
A primeira coisa que todo mundo deve fazer ao chegar na Noruega é, claro, arranjar umas coroas. Se você, ao ler esta frase, já se imaginou (ou a mim) como uma versão latina do Sarkozi descolando uma Carla Bruni platinada, está lendo o blogue errado. Isso aqui é um Sítio de respeito. O que fiz, logo ao chegar, foi trocar uns dólares por algumas coroas norueguesas, como esta aqui ao lado. Não me pergunte para que serve o furo na moedinha, todas as coroas noruguesas vêm com esse buraquinho.
Montados em um fundo de alguns trilhões de coroas, os noruegueses têm uma das melhores vidas da Europa, graças ao petróleo. A mulher trabalhadora, por exemplo, pode escolher entre oito meses de licença-gravidez com salário integral, ou um ano, com 80% dos rendimentos. Eles têm educação e saúde gratuitos, e um excelente sistem de transporte público.
Um professor universitário com quem conversei hoje diz que o petróleo é um presente de Deus à Noruega. Eu acredito; alguma coisa o Todo Poderoso tinha de fazer para compensar a sacanagem de deixar os pobres noruegueses, no inverno, com apenas três horas de luz, e escuridão lunar no resto do dia.
São simpaticíssimos os habitantes do país, embora eu só possa falar dos que participam de encontros de trabalho, como os que o governo montou para mim (e mais outros três repórteres brasileiros), desde o dia da chegada. Desabei às seis da noite de segunda no hotel, e, às sete, estava jantando com um ex-embaixador da Noruega no Brasil. Os caras levam isso de agenda a sério.
No hotel, aliás, enquanto zapeava os canais, creio ter visto de relance um dos famosos filmes dinamarqueses que povoaram o imaginário de quem, como eu, nasceu no século passado, antes da Internet, da perversão erotizada da TV aberta e da Paris Hilton.
Na tela, um sujeito musculoso empurrava por trás uma senhora nórdica, que grunhia e fazia caretas pavorosas enquanto exibia o que me pareceu ser um erro médico, bolas de handebol implantadas onde deveriam estar os seios da moça. Após alguns segundos, a imagem foi substituída por uma mensagem incompreensível cheia de "O"s cortados e "A"s com bolinhas em cima, em que era visível a cifra de 195 coroas. Não tive tempo até agora para descobrir se a quantia era o valor que o hotel cobra para ver o que acontece com a moça e o troglodita que a empurra pelas costas ou se é uma taxa que devo pagar para não ser surpreendido nunca mais por aquela cena grotesca.
Na Noruega, os partidos criaram estatais para cuidar do petróleo, e um acadêmico conservador me explicou que isso se deve ao fato de que uma riqueza natural não é algo produzido pela indústria, mas um patrimônio do povo do país, que se esgota, e que é explorado com muito lucro pelas empresas privadas _ daí que o Estado tem mesmo de tirar a maior parte do que o setor privado ganha com a exploração desse recurso, para montar uma reserva destinada a assegurar o bem estar das gerações futuras.
Não é à toa que ninguém no Brasil explica direito esse troço, que faz parecer histeria macartista algumas acusações contra o Evo Morales e o Hugo Chávez. (Nem todas, há acusações que merecem ser feitas a nossos líderes andinos, que não se mostram até agora muito capazes de transformar as riquezas naturais do país em poupança efetiva para os netos da atual geração).
Esse mundo da social-democracia européia é interessante, a esquerda está preocupada com as florestas do mundo e o futuro do bacalhau, a direita teme que os noruegueses fiquem preguiçosos por ter tudo à mão. Parece um paraíso, visto assim, de trivela.
Só o dia de três horas e a senhora com elefantíase nas glândulas mamárias me fazem suspeitar que não estão me contando a história toda.
Já volto, não posso perder a chance de conhecer de perto o Jan Garbarek. Sensacional.

Parabéns pelas matérias sobre a Noruega (inclusive no jornal)!P.S.: tá vendo, não comento só para reclamar?
Tô indo a Lillehammer daqui a duas semanas. Alguma dica norueguesa, fora a de evitar a TV?
Jornalista adora exagerar, né? Que eu saiba, só a moeda de um crown é furada ( e é a maior furada mesmo, não vale nada kkkkk). O mais incrivel sobre o país paraíso é que eles reclamam muito. Uma vez estava com um grupo bem variado, vendo o noticiário na tv, mostrava piscinas e crianças. Eles começaram a reclamar, em noruegues, eu não entendendo nada. No final, me explicaram que era uma absurdo: o governo cortou a verba das aulas de natação nas escolas (todas públicas e quase todas com piscinas, aquecidas obviamente) e agora as crianças estavam tendo menos aulas de natação...o que ia gerar mais crianças sofrendo afogamentos. É claro que eu concordei com eles que era um absurdo. Do mesmo jeito que é impossível para a gente entender a sociedade deles é inimaginável para eles a nossa - imagina se eu ia tentar mostrar que aqui a gente tem escola sem carteira, sem mesa e, muitas vezes, sem professor!!!! Piscina, nem pensar, né não?
BÁ..... blog muito bom!Abraço
Obrigado Patrick, depois mando o cheque, pra você e pro Dorgivan.Marcelo, embora eu tenha estado em Oslo, Stavanger, Alesund e Fosnavanger, não me arriscaria a dar nenhuma dica fora da capital. Quando muito, recomendaria ir a Alesund comer bacalhau num restaurante chamado XL. Em Oslo, minha recomendação é não deixar, de maneira nenhuma, de visitar o Museu Nacional e o Munch Museum, sobre os quais devo escrever algo, em breve, neste Sítio.Se quiser recomendação sobre funcionário(a)s simpáticos no governo e empresas norueguesas posso te dar alguns nomes.Aiaiai, leitor adora criticar, né? (-; Eu vi, sim, uma outra moeda em coroas com um buraquinho no meio, se o caso é me cobrar ao pé da letra...Mas é uma sociedade bem diferente mesmo. Eu estava pensando o porquê de encontrar tantas mulheres em cargos públicos quando descobri que é lei: 40% dos cargos em sociedades anônimas e no governo têm de ser para mulheres. Acho ótimo. Mas parece que elas não ganham tanto quanto os homens, o que me deu umas ensação de tremenda superioridade, já que lá em casa o menor salário é o meu.
Caro Sergio, que a descoberta de novos campos de petróleo representa um acréscimo instantâneo da riqueza do país, e que o Estado é o candidato natural a tomar posse desses recursos, são afirmações que não vejo ninguém negar. Também me parece correto reservar esses recursos para projetos como a melhoria da educação, uma vez que nosso Estado tem uma vocação ao desperdício muito acima do razoável. Agora, para que uma empresa e para que estatal? Não vejo outra explicação senão a de montar mais um grupo politicamente orientado dentro do nosso caótico aparelho público. E, claro, mais desperdício: não seria justamente a participação privada relevante que garante à Petrobrás um estatuto diferente de uma empresa parasitária?
Sérgio,Longe de mim querer te pautar, mas lendo a matéria sobre a Statoil fiquei muito curiosa para saber mais detalhes sobre as condições de trabalho dos petroleiros na noruega. Pelo pouco que sei, são muito diferentes das condições no brasil.Outra coisa que ninguém fala, é na incrível dificuldade que as empresas fornecedoras de equipamentos e serviços tem de importar insumos para suas operações no brasil. A gente praticamente inviabiliza operações mais competitivas em funçao das dificuldades burocráticas.
Prometo esquecer esse golpe baixo na minha auto-estima se você escrever meu nome certo no cheque.
Dourivan, atribua isso ao jet lag, e às três horas de sono, no máximo, que os noruegueses nos deixaram ter nessa semana.!!!Perdão, mil perdões. Mas não tem nada a ver com sua auto-estima e sim com minha ainda não diagnosticada dislexia. Já escrevi uma coluna inteira só com citações do Régis Bonelli, quando, na verdade, eu havia entrevistado o Renato Baumann, da Cepal, grande amigo de longa data; e já chamei, em reportagem, de Thomas Zanotto (bom interlouctor que eu tinha na Fiesp) o Hermes Zanetti (que me falou de vinhos). Entre outras trocas do gênero. Caro Dourivan, esse Dorgivan, se serve de desculpa, foi um fotógrafo genial com quem trabalhei no início da carreira, pessoa queridíssima e talentosa, o que me faz atribuir a troca de nomes, nesse caso, a uma inconsciente demonstração de carinho.
Esquece o cheque. Conta como foi o show do Jan Garbarek.