junho 2008 Archives

Pausa entre uma matéria e outra

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Generoso na avaliação deste Sítio, o Luiz Favre já matou a charada, levando a sério nosso mote, "notícias irrelevantes para quem tem mais o que fazer com o próprio tempo. Fico dividido e em falta com meus trinta fiéis leitores quando viajo, como agora, para coberturas que tomam tempo, morrendo de inveja de gente como os mestres Idelber e o Santoro que aproveitam os compromissos para nos presentear com análises percucientes da realidade local. Meu negócio são as impertinências, e, se der, volto com elas em breve.
Estou em Tucuman, no hotel que, a partir de amanhã deverá virar um inferno sob segurança, com a vinda de dez presidentes sul-americanos. Por enquanto, se eu fosse um perigoso terrorista internacional, teria aprontado ontem, quando cheguei e o controle era nulo, fui até à sala dos futuros encontros privados dos presidentes. Nesse momento, após passar pelo detetor de metais há algum tempo e me instalar no café do hotel, em um canto estratégico onde escrevo minha coluna, tenho visão privilegiada de duas mesas onde sujeitos com uniforme de camuflagem manipulam computadores onde se pode notar mapas aéreos, com letreiros indicando trajetos de helicóptero. Esticando o ouvido, quem sabe até teria informações logísticas privilegiadas.
Volto em beve, se o Mercosul deixar, para comentar essa história de segurança em encontros de cúpula. Mas o chamar me deve, digo, o dever me chama.

A polícia de São Paulo, excitadíssima, já avisa que vai botar espiões nos bares, para flagrar quem tiver provado alguma biritinha e sair dirigindo. Ora, me pergunto: porque não fazia isso antes? Por que não usaram esses espiões para ver se pessoas claramente embriagadas saíam dos restaurantes e pegavam o volante????

A resposta, meu caro São Cristovão, é simples: acabam de criar uma nova maneira de achacar o cidadão. Sugiro que a corregedoria de polícia bote espiões também, para flagrar os policiais que, após pararem as gentes saindo de bar, liberarem motoristas sem cobrar a multa de mil pratas, porque, afinal só haviam bebido um pouquinho, e, tão generosos, ainda deram algum pro chope de fim de semana do meganha.

O Estado tem dever de proteger os cidadãos, e prender quem anda embriagado. deve botar até espião para isso, se necessário. Mas quem bebe uma taça de vinho, ou dois chopes, tem sua capacidade de dirigir menos prejudicada do que o sujeito que tirou a carteira aos vinte anos e hoje está com 45. Se, como todos sabem, a idade reduz reflexos e acuidade visual, a próxima medida é a determinação de faixa etária máxima para dirigir automóvel.

O discurso da liberdade individual tem limites. Uma arma, por exemplo, só tem como finalidade a violência, defensiva ou ofensiva; e, numa sociedade democrática, a violência deve ser exclusividade do Estado, regida por leis e normas, com gente teoricamente treinada para aplicá-las. Por isso sou favorável à probição de armas. Também defendo medidas que preservem a saúde do cidadão contra ataques alheios, daí a necessidade de normas para proibir fumo em lugares fechados.

Mas é possível beber sem embriagar-se, e é um costume social, que, agora, a burocracia e distraídos bem intencionados querem proibir, só como precaução. Como o Estado não controla os abusos do álcool em motoristas, que todo motorista sejam punidos com a proibição do drinque no fim da noite. Não soa razoável, e, como se vê pela excitação da polícia paulista, subitamente cheia de idéias para reprimir motoristas, é coisa que serve bem para o abuso sobre o cidadão.

Agora vai!!!

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Isso é que é questão relevante, contundente, penetrante mesmo. Estava eu me preparando para a vibrante reunião de Cúpula do Mercosul, em Tucumán, na semana que vem, com 10 chefes de Estado do continente e descubro algo que minhas fontes não tinham contado: brasileiros, uruguaios, argentinos e paraguaios, temos todos, agora, um regulamento comum para a camisinha.

É o REGULAMENTO TÉCNICO MERCOSUL PARA PRESERVATIVOS MASCULINOS DE LÁTEX DE BORRACHA NATURAL, aprovado, na sexta-feira, pelo Grupo Mercado Comum, o órgão executivo do bloco do Cone Sul. Aprovado tendo em vista o Tratado de Assunção, o Protocolo de Ouro Preto, as Resoluções Nº 04/95, 131/96, 31/97, 38/98, 40/00, 75/00 e 56/02 do Grupo Mercado Comum, e de acordo com uma série de considerando que vou poupar aos leitores deste Sítio.

Está tudo lá, negociado diplomaticamente, da espessura ao diâmetro, da bainha às especificações para orifícios (calma leitor, leitora, são as normas para os orifícios no preservativo, que, aliás, como agora determina o Mercosul, devem ser inexistentes. Claro, como não havíamos pensado nisso antes?).

Não haverá mais diferença entre o preservativo paraguaio, uruguaio, argentino ou brasileiro, estão todos padronizados, segundo a diretiva comum. "Paudronizados, no caso", me sussurra Oliveira, o canalha de redação, que nunca primou pelo bom gosto em trocadilhos.

Agora é acordo internacional: "os preservativos masculinos de uso único, confeccionados a partir do látex de borracha natural, devem ser projetados para serem usados sobre o pênis ereto durante a relação sexual, com a finalidade de impedir a passagem do semem, auxiliar na prevenção da concepção e ajudar a prevenir as doenças sexualmente transmissíveis". Pacta sunt servanta, acordos são para serem cumpridos. Faço idéia do que estavam fabricando no Cone Sul antes de chegarem a essa definição tão juridicamente perfeita.

Tudo decidido, mas por enquanto, sabe como é. A reunião dos ministros é só na semana que vem, e é hábito alguma queixa dos sócios menores, sei lá, vão exigir alguma medida para tratar da "assimetrias" entre os países, nesse particular. Dizem que, na negociação sobre as medidas da camisinha Mercosul, a coisa fica beirou o impraticável, brasileiros e argentinos defendendo diâmetros cada vez maiores, só para levantar a honra nacional.

E não se deve esquecer que a Venezuela também é sócia, ou, como rotularam os diplomatas, um "sócio em vias de adesão". Sabe como é o Hugo Chávez. Chega lá em Tucuman e pode encrencar logo com esse regulamento. Ninguém checou se as novas normas estão adaptadas ao calibre bolivariano; esse troço ainda vai dar polêmica.

Hoje não meu bem, estou dirigindo

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Oliveira, o canalha da redação, está inconsolável. Está proibido, por lei, de levar uma moça a um restaurante, pedir uma meia garrafa de vinho e, depois, levá-la de carro a algum lugar mais romântico e íntimo, onde possam conversar em paz sobre osm aspectos dionisíacos da vida. Ele até pode chamar a moça, mas um dos dois terá de beber o vinho sozinho, ou ambos terão de chamar um taxi depois, se não quiserem ser tratados como criminosos.

Como toda resposta burocrática a um problema real, essa nova lei que proíbe motoristas de beberem uma gota que seja de álcool é de uma estupidez brutal. Alguém que, seguindo a lei, tenha tomado algumas a mais no domingo e voltado de carona para casa está sujeito à detenção, no dia seguinte, caso um policial de trãnsito mal humorado resolva pará-lo e descubra resíduos de álcool no sangue do cara. Esse, e o caso do Oliveira, são só alguns dos exemplos em que as pessoas bebiam sem botar em risco a vida de ninguém, e serão catadas por essa Lei Seca do volante. Como toda lei draconiana, será desrespeitada, o bom senso acatará o desrespeito, até que algum policial resolva encrencar com a cara de alguém, por motivo alheio ao álcool.

O irresponsável que dirige embriagado não vai mudar de atitude porque agora proibiram até comer dois bombons de licor antes de pegar no volante. Mas o cidadão que saía à noite com a mulher, bebia um chope, ou uma taça de vinho e voltava para casa, mais leve mas não menos atento, terá de mudar de hábitos para satisfazer à necessidade de mostrar serviço, das autoridades incompetentes.

Ou não. Ninguém mudará de hábito, e os policiais corruptos terão uma nova fonte de renda garantida às sextas, sábados, domingos e segundas (lembrem dos motoristas de ressaca). Não deixa de ser uma forma de aumentar o rendimento da moçada sem provocar a ira dos vigilantes das contas fiscais.

O Haiti não é aqui

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Nem bem o Caetano começou a bater boca com o Fidel Castro, a União Européia decidiu levantar as sanções econômicas que tinha contra Cuba. Nós, na imprensa com base em Brasília, já nos acostumamos a descobrir ligações entre os fatos mais insuspeitos, mas confesso que, embora tenha certeza de que há alguma relação aí, ainda não atentei qual é.

Oliveira, o canalha da redação, jura que isso tudo tem a ver com o endurecimento da UE em relação aos imigrantes ilegais. Querem reservar um lugarzinho para os deportados perto de Guantanamo, só de sacanagem, garante ele. E o Caetano, o que tem a ver com isso tudo? "Tudo a ver. Eu, se fosse baiano, por via das dúvidas pedia demissão do emprego de garçom em Londres e voltava para a Costa do Sauípe", diz Oliveira, enigmático.

Baixando o Tom Zé, na veia

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Era uma multidão, dava a volta na quadra do teatro e avançava por uma rua, atrás; eu e Marta nos vimos na fila, entre uma garotada com piercings, tatuagens e cabelos esquisitos, casaizinhos com ar extraordinariamente normal para os dias de hoje, coroas descolados. Depois de duas horas, conseguimos só chegar perto da porta, e ver pelo telão o Tom Zé na Virada Cultural, em Sampa. Coisa inimaginável uns anos atrás, quando eu tinha vagas idéias do trabalho do tropicalista mais gauche da turma que marcou a MPB. Vi o Desconstruindo Tom Zé e me encantei com o cara.

Pois o Tom Zé está mais que atual, está de novo na vanguarda. Tem duas discussões interessantes na Internet, uma sobre o papel dos blogues e dos jornais, a concorrência ou complementaridade entre eles; outra sobre o futuro da indústria cultrual e dos artistas autores de obras facilmente copiadas numa época de copiagem desvairada. O Tom Zé entra nessas duas estradas.

O cara tem um blogue. Como blogue é fraquinho; como sítio para os fãs, delicioso. O que faz um artista-filósofo de mais de 70 anos de corpo e mente antenada, quando uma fã lhe envia uma foto com a capa de seu disco tatuada no braço? O Tom Zé registra a estranheza com essa história de marcar na pele imagens que traduzem gostos tão perecíveis; faz uma teoria para justificar a tauagem e e manda um beijo carinhoso para a moça.

Bom, exagerei ao falar que o Tom Zé participa da discussão sobre blogues e jornais. Ele mesmo disse à Folha que não é grande navegador na Internet, é de "pequena cabotagem". Mas ajuda, involuntariamente, a argumentar nesse debate. O cara lançou um disco pela Internet numa experiência inédita no Brasil, e garanto que a maioria das pessoas só vai tomar conhecimento disso hoje, quando os jornais paulistas (os do Rio ainda estão cochilando) contaram a história, já antecipada nos blogues especializados, desde o começo da semana.

Os blogues tendem a descobrir e divulgar muita coisa antes dos jornais, que sofrem de carência de repórteres, de criatividade e de falta de espaço. Mas os jornais ainda têm um público maior e mais diversificado, são a praça onde o povo se encontra e fica sabendo do que não estava nem imaginando que queria saber. Por enquanto, acho.

Na Folha, o João Marcelo Boscoli conta como imagina viabilizar o negócio do disco virtual com patrocínio (e é impressionante; em vez de pop-uops agressivos, um discreto logotipo do que parece ser de uma empresa dea Vale Refeição _ tudo a ver: além de, a massa comer o biscoito fino do Tom Zé, vai poder pagar com Vale Refeição). Caminho brilhante, todo brasileiro deveria se sentir na obrigação de apoiar esse troço.
O Tom Zé conta, para o Marco Aurélio Canônico, também na Folha: "Sabe aquela cena do osso de '2001' lá no Kubrick? Eu me sinto assim, um osso pré-histórico virando uma estação orbital".






Agora, como se diz no jornal, o lead: vamos, meus trezentos leitores (ou menos, o sítio andou sendo desfalcado, já não se faz público como antigamente), baixar o álbum do sujeito! O caminho é por AQUI.

Heteromonimos

Há alguns sergios leos pela rede, um dos quais me rendeu por muito tempo mensagens de um seminarista que pretendia fazer formação religiosa ou coisa parecida com o padre meu homonimo. O Sergio Leo que prefiro é o que gravou esse disco AQUI, que um dia ainda encomendarei, quando curar a Marta da fobia patológicq que ela tem de música andina. O cara, multinstrumentista, toca de charango a quena, seja lá o que for isso.

Pelos emeios errados que vêm parar em minha caixa, vejo que os sergios leos são, em geral, hispânicos. Uma vez, me deparei com um homônimo fotografado em alguma prisão californiana, por abuso sexual, cruz credo. E há o Sergio Leone, de quem os fãs abreviam o nome.


Mas há os que não recebem emeios porque o que era para eles acaba endereçado por engano para mim e desaba na minha correspondência. Abro todos, sei lá em que encrenca não posso terminar me envolvendo em alguma visita ao exterior, por causa de algum sergio leo da pá virada. O último que me chegou tinha uma corrente engraçadinha dessas de Internet. É de uma moça vendendo celulares (há países em que as pessaos vendem celulares umas às outras, coisa esquisita). Como pode interessar a algum passante neste Sítio, reproduzo aí os equipamentos. É um celula quase novo com câmera de alta definição, um celular com jogos e outro com câmera e vibra-call.

Deu branco no planeta vermelho

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NASA/JPL-Caltech/University of Arizona/Texas A&M University/NASA Ames

Roubei a foto do Evandro, AQUI. Esqueça a pergunta se a ministra Dilma tem ou não culpa em algum dos cartórios onde meteram o nome dela. Deixe para lá a dúvida sobre as verdadeiras razões para o governo tentar ressuscitar o imposto sobre cheques. Não se preocupe em descobrir o que continha, afinal, o computador apreendido pelas forças armadas colombianas no acampamento das FARC com o finado guerrilheiro Raul Reyes. Mistério grande, relevante mesmo, é o que será esse troço branco que a sonda Phoenix acaba de descobrir ao escavar o solo de Marte.

Os cientistas querem descobrir se é gelo ou sal, questão extremamente relevante, especialmente se você pretende beber uísque comendo amendoim na superfície do planeta vermelho. Já eu suspeiro que sejam sacolas plásticas da extinta civilização marciana. Mas também pode ser o teto de uma construção de algum desaparecido Oscar Niemeyer verde de olhos pendurados acima da testa.

Essas coisas fazem a imaginação da gente entrar em órbita.

pausa para a eletrônica

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Meu querido Ariano Suassuna, para quem devia ser Ciência o sobrenome do Chico Science, teria erisipela ao ver a performance que deu origem a esse vídeo. O José Ramos Tinhorão deve revirar na tumba. Mas Brasília, que vive parindo estrelas da música brasileira, está avançando no campo da arte, da pintura à eletrônica. O responsável pelas imagens aí em cima é o Alexandre Rangel, ou VJ Xorume, cara de quem ainda vão ouvir falar muito. Ele criou um programa para editar imagens ao vivo, em apresentações, e vem divulgando e distribuindo o dito-cujo, de graça. Invenção do mundo comumcriativo da Internet. Essa é uma amostra da coisa, com uma música que bate no ritmo cibernético com raízes fincadas no cerrado. Troço para conhecimento de meu amigo Bicarato.

Grande cara, o Rangel. VJ Xorume, digo.

O Chávez, quem dizia, hein?

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Existe um país na América do Sul onde a imprensa é livre, com capacidade para defender interesses da sociedade contra iniciativas autoritárias dos governantes. Onde o presidente pode ver rejeitada, pelo voto, uma proposta essencial para seus planos de poder. Um país em que eventuais baixos índices de popularidade podem obrigar o governante a mudar seus planos, desistir de projetos, negociar com as forças políticas, ainda que resmungando acusações contra a oposição.

Esse país se chama Venezuela, aquela presidida por Hugo Chávez. A Venezuela governada por um ex-militar de idéias autocráticas, mas, até hoje, apesar de editoriais em contrário, submetido aos limites da democracia. Quando perdeu o referendo na reforma constitucional, que lhe daria poderes inimagináveis, a imprensa que acusava Chávez de manter uma ditadura na Venezuela passou a dizer que ele logo anularia essa vitória democrática com algum ato autoritário. Devem estar até hoje.

A mesma Venezuela que uns e outros acusavam de estar sob uma ditadura, agora, quando é evidente que é regida por normas democráticas, entra no noticiário como se a falta de força do presidente fosse a coisa mais natural do mundo. O noticiário, onde antes pululava a palavra ditadura, agora repete informações sobre a perda de popularidade do presidente. É um caso raro de ditador que recua e faz concessões porque perdeu apoio popular, como se fosse um primeiro-ministro europeu qualquer.

Começa agora a se insinuar na imprensa a tese de que as concessões de Chávez se devem à resistência dos militares ao seu projeto bolivariano. Ora, se depende de apoio da sociedade, e nem com os militares o homem pode contar, a Venezuela tem uma ditadura apoiada em que?

Sobre a tal ditadura venezuelana, AQUI, AQUI, AQUI, AQUI e em muitos outros atalhos mais.

Nisso que dá fazer jornalismo com o olho fechado para a realidade, a cabeça repleta de preconceitos e a mão disposta a redigir panfletos.

Ex-mulher é para sempre

Existe denúncia e existe udenismo, aquele falso moralismo que serve só para fins políticos. Os jornais, às vezes, fazem denúncias (e há uma certa esquerda que chama a imprensa de golpista por isso, como se denúncia fosse coisa a se fazer só contra a oposição). Jornalistas, às vezes, embarcam em denúncias de araque, ou campanhas moralistas só na casca, que dão impressão de combatividade mas só reforçam aquela noção geral de que as pessoas normais não devem se envolver na política, porque é coisa podre, desaconselhável ao homem comum.


O udenismo, às vezes, aponta o alvo certo com a arma errada, como na matéria que leio hoje nos jornais, sobre a nomeação de Teresa Jucá , ex-mulher do líder do governo, Romero Jucá, para a secretaria nacional de Programas urbanos no Ministério das Cidades. A matéria,
segue o roteiro denúncia-de-nepotismo, e, como é regra nesses casos, conta que a Jucá vai ter cargo em comissão, DAS-6, e vai receber salário bruto de US$ 10.448.


Ora, ora, acho pouco pagar R$ 10 mil a alguém com a responsabildiade de secretário, cargo de segundo escalão, em algum ministério importante. E não se pode dizer que a Jucá faz o gênero ex-mulher de político nomeada para garantir uma pensãozinha. Assim como o ex-marido, é pessoa experimentada, com conhecimento profundo sobre o uso de verbas públicas. E foi aí que a reportagem que podia ser de denúncia atolou no udenismo. Procurei, mas não achei, informações sobre quanto dinheiro movimenta essa tal secretaria de Programas Urbanos.

Antes de perguntar ao tio Google, já desconfiava que era bem mais que R$ 10 mil mensais. Em vez de ficar de olho no contra-cheque na nova secretária, convém acompanhar de perto as liberações de verbas que sairão com assinatura da moça.

Uma senhora corajosa

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"Eu nunca quis fazer parte do aparato estatal. Para os que vêm do mundo acadêmico ou do setor privado, tomar essa decisão é algo difícil. Mas não pude tirar o meu da reta em um momento tão emblemático para o Paraguai"

Essa, segundo a agência Estado, é a nova ministra de Relações Exteriores do Paraguai, escolhendo uma perigosa metáfora para dizer que o governo Fernando Lugo não vai, hum, abrir as pernas na questão de Itaipu. "Ficar de quatro para o Brasil, jamais", concluiu Oliveira, o canalha da redação, que sempre achou Solano Lopez um injustiçado.

Falo disso lá no Ralações Internacionais.

Tutti buena gente

Um vice-governador, em briga com a governadora, grava conversas com o chefe da Casa Civil e faz explodir denúncias pesadas de corrupção sobre o governo. Só quem não lê jornal não sabe que é o que acontece no Rio Grande do Sul.

O vice-governador que revelou o escãndalo é de um partido eficiente, o DEM. Hoje, a Executiva do DEM já se reuniu, não tomou posição em relação ao envolvimento de aliados no escãndalo de corrupção, mas discutiu o pedido do senador Heráclito Fortes, para expulsar o dedo-duro do partido. O pessoal achou que não é para tanto, mas, pelo menos chegou a um consenso: o político que denunciou a corrupção no governo do Rio Grande do Sul não vai sair sem levar ao menos uma advertênciazinha. Afinal, imagina se os políticos do DEM saírem por aí revelando os podres dos aliados?

Lendo a notícia por cima do ombro, Oliveira, o canalha da redação, aproveitou para mostrar sua tarimba de cidadão do mundo: "isso aí, na Itália tem até nome. É omertà.


Tudo começou com o Tales Faria. Ele trabalhava na Ciência Hoje, e me convidou para ser um dos redatores, tarefa que consistia em traduzir para linguagem de gente os textos dos cientistas lá da revista. Meu primeiro texto era sobre teoria elementar da matéria, quando descobri que havia mais coisas entre o núcleo e a eletrosfera do que supõe nossas vãs lições de física no segundo grau.

Eu, que imaginava os átomos constituídos de um núcleo de bolinhas roxas e azuis, com protons e nêutrons, e esferinhas vermelhas, os elétrons, borboleteando à volta, aprendi sobre os bósons, leptóns, quarks, mésons e companheiros, que tinham vejam só, não só cores como também sabores; a física é coisa divertida, pensava eu, enquanto macerava o texto do cientista autor da matéria da Ciência Hoje. Depois do trabalho feito, entregávamos ao cientísta, com quem discutíamos as alterações necessárias. Sofremos, eu e ele, para chegar a um acordo, mas ele até me ofereceu uma pizza. Fiquei de olho na faca, só por paranóia.

"Olha, aqui no texto, o senhor botou que a gravidade é uma força acintosa na natureza", explicava eu, que nada entendia de eletromagnetismo, forças fracas e fortes, mas sabia português. "Acinte seria a gravidade derrubar, por capricho, quem lhe desse na telha; o senhor não quer dizer força ostensiva?".

O cientista, um craque, e bem-humorado, até aceitava muitas das minhas sugestões, mas falava espanhol, o que tornava o trabalho, dele e meu, um pouco mais complexo. "Isso está parecendo texto da Veja", resmungava ele, numa época em que isso até podia ser entendido como elogio (fiquei lisonjeado, aliás). "Esse trecho aqui...", eu prosseguia: "... temos de mudar, está muito ambígüo". E ele, me revelando que aquela parte tratava de uma questão que até hoje provoca facadas e rabos de arraia entre físicos quânticos e einstenianos: "deixa ambígüo mesmo", implorou, de olho nas eleições da associação de físicos em que era diretor.

Pois é, não parece, mas cientista tem tantas facções quanto políticos, tantas divergências quanto economista, tantas implicâncias quanto político antigo do PSDB. Lembrei disso quando lia hoje a melhor matéria do dia, a notícia de que, após rebaixar Plutão para a terceira divisão dos astros celestes, cassando seu título de planeta do nosso sistema solar, os cientistas resolveram dar uma compensação ao coitado, e batizaram toda uma coleção de astros como plutóides, a começar pelo próprio.

No sistema solar já existe outro plutóide, o Eris (não confundir com o Ibrahim _ mas o que estou dizendo, só os dinossauros lembram que Ibrahim Eris era o presidente do BC nos tempos do plano Collor). Foi quando descobriram o Eris (o astro, não o ex-presidente do BC) que decidiram que ser classificado como planeta era muita areia para o caminhãozinho do Plutão. Rebaixaram e quase o rebatizaram de Plutinho.
Mas tem gente que não gostou da história, existe uma espécie de associação dos amigos do Plutão, cobrando uma política afirmativa, quem sabe uma cota planetária para o coitado. A história, com as hemorróidas aí do título, está AQUI.

Francamente, professor Alberto Dines!

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Venho ao trabalho ouvindo o Observatório da Imprensa do Alberto Dines, e ele critica os jornais pela cobertura do caso Denise-Dilma, citado no post aí abaixo. De fato, professor, a mulher que era uma vilã na CPI do apagão aéreo agora é testemunha ilibada... mas, o que está dizendo o Dines?

(não anotei as palavras do mestre, não posso botar as aspas que queria, mas vai um resumo do conteúdo): a imprensa não fez nada para defender a salvação da Varig, e deixou que o mercado caísse nas mãos do "duopólio" TAM-GOL; e os jornalistas não defenderam que o governo salvasse a empresa nacional de maior tradição do país.

Pensei que o Dines fizesse uma crítica imparcial da imprensa, apontando defeitos na cobertura do ponto de vista estritamente jornalístico e ético. Esse comentário da Varig não tem nada a ver com o que ensinam os manuais de imprensa, está mais para catecismo ideológico.

Ora, mestre Dines, quem fez a Varig ir ao vinagre foi a Fundação Rubem Berta, dos funcionários da empresa, que fez uma administração irresponsável. Claro, se o BNDES ou algum outro cofre do governo soltasse, como sempre, dinheiro do contribuinte, a empresa continuaria no ar, sorvendo pelas turbinas a ajuda oficial, até a crise seguinte.

Antes do "duopólio" tínhamos um monopólio virtual, secundado em pequena escala pela trampolineira Vasp e pela não menos deficitária Transbrasil, com preços muito mais altos cobrados pela sua, a nossa Varig. Aliás, o problema que o governo enfrenta hoje não é a exploração do consumidor pelo "cartel" das empresas, como insinuava seu comentário na CBN, mas exatamente o contrário: a concorrência predatória entre as empresas, que já chegaram, tempos atrás, a cobrar tarifas que cobriam mal seus custos. Algo que um trabalho jornalístico como defende bravamente o Observatório, comprovaria facilmente. Claro, a concentração de mercado é ruim, e pode se transformar em exploração. Mas a Varig não ajudaria a mudar isso. Nunca ajudou.

Quando ao trabalho da imprensa, não resisto a atender aos apelos do Oliveira, o canalha da redação ("seja cabotino! Seja cabotino", me sussurra ele aqui ao ouvido), e recomendo ao pessoal do Observatório da Imprensa, de quem gosto muito, a leitura das matérias que publiquei no Valor, em 2002, quando ainda voava pelos ares acumulando prejuízos a sua, a deles Varig.

Infelizmente, sou mau jornalista, por isso aprecio o trabalho dos críticos, como o Observatório (e não estou sendo irônico, é a pura verdade). Não encontro mais a reportagem pelas gavetas do Google. Mas resumo aqui: o BNDES fez uma avaliação detalhada da situação da Varig, e mostrou como erros seguidos de administração levaram a empresa à situação falimentar em que ela se encontrava, já naquela época. Por ser administrada por uma fundação dos funcionários, havia uma duplicidade de interesses, e muitas decisões a favor dos empregados foram tomadas em detrimento da saúde financeira da empresa, apontava também o estudo. Não foi nenhuma matéria digna de prêmio Esso, mas dizia coisas que não eram publicadas, na época.

Ainda está em tempo de o Dines admitir que discursos nacionalistas podem até orientar, mas não garantem bom jornalismo. Ele pode contar no Observatório algo pouco noticiado: como as seguidas tentativas do governo de salvar a Varig esbarraram na intransigência da Fundação Rubem Berta, que não abria mão de exercer poder sobre a administração. Até que se chegou onde se viu, a nossa Varig desabou no solo.

Para facilitar o trabalho, e como compartilho do amor do Observatório pela verdade factual, indico uma visão crítica do relatório do BNDES. AQUI. Visão que não se sustentou na realidade, sustento eu.

O relatório, quando noticiado pelo Valor, fez sucesso. Pelo menos na Varig: a empresa reclamou por carta, que foi publicada, e cancelou a publicidade e compromissos que tinha com o Valor, como o de distribuição do jornal em seus vôos e um contrato de permuta, em que cedia passagens ao jornal para deslocamento dos repórteres, em troca de propaganda (negócio legítimo e comum na imprensa). Foi duro para o jornal, que mal havia começado a ganhar mercado. O tipo da represália truculenta, que tenta calar jornalista com o poder financeiro.

Eu não tive nem chance de me sentir intimidado: o jornal leva tão a sério a separação entre a redação e seu departamento comercial que nem fiquei sabendo da retaliação, na época. Continuei cobrindo o caso, sem nenhuma recomendação para mudar uma linha em qualquer matéria. E só anos depois, a Varig já na bacia das almas, alguém comentou comigo o que havia acontecido, quando mencionei o caso numa festa da redação.

Luz própria

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Sem nenhuma, nem longínqüa, paixão pela senhora cá em cima, predigo que esse escândalo mais recente com o nome dela, de pressões indevidas para garantir a venda da Varig, vai parar no mesmo buraco para o qual foram varridas as últimas sensações escandalosas do noticiário tratando da mesma pessoa _ o decantado "apagão elétrico" que tomou um choque de realidade, o crime dos cartões corporativos, que ficou sem crédito depois de constatadas práticas semelhantes em governos anteriores, por aí vai.

Eu acredito que há culpa nessa história, um claro desprezo pelas formalidades, pelas regras de bom comportamento que isolam as ações dos governantes da contaminação dos interesses rasteiros. E não ignoro histórias cabeludas sobre auto-nomeados emissários do Planalto em propostas indecorosas com o setor privado (sem provas; caso houvesse já estariam nas páginas).

Mas tudo que saiu até agora só mostra uma Dilma trabalhando no limite da irresponsabilidade para fazer uma coisa que nove entre 10 integrantes da esquerda defendiam: preservar o funcionamento da nossa, deles, Varig. Não vejo corrupa, nem desvio de dinheiro público, mas uma fechadinha de olho para certas regras de rpecaução em relação aos compradores privados da Varig.

O Roberto Teixeira, compadre de Lula, de fato parece lucrar bastante com essa amizade. Mas, se pagaram mesmo os R$ 5 milhões a ele para dar uma forcinha aos compradores da empresa, acho que pagaram caro, á toa. A Varig foi salva por ser varig, não por ter o teixeira de advogado, creio eu. Se ele fosse mesmo poderoso assim, seus esforços pesados para salvar a Transbrasil também teriam dado resultado.

E a acusadora, a impagável Denise da Anac, não é pessoa com muita credibilidade na praça.

Nem ia falar disso. Mas essa foto do mestre Ruy Baron, que os assinantes do Valor poderão recortar e colar na parede, tira das sombras outra razão para acreditar nas costas quentes da ministra.


(aliás, as últimas denúncias de irregularidades contra ela vieram de gente que trabalhou na Casa Civil com José Dirceu. Sou só eu que acha isso uma tremenda coincidência?)

Lygia Clark

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Não sei pelos 20 anos da morte dela, mas, nas buscas ao Google que vem desembocar neste Sítio, Lygia Clark vem rivalizando em popularidade com as bombshells Nicole Kidman e Lilian Ramos. A comparação é estapafúrdia, Lygia era muito mais gostosa _ no sentido intelectual do termo, digo.

Ela é reconhecida mundialmente como uma das artistas inovadoras do século; seu trabalho ainda inspira novos artistas e vem se tornando canonico, mas do jeito da Lygia, sem as amarras que o cânone costuma impor. Em outubro, o CCBB e a Associação O Mundo de Lygia Clark deverão fazer uma exposição imperdível, calcada principalmente nos objetos sensoriais criados por ela. Fiquem de olho. De pele. De ouvidos.

Eu já critiquei duramente aqui a maneira museológica com que os herdeiros da Lygia tratam o trabalho dela. Mas, desde então, tenho visto exposições interessantíssimas, com o apoio deles, que até editaram um simpático Bicho de plástico, que deveria estar na casa de todo descolado desse país. Só por essa exposição do CCBB, merecem aplausos mil.

Uma pessoa que conviveu com a Lygia, que retratou muitas das experiências dela e participou das viagens promovidas pela sacerdotiza da arte conceitual brasileira é a Fátima Pombo, que, infelizmente, nem sempre recebe os créditos pelas imagens feitas por ela que circulam por aí. Já briguei uma vez com a Fátima, por achar que ela só queria lucrar em cima das imagens dos trabalhos da Lygia. estava enganado, e ela merece crédito. Mas quem quiser ver as fotos dela, faça o favor de clicar AQUI.

O fim está próximo

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Suíço, bom de bola (estou falando do mercado financeiro), o investidor Marc Faber costuma desafinar o coro dos analistas, está sempre defendendo o contrário de todo mundo; nem sempre acerta, mas é respeitadíssimo, e tem uma newsletter lida à pampa. Na última, ele acusa o governo Bush de mascarar os dados sobre preços (é, isso não é prerrogativa da Argentina) e diz que as empresas e bancos também estão mascarando balanços, porque a coisa é mais medonha do que se imagina. Ele diz que, com esses índices de araque, os países ricos estão pagando juros negativos, abaixo da inflação, e isso é um dos motivos pelos quais os preços de commoditties como petróleo, ferro e alimentos vem crescendo tanto.

Há alguns dias, ele já previa que os preços especulativos iam começar a cair, e dizia que o negócio é investir no Japão. Eu resolvi então comprar uma gravura da Tomie Othake, mas desconfio que não era disso que ele estava falando.

Deixo para o Valor a discussão sobre a análise do Faber (claro que o aumento dos preços internacionais tem essa e outras razões); quero só compartilhar com os freqüentadores deste Sítio a citação que fecha o último boletim do analista, atribuída por ele ao Elliot Spitzer, aquele governador novaiorquino derrubado com ajuda da brasileiríssima cafetina, a sua, a nossa Andreia Schwarz:


"The federal government is sending each of us a $600 rebate. If we
spend that money at Wal-Mart, the money goes to China. If we spend it
on gasoline it goes to the Arabs. If we buy a computer it will go to India.
If we purchase fruit and vegetables it will go to Mexico, Honduras and
Guatemala. If we purchase a good car it will go to Germany. If we
purchase useless crap it will go to Taiwan and none of it will help the
American economy. The only way to keep that money here at home is to
spend it on prostitutes and beer, since these are the only products still
produced in US. I've been doing my part, and I thank you for your help”!
Eliot Spitzer (former Governor, New York)


Para quem não é chegado ao falar de Shakespeare e Paris Hilton, traduzo, mal e porcamente:

"O governo federal está nos mandando uma desconto de imposto de US$ 600. Se gastarmos o dinheiro no Wall-Mart, ele vai para a China. Se gastamos em gasolina, vai para os árabes. Se compramos um computador, ele irá para a Índia. Se adquirimos frutas e legumes, a grana vai para México, Honduras e Guatemala. Se compramos um bom carro, vai para a Alemanha. Se adquirimos umas bostas inservíveis o dinheiro vai para Taiwan, e nada dele irá para a economia americana. O único jeito de manter o dinheiro aqui em casa é gastá-lo em prostitutas e cerveja, já que são os únicos produtos ainda fabricados nos EUA. Andei fazendo minha parte, e agradeço a ajuda de vocês!"

É, essa turma do mercado financeiro pode até perder uma fortuninha de vez em quando. Mas se diverte com pouco.

A portuguesa condenada a morte

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Pode a actualização de uma ortografia mudar o carácter da língua, sem excepções?

A pergunta acima, meramente retórica, está em uma grafia fadada à extinção; a portuguesa condenada aí no título é a ortografia atual, no Brasil, em Portugal e em outros países que assinaram o acordo ortográfico aprovado em maio pelos parlamentares em Portugal. O Brasil já aprovou o acordo, e pretende aplicar nos livros didáticos de 2010. Esses cc, e pp sobrando na frase aí no início do texto vão pro vinagre, como, no passado, sumiram no Brasil outras excrescências.

Adeus circunflexo em vôo, vêem e companhia (não companhia não tem nem ter´pa circunflexo, ah, vocês me entendem). Adeus hifen antes de palavras em r e s.

Sofreremos todos; meu pai até hoje escreve jeito com o geito pré-reforma de 43, e nem por isso se faz compreender menos. Pior para quem vive da escrita. Nada que um bom revisor e algum esforço não deem jeito.

Mas os patrícios estão furibundos, e a reação maior veio nesse abaixo-assinado. Eu ia falar disso em maio, deixei o post pela metade, fui furado pelos fatos. Já entregaram o dito-cujo ao primeiro-ministro de Portugal. O estilo passadista do texto do negócio mostra não ser coisa que Eça de Queiroz assinaria. Nem Saramago, acho.

Eu já cometo barbaridades contra a gramática, não por desconhecimento da língua, mas pela minha péssima datilografia e pelo espírito de porco do sujeito que colocou, no teclado, juntinhos, o "s", o "c", o "x" e o "z", e, lado a lado, o "m" e o "n"; para não falar dos malditos acentos circunflexo e agudo, que trocam de lugar na página com a mínima descoordenação motora minha na hora de apertar a tecla das maiúsculas _ coisa freqüente, aliás. Agora, com as mudanças, já me avisam que vou ter sérios problemas com o hífen.

O debate é óptimo, e há argumentos a favor e contra o dicto acordo que nos fazem reflectir. Um dos mais estúpidos desses argumentos, no abaixo-assinado português, é o de que a extinção de algumas dessas letras sobrantes vai eliminar traços etimológicos importantes das palavras, como se elas tivessem de carregar atados às canelas apêndices inúteis só para mostrar a linhagem. Para quem teve mau estudo e lê pouco, não é uma letra arqueológica que vai facilitar a vida.

A reforma não é coisa que vá trazer constrangimentos aos putos portugueses; a putalhada lá se ajeita a tudo, acostuma-se até com pica na testa.
Eu, que lia na infância traduções portuguesas de livros de bolso de péssima qualidade, em que polícia era "tira" ou "chuí", e encrencado era o cara que se via "metido em sarilhos", convido os amigos de além mar para um grupo de estudos, dedicado à nova gramática. Vamos inaugurar os trabalhos com um funeral festivo do trema, esse inconveniente.

Chávez, o telestar

Só o medo primal de deixar passar algo importante evita a debandada de jornalistas, quando as entrevistas improvisadas de Hugo Chávez alastram-se pelas horas, repetitivas, intermináveis. Imagino como devem ser os programas do homem, a Voz do presidente, que duram entre quatro a seis horas. Não há fervor bolivariano que resista a tamanha logorréia.

Isso achava eu, até ler uma matéria escrita para provar que, quando Chávez aparece na TV, a telinha se paga. Terminada a leitura, estou convencido do contrário. O sujeito é um Silvio santos da política sul-americana, um Faustão do bolivarianismo. Ora, vejamos, está lá no Correo, do Peru:


Su verborrea ya le está cansando al televidente venezolano. Y es que cuando el presidente Hugo Chávez interrumpe las transmisiones de televisión para dar discursos de varias horas y en cadena nacional obligatoria, un tercio del público prefiere apagar la televisión.

De acuerdo con un informe publicado por el diario El Universal de Venezuela, el 30% del público televidente, entre los que no tienen el servicio de cable, opta por apagar el televisor. Otros escuchan la cadena o esperan que ella concluya para continuar viendo su programación habitual.

Como é???? Só 30% desligam a tv quando aparece o presidente, para uma transmissão em cadeia nacional que pode durar algumas horas????? Mais detalhes:

La cifra señalada corresponde a un estudio sobre una muestra de 30 cadenas de televisión transmitidas en el 2006, 2007 y 2008, entre televidentes que sólo reciben señal abierta, de la empresa AGB Nielsen Media Research, especializada en medición de audiencia.

La transmisión que sufrió la mayor caída fue la del 13 de enero de 2006 con 44.4% de televidentes que se ausentaron. Se trata de una cadena que duró casi seis horas y se refirió a la rendición de cuentas de Hugo Chávez a la Asamblea Nacional correspondiente a la gestión del año 2005.

Por el contrario, la que contó con menor deserción fue la cadena del 12 de marzo del 2006 de poco más de tres horas de duración y correspondió a un desfile militar del Día de la Bandera en la que el Presidente izó por primera vez la bandera de 8 estrellas y mostró los cambios que hizo la revolución de los símbolos patrios.

No dia em que mais venezuelanos largaram a tv por causa do Chávez, o sujeito falou por SEIS horas, e, ainda assim, mais de 55% dos telespectadores ficaram lá, de aparelho ligado. Apresentando a parada do Dia da bandeira, cruz credo, o homem segurou mais de 70% dos telespectadores. Deve ser baraba a programação da tv aberta lá em Caracas. Ou isso, ou a turma costuma usar o Chávez como música de fundo, ou o poder hipnótico do cara é uma barbaridade.

Realpolitik

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Não há briga que resista às razões do verdadeiro amor.

Como as FARC entrarão pelo Cano

Alfonso Cano, se alguém ainda não sabe, é o novo chefão da guerrilha colombiana, das Farc, em substituição a Manuel Marulanda, despachado em maio para o inferno do guerrilheiros mal-sucedidos. Um experiente analista político da Colômbia diz que desse Cano não sai coisa boa. Botei lá no Ralações INternacionais, aonde se chega por esse atalho AQUI.

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Dono de inteligência ímpar, Einstein tinha uma coisa em comum comigo: estamos na categoria de ateus empedernidos. Ao contráriod e mim, ele _ que Deus o tenha em bom lugar _ escapou de ver a ameaçadora onda obscurantista que espreita nosso século XXI.

Dia desses, meu fim de semana foi brindado, na Folha, com a notícia de que há juízes querendo transformar cartas psicografadas em provas aceitas nos tribunais. O curioso é que os espíritos aparceem sempre pelas mãos de advogados espertos, para inocentar acusados. Não se tem história de carta psicografada que, ao inocentar algum acusado, aponte o verdadeiro culpado, fazendo Justiça nesse vale de lágrimas. Até faz algum sentido: espírito deve ser assim, chegado a perdoar, e com horror a bancar o dedo-duro _ até porque dedo-duro em fantasma seria uma contradição em termos.

Aí veio a polêmica das células-tronco, que o Oliveira o canalha da redação, até hoje pensa ter alguma coisa a ver com a biopirataria do material genético dos índios da Amazônia. Os religiosos contestavam pesquisas com essas células, fertilizadas e conservadas em refrigeradores, para futuro desenvolviemnto de embriões ou descarte. Considerando que as células que os religiosos querem impedir de serem usadas nas pesquisas serão descartadas, Oliveira costuma dizer que só há uma maneira de os carolas provarem que estão realmente preocupados com a vida desses pobres aglomerados orgânicos: exigindo que essas células candidatas ao descarte sejam implantadas nos úteros de voluntárias religiosas; freiras ou as esposas voluntárias dos religiosos anti-pesquisa científica. E que esses sujeitos que entopem manifestações contraa o uso das céulas também se mexam em defesa das crianças jás nascidas que levam uma vida miserável pelas ruas por onde passa esse pessoal.

A coisa é mais grave, como aponta Elio Gaspari neste fim de semana. O juiz Carlos Alberto Direito, que postergou a decisão finalmente tomada na semana passada, queria que as pesquisas fossem submetidas a um conselho onde até os teólogos opinassem sobre o tema. Como bem lembra o Gaspari, isso cheira a campanha por governo de aiatolá. E, insinua o Hermenauta, se aceitas idéias de jerico como essa do juiz, teríamos de concordar se os pais-de-santo exigirem assento nos conselhos que decidem boslas de pesquisa científica. Maleme, Exu.

O texto do Hermenauta faz parte da longa série dele de artigos sobre a incoerência do Reinaldo Azevedo, mas vale a pena ser lido. AQUI.



sitio do sergio leo

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