Amigo de blogueiros excelentes e leitor de outros também indispensáveis, duvido que os blogues substituam o jornalismo empresarial, como muita gente acredita, e defende.
Basta uma olhada pelos blogues mais cotados. A maioria repercute e analisa notícias produzidas pela indústria da midia. A maioria de blogues que produz notícia própria é de jornalisats pagos por empresas. Ou vinculados a algum esquema empresarial, em grandes portais, de companhias de midia ou de telecomunicações.
Não estou dizendo que blogueiros não produzam informações de primeira mão. Também produzem, e muito, mas não é seu negócio principal. Até onde vejo, os blogues optaram consciente ou inconscientemente, por um papel complementar, de crítica da midia e das notícias veiculadas pela grande imprensa.
O Fernando Rodrigues voltou de Harvard defendendo que os jornais estão condenados. Que a Internet mudará tudo, e enterrará os dinossauros impressos que sujam nossas mãos. Ele me avacalhou quando falei que só haveria mudança de tecnologia, que as pessoas teriam jornais de polímero conectados à rede, com atualização de notícias em tempo real... "Isso é coisa de velho, como você e eu, ô Sergio Leo!", cortou ele. "A garotada vai ver notícias, mesmo, é por isso aqui", me disse, agitando o celular. Acabou a diagramação, a apresentação simultãnea de notícias arrumdas de acordo com os critérios da redação, garante o egresso do primerio mundo.
Sei não. mas não tenho opinião formada. Sei é que não acabarão as empresas produtoras de conteúdo, e que não acabará a a demanda por especialistas formados e treinados em captação de informações e apresentação delas sob a forma de reportagens. Aí podem até entrar blogueiros, mas numa condição especial, de comentaristas convidados, como hoje entram colunistas especializados nos jornais.
As chamadas hard news, essas serão apuradas e transmitidas por jornalistas (que eu defendo serem formados na Universidade, em cursos especializados como hoje, até para que aprendam que se pode fazer jornalismo diferente do que encontrarão ao entrarem nos jornais, rádios, tvs e portais de Internet)
Bom, na verdade eu achava isso, mas o Marcelo Soares me vem com essa história, que mostra como esse universo noticioso do futuro é bem mais complexo, e escapa às nossas previsões:
"Um estudo da Thomson Reuters aponta que notícias sobre índices financeiros e outros dados brutos podem vir a ser produzidas pelo computador, diz a Press Gazette. Isso vai desde o oferecimento de bancos de dados até a produção automática de textos a partir de números divulgados."
Estão criando programas para receber automaticamente dados brutos e produzir, com eles, textos jornalísticos. Eu já pensei em criar formulários noticiosos, para matérias repetitivas como os ados da balança comercial e balanço de pagamento, dados estíticos do IBGE sobre inflação ou emprego, e, quem sabe, até algumas noticias de política.
O reporter puxaria o formulário e teria o trabalho apenas de inserir os números, acrescentar nomes e optar entre as alternativas "subiu", "desceu", "aumentou", e informações do gênero. Pelo jeito, como diz a nota, AQUI, do Marcelo, estão levando isso a sério, e dispensando o repórter...
O negócio é que, nesse cipoal de informações, as pessoas vem buscando blogues e veículos jornalísticos à cata de mais do que os dados brutos, procuram análises, interpretações. Esse é o caminho dos jornais, penso eu.
E seu grande desafio: em uma sociedade cada vez mais mobilizada e conectada, com grupos de pressão ativos e coalizões políticas formadas na rede por pessoas com os mais diversos níveis de informação, o jornalista terá de ser aquele capaz de encontrar um "ponto ótimo" da informação, uma "verdade" que seria a interpretação passível de ser aceita como honesta pelos diversos agentes políticos.
Entre esses agentes eu incluo o blogueiro reconhecido como formador de opinião e o adolescente espinhento que acessa a Internet cheio de ideais, repleto de preconceitos (que ele pensa serem verdades não reconhecidas pela gente estúpida que encontra por aí), com uma visão maniqueísta do mundo.
E os órgãos de comunicação mal descobriram como ganhar dinheiro de verdade nesse mundo da informação eletrônica. Quem diz que tem certeza sobre o futuro dos jornais, dos blogues e da Internet está delirando, ou chuta desbragadamente, na certeza de que suas previsões logo serão esquecidas, e poderão ser ajustadas com a facilidade de quem troca um texto no portal da agência de notícias.
2º clichê: O Hernani Dimantas, sempre atento, já tinha sacado do baú um texto primoroso do Idelber Avelar (por isso gosto desse cara), que trata desse tema, o papel dos blogues entre os discursos contemporâneos. Eu disse trata do tema? Ele dá uma explicação definitiva.
Pelo menos por enquanto...

Não pode haver uma moderna sociedade Democrática, sem uma imprensa livre, responsável e isenta. Um cidadão comum, como eu, precisa de informação confiável para formar seu juízo e tomar decisões (votar, por exemplo). O problema é que os nossos principais veículos de comunicação não têm a necessária credibilidade, pois se tornaram veículos de propaganda. Quanto aos jornalistas, é significativa a quantidade que pode ser qualificada como incompetente ou venal. Não é qualquer pessoa que pode ser Jornalista, como pensa a maioria. Para ser jornalista é preciso ter coragem, integridade, competência e comprometimento irrestrito com a sociedade. Portanto, a discussão prioritária não é com relação ao tipo de veículo, mas sim com o conteúdo divulgado pelos veículos. Graças a Deus existe a Internet, pois podemos ter acesso às informações deliberadamente manipuladas pelas grandes empresas de comunicação. Esta é a principal razão do sucesso dos blogs. A isto some-se a interatividade, a notícia em formato multimídia em tempo real e a bendida diversidade. Portanto, prognosticar a Internet como o principal veículo do futuro não é especulação; já é tendência mensurável.
Discussão sempre pertinente, mas futurologia não é certeza, né? Recentemente publiquei um texto no blog dizendo o seguinte:"Na base do achismo e do flaneurismo, acredito que um dos motivos mais visíveis para a fuga dos leitores para a internet certamente diz respeito à necessidade de se ver representado –sim, muito mais do que simplesmente saber das últimas notícias. O que dá crédito à mídia internética é a interlocução honesta com o usuário, seja através de editoriais, seja através de publicidade. O leitor cansou de ler editoriais sem assinatura dirigidos a um grupo de indivíduos sem face; de não entender o motivo de sentir obrigado à vontade de comprar um imóvel de sete dígitos com o bolso quatro dinheiros mais pobre.Mas o jornal comunica e comunicará, mesmo que derradeiro seu formato noticioso. Não sei se é papel dos jornais ser isento ou partidário, uma vez que o papel da informação pela ideologia já é cumprido pela internet. A mudança, no entanto, é certeza, e já desponta no horizonte em alguns países midiaticamente mais desenvolvidos.(...)Para ser economicamente viável, o jornal gratuito há de ser cooperativado. Para não concorrer com a internet, há de ser plural. Se na internet o leitor seleciona o indivíduo e a ideologia que lê, o jornal daria as diferentes visões do grupo. Ou seja, ele mantém a cartilha do rigor jornalístico, do equilíbrio entre dois ou mais discursos distintos –aquela história que nós jornalistas bem conhecemos–, mas é construído por um grupo com diferentes cabeças e diferentes pensamentos, de maneira profissional, com uma estrutura viabilizada apenas por esse tipo de mídia.Seria uma espécie de contraponto com a internet; um meio através do qual os leitores teriam acesso às diferenças, enquanto que a web os conecta às afinidades."O interessante é que tanto quem está nas grandes redações, quanto aqueles que correm por fora, não fazem a menor idéia do que pode vir a acontecer. Porém, essas mesmas pessoas se esquecem que uma nova estrutura surge e permite que o próprio jornalista proponha tendências em vez de simplesmente esperar pelos executivos dos jornais.
Sergio Leo, meu mestre, o Fernando volta enquanto eu vou. Ele está certo, vá. O nome no alto da tela talvez continue sendo "Valor Econômico", "Folha de São Paulo" ou "O Estado de São Paulo"... mas o bicho será outro, no celular ou no computador. Jornal vai acabar ou vai virar produto de nicho numas duas décadas. A garotada não nos lê mais. Ou lê, só que aqui, não lá naquilo que nos paga o salário.Mas num ponto você está certo: apuramos porque somos pagos para isso. Precisamos ser pagos para isso não por privilégio mas porque apurar dá muito trabalho. É preciso cultivar fontes, estudar, ouvir gente, e fazer isso toma tempo, várias horas todos os dias. Temos de ser pagos pelo serviço porque não é possível ter outro emprego enquanto se levanta as notícias.Para isso ainda não há solução aparente...Voismicê estava muito distinto e seu terno muito bem passado lá na televisão.
Tainã, gostei muito disso: um acesso às diferenças, enquanto a Internet conecta as afinidades. O risco de certas soluções apontadas ´para o noticiário de rede é a redução do universo entregue ao leitor, o fim de certas surpresas, que o jornal traz. Já a idéia de jornal em coopeprativa eu não acho muito viável, não. Como diz o Dória, jornal é coisa cara, e só se sustenta eem moldes empresarias. É mais fácil uma publicação na Internet...Pedro, agradeço a presença de V. Sria. Espero e acredito que continuem pagando nosso salário, e, quem, sabe mudará só a forma de apresentar o material que produzimos. Com sua elegância, pelo jeito eu estava muito empertigado no Fatos e versões deste fim de semana; aquele sofá é uma desgraça. Mestre é você, Dória, com outro mestre, o Zuenir ventura, dando um chow no Estadão deste fim de semana, falando sobre a "lógica de guerra numa cidade vocacionada para a festa". Análise lúcida e profunda sobre o que está acontecendo no Rio de Janeiro.
Caro Sérgio, com a Internet acabou esse negócio de transcrever release. Jornal, se quiser sobreviver, tem que agregar alguma coisa. Hoje em dia, eu só folheio a imprensa tradicional. Se vejo algo que me chama a atenção, ignoro a notícia (principalmente se for no estilo agência de notícias) e vou direto na fonte. É muito melhor.P.S.: apenas para tirar essa tua imagem de que somos frequentadores de blogues adolescentes, informo que assino um jornal local (Diário de Natal), um jornal estrangeiro (o El País, de Madri), várias revistas (Ciência Hoje, CartaCapital, The Nation, Le Monde Diplomatique, Fórum, Caros Amigos, Correio da Cidadania, Fazendo Média - deve ter mais alguma que eu esqueci - e, quando o orçamento tiver um espaço, assinarei The Economist), acompanho podcasts (da revista The Economist, do serviço em inglês da Deutsch Welle e do Democracynow.org) e assisto alguns reportagens na TV (principalmente pelo canal no youtube da Aljazeera). Não vou falar do que acompanho na internet para não tornar esse post scriptum interminável. Meu principal critério de seleção de veículos de informação é a exclusividade. Detesto matéria repetida sem que seja acrescentada uma boa análise. Gostaria de assinar o Valor Econômico, mas apesar de algumas boas matérias, com frequência ele tem recaídas da imprensa tradicional (que você gosta de chamar de "burguesa") e pra ler notícias repetidas já me sobra e basta o Diário de Natal. O jornal brasileiro que eu mais admirei foi a Gazeta Mercantil do final dos anos 90 e início deste século.
Ah, mas vou deixar um exemplo de blogue que assino: o de um advogado americano que trabalha na China e relata fatos interessantes do país, relacionados à cultura, economia e leis. Acho que levou uns seis meses para eu ver um relato, en passant, na imprensa brasileira sobre a nova lei trabalhista chinesa, quando ele aborda esse assunto desde o ano passado.
Quem disse que eu tenho imagem de que vocês (quem?) são frequentadores de blogues adolescentes, Patrick? O que disse foi exatamente que a maioria dos blogueiros brasileiros (imagino que foi a eles que você se referiu) optou por comentar informações vindas da midia tradicional. Não é raro ver informações próprias, mas geralmente ligadas ao entorno do blogueiro (o cara trabalha no governo, fala das coisas que vê no trabalho; o sujeito muda para uma cidade no exterior, comenta a midia local). Mas a tônica ainda é a informação de segunda mão, ou o comentário sobre informação circulante. Não vejo nada errado nisso, apenas comento que, assim, não dá para dizer que é a Internet que vai acabar com os jornais. Tem mais coisa nesse angu.Mas concordo contigo sobre a má qualidade da informação especialmente quando é sobre outros países. Os jornais dão muito poucas páginas aos editores das seções internacionais, o cara acaba tendo de descartar muita informação e se concentrando em coisas às vezes mais batidas. E as redações estão cada vez menores, fica difícil um jornalismo profundo, de qualidade, assim.Não sei porque leio os grandes jornais todos os dias, tenho impressão ligeiramente da sua. Não teria como procurar as fontes originais de todas as matérias, e, com os defeitos que reconheço, a imprensa brasileira não deixa a dever para os outros jornais do mundo, e tem muito materila bom, de apuração própria, substanciada,. Pode não ser generalizada, pelo jornal, mas é forte a presença de matérias indispensáveis. Esta semana farei um post sobre isso.A The Economist, se tivesse uma ver~são brasileira, seria apedrejada pela blogosfera de esquerda. É uma publicação conservadora, com partis pris e teses pré-determiandas que controlam as análises do corpor editorial. Mas eles tem dinheiro, e gente qualificada, produzem uma material com muita informação. Aposto, porém, que v. nunca viu lá uma boa explicação para a sustentação política do Chávez na Venezuela, ou sobre o fracasso da reforma da previdência no Chile... E, se não estou enganado (provavelmente estou, mas depois conferimos) eles lá apoiaram a guerra do Iraque.
É justamente porque eu nunca vi lá certas explicações que não é minha única fonte de notícias, nem sequer a principal.
De qualquer forma, certo está Chomsky ao dizer que lê o WSJ, porque é o único que diz "a verdade".