agosto 2008 Archives

Cartum para quem não precisa de cartum

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É, vamos ver se consigo meter um cartum próprio toda semana neste Sítio. Precisa-se de letrista. (vão dizer que de cartunista também, mas, por enquanto, vamos de mão de obra própria mesmo).

Humor negro

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Ele jura que não, mas suspeito que Oliveira, o canalha da redação, trabalha como free lancer para o governo e contrabandeou para o setor público seu sesquipedal espírito de porco. Só pode ter o dedo nele no título do release da Infraero enviado agora às redações:








Percentual de atrasos de vôos em queda livre
O percentual de atrasos de vôos nos aeroportos da rede Infraero está em queda acentuada desde janeiro de 2008. O primeiro mês do ano registrou o índice de 24,9%. A curva descendente atingiu, até esta quinta-feira (28), a sua menor marca: 13,74%. O Brasil, entra assim, no padrão de atraso admitido pelos países desenvolvidos.


Para arrematar o sugestivo título, o primeiro parágrafo comemora a entrada do Brasil no "padrão de atraso" dos desenvolvidos. Ou isso é piada do Oliveira ou alguém na Infraero deve estar com jet lag.


Eu mesmo já preparei um obituário (chamaos de "funéreo", nas redações) para figura ilustre, que, espero, continue vivendo por um bom tempo, até para ma dar chance de reler o dito cujo. Já os caras da Bloomberg estão querendo matar o cara que apertou a tecla errada e cometeu o seguinte jobicídio, que está na rede:

A agência de notícias Bloomberg distribuiu na quarta-feira (28), por engano, um obituário incompleto de Steve Jobs, executivo-chefe da Apple. O rascunho de uma extensa reportagem sobre o executivo trazia inclusive nomes de pessoas a serem contatadas para falarem sobre ele, informa o blog Circuito Integrado.

Nessa lista de gente a ser ouvida estão a namorada do cara, amigos, Al Gore, que ainda não foram entrevistados. Sorte deles. Para o meu funéreo, já tenho gente falando do falecido que ainda não morreu. Ia ficar meio chato publicar antes do passamento.

Ê cabeça!

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Oliveira, o canalha da redação, me aponta espantado uma notícia do on line:

"Você viu? Você viu? A Igreja Universal está apoiando o aborto no caso dos fetos anencefálicos!!!"

Mal perguntou, deu tapa na testa, e, com ar de quem recebeu uma revelação, desdenha do próprio espanto:

"Mas é claro! Como me escapou essa? Anencéfalo não paga o dízimo!"

Evoé Tupã

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. ... "um dia pego de volta meu muiraquitã, com esse tal de Romero Jucá!"



Está lá perdida a notícia, no meio da matéria da Folha sobre as manifestações que cercaram a votação sobre a reserva Raposa Serra do Sol, ontem, no Supremo: os índios fizeram até reza durante a sessão.

Pelo que apurou este Sítio, a repórter da Folha perguntou o que eles estariam orando e eles disseram que era segredo. Perguntou, então, para que divindade, e a resposta está nas páginas: a pajelança foi para "evocar Macunaíma".
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Bastaram alguns minutos em Brasília e os índios de Roraima já pegaram o espírito da coisa. E ainda dizem que os caras são aculturados, caramba.

E pagaram alguém para isso (3)

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Publicitário alimentado a maioonese e batata frita deve achar muito engraçado fazer propaganda de junkfood (comida-lixo, como diz o tio Sam) falando mal da comida saudável. É o que faz o McDonald's, para divulgar sua campanha humanitária de ajuda às crianças com câncer. Muito humanitária.


Um garotinho fala, em tom de incredulidade ao outro: "sua mãevive dizendo para comer brócolis porque faz bem para a saúde? Agora é nossa vez: comer um Big Mac faz bem à saúde de muuuita gente!".


Se você, num certo dia, comprar aquela bomba calórica que é o saduíche do Mc Donald's, estará contribuindo para financiar ajuda a criancinhas com câncer, diz a propaganda. "Brócolis, humpf", conclui o garotinho.

Nunca vi uma jogada tão explicitamente exposta num comercial.


Que me perdoe minha madrinha Ângela, há anos empenhada nessas campanhas de arrecadação de dinheiro no McDonald's, na melhor das intenções. A propaganda que andam veiculando mostra o comprometimento da empresa com a saúde das pessoas. Zero. As criancinhas com câncer entram como figurantes baratos na propaganda da multinacional do colesterol.

Embaralhando as pernas no FMI

Essa não saiu nos jornais daqui, mas li durante o vôo, de volta da Noruega: como se não bastassem os tropeços que o FMI andou sofrendo mundo afora, um tombo espetacular, neste ano, causa enxaqueca nos contabilistas do Fundo. Depois dos resultados risíveis de sua ação global, a instituição foi palco de uma cena de comédia pastelão.

O renomado economista Jaques Polak, faladíssimo e respeitadíssimo nas décadas de 50 a 70, estava em seu canto, curtindo sua vida de octogenário e referência bibliográfica numa salinha honorária na portentosa sede do FMI em Washington*, quando alguém teve a idéia de jerico de homenageá-lo. Fizeram uma conferência anual, e, desde o início da década, o Polak é aplaudido pelos pares, fazem loas, essas coisas.

Na última edição do evento, quem discursou foi o simpático Stanley Fischer, hoje presidente do Banco Central de Israel. E o Polak, feliz nos seus 94 anos, quando descia do palco onde agradeceu mais uma vez a homenagem, tropeçou, buscou o corrimão, não encontrou (não havia), estabacou-se no solo acarpetado mais desastradamente que a economia argentina depois de anos de mergulho no Consenso de Washington sob elogios rasgados do fundo. Mel Brooks não criaria cena mais grotesca.

O velhinho, crente fervoroso na tese de que não há almoço _ nem tombo _ grátis, meteu um processo contra o FMI, e pede US$ 6 milhões de indenização, porque, além de bater com a cabeça, seu bem mais precioso, ficou impossibilitado de cuidar bem da esposa, de 70 anos (meio papa-anjo, o Polak).

Dizem que tentaram um acordo de indenização antes, com a direção do fundo. Não foi possível. Vai ver os contabilistas do FMI usaram, e estão usando agora, no processo, o argumento de que eles não têm nada a ver com o acidente que estropiou o pobre macróbio.

Garantem, em Washington, que foi a mão invisível do mercado, esse sacana.


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* É um luxo só a sede do FMi em Washington, com seus restaurantes subsidiados para funcionários muito bem pagos. Como se aprende em Georgetown, austeridade fiscal é coisa para se fazer debaixo do Equador.

Perguntem ao anencéfalo

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Belo debate, mediado com a competência de sempre pelo Heródoto Barbeiro, na CBN, sobre uma questão dramática: um médico defende o aborto, nos casos de anencefalia em que a mãe não deseja seguir com a gravidez.

Heródoto passa para um "desembargador", que arrota legistultices: a Constituição não qualifica o direito à vida, portanto toda vida tem de ser preservada. Ele, desembargador entende a dor da mãe ("hã hã", penso eu), mas direito é pacto social, blablabla.

Cá estava eu pensando que por essa tese, logo vão proibir até transplante de fígado, quando o médico, de quem não anotei o nome, genial, lembra que o direito brasileiro já acolheu a tese da morte cerebral, que considera não-vivo o sujeito que não tem mais atividade registrada no cérebro, mesmo que haja sinais vitais em outras partes do corpo, como o coração. Permite até que dessas pessoas se extraiam órgãos.

Ora, como diz o nome, os anencéfalos nem cérebro têm. A maioria deles morre ainda no útero, e os poucos que sobrevivem vivem poucos dias, no máximo, com raras exceções que servem para comprovar a tese. Ninguém está obrigada a abortar, mas as que desejam, nesses casos, têm de ter o direito.

Falando à CBN, o médico, cirurgicamente, extirpa os argumentos preconceituosos e rasos do causídico: além de portar uma criança clinicamente sem vida reconhecível, a gestante de um anencéfalo está sujeita a ameaças sérias à própria vida. São gestações mais complicadas, com patologias perigosas, sem falar na tortura mental a que a pobre coitada é submetida, semelhante às do estresse pós-traumático, por carregar um corpo em crescimento incapaz de preencher suas expectativas de gerar um ser vivo..

E o desembargador, depois de um pigarro para engolir a gosma que lhe sai das entranhas, contra-ataca, categórico: "na Lei brasileira já se discutou muito esse assunto de doação, tanto que se exige autorização do doador, ainda em vida, e, hoje, até da família.".
Pausa expressiva, e o rábula lança o argumento definitivo, juízo final, mesmo:

"Ora, ninguém consultou o anencéfalo!"

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É, há casos na sociedade em que o aborto é uma necessidade inquestionável, mas, infelizmente, impossível; já é tarde demais.

E pagaram alguém por isso (2)

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Na TV, surge uma imagem bonita; a atriz, afinal, é a Carolina Dieckman, que está num bar, e pede um cafézinho. O garçom pergunta se ela quer que ponha gelo no café. Ela estranha (qualquer um estranharia, eu estranhei).


Mas a surpresa dura pouco. Seguindo uma lógica inspirada por sei lá que substâncias inaladas pelo gênio da publicidade que criou o troço, a Carolina dá um sorriso condescendente e diz, com ar de quem profere uma verdade acaciana: "para que gelo? Eu uso Sensodyne!".

Quando viaja e usa Crest, a Carolina deve horrorizar o pessoal da Starbucks. Também uso Sensodyne, mas nunca imaginei que, sem essa pasta de dentes, teria de pôr gelo no café que consumo em doses industriais.

Eu que não ponho gelo nem em uísque, mesmo quando uso Colgate, só posso concluir que, para os autores da propaganda, os usuários de Sensodyne acham natural pôr gelo até em sopa, quando se usa outra pasta dental.
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(na foto abaixo, la Dieckman, depois que um publicitário a convenceu de que uma aguardente de marca é tudo que ela precisa para aquecer a alma)

Os clientes desse pessoal devem acreditar em qualquer coisa que lhes contam para vender produtos de higiene. Vai ver foi por isso que a moça se separou do Marcos Frota. Ele é dono de circo, mas bizarrice tem limite.

O modelo norueguês

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Minha coluna de hoje, no Valor:


Desde a primeira vitória da seleção do Brasil, em 1958, quando jogadores como Didi e Garrincha deram um baile na seleção da Suécia e ainda confraternizaram alegremente com as liberadas moçoilas de Estocolmo, nunca na história do Brasil uma nação nórdica foi tão mencionada como a Noruega no debate sobre o futuro da exploração do petróleo no Brasil. Os que defendem o controle estatal para a produção de petróleo brasileiro anunciam a intenção de copiar o "modelo norueguês"; os que apostam no poder regulador das forças de mercado lembram que acima do Equador tudo funciona de maneira diferente.

O modelo da Noruega, de forte presença do Estado aliada à grande competição entre empresas privadas, é tão intraduzível para as condições nacionais quanto o são, para o português, os sofisticados romances do prêmio Nobel Knut Hamsun - que se inspirou em Dostoievski e era idolatrado por Henry Miller. Assim como o idioma de Hamsun traz armadilhas para os tradutores apressados, a experiência norueguesa com o petróleo, se mal entendida, pode motivar debates acalorados em torno dos temas errados, por falta de compreensão. Vale notar que as dificuldades lingüísticas não impedem que a literatura nórdica seja vertida para outros idiomas, e apreciada por suas qualidades.

O governo contribui para a confusão ao anunciar genericamente a intenção de copiar o modelo norueguês. Não parece que esteja em discussão, nem no Planalto, voltar atrás no que é considerado até pelos noruegueses um dos modelos mais transparentes de concessão de áreas para exploração de petróleo. Não há estudos em Brasília para tirar das companhias petrolíferas as concessões atuais, nem para transformar a Agência Nacional de Petróleo (ANP), de agência independente a simples órgão técnico de assessoria subordinado ao ministro da Energia, como é o NPD, na Noruega.

O resto, AQUI.

(na foto, em primeira mão para os leitores do Sítio, o modelo norueguês que vem fazendo sucesso no Planalto. Sem preconceito, eu e Oliveira, o canalha da redação, em matéria de modelo da Noruega preferimos algo mais adaptado ao clima tropical, como o que se vê AQUI.

Metendo os peitos na Noruega

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A primeira coisa que todo mundo deve fazer ao chegar na Noruega é, claro, arranjar umas coroas. Se você, ao ler esta frase, já se imaginou (ou a mim) como uma versão latina do Sarkozi descolando uma Carla Bruni platinada, está lendo o blogue errado. Isso aqui é um Sítio de respeito. O que fiz, logo ao chegar, foi trocar uns dólares por algumas coroas norueguesas, como esta aqui ao lado. Não me pergunte para que serve o furo na moedinha, todas as coroas noruguesas vêm com esse buraquinho.
Montados em um fundo de alguns trilhões de coroas, os noruegueses têm uma das melhores vidas da Europa, graças ao petróleo. A mulher trabalhadora, por exemplo, pode escolher entre oito meses de licença-gravidez com salário integral, ou um ano, com 80% dos rendimentos. Eles têm educação e saúde gratuitos, e um excelente sistem de transporte público.
Um professor universitário com quem conversei hoje diz que o petróleo é um presente de Deus à Noruega. Eu acredito; alguma coisa o Todo Poderoso tinha de fazer para compensar a sacanagem de deixar os pobres noruegueses, no inverno, com apenas três horas de luz, e escuridão lunar no resto do dia.

São simpaticíssimos os habitantes do país, embora eu só possa falar dos que participam de encontros de trabalho, como os que o governo montou para mim (e mais outros três repórteres brasileiros), desde o dia da chegada. Desabei às seis da noite de segunda no hotel, e, às sete, estava jantando com um ex-embaixador da Noruega no Brasil. Os caras levam isso de agenda a sério.

No hotel, aliás, enquanto zapeava os canais, creio ter visto de relance um dos famosos filmes dinamarqueses que povoaram o imaginário de quem, como eu, nasceu no século passado, antes da Internet, da perversão erotizada da TV aberta e da Paris Hilton.

Na tela, um sujeito musculoso empurrava por trás uma senhora nórdica, que grunhia e fazia caretas pavorosas enquanto exibia o que me pareceu ser um erro médico, bolas de handebol implantadas onde deveriam estar os seios da moça. Após alguns segundos, a imagem foi substituída por uma mensagem incompreensível cheia de "O"s cortados e "A"s com bolinhas em cima, em que era visível a cifra de 195 coroas. Não tive tempo até agora para descobrir se a quantia era o valor que o hotel cobra para ver o que acontece com a moça e o troglodita que a empurra pelas costas ou se é uma taxa que devo pagar para não ser surpreendido nunca mais por aquela cena grotesca.

Na Noruega, os partidos criaram estatais para cuidar do petróleo, e um acadêmico conservador me explicou que isso se deve ao fato de que uma riqueza natural não é algo produzido pela indústria, mas um patrimônio do povo do país, que se esgota, e que é explorado com muito lucro pelas empresas privadas _ daí que o Estado tem mesmo de tirar a maior parte do que o setor privado ganha com a exploração desse recurso, para montar uma reserva destinada a assegurar o bem estar das gerações futuras.

Não é à toa que ninguém no Brasil explica direito esse troço, que faz parecer histeria macartista algumas acusações contra o Evo Morales e o Hugo Chávez. (Nem todas, há acusações que merecem ser feitas a nossos líderes andinos, que não se mostram até agora muito capazes de transformar as riquezas naturais do país em poupança efetiva para os netos da atual geração).

Esse mundo da social-democracia européia é interessante, a esquerda está preocupada com as florestas do mundo e o futuro do bacalhau, a direita teme que os noruegueses fiquem preguiçosos por ter tudo à mão. Parece um paraíso, visto assim, de trivela.

Só o dia de três horas e a senhora com elefantíase nas glândulas mamárias me fazem suspeitar que não estão me contando a história toda.





Já volto, não posso perder a chance de conhecer de perto o Jan Garbarek. Sensacional.

Catando coroas na terra do bacalhau

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É, amiguinhos, o Sítio está pouco movimentado nesta semana, por motivo de viagem. Estou na Noruega, seguindo uma agenda que parece montada por alemão. E tenho de mandar matréria para o Valor. Mas logo, logo _ se der até ainda hoje, conto sobre as cororas norueguesas que tive de arranjar logo ao chegar, e outras notícias sobre a terra de Arne Saknussen. Como dizem por aqui, arivederci.

(bom, pelo menos os italianos dizem isso por aqui).

Oposição, para quê?

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Começo a acreditar quando dizem que Hugo Chávez não deixa nenhum espaço para a oposição na Venezuela. O correspondente deste Sítio, em Caracas, envia esse vídeo, famoso por lá, em que o bolivariano dá uma avacalhada inacreditável no presidente da Venezuela. Sim, nele próprio. Numa tacada só, ele se adianta aos opositores e vira uma espécie de Casseta e Planeta de si mesmo. O mais hilariante relato escatológico que um depoimento presidencial já foi capaz de fazer.

No começo, conto para quem tiver dificudlade em espanhol, ele relata como lhe deram uma máquina para derrubar a parede que faltava na conclusão de um túnel na Venezuela. Ele assume os controles, mas seus intestinos resolvem dar um golpe. O resto, deixo que Chávez conte, é inimitável:



Podem falar o que quiserem, mas é uma rara qualidade, saber rir de si mesmo. Nem isso o homem deixa para a elite venezuelana. Sujeito cruel.

Cadê os seios que estavam aqui?


Guiado pelo Milton Ribeiro, cheguei a uma página do Times que conta o que aconteceu com as mamas das nadadoras das Olimpíadas, que desapareceram quase sem deixar vestígio no Cubo de Água _ ou seja lá o nome que deram para aquilo.


Mas tem de saber inglês para descobrir, AQUI.

Intrigãncias da Ossétia

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Dupla de jogadores da Geórgia perdeu para os brasileiros no vôlei de praia, e o noticiário chamou a atenção para o fato de que os derrotados haviam nascido no Brasil. Agora leio que a dupla de vôlei feminino de praia da Geórgia derrotou as russas, e as vitoriosas são ... brasileiras.

Considerando que metade do litoral georgiano é da Abkházia, nas mãos de separatistas e protegidas hoje pelas tropas russas, deve estra meio complicado jogar vôlei de praia por lá. Mas mesmo antes disso, essa brazucada sacando e cortando nas areias georgianas me intrigou.

O que não vi até agora foi alguma matéria nos jornais e tvs brasileiras lá na China sobre essa curiosa migração de volibolistas brasileiros para as praias do mar Negro. Levantaram a bola. mas ninguém cortou, até agora. E tome matéria falando do Michael Phelps e dos exotismos da milenar cultura chinesa.

Numa consulta rápida ao tio Gioogle, descubro, na agência Lusa, que as moças mal conhecem o país e estiveram lá duas vezes na vida, e que "ambas as jogadoras receberam passaportes da Geórgia com o apoio do Presidente Mikheil Saakashvili, cuja mulher é ex-jogadora de voleibol".

Esse negócio de ex-mulher é fogo, só dá complicação. Além de fazer lambança na Ossétia, esse Mikheil, não sei não, ainda vai acabar botando o Brasil em campo adversário. Algum dos 589 jornalistas brasileiros lá em Pequim podia bem nos contar essa história direito.

Paraguai no es Bolivia, caray!

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Como bom aluno de seminário, e para provar que ninguém chega a bispo sendo bobo, o candidato eleito do Paraguai, Fernando Lugo, se movimenta no continente para ganhar visibilidade e aumentar o cacife dele na região. Tradicionalmente, o Paraguai esteve na área de influência ora do Brasil ora da Argentina, até que Itaipu decidiu o jogo (enquanto não se constrói a demorada e dificultosa usina de paraguaio-argentina de Yaciretá). Lugo faz gestos para Hugo Chávez, o que basta para despertar as vivandeiras brasileiras, que apontam para amanhã a repetição das encrencas bolivianas, afrontas a empresas brasileiras etc e tal.

Já falei disso aqui, mas sempre vale repetir. Paraguai não é Bolívia. Mais argumentos trago numa coluna do início do ano, que também já mencionei neste blog e lá no Ralações, e que está AQUI.

Lugo já é acusado pela esquerda paraguaia de ter se aliado à oligarquia. E, na verdade, não terá como governar em oposição às elites, diferentemente de fez Evo Morales na Bolívia, porque é minoria no Congresso e foi eleito com apoio do tradicional partido Liberal, a quem deu alguns ministérios, distribuindo-os com o cálculo político de um jesuíta. Daí que mostrar-se com Chávez, Evo, os sanidinistas e companhia é uma maneira indolor de polir sua imagem de esquerda, enquanto faz as concessões necessárias para governar um país complicado.

Voltarei ao assunto, prometo.


Firuli firulilulá.... Cobras ou ratos, todos dançam conforme minha música!
Foto: maestro Ruy Baron

Livin' la vida loca

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O que acaba de me acontecer pode servir de orientação para o futuro.
Se um dia os jornais me banirem, num repente de racionalidade, e eu for abrigado em alguma generosa assessoria de imprensa, minha primeira missão auto-investida será ensinar às fontes e interlocutores o que é "horário de fechamento" em um jornal. Mostrar a inutilidade de ligar para alguma redação nesse momento, a não ser para anunciar catástrofes, assassinatos de gente importante, a cura da Aids, matéria para a primeira pagina.

Fechamento é aquela hora dramática em que os editores têm de entregar as páginas diagramadas para a impressão, no esforço para enviar os jornais prontos em horário hábil aos assinantes e bancas, na disputa contra a concorrência.

É raro o bom repórter que não ganha fama de "atrasador de jornal" _ é preciso ser muito organizado e ter uma sorte medonha para que as necessiades da apuração não sabotem com a regularidade de um Mike Phelps a histérica corrida do fechamento.

Foi num desses momentos que tocou meu telefone e, ao atender, ouvi, na linha, uma voz feminina límpida e jovial, cheia de intimidade:

_ Alô! Deu saudade, eu tinha de ligar para você!

_ Poderia ser mais específica? _ perguntei eu, enquanto vasculhava na minha memória sonora o timbre e tom a que pertencia aquela voz saltitante.

_ Você não reconheceu a minha voz? _ reagiu ela, num tom de incredulidade (deve ser alguém próximo, bem conhecida, pensei eu, sem resposta do arquivo cerebral. Dê uma desculpa, dê uma desculpa).

_ Você me perdoe, mas, a essa hora da noite, não seria capaz de reconhecer nem a minha mãe.

_ Você está brincando, né?


Era a própria.

Mamãe.

Tadinha, o neto chegou hoje de férias; eu sabia que devia ter telefonado na hora do almoço, para dar notícia.

Georgia, Ossétia do Sul, Morro do Alemão

Quando a história invade nossa vida, e cobra caro.


O original, da Lena Gieseke, com bastidores e tudo, AQUI.

Sal da terra

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Sinto falta de editoriais e artigos dos colunistas de sempre sobre a Petrobras. Será que é por causa do lucro recorde da empresa, e da queda dos preços internacionais de petróleo, que transformam em bobagem as críticas desses editoriais e analistas pela demora da estatal em repasar a alta do petróleo ao preço dos combustíveis?

Diziam que a Petrobras estava agindo políticamente, absorvendo a alta internacional sem aumentar os preços internos. Um erro grave, diziam. A empresa argumentava que não fazia sentido repassar uma alta que poderia ser passageira.

Os preços internacionais agora caem, e os eventuais prejuízos da empresa com a manutenção dos preços internos foram mais que compensados com os lucros recordes. Se não tivesse corrigido os preços no segundo trimestre, pelo jeito, ainda assim a estatal estaria por cima da carne seca. Com essa atitude "política", a Petrobras evitou uma brutal pressão inflacionária, que teria levado o Banco Central a aumentar ainda mais os juros colossais que pratica hoje.

É, não dá mesmo para escrever editoriais e colunas sobre o tema. Teriam de falar bem da ação política das estatais em favor da sociedade, contra a lógica do lucro máximo para os acionistas. Imagina escrever uma besteira dessas.

Um dia esse mundo acaba

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Lembra aquela história de que iam reconstituir, num gigantesco acelerador de partículas, as condições de criação do mundo, e que isso poderia criar um enorme buraco negro, devorando a todos, sem direito a habeas corpus? Pois é, fizeram o primeiro teste no bicho, nem vi nos jornais.


Ou, como noticiou o The Industry Standard, apresentado a mim pelo criativo Marcelo Soares, "o gigantesco acelerador de partículas foi testado neste fim de semana, e um buraco negro não destruiu a Terra... ainda".


Quando leio sobre física de partículas, lembro sempre da minha experiência como redator da Ciência Hoje, em que tive de copidescar o texto de um renomado cientista argentino assentado no Brasil. Os problemas não se limitavam aos vocabulares _ como explicar para ele por que a força da gravidade não era acintosa, como estava no texto, mas ostensiva. Num trecho particularmente confuso, ele rechaçou todas as minhas tentativas de tornar a explicação mais clara, até me confessar que queria manter a coisa ambígua mesmo, para não brigar com nenhuma das correntes de físicos que se digladiavam em torno do tema na época.


Essa coisa de reproduzir o Big Bang e causar um buraco negro está no mesmo universo, o das suposições que não são consenso e que geram uma brigaiada danada entre os físicos. Como em algumas discussões entre economistas, ninguém da patuléia nem toma partido porque não consegue entender exatamente em torno do quê estão discutindo.


Esse acelerador de partículas (hadrons, para tratar as bichinhas pelo nome) motivou um texto excelente do físico Mário Novello, dias atrás, e que só agora encontro na Internet. O Novello, em resumo, conta que essa história de Big Bang como única explicação para a origem do Universo foi enfiada em nossos corações e mentes pela força do imperialismo, e que há outra teoria possível para a criação do Universo, a de que não há como definir um só momento de criação: o Universo, eterno, expande-se e se contrai, infinitamente, sem Big Bang vindo do nada. Acha estranho? E, no entanto, quando lhe dizem que Coca-Cola cura azia você nem levanta a sobrancelha.


É assim mais ou menos como a influência do Delfim Netto no Palácio do Planalto: vai se expandindo até que chega ao limite, se contrai toda, para depois crescer de novo.


O engraçado é que cheguei ao texto do Novello pelas mãos do tio Google e por obra de um dedicado blogueiro que acredita ter sido criado e ser vigiado até hoje por um bondoso senhor de barbas brancas, que o fez à propria imagem e semelhança, a partir do barro, segundo a descrição do Velho Testamento. Caso exemplar de como a fé nos permite ver só aquilo em que queremos acreditar. AQUI.
Para quem ainda sonha com o apocalipse, há esperança. O troço será ligado à toda, mesmo, só em setembro, e são esperadas para outubro as primeiras colisões de partículas dentro do colosso. Nada que abale quem investiu as economias em títulos do tesouro com vencimento em 2017. A confiança é a última que explode.


Para quem entende inglês, uma visitinha ao monstro, em duas partes:



Ah, a falta que faz o segundo grau

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Um spam desses me faz rir, e meditar sobre o que anda acontecendo com a educação no país. Como o sujeito consegue criar programas maliciosos de computador e é incapaz de transitar sem danos pela língua pátria?

Viemos por meio deste serviço eletronico, lhe informar que você foi mensionado em um dos videos mais acessados pelos brasileiros no Youtube. Temos a honrae a gratidão de postar o demasiado link.

Youtube Serviço de email
( http://www.youtube.com/watch?v=R6SM51226mVlo )
Atenciosamente,Equipe YouTube

Mens sana in corpore sano




Depois de barrarem na África do Sul o atleta acima, Oscar Pistorius, que queria ir às Olimpíadas da China com suas duas pernas de fibra de carbono (fizeram com ele uma espécie de operação solta-e-agarra, e ele acabou sobrando), um famoso colunista brasileiro quer vetar, também a ida, às Olimpíadas do Rio, do mais conhecido portador de necessidades especiais do país, o Saci Pererê.

O Juca é um comentarista engraçado, chega a me prender na CBN se é ele quem está falando quando ligo o rádio, ao sair do jornal. Olha que, em matéria de futebol sou uma verdadeira dama: só na meia idade descobri que zagueiro não é beque*; não entendo nada do que ele comenta. Mas o Juca ficou indignado com a campanha pela escalação do Saci, e já avisou que não aceita a entrada do encarapuçado em campo. Na lata, assim. Nem usou como argumento o fato de que o danado já tem contrato de mascote com o Inter, o que levanta metade da gauchada contra o simpático mito de uma perna só.

O engraçado é que o Juca provavelmente não sabia o tamanho da torcida do Saci na terra pátria. Ele tem até uma sociedade dedicada a ele, uma espécie de maçonaria na qual pedi meu ingresso anos atrás e fui solenemente ignorado.

O saci é um vencedor, uma versão macunaímica de nossos melhores defeitos e qualidades. Esperto, improvisador, criativo, sacana, amoroso. E desgraçadamente submisso aos poderosos: basta tirar dele a carapuça e ele se sujeita ao algoz que lhe deixou de cabeça pelada. Como se fosse um celetista medíocre com medo e perder o emprego, passa a fazer o que lhe mandarem. Ninguém é perfeito, muito menos nossos heróis.

Sou um aliado da Sosaci na campanha por um Dia do Saci, no lugar do Ralouín, e da propagação do mito pelas escolas e onde mais for. Por isso, com o risco de ser esculachado por mim mesmo, indignado com o que vou dizer a seguir, devo confessar que, à parte os exageros de linguagem, o Juca não está de todo sem razão.

Está errado, ao vetar o saci por sua condição física. Um menino negro e de uma perna seria uma imagem marcante para boa parte do mundo, chocante até, para muita gente. Mas vale, o Brasil marcaria um ponto, firmaria uma bela posição. Já o cachimbo... não dá. Tentaram até botar o cachimbinho do saci para fazer bolhas de sabão, mas isso é só uma sacizada. O moleque pita fumo preto mesmo. Não tem nada a ver com esporte.

A idéia tem minha simpatia, mas, na boa, sugiro bancar o saci para outra campanha, até contra o fumo, se for o caso, ou de inclusão social, algo assim. Nas Olimpíadas, o Brasil tem de buscar um mito mais esportivo. Algum que simbolize mais claramente o calor do esporte brasileiro.
Talvez influenciado pela qualidade das declarações dos atletas e comentaristas que venho ouvindo na televisão, eu sugeriria a mula-sem-cabeça.
(* veja o que é a ignorância: zagueiro é beque, como acaba de me avisar o Alex Ribeiro. O que eu confundia era atacante com zagueiro. E, pelo jeito, voltei a confundir, a idade é fogo).

Será que só eu (2)...

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... invejo quem diz estar relendo algum livro, porque mal dou conta de LER os que me vêm à mão?

... tenho dificuldade em assistir a peças de teatro, porque os atores me deixam nervoso?

... concluí que a única coisa que falta para executar meus proejtos é organização? Há 30 anos?

... acho que a Ana Maria Braga sofreu uma acidente terrível que a desfigurou irremediavelmente e, por isso, usa uma máscara para suas aparições na TV e nas revistas de futilidades?

... acha mais absurdo ter mais informações sobre a Ossétia do Sul que sobre Parnaíba, no Piauí?


Este Sítio também tem seus momentos de jornalismo investigativo, e já começou a apurar a preparação para a cerimônia de abertura dos próximos Jogos Olímpicos, no Rio de Janeiro. Descobrimos alguns elementos da festa, inspirados no sucesso da abertura chinesa.

Proibidos, pelo Ministério Público, de cometer o mesmo desrespeito dos chineses às normas de segurança, aquele absurdo de toneladas de fogos de artífício no teto do estádio, o governo carioca não se apertou e planeja um espetáculo pirotécnico no Maracanã e em ruas e morros cariocas, com balas traçantes de AR-15. A população já está equipada e disposta a colabrar com o entusiasmo que só o carioca tem.
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Atletas encenarão, com coreografia de Joãozinho Trinta, as grandes invenções que o Brasil doou ao mundo: o avião, a fotografia, o bina, o veneno de cobra terapêutico, o Bolsa Família, o carro a álcool, o flanelinha, o Tom Jobim, a depilação na virilha e a bunda (essa última sob protesto das feministas, mas foi exigência dos dirigentes espanhóis e alemães do Comitê Olímpico Internacional).
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Houve quem sugerisse copiar a idéia dos chineses e, no fim da cerimônia, pôr para flutuar o astronauta brasileiro, com um isqueiro bic que acenderia a tocha olímpica numa maquete reproduzindo a floresta Amazônica. Era claramente um espírito de porco derrotista. O que vingou foi a pressão do Planalto para mostrar ao mundo que o Brasil, para entrar na Opep, só precisa do turbante: em um enorme telão de tv digital, padrão japonês, será transmitido o momento em que um companheiro petroleiro tascará fogo na coluna de gás natural sainte de uma plataforma da Petrobras no campo Carioca, o do pré-sal. Conosco ninguém podosco.

É uma pena que não seja possível ver essa cerimônia sem pagar dez vezes o preço do ingresso. Mal começou a Olimpíada anterior, na China, e os cambistas aqui já compraram tudo.

Este homem defende a tortura

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Este senhor aí acima é general e, se tem netinhos pode ensinar a eles que, em alguns casos, no futuro, terão o direito de seviciar os coleguinhas, enfiar coisas nos genitais deles, queimá-los, simular afogamentos, ferí-los para arrancar confissões. Foi o que certos meganhas no regime militar fizeram (houve quem aproveitasse o poder fora-da-lei e enriquecesse, montasse gangue, fizesse fortuna, enfim). O general acima, Gilberto Barbosa de Figueiredo, é presidente do Clube Militar e defende a tortura.

Não quer que sejam punidos os torturadores das décadas de 70 e 80 porque acha que esses criminosos foram agentes do Estado cumprindo seu dever. Afinal, atuavam numa guerra contra terroristas sem respeito às leis e à vida humana.
Há uma diferença essencial entre o homem da lei e o criminoso. Um está associado à ordem, à Justiça, às normas de convivência com a sociedade. O outro é um pária, ou deveria ser, e é condenado pelo que a sociedade considera suas normas de convivência. Os homens de bem não apóiam criminosos. E o Estado não pode admitir o crime como instrumento para defesa da sociedade, ou para manutenção da ordem. A sociedade também estabelece regras para punir criminosos, perdoar até, anistiar, se for o caso. Mas já há consenso no mundo civilizado de que a torturas é um crime contra a humanidade, imprescritível, como ensina num post magistral sobre o assunto o professor Maurício Santoro.

A tortura é mais que um crime, reconhecido como tal por convenções internacionais, pela Constituição, pelas leis brasileiras, até durante a ditadura. É uma corrupção irremediável da ordem, da sociedade. Além de subversão à família, à decência, à religião (ainda que muitos religiosos torturem, afrontem famílias, pratiquem atos indecentes).

Houve quem, no AI-5, comentasse que não tinha medo das autoridades, mas do guardinha da esquina. Essa mentalidade de que vale a pena romper a lei quando o fim é punir criminosos gerou uma filosofia de treinamento policial que agora está nas ruas matando inocentes, filhos e pais da classe média agora horrorizada, porque algunms agentes não percebem que a vida é um bem mais importante que qualquer outro roubado por algum criminoso.

A conivência com o desrespeito do governo às próprias leis, abrigada por justificativas tortas de que fins legitimam os meios, dá carta branca a criminosos agasalhados no aparelho do Estado, fragiliza os cidadãos, apodrece a sociedade. E ainda enriquece uns e outros, o poder absoluto corrompe absolutamente.

Ontem, um punhado de ex-militares de pijama e outros integrantes das Forças Armadas brasileiras, que deveriam ser merecedores de nosso respeito pelo papel que têm a desempenhar no serviço público, fizeram uma manifestação em favor da tranquilidade para os torturadores.

Mereciam que suas fotos fossem copiadas, e apresentadas aos filhos, sobrinhos e netos com a descrição do que faziam os carrascos nos porões do regime. Vai ter gente na família que pode até aprovar. Para esperança de uma sociedade decente, imagino que grande parte terá senso ético, consciência e integridade. Esses iriam morrer de vergonha do vovô.
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"Ah, mas os terroristas também cometeram crimes graves etc e tal". Para quem ainda pensa assim, recomendo, de novo, leitura cuidadosa do texto do Santoro. Sem punição aos homens do Estado que cometeram crimes no exercício do serviço público, a violência contra o cidadão só tende a aumentar, explica ele, AQUI .
2º clichê : O Pedro Dória traz excelente argumentação jurídica para sustentar a mesma opinião que a minha, AQUI.

Censura às massas

Marco Polo: "pô, sacanagem, treinei tanto para esse momento!"


Vi de rabo de olho a abertura das Olimpíadas, impressionante. Mas é de fato um problema a censura na terra das veneráveis dinastias. Mostraram belissimamente o que deram ao mundo ocidental: o papel, a tipografia, a seda, a pólvora, o pombo-correio, a bússola*... mas, peraí, e o macarrão? Por que barraram o macarrão na Olimpíada???!!!
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Descartada a tese de golpe da patrulha nutricionista, fica a constatação de que enfiaram o macarrão no mesmo saco onde meteram a subjugação da China pelo Império britãnico e a desastrada Revolução Cultural, de má memória. E onde enfiaram também o Mao Tsé Tung; esconderam tudo, não exibiram nem um retratãozinho do velho Mao, um livro vermelho com gente flutuando em volta, uma representação alegórica do grande timoneiro.

Mas não confundamos as coisas. O macarrão certamente teve vetado o ingresso para os Jogos Olímpicos porque foi deserdado, corrompido pelo Ocidente com alho, tomatti pelatti e molho a bolonhesa. Os chineses não reconhecem o macarrão deles na pasta que os italianos disseminaram em cantinas mundo afora.

Já o conveniente esquecimento do período colonial e das estrepolias do Bando dos Quatro tem a ver com sua insignificância para a História chinesa. Você lê isso e acha que falei besteira mas só porque essas coisas aconteceram há pouco tempo relativamente, para nós.
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No horizonte temporal dos chineses, de cinco mil anos, esses episódios vergonhosos foram breves soluços, coisa insignificante na verdadeira história do país. É o imperio que dominou boa parte da humanidade pela maior parte da História humana, e, parece, acredita estar pronto a retomar esse caminho após um pequeno desvio do destino.

Enquanto não obrigarem o mundo a comer macarrão com vinho chinês, a gente vai levando.
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(* aqui cabe fazer justiça: os chineses inventaram a bússola, mas só depois que os gregos inventaram o alfabeto pudemos descobrir para onde aquela agulhinha estava apontando)

Nas garras da paixão

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Estão insuportáveis os comentários do Oliveira, o canalha da redação, a respeito da nova secretária da Receita, Lina Vieira.

Admirador das mulheres maduras e elegantes, o canalha estava inconsolável porque o Roberto DÁvila antecipou-se e, antes dele, impetrou um mandato de injunção na jurisdição da ex-presidente do Supremo, até então a preferida do Oliveira no círculo do Poder brasiliense. A nomeação de Lina Vieira fez o cínico jornalista esquecer a desilusão amorosa no terreno do Judiciário, e mergulhar na economia informal.

Ele garante que é um leão, quando se trata de devaneio amoroso, e já traçou seu planejamento romantico-tributário. "Mal posso esperar para ela me pegar na malha fina", diz o canalha, cofiando os bigodes.

Dois amigos, filólogos, amam a mesma mulher e discutem o assunto, numa conversa constrangedora. E quem descreve o diálogo de maneira original é o indispensável Roberto Bolaño, em seu romance póstumo que, como não tem tradução em português, vai, no trecho reproduzido aqui no Sítio, em péssima tradução deste escriba que vos recebe:


"Os vinte minutos iniciais tiveram um tom trágico, em que se empregou a palavra destino dez vezes, e a palavra amizade, vinte e quatro. O nome de Liz Norton foi pronunciado cinquenta vezes, nove delas em vão. A palavra Paris foi dita em sete ocasiões. madri, em oito. A palavra amor foi pronunciada duas vezes, uma por cada um. A palavra horror se pronunciou em seis ocasiões e a palavra felicidade, em uma (Espinosa a empregou). A palavra resolução se disse em sete ocasiões. A palavra solipsismo, em sete. A palavra eufemismo, em dez. A palavra categoria, no singular e no plural, em nove. A palavra estruturalismo, em uma (Pelletier). O termo literatura norte-americana, em três. As palavra jantar e jantamos e desjejum e sanduíche, em dezenove. A palavra olhos, e mãos, e cabeleira, em catorze. Depois, a conversação correu mais fluida."


Bolaño, infelizmente, morreu novo, por uma traição do próprio fígado, mas vem sendo descoberto no Brasil, onde já traduziram seu elogiado Os Detetives Selvagens, A Pista de Gelo, Noturno do Chile e Putas Assassinas. Nesse incrível diálogo, ele descreve com sensibilidade as trocas de idéias entre os amigos sem recorrer às convenções do gênero, mas ao método quantitativo muito comum nas análises de texto feitas por especialistas como os protagonistas da conversa. É uma mostra da habilidade estilística do chileno, e do poder revelador que tem a escolha das palavras na comunicação.


No jornalismo, o Élio Gaspari foi o primeiro a usar os recursos da informática para traduzir, pela contagem das palavras, as obsessões dos noticiados. Ele usava, imagino, o verificador ortográfico do Word ou coisa parecida, para escrever artigos que, mal comparando, iam bem na linha do dálogo bolañesco aí de cima.


Hoje a Internet tem recursos mais poderosos, como as nuvens de palavras. Usadas em muitos sítios, chegaram aos blogues, onde o Pedro Dória foi o primeiro que vi usando essa artimanha. Mas o Hermenauta deu o caminho das pedras, para o sítio onde se pode montar a nuvem de palavras que cada um quiser. (Fica bonito, aplicado num romance moderninho, nem vão notar que a idéia original foi chupada do Bolaño).


Serve para resumir discursos também, embora não chegue a dar o mesmo grau de informação do parágrafo do Bolaño. Minha patetice informática me impede de reproduzir decentemente aqui as nuvens de palavras geradas com o programa que o Hermenauta me indicou. Mas clicando abaixo v. será levado à página com as nuvens que criei a partir de um evento contemporâneo, a viagem do presidente à Argentina, e os acertos entre os dois países, que andaram se estranhando na OMC.

O discurso do Lula aos empresários, na Argentina, ontem, por exemplo, foi esse aqui:





E o da Cristina Kirchner, no almoço para o Lula, esse aqui:



(até o fim do dia uma boa alma ensinará este ignorante a reproduzir direito esse troço.)


Tem gente que ainda ataca o governo porque a política externa defende boa vontade com os governos vizinhos, e ações para melhroar a economia dos países da região.


Tem gente que não percebe que o governo federal até tem instrumentos para reprimir o crime no território nacional; mas precisa de cooperação da vizinhança e do sucesso econômico nos países vizinhos, para enfrentar ameaças como ESSA.

Mitos e erros sobre OMC

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"Não, não me chamo Jean Luc Picard. Estou mais para 'perdidos no espaço" que para Jornada nas Estrelas"




Como prometi à Vera, que me cobrou nos comentários, mais abaixo, dou mais um pitaco sobre as negociações frustradas da chamada rodada Doha na OMC. Está na minha coluna do Valor, hoje:

Duas idéias vicejaram com o fracasso da chamada Rodada Doha, promovida para reduzir barreiras e subsídios indevidos ao comércio: 1) o Brasil deveria ter apostado com força nos acordos comerciais bilaterais; e 2) o país deverá apostar com força nos acordos bilaterais de comércio. A primeira idéia não leva em conta as múltiplas tentativas de negociação bilateral nos últimos anos, pelo menos uma delas abortada devido ao temor do setor privado brasileiro com a concorrência estrangeira. A segunda traz complicações, para além do protecionismo argentino - que alguns parecem apontar como único obstáculo aos esforços negociadores do Brasil.

Por pertencer ao Mercosul, o Brasil tem uma tarifa de importação comum e não pode mudá-la sem aval dos sócios. A crise econômica e política argentina, temperada por forte protecionismo, dificulta acordos para facilitar importações industriais. Mas, mesmo que Brasil rompesse a união aduaneira do Mercosul, são cinzentos os cenários para que tenha êxito nas negociações, no futuro próximo. Negociações passadas mostram isso.

O resto, AQUI,


Para quem quer saber mais sobre o tema, , há um texto já ultrapassado, mas com informações interessantes, AQUI.

A arte do Duchamp não é penico

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Ah, finado Duchamp, quanta tonteria se fala em seu nome! Talvez por isso ele dizia não ser artista, mas jogador de xadrez (na imprensa francesa, seu obituário saiu na seção de enxadrismo; para os esnobes do Velho Mundo, Duchamp era coisa de novo-rico americano). Leio no Estadão, em artigo do Daniel Piza, que Duchamp não caiu no jogo da arte conceitual, que botava a mão na massa... Menas, querido Daniel, menas.

Duchamp, é, sem dúvida, o pai da arte conceitual, como bem aponta o Geraldo Tomás na Folha deste domingo. O artigo, como boa parte dos escritos do Tomas é de uma panaquice sem fundo; o Geraldo se descabela e exagera quando fala do Duchamp como único pai do pessoal do Fluxus, gente como o John Cage, o cara que fez por merecer não um, mas quatro minutos e meio de silêncio após a morte.

Ora, a turma Dada já estava botando a tuba do avesso quando o Duchamp lustrava o penico para a exposição dos recusados.

Mas acabo caindo no erro do Geraldo Tomas, recitando como aluno arrogante coisas que os estudantes de Artes Plásticas aprendem no primeiro ano de faculdade. O Geraldo errou no tom, mas acertou na substância: é meio ridículo acreditar que a obra do Duchamp será acessível com uma retrospectiva da "obra" dele, como a que está em exibição, nesse momento, em Sampa. Isso porque, a menos que tenham treinado direito os monitores (e os comentários do público perplexo, transcritos pela Folha, me indicam que não), a "obra" de Duchamp que lhe garantiu lugar na história das artes plásticas pouco tem a ver com exposições museológicas, de objetos criados pelo artista. (Duchamp até reproduziu obras dele mesmo, em fotos e objetos depois arrumados em maletas que distribuía aos amigos; mas isso era, em si, uma outra obra).
Ironia e humor são elementos inseparáveis do trabalho de Duchamp. Ao apresentar um urinol _ e fazer com que um amigo, no corpo de jurados, garantisse sua inclusão no Salão alternativo montado em Paris_, ele punha em xeque o conceito de arte e os limites da rebeldia, dos artistas que se insurgiam contra a arte sancionada pela academia, pelo status quo. (Depois, o Andy Warhol poria a arte em cheque, lucrando muito com o pop; mas isso é tema doutro post). A Mona Lisa com bigodes tem um título ("L.H.O.O.Q.")que, lido em francês, soa como "ela tem fogo no rabo", piadinha tão incompreensível quanto reveladora da mania de Duchamp de jogar com os títulos das obras (Ao lado, uma interpretação de um grafiteiro inglês que pegou o espírito da coisa).

Duchamp começa mais careta, porém, aplicando à pintura conceitos de Cèzanne e dos cubistas, misturados a idéias do futurismo (influência que ele renegava), com um elemento adicional: o non-sense evocativo dos surrealistas. "Nu descendo a escada" choca os contemporâneos, não pela imagem, uma representação dinâmica quase monocromática e movimento, mas pelo título. Nus reclinavam-se, assumiam poses mitológicas, até assemelhavam-se a figuras banais; mas não movimentavam-se pelo mundo, como gente, descendo escadas, nem se encaixavam no conceito de arte contestatória dos rebeldes de então.
Os irmãos de Duchamp o recriminam pela tela, recusam a obra no Salão dos Independentes, e ele briga com eles e os amigos, vai a Nova York, onde é recebido como um sopro de modernidade européia pelos apreciadores de arte ávidos de novidade. É nos EUA emergentes do pós-guerra que Duchamp emerge também como figura lendária. The right man in the right place.
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Duchamp _ e aí está o erro do Daniel Piza _ reprovava os cubistas pela sua subserviência a uma arte "retiniana", "ótica", voltada aos sentidos. Ele é pai e avô dos conceitualistas porque, mais que enfant terrible como os Dadas e seu gosto pelo irracionalismo e pela contestação, ele tem uma pretensão teórica; e é o primeiro a condenar sériamente a estética como padrão de julgamento da arte. O artista não é mais um artesão iluminado, mas uma espécie de medium, um intermediário que vai traduzir em Arte o espírito, desafios e ameaças de sua época.
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Até hoje escandaliza, e intriga. Duchamp e seus netinhos me fazem lembrar Platão, que excluiria os artistas de sua República ideal porque eles enganavam o povo, com imagens que não passavam de ilusões montadas sobre outra ilusão _ aquilo que pensamos ser realidade e que, para Platão, não passa de fantasmas da verdadeira realidade, a Idéia. Diferentemente de Platão, porém, os idealistas da Arte contemporânea valorizam (claro) e repensam o papel do artista, que não seria mais reproduzir o visível (há máquinas para fazer isso), mas vasculhar esse mundo das idéias, para trazer novas idéias ao mundo.

O mais importante não seriam os objetos, os resultados dessa pesquisa, mas o próprio processo executado pelo artista nessa busca de novas significações para aquilo que nós experimentamos sem ter consciência exata do que estamos experimentando. Um dos bispos dessa nova religião, Joseph Kosuth, vai dizer que os quadros cubistas são meros cadáveres, resquícios da verdadeira arte dos cubistas. A arte não é o quadro, mas o processo pelo qual eles revolucionaram a forma de representar o mundo visível.
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É um caminho onde a arte vai encontrar a filosofia e brigar para tomar o lugar dela, com regras próprias. O conservador Tom Wolfe, com um estilo que falta a muitos críticos inconformados com a arte contemporânea, vai zombar disso num livro, A Palavra Pintada, em que prevê exposições onde as tabuletas explicativas chamarão mais atenção que os objetos de arte. O que ele não aceita é que a experiência pura, dessa arte que exige explicações, às vezes possa abrir a cabeça das pessoas dispostas a compreender novidades.
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Sobre esse mundo aberto pelo Duchamp, de uma arte não representativa e conceitual, quem tem um comentário bacana e mais inteligente que a do Wolfe é o iconoclasta Michel Onfray, ao falar da necessidade de "fabricação do gosto" no mundo contemporâneo:
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"Aceite, no princípio de sua iniciação (à Arte) perder-se, não compreender tudo, misturar, enganar-se, aproximar-se, de não obter, de cara, resultados excelentes". Ninguém se arrisca a criticar um grande intelectual sem dedicar algum tempo a entender o que ele fala, argumenta o Onfray.

Com a arte que debocha de si mesma, essa dedicação a entender é mais difícil. Mas necessária, como mostra a fertilidade do trabalho esquisito do Duchamp. É curioso como certos achados da criticada arte contemporânea vão sendo apropriados, com o passar do tempo, pela publicidade, pelo cinema, pela arquitetura e pelo design e incorporados na vida daqueles que achavam uma empulhação as obras que inspiraram essas apropriações.
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(e pensar que eu ia escrever sobre a Marina Abramovic e um artigo sobre os limites da vanguarda chocante. Fica para o próximo domingo).

Na terra de Gandhi

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Descobri que o blogger aceita vídeos. Compartilho então com os frequentadores deste Sítio uma experiência filmada por mim, de andar de taxi na Índia, que ajuda a explicar duas coisas: a resistência do negociador _ e candidato a presidente _ indiano Kamal Nath em aceitar uma maior abertura de mercado para importados manufaturados no país, durante as negociações da rodada Doha, na OMC; e por que o Tata vai construir e vender lá _ e somente lá _ carros de US$ 2 mil.

Bom, já atendendo à Vera, dos comentários aí no post abaixo, tenho de informar que a Índia esteve entre os maiores responsáveis pelo fracasso da rodada Doha e era um dos países mais resistentes à abertura dos mercados para produtos industriais; mas o que pegou, mesmo, foram os Mecanismos de Salvaguardas Especiais (SSM, na silgla em inglês), que eram, na prática, um artigo que os indianos queriam botar no acordo final da rodada Doha.

Sem entrar no detalhes numéricos, essas salvaguardas, em resumo, eram uma autorização para que os países em desenvolvimento aumentassem brutalmente as tarifas de importação de alimentos, caso seus mercados sentissem um aumento muito grande nas compras de produtos agricolas vendidos por fornecedores estrangeiros. O argumento era proteger os pequenos agricultores, a produção pouco competitiva. No Brasil, o pessoal do ministério do Desenvolvimento Agrário achava essa salvaguarda uma boa; o pessoal do agronegócio não queria nem ouvir falar. A briga girou em torno de quanto seria esse aumento de tarifas. Não houve acordo.

Bom, se v. não conhece a OMC, nem os detalhes da negociação, para engrossar a história sugiro que aproveite o excelente sítio da organização, com informações sobre vários aspectos dela, AQUI, ou AQUI, ou AQUI. Ou ainda AQUI para saber detalhes dos temas da negociação. São páginas em espanhol (há também em inglês, é só buscar lá). Não tem em português. Culpem a falta de aplicação da reforma ortográfica que vai unificar o idioma escrito (ainda que nem tanto). Enquantro não escrevermos do mesmo jeito, o português não será língua oficial de entidade multilateral nenhuma. Ah, se clicar nos links, é bom saber que aranceles, em espanhol, é o mesmo que tarifas (de importação ou exportação).

A Índia é parceira do Brasil no G-20, que foi um grupo de países em desenvolvimento criado para evitar, na reunião ministerial da OMC, em Cancún. O grupo foi craido para evitar que EUA e Europa, acertados entre si, empurrassem goela abaixo dos outros sócios da organização um acordo sobre a abertura do mercado agrícola e a redução dos subsídios que distorcem o comércio. Os gringos já tinham feito isso em 93, numa rodada anterior, a rodada Uruguai, quando evitaram que a agricultura entrasse no eforço de redução de barreiras ao comércio.

Com o G-20, os emergentes conseguiram lugar à mesa, e passaram a decidir, com os países ricos, os rumos da negociação da rodada Doha. Já se sabia, porém, que, em algum momento, haveria divergências, já que o Brasil (como Argentina, Uruguai, Paraguai, todos sócios do G-20), são exportadores competitivos, e países como China, Índia, Egito (também do G-20) são importadores e, ao mesmo tempo, tem zentenas de milhões de pessoas trabalhando no campo, em lavouras pouco competitivas.

O que não se sabia era que esse tema das salvaguardas, deixado de banda nas conversas, afloraria estrepitosamente quando a negociação começasse a ameaçar um resultado. China, que, até então, estreava como sócia da OMC e havia ficado de espectadora, botou o pé na mesa, e, entre outros poréns, disse que as SSM eram inegociáveis. A Índia também. Muita gente desconfia que os dois países não queriam resultados na rodada Doha. A China acaba de entrar na OMC, teve de negociar concessões com cada sócio, reduziu bastante suas barreiras à importação e teria de reduzir de novo com a rodada. A Índia tem setores muito atrasados, e esse problema da imensa população rural na miséria.

E, como me dizia um diplomata experiente : esses acordos multilaterais, como o da OMC, significam abrir mão de autonomia que os governos tem, de lançar mão dos instrumentos de política econômica que preferirem ao lidar com uma crise. O mundo vive uma crise econômica; nessa hora, ninguém fica muito disposto a abrir mão de autonomia de ação.

Se não fossem as SSM, provavelmente haveria outras questões para melar a rodada. Países disputam monopólio para uso de denominações de origem (vinho La Rioja, por exemplo), que sãio europeus, mas também existem nas ex-colônias (quem já bebeu vinho La Rioja argentino sabe do que falo). Países africanos, que exportam banana sem imposto para a Europa, brigavam para não baixar o imposto de importação de banana que os europeus aplicam aos concorrentes do Caribe. A Argentina queria tirar um número maior do que se permitia de produtos na lista de mercadorias sujeitas à redução de imposto de importação ( menos imposto, maior concorrência dos importados). Motivo para briga não faltava.

E o Brasil, nisso tudo? Tentou conciliar. A indústria brasileira fez as contas e viu que podia aceitar menores tarifas contra a concorrência importada. A agricultura já admitia receber apenas cotas, para vender uma certa quantidade de mercadorias sem imposto, já que não conseguiria baixar totalmente as tarifas que barram seus produtos na Europa, EUA e países emergentes. Já estava no bolso dos brasileiros um ganho da rodada: a promessa dos ricos de acabar com os subsídios à exportação, que turbinam deslealmente as vendas européias e americanas de alimentos.

Isso tudo e mais outras coisitas fizeram com que o Itamaraty aceitase de cara a proposta do diretor-geral da OMC, na reta final, para um acordo que não atendia a todas as reivindicações, mas melhorava o ambiente comercial.

Mas os EUA foram mais duros do que se imaginava contra Índia e China que queriam as salvaguardas de que falei acima. E deu xabu na rodada.

Esse resumo deixa de fora coisas importantes, como detalhes da discussão de subsídios. Se a Vera ou alguém mais da comunidade aqui do Sítio quiser, volto ao assunto depois. Mas a essa altura já perdi 80% de meus trezentos leitores. "Let's go party!", como dizem os indianos:

(para quem já entrou antes nesse post, um aviso: revisei o texto acima, e, depois de sucessivas tentativas frustradas, inclui mais um videozinho, um breve zapping por dois canais na tv do hotel Hilton, para consolar os leitores que ligaram a tv aberta brasileira neste fim de semana)

Tecnobica

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*[...] está relatado em Hipócrates: infusão da casca do salgueiro cura dor de cabeça. Há 3.000 anos. No fim do século XIX, se descobre o princípio ativo disso: ácido acetil. Cria-se o ácido acetilsalicílico. Vem o comprimido. Uma megaindústria nasce sem saber como funciona: só sabe que funciona. Isso é tecnologia. Aí no fim da década de 80 dois caras ganham o Nobel por descobrir por que funciona: você trava o receptor de dopamina do cérebro e deixa de sentir dor. Aí é ciência. Sensacional, mas se esperássemos a ciência descobrir a verdade, seriam 3.000 anos de dor de cabeça!*

Reflexão interessante lá no Alfarrábio, do Bicarato. AQUI.

"Pués hable, hombre!! Quanto me dás por el banquito?"



Chávez, turbinado pelo petróleo, nem pecisa desapropriar empresa para seu projeto socialista bolivariano. Compra. O anuncio, agora, de que quer comprar o Banco Santander foi precedido, espertamente, de uma visita à Espanha, onde encontrou as autoridades com quem tinha brigado na Cúpula Ibero-Americana, o primeiro-ministro Aznar e o rei Juan Carlos, de quem recebeu até uma camisa com a famosa frase "por que no te callas", que exibiu, sorridente. Mostrou que não quer guerra com a Espanha. E sabia que iria rir por último.


O jogo de Chávez, no campo financeiro, é mais que um lance adicional na estatização da economia venezuelana. Chávez quer usar o dinheiro do petróleo para exercer poder no continente. E já está pegando mal, na Venezuela, com tantas carências, tirar dinheiro da estatal PDVSA, a Petrobras dele, para dar aos amigos, até em troca de banana.


(Mas cuidado com essa história de que Chávez anda distribuindo dinheiro e petróleo. As condições impostas aos países do Caribe para receber o óleo venezuelano não são tão frouxas assim; até pouco tempo, muitos países tinham dispensado a ajuda porque achavam mais simples e barato comprar em outras fontes. A Venezuela ganhou muioto dinheiro comprando, para socorrer Néstor e cristina Kirchner, os desdenhados bônus da Argentina).


Lembram do Banco do Sul? Pois é, o Chávez antes só falava nisso, pressionava e tal. Foi o Brasil entrar no jogo, e mudar as regras, tornando o banco uma coisa mais parecida com as outras instituições de fomento da região e o venezuelano quase não fala mais no tema; quando fala, é para cumprir tabela, sumiu a pressa de antes.


O Banco do Sul, no formato original, meio no estilo dos bancos estaduais do passado, serviria para Chávez canalizar o dinheiro do petróleo sob a forma de empréstimos facilitados aos amigos. O povo venezuelano, em vez de sangria dos recursos da PDVSA, veria um forte banco nacional, espalhando influência na região. Algo muito mais palatável para a opinião pública interna. Não deu o Banco do Sul, Chávez vai montar agora, seu Banco do Brasil, digo, Banco da Venezuela.


É um homem persistente, obstinado, nada bobo. Quem sabe, abre até uma filial aqui no Brasil.
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falar nisso...
FARC E PLANALTO
Pergunte a alguma autoridade brasileira sobre as Farc. Vai ouvir que até hoje não se encontrou carregamento de droga nas mãos de guerrilheiros, o que abala a tese de que são narcoguerrilha. Dirão que o útlimo grupo guerrilheiro que resolveu incorporar-se à vida política normal foi dizimado por grupos paramilitares. É evidente que não há hostilidade do governo contra as Farc, embora também se ouçam comenta´rios muito críticos sobre a atuação da guerrilha, no governo brasileiro. Um dos e-mails capturados pelo governo uribe, aliás, mostrava comentários azedos dos sujeitos da Farc contra o Marco Aurélio Garcia.
E porque o governo não é mais duro contra as Farc? já perguntei eu. Ouvi que o Brasil não tem mais o que fazer, além de vigiar as fronteiras para que não operem aqui, o que já é feito, e apoiar com informações o governo colombiano (o que é feito, inclusive com fotos de satélites).
E vem uma revista colombiana apontando "vínculos" do governo brasileiro com as FARC. Sobre isso, o Pedro Dória já falou o que se tinha de dizer. (2º clichê: Embora o Josias também dê a dimensão da coisa, AQUI.)



sitio do sergio leo

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