Embaralhando as pernas no FMI

Essa não saiu nos jornais daqui, mas li durante o vôo, de volta da Noruega: como se não bastassem os tropeços que o FMI andou sofrendo mundo afora, um tombo espetacular, neste ano, causa enxaqueca nos contabilistas do Fundo. Depois dos resultados risíveis de sua ação global, a instituição foi palco de uma cena de comédia pastelão.

O renomado economista Jaques Polak, faladíssimo e respeitadíssimo nas décadas de 50 a 70, estava em seu canto, curtindo sua vida de octogenário e referência bibliográfica numa salinha honorária na portentosa sede do FMI em Washington*, quando alguém teve a idéia de jerico de homenageá-lo. Fizeram uma conferência anual, e, desde o início da década, o Polak é aplaudido pelos pares, fazem loas, essas coisas.

Na última edição do evento, quem discursou foi o simpático Stanley Fischer, hoje presidente do Banco Central de Israel. E o Polak, feliz nos seus 94 anos, quando descia do palco onde agradeceu mais uma vez a homenagem, tropeçou, buscou o corrimão, não encontrou (não havia), estabacou-se no solo acarpetado mais desastradamente que a economia argentina depois de anos de mergulho no Consenso de Washington sob elogios rasgados do fundo. Mel Brooks não criaria cena mais grotesca.

O velhinho, crente fervoroso na tese de que não há almoço _ nem tombo _ grátis, meteu um processo contra o FMI, e pede US$ 6 milhões de indenização, porque, além de bater com a cabeça, seu bem mais precioso, ficou impossibilitado de cuidar bem da esposa, de 70 anos (meio papa-anjo, o Polak).

Dizem que tentaram um acordo de indenização antes, com a direção do fundo. Não foi possível. Vai ver os contabilistas do FMI usaram, e estão usando agora, no processo, o argumento de que eles não têm nada a ver com o acidente que estropiou o pobre macróbio.

Garantem, em Washington, que foi a mão invisível do mercado, esse sacana.


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* É um luxo só a sede do FMi em Washington, com seus restaurantes subsidiados para funcionários muito bem pagos. Como se aprende em Georgetown, austeridade fiscal é coisa para se fazer debaixo do Equador.



sitio do sergio leo


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