agosto 2008 Archives

Ele jura que não, mas suspeito que Oliveira, o canalha da redação, trabalha como free lancer para o governo e contrabandeou para o setor público seu sesquipedal espírito de porco. Só pode ter o dedo nele no título do release da Infraero enviado agora às redações:
Percentual de atrasos de vôos em queda livre
O percentual de atrasos de vôos nos aeroportos da rede Infraero está em queda acentuada desde janeiro de 2008. O primeiro mês do ano registrou o índice de 24,9%. A curva descendente atingiu, até esta quinta-feira (28), a sua menor marca: 13,74%. O Brasil, entra assim, no padrão de atraso admitido pelos países desenvolvidos.
Para arrematar o sugestivo título, o primeiro parágrafo comemora a entrada do Brasil no "padrão de atraso" dos desenvolvidos. Ou isso é piada do Oliveira ou alguém na Infraero deve estar com jet lag.
Oliveira, o canalha da redação, me aponta espantado uma notícia do on line:
"Você viu? Você viu? A Igreja Universal está apoiando o aborto no caso dos fetos anencefálicos!!!"
Mal perguntou, deu tapa na testa, e, com ar de quem recebeu uma revelação, desdenha do próprio espanto:
"Mas é claro! Como me escapou essa? Anencéfalo não paga o dízimo!"
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... "um dia pego de volta meu muiraquitã, com esse tal de Romero Jucá!"
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Na TV, surge uma imagem bonita; a atriz, afinal, é a Carolina Dieckman, que está num bar, e pede um cafézinho. O garçom pergunta se ela quer que ponha gelo no café. Ela estranha (qualquer um estranharia, eu estranhei).

Minha coluna de hoje, no Valor:
Desde a primeira vitória da seleção do Brasil, em 1958, quando jogadores como Didi e Garrincha deram um baile na seleção da Suécia e ainda confraternizaram alegremente com as liberadas moçoilas de Estocolmo, nunca na história do Brasil uma nação nórdica foi tão mencionada como a Noruega no debate sobre o futuro da exploração do petróleo no Brasil. Os que defendem o controle estatal para a produção de petróleo brasileiro anunciam a intenção de copiar o "modelo norueguês"; os que apostam no poder regulador das forças de mercado lembram que acima do Equador tudo funciona de maneira diferente.
O modelo da Noruega, de forte presença do Estado aliada à grande competição entre empresas privadas, é tão intraduzível para as condições nacionais quanto o são, para o português, os sofisticados romances do prêmio Nobel Knut Hamsun - que se inspirou em Dostoievski e era idolatrado por Henry Miller. Assim como o idioma de Hamsun traz armadilhas para os tradutores apressados, a experiência norueguesa com o petróleo, se mal entendida, pode motivar debates acalorados em torno dos temas errados, por falta de compreensão. Vale notar que as dificuldades lingüísticas não impedem que a literatura nórdica seja vertida para outros idiomas, e apreciada por suas qualidades.
O governo contribui para a confusão ao anunciar genericamente a intenção de copiar o modelo norueguês. Não parece que esteja em discussão, nem no Planalto, voltar atrás no que é considerado até pelos noruegueses um dos modelos mais transparentes de concessão de áreas para exploração de petróleo. Não há estudos em Brasília para tirar das companhias petrolíferas as concessões atuais, nem para transformar a Agência Nacional de Petróleo (ANP), de agência independente a simples órgão técnico de assessoria subordinado ao ministro da Energia, como é o NPD, na Noruega.
O resto, AQUI.
(na foto, em primeira mão para os leitores do Sítio, o modelo norueguês que vem fazendo sucesso no Planalto. Sem preconceito, eu e Oliveira, o canalha da redação, em matéria de modelo da Noruega preferimos algo mais adaptado ao clima tropical, como o que se vê AQUI.

A primeira coisa que todo mundo deve fazer ao chegar na Noruega é, claro, arranjar umas coroas. Se você, ao ler esta frase, já se imaginou (ou a mim) como uma versão latina do Sarkozi descolando uma Carla Bruni platinada, está lendo o blogue errado. Isso aqui é um Sítio de respeito. O que fiz, logo ao chegar, foi trocar uns dólares por algumas coroas norueguesas, como esta aqui ao lado. Não me pergunte para que serve o furo na moedinha, todas as coroas noruguesas vêm com esse buraquinho.
Montados em um fundo de alguns trilhões de coroas, os noruegueses têm uma das melhores vidas da Europa, graças ao petróleo. A mulher trabalhadora, por exemplo, pode escolher entre oito meses de licença-gravidez com salário integral, ou um ano, com 80% dos rendimentos. Eles têm educação e saúde gratuitos, e um excelente sistem de transporte público.
Um professor universitário com quem conversei hoje diz que o petróleo é um presente de Deus à Noruega. Eu acredito; alguma coisa o Todo Poderoso tinha de fazer para compensar a sacanagem de deixar os pobres noruegueses, no inverno, com apenas três horas de luz, e escuridão lunar no resto do dia.
São simpaticíssimos os habitantes do país, embora eu só possa falar dos que participam de encontros de trabalho, como os que o governo montou para mim (e mais outros três repórteres brasileiros), desde o dia da chegada. Desabei às seis da noite de segunda no hotel, e, às sete, estava jantando com um ex-embaixador da Noruega no Brasil. Os caras levam isso de agenda a sério.
No hotel, aliás, enquanto zapeava os canais, creio ter visto de relance um dos famosos filmes dinamarqueses que povoaram o imaginário de quem, como eu, nasceu no século passado, antes da Internet, da perversão erotizada da TV aberta e da Paris Hilton.
Na tela, um sujeito musculoso empurrava por trás uma senhora nórdica, que grunhia e fazia caretas pavorosas enquanto exibia o que me pareceu ser um erro médico, bolas de handebol implantadas onde deveriam estar os seios da moça. Após alguns segundos, a imagem foi substituída por uma mensagem incompreensível cheia de "O"s cortados e "A"s com bolinhas em cima, em que era visível a cifra de 195 coroas. Não tive tempo até agora para descobrir se a quantia era o valor que o hotel cobra para ver o que acontece com a moça e o troglodita que a empurra pelas costas ou se é uma taxa que devo pagar para não ser surpreendido nunca mais por aquela cena grotesca.
Na Noruega, os partidos criaram estatais para cuidar do petróleo, e um acadêmico conservador me explicou que isso se deve ao fato de que uma riqueza natural não é algo produzido pela indústria, mas um patrimônio do povo do país, que se esgota, e que é explorado com muito lucro pelas empresas privadas _ daí que o Estado tem mesmo de tirar a maior parte do que o setor privado ganha com a exploração desse recurso, para montar uma reserva destinada a assegurar o bem estar das gerações futuras.
Não é à toa que ninguém no Brasil explica direito esse troço, que faz parecer histeria macartista algumas acusações contra o Evo Morales e o Hugo Chávez. (Nem todas, há acusações que merecem ser feitas a nossos líderes andinos, que não se mostram até agora muito capazes de transformar as riquezas naturais do país em poupança efetiva para os netos da atual geração).
Esse mundo da social-democracia européia é interessante, a esquerda está preocupada com as florestas do mundo e o futuro do bacalhau, a direita teme que os noruegueses fiquem preguiçosos por ter tudo à mão. Parece um paraíso, visto assim, de trivela.
Só o dia de três horas e a senhora com elefantíase nas glândulas mamárias me fazem suspeitar que não estão me contando a história toda.
Já volto, não posso perder a chance de conhecer de perto o Jan Garbarek. Sensacional.

É, amiguinhos, o Sítio está pouco movimentado nesta semana, por motivo de viagem. Estou na Noruega, seguindo uma agenda que parece montada por alemão. E tenho de mandar matréria para o Valor. Mas logo, logo _ se der até ainda hoje, conto sobre as cororas norueguesas que tive de arranjar logo ao chegar, e outras notícias sobre a terra de Arne Saknussen. Como dizem por aqui, arivederci.
(bom, pelo menos os italianos dizem isso por aqui).
Começo a acreditar quando dizem que Hugo Chávez não deixa nenhum espaço para a oposição na Venezuela. O correspondente deste Sítio, em Caracas, envia esse vídeo, famoso por lá, em que o bolivariano dá uma avacalhada inacreditável no presidente da Venezuela. Sim, nele próprio. Numa tacada só, ele se adianta aos opositores e vira uma espécie de Casseta e Planeta de si mesmo. O mais hilariante relato escatológico que um depoimento presidencial já foi capaz de fazer.
No começo, conto para quem tiver dificudlade em espanhol, ele relata como lhe deram uma máquina para derrubar a parede que faltava na conclusão de um túnel na Venezuela. Ele assume os controles, mas seus intestinos resolvem dar um golpe. O resto, deixo que Chávez conte, é inimitável:
Podem falar o que quiserem, mas é uma rara qualidade, saber rir de si mesmo. Nem isso o homem deixa para a elite venezuelana. Sujeito cruel.
Dupla de jogadores da Geórgia perdeu para os brasileiros no vôlei de praia, e o noticiário chamou a atenção para o fato de que os derrotados haviam nascido no Brasil. Agora leio que a dupla de vôlei feminino de praia da Geórgia derrotou as russas, e as vitoriosas são ... brasileiras.
Considerando que metade do litoral georgiano é da Abkházia, nas mãos de separatistas e protegidas hoje pelas tropas russas, deve estra meio complicado jogar vôlei de praia por lá. Mas mesmo antes disso, essa brazucada sacando e cortando nas areias georgianas me intrigou.
O que não vi até agora foi alguma matéria nos jornais e tvs brasileiras lá na China sobre essa curiosa migração de volibolistas brasileiros para as praias do mar Negro. Levantaram a bola. mas ninguém cortou, até agora. E tome matéria falando do Michael Phelps e dos exotismos da milenar cultura chinesa.
Numa consulta rápida ao tio Gioogle, descubro, na agência Lusa, que as moças mal conhecem o país e estiveram lá duas vezes na vida, e que "ambas as jogadoras receberam passaportes da Geórgia com o apoio do Presidente Mikheil Saakashvili, cuja mulher é ex-jogadora de voleibol".
Esse negócio de ex-mulher é fogo, só dá complicação. Além de fazer lambança na Ossétia, esse Mikheil, não sei não, ainda vai acabar botando o Brasil em campo adversário. Algum dos 589 jornalistas brasileiros lá em Pequim podia bem nos contar essa história direito.
Como bom aluno de seminário, e para provar que ninguém chega a bispo sendo bobo, o candidato eleito do Paraguai, Fernando Lugo, se movimenta no continente para ganhar visibilidade e aumentar o cacife dele na região. Tradicionalmente, o Paraguai esteve na área de influência ora do Brasil ora da Argentina, até que Itaipu decidiu o jogo (enquanto não se constrói a demorada e dificultosa usina de paraguaio-argentina de Yaciretá). Lugo faz gestos para Hugo Chávez, o que basta para despertar as vivandeiras brasileiras, que apontam para amanhã a repetição das encrencas bolivianas, afrontas a empresas brasileiras etc e tal.
Já falei disso aqui, mas sempre vale repetir. Paraguai não é Bolívia. Mais argumentos trago numa coluna do início do ano, que também já mencionei neste blog e lá no Ralações, e que está AQUI.
Lugo já é acusado pela esquerda paraguaia de ter se aliado à oligarquia. E, na verdade, não terá como governar em oposição às elites, diferentemente de fez Evo Morales na Bolívia, porque é minoria no Congresso e foi eleito com apoio do tradicional partido Liberal, a quem deu alguns ministérios, distribuindo-os com o cálculo político de um jesuíta. Daí que mostrar-se com Chávez, Evo, os sanidinistas e companhia é uma maneira indolor de polir sua imagem de esquerda, enquanto faz as concessões necessárias para governar um país complicado.
Voltarei ao assunto, prometo.
O que acaba de me acontecer pode servir de orientação para o futuro. 
Se um dia os jornais me banirem, num repente de racionalidade, e eu for abrigado em alguma generosa assessoria de imprensa, minha primeira missão auto-investida será ensinar às fontes e interlocutores o que é "horário de fechamento" em um jornal. Mostrar a inutilidade de ligar para alguma redação nesse momento, a não ser para anunciar catástrofes, assassinatos de gente importante, a cura da Aids, matéria para a primeira pagina.
Fechamento é aquela hora dramática em que os editores têm de entregar as páginas diagramadas para a impressão, no esforço para enviar os jornais prontos em horário hábil aos assinantes e bancas, na disputa contra a concorrência.
É raro o bom repórter que não ganha fama de "atrasador de jornal" _ é preciso ser muito organizado e ter uma sorte medonha para que as necessiades da apuração não sabotem com a regularidade de um Mike Phelps a histérica corrida do fechamento.
Foi num desses momentos que tocou meu telefone e, ao atender, ouvi, na linha, uma voz feminina límpida e jovial, cheia de intimidade:
_ Alô! Deu saudade, eu tinha de ligar para você!
_ Poderia ser mais específica? _ perguntei eu, enquanto vasculhava na minha memória sonora o timbre e tom a que pertencia aquela voz saltitante.
_ Você não reconheceu a minha voz? _ reagiu ela, num tom de incredulidade (deve ser alguém próximo, bem conhecida, pensei eu, sem resposta do arquivo cerebral. Dê uma desculpa, dê uma desculpa).
_ Você me perdoe, mas, a essa hora da noite, não seria capaz de reconhecer nem a minha mãe.
_ Você está brincando, né?
Era a própria.
Mamãe.
Tadinha, o neto chegou hoje de férias; eu sabia que devia ter telefonado na hora do almoço, para dar notícia.
Quando a história invade nossa vida, e cobra caro.
O original, da Lena Gieseke, com bastidores e tudo, AQUI.
Sinto falta de editoriais e artigos dos colunistas de sempre sobre a Petrobras. Será que é por causa do lucro recorde da empresa, e da queda dos preços internacionais de petróleo, que transformam em bobagem as críticas desses editoriais e analistas pela demora da estatal em repasar a alta do petróleo ao preço dos combustíveis?
Diziam que a Petrobras estava agindo políticamente, absorvendo a alta internacional sem aumentar os preços internos. Um erro grave, diziam. A empresa argumentava que não fazia sentido repassar uma alta que poderia ser passageira.
Os preços internacionais agora caem, e os eventuais prejuízos da empresa com a manutenção dos preços internos foram mais que compensados com os lucros recordes. Se não tivesse corrigido os preços no segundo trimestre, pelo jeito, ainda assim a estatal estaria por cima da carne seca. Com essa atitude "política", a Petrobras evitou uma brutal pressão inflacionária, que teria levado o Banco Central a aumentar ainda mais os juros colossais que pratica hoje.
É, não dá mesmo para escrever editoriais e colunas sobre o tema. Teriam de falar bem da ação política das estatais em favor da sociedade, contra a lógica do lucro máximo para os acionistas. Imagina escrever uma besteira dessas.
Para quem entende inglês, uma visitinha ao monstro, em duas partes:
Um spam desses me faz rir, e meditar sobre o que anda acontecendo com a educação no país. Como o sujeito consegue criar programas maliciosos de computador e é incapaz de transitar sem danos pela língua pátria?
Viemos por meio deste serviço eletronico, lhe informar que você foi mensionado em um dos videos mais acessados pelos brasileiros no Youtube. Temos a honrae a gratidão de postar o demasiado link.
Youtube Serviço de email
( http://www.youtube.com/watch?v=R6SM51226mVlo )
Atenciosamente,Equipe YouTube

... invejo quem diz estar relendo algum livro, porque mal dou conta de LER os que me vêm à mão?
... tenho dificuldade em assistir a peças de teatro, porque os atores me deixam nervoso?
... concluí que a única coisa que falta para executar meus proejtos é organização? Há 30 anos?
... acho que a Ana Maria Braga sofreu uma acidente terrível que a desfigurou irremediavelmente e, por isso, usa uma máscara para suas aparições na TV e nas revistas de futilidades?
... acha mais absurdo ter mais informações sobre a Ossétia do Sul que sobre Parnaíba, no Piauí?
Marco Polo: "pô, sacanagem, treinei tanto para esse momento!"
Dois amigos, filólogos, amam a mesma mulher e discutem o assunto, numa conversa constrangedora. E quem descreve o diálogo de maneira original é o indispensável Roberto Bolaño, em seu romance póstumo que, como não tem tradução em português, vai, no trecho reproduzido aqui no Sítio, em péssima tradução deste escriba que vos recebe:
"Os vinte minutos iniciais tiveram um tom trágico, em que se empregou a palavra destino dez vezes, e a palavra amizade, vinte e quatro. O nome de Liz Norton foi pronunciado cinquenta vezes, nove delas em vão. A palavra Paris foi dita em sete ocasiões. madri, em oito. A palavra amor foi pronunciada duas vezes, uma por cada um. A palavra horror se pronunciou em seis ocasiões e a palavra felicidade, em uma (Espinosa a empregou). A palavra resolução se disse em sete ocasiões. A palavra solipsismo, em sete. A palavra eufemismo, em dez. A palavra categoria, no singular e no plural, em nove. A palavra estruturalismo, em uma (Pelletier). O termo literatura norte-americana, em três. As palavra jantar e jantamos e desjejum e sanduíche, em dezenove. A palavra olhos, e mãos, e cabeleira, em catorze. Depois, a conversação correu mais fluida."
Bolaño, infelizmente, morreu novo, por uma traição do próprio fígado, mas vem sendo descoberto no Brasil, onde já traduziram seu elogiado Os Detetives Selvagens, A Pista de Gelo, Noturno do Chile e Putas Assassinas. Nesse incrível diálogo, ele descreve com sensibilidade as trocas de idéias entre os amigos sem recorrer às convenções do gênero, mas ao método quantitativo muito comum nas análises de texto feitas por especialistas como os protagonistas da conversa. É uma mostra da habilidade estilística do chileno, e do poder revelador que tem a escolha das palavras na comunicação.
No jornalismo, o Élio Gaspari foi o primeiro a usar os recursos da informática para traduzir, pela contagem das palavras, as obsessões dos noticiados. Ele usava, imagino, o verificador ortográfico do Word ou coisa parecida, para escrever artigos que, mal comparando, iam bem na linha do dálogo bolañesco aí de cima.
Hoje a Internet tem recursos mais poderosos, como as nuvens de palavras. Usadas em muitos sítios, chegaram aos blogues, onde o Pedro Dória foi o primeiro que vi usando essa artimanha. Mas o Hermenauta deu o caminho das pedras, para o sítio onde se pode montar a nuvem de palavras que cada um quiser. (Fica bonito, aplicado num romance moderninho, nem vão notar que a idéia original foi chupada do Bolaño).
Serve para resumir discursos também, embora não chegue a dar o mesmo grau de informação do parágrafo do Bolaño. Minha patetice informática me impede de reproduzir decentemente aqui as nuvens de palavras geradas com o programa que o Hermenauta me indicou. Mas clicando abaixo v. será levado à página com as nuvens que criei a partir de um evento contemporâneo, a viagem do presidente à Argentina, e os acertos entre os dois países, que andaram se estranhando na OMC.
O discurso do Lula aos empresários, na Argentina, ontem, por exemplo, foi esse aqui:
E o da Cristina Kirchner, no almoço para o Lula, esse aqui:
(até o fim do dia uma boa alma ensinará este ignorante a reproduzir direito esse troço.)
"Não, não me chamo Jean Luc Picard. Estou mais para 'perdidos no espaço" que para Jornada nas Estrelas"
Por pertencer ao Mercosul, o Brasil tem uma tarifa de importação comum e não pode mudá-la sem aval dos sócios. A crise econômica e política argentina, temperada por forte protecionismo, dificulta acordos para facilitar importações industriais. Mas, mesmo que Brasil rompesse a união aduaneira do Mercosul, são cinzentos os cenários para que tenha êxito nas negociações, no futuro próximo. Negociações passadas mostram isso.
Duchamp começa mais careta, porém, aplicando à pintura conceitos de Cèzanne e dos
cubistas, misturados a idéias do futurismo (influência que ele renegava), com um elemento adicional: o non-sense evocativo dos surrealistas. "Nu descendo a escada" choca os contemporâneos, não pela imagem, uma representação dinâmica quase monocromática e movimento, mas pelo título. Nus reclinavam-se, assumiam poses mitológicas, até assemelhavam-se a figuras banais; mas não movimentavam-se pelo mundo, como gente, descendo escadas, nem se encaixavam no conceito de arte contestatória dos rebeldes de então.
O mais importante não seriam os objetos, os resultados dessa pesquisa, mas o próprio processo executado pelo artista nessa busca de novas significações para aquilo que nós experimentamos sem ter consciência exata do que estamos experimentando. Um dos bispos dessa nova religião, Joseph Kosuth, vai dizer que os quadros cubistas são meros cadáveres, resquícios da verdadeira arte dos cubistas. A arte não é o quadro, mas o processo pelo qual eles revolucionaram a forma de representar o mundo visível. Descobri que o blogger aceita vídeos. Compartilho então com os frequentadores deste Sítio uma experiência filmada por mim, de andar de taxi na Índia, que ajuda a explicar duas coisas: a resistência do negociador _ e candidato a presidente _ indiano Kamal Nath em aceitar uma maior abertura de mercado para importados manufaturados no país, durante as negociações da rodada Doha, na OMC; e por que o Tata vai construir e vender lá _ e somente lá _ carros de US$ 2 mil.
Bom, já atendendo à Vera, dos comentários aí no post abaixo, tenho de informar que a Índia esteve entre os maiores responsáveis pelo fracasso da rodada Doha e era um dos países mais resistentes à abertura dos mercados para produtos industriais; mas o que pegou, mesmo, foram os Mecanismos de Salvaguardas Especiais (SSM, na silgla em inglês), que eram, na prática, um artigo que os indianos queriam botar no acordo final da rodada Doha.
Sem entrar no detalhes numéricos, essas salvaguardas, em resumo, eram uma autorização para que os países em desenvolvimento aumentassem brutalmente as tarifas de importação de alimentos, caso seus mercados sentissem um aumento muito grande nas compras de produtos agricolas vendidos por fornecedores estrangeiros. O argumento era proteger os pequenos agricultores, a produção pouco competitiva. No Brasil, o pessoal do ministério do Desenvolvimento Agrário achava essa salvaguarda uma boa; o pessoal do agronegócio não queria nem ouvir falar. A briga girou em torno de quanto seria esse aumento de tarifas. Não houve acordo.
Bom, se v. não conhece a OMC, nem os detalhes da negociação, para engrossar a história sugiro que aproveite o excelente sítio da organização, com informações sobre vários aspectos dela, AQUI, ou AQUI, ou AQUI. Ou ainda AQUI para saber detalhes dos temas da negociação. São páginas em espanhol (há também em inglês, é só buscar lá). Não tem em português. Culpem a falta de aplicação da reforma ortográfica que vai unificar o idioma escrito (ainda que nem tanto). Enquantro não escrevermos do mesmo jeito, o português não será língua oficial de entidade multilateral nenhuma. Ah, se clicar nos links, é bom saber que aranceles, em espanhol, é o mesmo que tarifas (de importação ou exportação).
A Índia é parceira do Brasil no G-20, que foi um grupo de países em desenvolvimento criado para evitar, na reunião ministerial da OMC, em Cancún. O grupo foi craido para evitar que EUA e Europa, acertados entre si, empurrassem goela abaixo dos outros sócios da organização um acordo sobre a abertura do mercado agrícola e a redução dos subsídios que distorcem o comércio. Os gringos já tinham feito isso em 93, numa rodada anterior, a rodada Uruguai, quando evitaram que a agricultura entrasse no eforço de redução de barreiras ao comércio.
Com o G-20, os emergentes conseguiram lugar à mesa, e passaram a decidir, com os países ricos, os rumos da negociação da rodada Doha. Já se sabia, porém, que, em algum momento, haveria divergências, já que o Brasil (como Argentina, Uruguai, Paraguai, todos sócios do G-20), são exportadores competitivos, e países como China, Índia, Egito (também do G-20) são importadores e, ao mesmo tempo, tem zentenas de milhões de pessoas trabalhando no campo, em lavouras pouco competitivas.
O que não se sabia era que esse tema das salvaguardas, deixado de banda nas conversas, afloraria estrepitosamente quando a negociação começasse a ameaçar um resultado. China, que, até então, estreava como sócia da OMC e havia ficado de espectadora, botou o pé na mesa, e, entre outros poréns, disse que as SSM eram inegociáveis. A Índia também. Muita gente desconfia que os dois países não queriam resultados na rodada Doha. A China acaba de entrar na OMC, teve de negociar concessões com cada sócio, reduziu bastante suas barreiras à importação e teria de reduzir de novo com a rodada. A Índia tem setores muito atrasados, e esse problema da imensa população rural na miséria.
E, como me dizia um diplomata experiente : esses acordos multilaterais, como o da OMC, significam abrir mão de autonomia que os governos tem, de lançar mão dos instrumentos de política econômica que preferirem ao lidar com uma crise. O mundo vive uma crise econômica; nessa hora, ninguém fica muito disposto a abrir mão de autonomia de ação.
Se não fossem as SSM, provavelmente haveria outras questões para melar a rodada. Países disputam monopólio para uso de denominações de origem (vinho La Rioja, por exemplo), que sãio europeus, mas também existem nas ex-colônias (quem já bebeu vinho La Rioja argentino sabe do que falo). Países africanos, que exportam banana sem imposto para a Europa, brigavam para não baixar o imposto de importação de banana que os europeus aplicam aos concorrentes do Caribe. A Argentina queria tirar um número maior do que se permitia de produtos na lista de mercadorias sujeitas à redução de imposto de importação ( menos imposto, maior concorrência dos importados). Motivo para briga não faltava.
E o Brasil, nisso tudo? Tentou conciliar. A indústria brasileira fez as contas e viu que podia aceitar menores tarifas contra a concorrência importada. A agricultura já admitia receber apenas cotas, para vender uma certa quantidade de mercadorias sem imposto, já que não conseguiria baixar totalmente as tarifas que barram seus produtos na Europa, EUA e países emergentes. Já estava no bolso dos brasileiros um ganho da rodada: a promessa dos ricos de acabar com os subsídios à exportação, que turbinam deslealmente as vendas européias e americanas de alimentos.
Isso tudo e mais outras coisitas fizeram com que o Itamaraty aceitase de cara a proposta do diretor-geral da OMC, na reta final, para um acordo que não atendia a todas as reivindicações, mas melhorava o ambiente comercial.
Mas os EUA foram mais duros do que se imaginava contra Índia e China que queriam as salvaguardas de que falei acima. E deu xabu na rodada.
Esse resumo deixa de fora coisas importantes, como detalhes da discussão de subsídios. Se a Vera ou alguém mais da comunidade aqui do Sítio quiser, volto ao assunto depois. Mas a essa altura já perdi 80% de meus trezentos leitores. "Let's go party!", como dizem os indianos:
(para quem já entrou antes nesse post, um aviso: revisei o texto acima, e, depois de sucessivas tentativas frustradas, inclui mais um videozinho, um breve zapping por dois canais na tv do hotel Hilton, para consolar os leitores que ligaram a tv aberta brasileira neste fim de semana)
*[...] está relatado em Hipócrates: infusão da casca do salgueiro cura dor de cabeça. Há 3.000 anos. No fim do século XIX, se descobre o princípio ativo disso: ácido acetil. Cria-se o ácido acetilsalicílico. Vem o comprimido. Uma megaindústria nasce sem saber como funciona: só sabe que funciona. Isso é tecnologia. Aí no fim da década de 80 dois caras ganham o Nobel por descobrir por que funciona: você trava o receptor de dopamina do cérebro e deixa de sentir dor. Aí é ciência. Sensacional, mas se esperássemos a ciência descobrir a verdade, seriam 3.000 anos de dor de cabeça!*
Reflexão interessante lá no Alfarrábio, do Bicarato. AQUI.
"Pués hable, hombre!! Quanto me dás por el banquito?"















