Um dia esse mundo acaba

| 5 comentários


Lembra aquela história de que iam reconstituir, num gigantesco acelerador de partículas, as condições de criação do mundo, e que isso poderia criar um enorme buraco negro, devorando a todos, sem direito a habeas corpus? Pois é, fizeram o primeiro teste no bicho, nem vi nos jornais.


Ou, como noticiou o The Industry Standard, apresentado a mim pelo criativo Marcelo Soares, "o gigantesco acelerador de partículas foi testado neste fim de semana, e um buraco negro não destruiu a Terra... ainda".


Quando leio sobre física de partículas, lembro sempre da minha experiência como redator da Ciência Hoje, em que tive de copidescar o texto de um renomado cientista argentino assentado no Brasil. Os problemas não se limitavam aos vocabulares _ como explicar para ele por que a força da gravidade não era acintosa, como estava no texto, mas ostensiva. Num trecho particularmente confuso, ele rechaçou todas as minhas tentativas de tornar a explicação mais clara, até me confessar que queria manter a coisa ambígua mesmo, para não brigar com nenhuma das correntes de físicos que se digladiavam em torno do tema na época.


Essa coisa de reproduzir o Big Bang e causar um buraco negro está no mesmo universo, o das suposições que não são consenso e que geram uma brigaiada danada entre os físicos. Como em algumas discussões entre economistas, ninguém da patuléia nem toma partido porque não consegue entender exatamente em torno do quê estão discutindo.


Esse acelerador de partículas (hadrons, para tratar as bichinhas pelo nome) motivou um texto excelente do físico Mário Novello, dias atrás, e que só agora encontro na Internet. O Novello, em resumo, conta que essa história de Big Bang como única explicação para a origem do Universo foi enfiada em nossos corações e mentes pela força do imperialismo, e que há outra teoria possível para a criação do Universo, a de que não há como definir um só momento de criação: o Universo, eterno, expande-se e se contrai, infinitamente, sem Big Bang vindo do nada. Acha estranho? E, no entanto, quando lhe dizem que Coca-Cola cura azia você nem levanta a sobrancelha.


É assim mais ou menos como a influência do Delfim Netto no Palácio do Planalto: vai se expandindo até que chega ao limite, se contrai toda, para depois crescer de novo.


O engraçado é que cheguei ao texto do Novello pelas mãos do tio Google e por obra de um dedicado blogueiro que acredita ter sido criado e ser vigiado até hoje por um bondoso senhor de barbas brancas, que o fez à propria imagem e semelhança, a partir do barro, segundo a descrição do Velho Testamento. Caso exemplar de como a fé nos permite ver só aquilo em que queremos acreditar. AQUI.
Para quem ainda sonha com o apocalipse, há esperança. O troço será ligado à toda, mesmo, só em setembro, e são esperadas para outubro as primeiras colisões de partículas dentro do colosso. Nada que abale quem investiu as economias em títulos do tesouro com vencimento em 2017. A confiança é a última que explode.


Para quem entende inglês, uma visitinha ao monstro, em duas partes:



5 comentários

Nossa!!! Só essa idéia de que o mundo pode de repente acabar, graças a uma experiência científica, já me deixou mais animada. Afinal, o que são os pequenos problemas que estou enfrentando para terminar no prazo alguns trabalhos? Ou o desentendimento que tive com uma amiga? Pode ser que hoje a tarde tudo isso se acabe. Graças à ciência. To ligada na expectativa! Se der tempo, vou ler e ver todos os links do post...

Não queria te decepcionar, aiaiai, mas, pelo que diz a reportagem, burcos negros, se existirem, serão tão pequenos que entrarão em colapso sem incomodar nem o mosquito ao lado...

Caro Sergio, também tive o prazer de ler esse texto do físico Mario Novello, um bálsamo diante dessas reportagens cheias de "verdades definitivas" sobre as possíveis origens do universo. Por outro lado, tb achei muito curioso esse seu tortuoso caminho para chegar até o texto do Novello! Para terminar, e só para provocar, a cosmogonia hindu (ou, talvez mais apropriadamente, uma das cosmogonias indianas), ao que parece, fala que o universo sempre teria existido, apenas expandindo-se e contraindo-se ciclicamente, tal e qual propõe a teoria do universo estacionário...P.S. Sou agnóstico, só para constar!:-)

Caro sleo,Eu não sou alguém gabaritado para refutar o que diz um cientista renomado do porte do Prof. Mario Novello, mas ele, como todo ser humano, parece defender o que lhe apraz (o que, no caso em questão, se confunde com seu trabalho pessoal). A frase "Isso porque todas as quantidades físicas, como a densidade de energia e a temperatura, assumiriam ali, naquele ponto singular, o impossível - posto que inobservável - valor infinito" não me parece exata, pois pode ser que uma determinada quantidade vá ao infinito por haver uma divisão por zero, que é um número muito bem comportado (usado, por exemplo, junto com o um em computadores). Para ser mais claro, digamos que a temperatura T do universo varie inversamente com a distância D entre os objetos; assim T=constante/D, e se D=0, T vai ao infinito, sem problema algum, a não ser na definição de temperatura que passa a ser algo artificial, sem significado físico direto. Ou seja, o fato de haver uma singularidade numa teoria física qualquer é problemático, mas o problema está mais nas definições que vão dentro da teoria do que na teoria em si. Claro que às vezes é preciso jogar fora a teoria e pensar em alternativas, e a idéia de um universo com bouncing é isso mesmo, uma alternativa interessante, mas não imposta pelo imperialismo ianque - é que é muito mais simples pensar que o volume inicial do universo foi nulo, e a ciência funciona com algo chamado de navalha de Occam: usa-se um modelo simples até que os dados mostrem que seja necessário usar algo mais complicado. E, por ora, acho que o modelo mais simples é mesmo o do Big Bang puro e simples. Um abraço e mil desculpas pelo comentário longo.

O que está fazendo esse cara com uma navalha aqui na caixa de comentários? Socorro, deixem-me sair daqui!!!



sitio do sergio leo

últimos comentários


Add to Technorati Favorites