem sugerido que o livro não seria uma obra menor. Contou no ano passado a um jornalista da revista on-line Slate que The Original of Laura é "a mais concentrada destilação da criatividade" de Nabokov.Ainda segundo a Slate, os 50 cartões correspondem a 30 páginas de "um manuscrito convencional"; ou seja, o livro estava muito longe de estar acabado. Dmitri Nabokov já pôs de parte a hipótese de ele ou outro escritor tentarem "completar" o livro.


E o Dmitri fala, em inglês, para o NY Times, numa ótima entrevista, AQUI.

Valores subprime

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Você pode concordar com ele ou discordar dele, mas não pode contestar: esse tal de Thomas Friedman escreve diabolicamente bem.

"We are not as powerful as we used to be because over the past three decades, the Asian values of our parents’ generation — work hard, study, save, invest, live within your means — have given way to subprime values: “You can have the American dream — a house — with no money down and no payments for two years.”"

(No original fica mais bacana, mas numa má trasdução ficaria assim: Não somos tão poderosos quanto costumávamos ser porque, nas últimas três décadas, os valores asiáticos da geração de nossos pais _ trabalhe duro, estude, poupe, invista, viva conforme suas possibilidades _ deram lugar a valores subprime: ' você pode ter o sonho americano _ uma casa _ sem entrada e sem prestações por dois anos'")

Tudo isso para dar um apoiozinho a Barak Obama. No fundo, ele defende que os EUA deixem de bancar a polícia do mundo e se voltem para ajeitar a casa, que anda meio bagunçada. Interessante é que o Friedman, longe de ser um militante anti-liberal, lamenta, por exemplo, a redução das verbas públicas em pesquisa e educação.
Enquanto os intelectuais daqui ainda falam em replicar o modelo norte-americano, e repetem os mantras aprendidos em pós-graduações nos EUA, a turma lá olha com interesse cada vezmaior para os modelos asiáticos, esse em que o Estado determina ao setor rpivado a aprte que lhe cabe no latifúndio do desenvolvimento.

Aí o auê aí, ó

A Justiça proibiu a marcha da maconha, essa injustiçada demonstração de fervor cívico e consciência social, mas não calou a voz da militância.... na rádio Câmara.

Agora à tarde, a programação na 96.9 aqui em Brasília era Manu Chao, com seu Clandestino, e o Me gustas tu, ambos com refrões canabinofílicos, como "me gusta marijuana, m gustas tu". No Clandestino o refrão em que também fala de marijuana costuma fazer babar a turma da platéia, que adota um ar de românticos rebeledes, como no tempo em que a droga não era coisa do establishment, fumada até por ex-presidente dos EUA.

Oliveira, o canalha da redação, me disse que participaria da marcha, aqui em Brasília. Curioso, sabedor de que Oliveira só gosta de multidão quando vê nelas a possibilidade de apartar companhia para a noite, liguei hoje, para ver se ele iria mesmo. Ele me respondeu que tinha acabado de fumar uns troços, sabia ter algum compromisso importante para hoje mas não conseguia lembrar do quê.

As maldades do mercado

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"Capricha aí, que eu tenho encontro agora com os caras da Moody's"





Um sonho de todo analista de mercado, acho, é tornar-se famoso com algum achado feliz, como o que deu a John Williamson a paternidade do termo "Consenso de Washington", ou o que Jim O'Neill criou na Goldman Sachs com o termo "Brics" para apelidar o grupo de grandes países emergentes e promissores formado por Brasil, Índia, China e Rússia. O termo vira moda, e, por tabela, dá fama a seu criador, que passa a ser entrevistado em todo lugar aonde vai, como "fulano, o que cunhou a expressão tal".

Mas a turma pega pesado. Na consultoria GaveKal, baseada em Hong Kong, o pessoal reuniu num só grupo os países da União Européia com mau desempenho em matéria de contas públicas, e menor desenvolvimento relativo. Portugal, Itália, Grécia e Espanha (Spain) é o grupo. Sigla em inglês: Pigs. Porcos, em bom português. Nisso que dá ser ibérico ou mediterrâneo em terra de branco.


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O que me faz lembrar uma conversa que tive numa pausa do plantão nesse fim de semana, com o Alex Ribeiro, meu favorito neoliberal. Nada de economia; ele me contava a viagem pela Ásia, com a mulher, que se tornou um inferno porque resolveram dividir uma van com um grupo de europeus, holandeses e outros louros de olho claro.

O problema, conta o Alex, é que, na hora de bolar o roteiro da van, ele e a mulher tentavam fazer com que a viatura passassse pelos raros lugares onde se poderia tomar um banho ao fim do dia. E os europeus irritados, não viam lógica em desviar-se do caminho para fazer algo tão dispensável quanto higiene pessoal.

Um jornalista americano, cujo nome o Alex contou mas já me esqueci, escreveu sobre a neurastenia nacional: os brasileiros são tão obcecados por higiene que tomam vários banhos por dia e levam escova de dente para o trabalho, impressionou-se o sujeito.

Essa deve ter sido uma das razaões para a recente promoção do Brasil a país digno de investimento do primeiro mundo.
Descobriram que a gente é o que é, mas é limpinha.



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