outubro 2008 Archives

O que é dado não é emprestado

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Agora que o Brasil ganhou de George Bush um checão de US$ 30 bilhões, o FMI aceitou a proposta brasileira de criar uma linha de pai para filho aos países emergentes, o Copom cansou de aumentar os juros e as empresas que especularam com reais já pararam de fazer estrago com os dólares, este Sítio pode se dedicar ao que realmente interessa. Claro, a Luana Piovani. Os operadores de mercado não falam de outra coisa.

A moça namorava um elemento, de alcunha Dado Dolabela, que, segundo diz O Globo hoje, ficou escabriado ao ver a nova peça da moça. Aparentemente, em uma das cenas, ela exibe dois de seus melhores atributos, coisa que o dado não gostou de ver socializada, e que deu a ele a idéia de aplicar uns tapas na bela.

A Delegacia da Mulher está aí para isso mesmo, e se fosse só por isso a classe artística não teria se abalado muito; a Piovani tem uma robusta compleição física; se revidasse, quem sabe até botaria o dado para rolar. Mas a camareira tentou defender a diva, e foi arremessada pelo brutalhão para um canto do camarim, como se ela fosse um dos roteiros que o moço não consegue decorar direito. Machucou os pulsos da trabalhadora, que é adorada pela classe artística, e a coisa está na delegacia. A Luana, pobre moça rica, desmarcou o casamento iminente e agora pode mostrar o que bem entender na peça sem risco de levar uma bolacha na cara.

Esse negócio de ficar dando tapinha com garoto mimado acaba sempre mal, é o que digo a minhas sobrinhas.

Ora, dirão vocês, essa história deveria estar na Capricho, não num Sítio sério e de família. Mas essa baixaria levanta questões importantes para a cultura nacional. Por que esse tipo de moça não prefere alguém mais maduro, mais carinhoso, como o Caetano Veloso, por exemplo? É o tipo de pergunta que vem à mente quando se lê uma história dessas. À mente do Caetano, claro.

Este Sítio, que não é dado a leviandades, só aborda o tema porque permite fazer justiça a um intelectual indevidamente condenado pelo oba-oba geral. Ficam aí os cadernos culturais crucificando o Pedro Cardoso porque, sem dar tapa em ninguém, ele reclamou civilizadamente contra o abuso comercial da nudez nos filmes brasileiros.

Ora, tudo o que o Cardoso queria é que, se houvesse nudez, que ela fosse inserida no contexto. E os cineastas querem nudez sem inserção, porque inserindo alguma coisa a classificação indicativa do Ministério da Justiça eleva a idade limite para 18 anos. É um mundo sem moral, esse, capitalista.
Censura: alguns leitores ou um sei lá, questionou a pobre Luana exibindo dois de seus atributos, nessa foto AQUI. É sobre ela que trata a maioria dos comentários já feitos a esse post. Com isso, o Blogger passou a botar uma advertência considerando meu blog de conteúdo questionável, coisa que não me agrada, porque pode trazer a este pobre Sítio hordas de leitores procurando o que não acharão. Daí que, como tenho preguiça de mudar de casa, tirei a foto da moça e botei uma mais inocente, para ver se me livro desse aviso irritante. Se quiserem me ajudar, cliquem na barrinha em cima da página, onde se diz "sinalizar blog" para mudar para "não sinalizar blog". Acho que, assim, volta tudo ao normal. E tirem o Dado Dolabela do meu pescoço, por favor.

2º clichê: como vêem, a generosa insistência do Tiagón venceu minha rpeguiça e me trouxe a essa nova _ e bem freqüentada _ vizinhança. Não reponho a foto com os seios da discórdia porque fiquei assustado com o tom agressivo com que a turma andou comentando em outros sites as desventuras da Piovani (se bem que, voltando à página do link ao lado, vi que trocaram os comentários ofensivos por afagos dos admiradores, coisa justa). A moça já apanhou bastante, coitadinha. Está fragilizada, não pode sair passeando aqui pelo Sítio sem agasalho, vai acabar se adoentando.

Cuidado com os ovos

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Essa, na agência Globo, me lembrou o José Serra, que, no Ministério da Saúde, quis proibir o requeijão Catupiry:

Anvisa fará consulta pública para mudar embalagem de ovos
Plantão Publicada em 29/10/2008 às 16h37mLuciana Casemiro
RIO - Gemada, ovo mole e até glacês e mousses feitos a partir de ovo cru vão receber uma atenção especial da Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Na próxima segunda-feira, dia 3 de novembro, a Agência deverá publicar uma Consulta Pública que propõe a modificação da rotulagem das embalagens de ovos. A proposta prevê que os rótulos de todos os ovos apresentem duas advertências: "O consumo deste alimento cru ou mal cozido pode causar danos à saúde" e "Mantenha os ovos preferencialmente refrigerados".
A partir da publicação no Diário Oficial, a Consulta Publica passará a valer por 60 dias. Nesse período, os cidadãos poderão oferecer críticas e sugestões ao texto. Se o documento for aprovado sem modificações, as novas regras poderão entrar em vigor em meados do próximo ano.
De acordo com a diretora da Anvisa, Maria Cecília Martins Brito, o objetivo da regulamentação é alertar as donas de casa e responsáveis por restaurantes sobre a possibilidade de contaminação causada pela bactéria salmonela. Essa bactéria é muito comum na casca ou no interior de ovos crus.


Fiquei comovido com a operosidade da Anvisa (imagino que já fiscalizaram todos os vendedores ambulantes de comida, acabaram com a bandalha nas cozinhas dos restaurantes do país e deram uma batida em todos os refeitórias das escolas primárias, daí estão com tempo para pensar nessas medidas urgentes sobre os ovos, esse alimento novo que inventaram aí). Como cidadão, sugiro ainda que obriguem todos os açougues a estamparem nas peças de carne e nos peixes vendidos o carimbo : "atenção, o consumo desse produto, cru ou podre, pode trazer problemas para a saúde", e exijam etiquetas a serem coladas em todos os refrigerantes: "cuidado, o consumo dessa bebida pode provocar obesidade, cárie e eructações".

Tenho outras idéias fundamentais para manter a saúde pública, se quiserem. Qualquer coisa, estamos aí, dona Anvisa. Depois passa lá em casa para comer uma maionese.

Arroz! Feijão! Todo mundo para o chão!

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O sujeito que, na década de 70, pichava “Celacanto provoca Maremoto”, intrigando os milicos e o resto do mundo teve neto. E, como a história se repete numa farsa, esse neto passou pela Bienal do Vazio, onde deixou essa mensagem intrigante, pura arte conceitual.

Fico imaginando as voltas que deu o movimento estudantil, para chegar a uma época em que se pede à ditadura para dar uma agachada. Mas essa molecada que confunde depredação com revolução mostra ser capaz de auto-crítica: pelo slogan, admitem que, para eles, a ditadura estava em nível mais alto que essa prepotência mascarada de revolta. Baixa logo aí, ô ditadura, que a turma não está conseguindo assistir o filme.

(mas não deixa de ser interessante ver o mundo artístico horrorizado com essa intervenção da realidade fora do programa. chato é ter de passar por revista e detetor de metais para ver a Bienal dessse ano, já tão desidratada...)

Aos cuidados de Ganesha

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Uma alarido histérico de buzinas estrila nos tímpanos, quase ao mesmo tempo em que me abraça o bafo quente da tarde. Cheguei em Nova Déli, e o inacreditável trânsito indiano dá as caras logo à saída do aeroporto.

Dias depois, eu encontrei, na revista Outlook, indiana, uma descrição do tráfego na Índia, que só quem experimentou pode apreciar, pela exatidão do texto. O artigo comentava que, nas ruas de Nova Déli, você deve manter a esquerda, a menos que venha um carro em sua direção, nessa mão (algo muito comum), que, nesse caso, o obrigará a ir para a direita (teoricamente a contra-mão), onde, se você encontrar também alguém vindo em rota de colisão, é recomendável tentar algum caminho pelo meio ou pelos lados. Se você não tem uma idéia de muito clara de como se comportar, saiba que o cara dirigindo em sua direção não está em situação muito melhor. A não ser pelo fato de que ele acredita em reencarnação.
É um país de gente simpática e sofisiticada, e também de hordas de mendigos (como o Nordeste brasileiro, by the way) que não adotam o tom ameaçador dos pedintes e flanelinhas do Rio de Janeiro, mas são insistentes ao ponto de te obrigar a ser generoso ou grosseiro. Suman Berry, um daqueles indianos de extrema inteligência que povoam a burocracia internacional, me contou, da última vez em que estive aqui, que a Índia faz, hoje, o que o Brasil fez nos anos 50: um processo de rápida industrialização, investimentos em infra-estrutura e incorporação de massas de emigrados aos centros urbanos. Daí o crescimento extraordinário, 9% nos últimos anos _ agora com a recessão global, deve ajustar-se para 7%, 7,5%.

Já falei aqui sobre o ridículo dos cronistas de crise, que insistem em ver todo mundo no "olho do furacão", como se esse olho fosse o lugar mais movimentado do mundo. Não é, pelo contrário, é a região de menos vento e pressão, no centro do tornado, de onde se vê tudo rodopiando à volta. Me senti no olho do furacão, visitando a Índia a convite do India Brand Equity Foudation, um instituto da confederação das indústrias deles. Lia nos jornais o derretimento das bolsas, análises preocupadas, histórias de como a Europa começava a tomar à frente dos EUA na tentativa de segurar a brutal rceessão que vem aí, e, nas conversas com autoridades, empresários, jornalistas, só ouvia comentários tranquilizadores, de como as reservas de US$ 300 bilhões dos indianos os botam a salvo da crise, de como por fazerem tudo errado na cartilha ortodoxa (controle de capital, bancos estatais, economia relativamente fechada) não sofreriam como os outros.

Fui a Mumbai, e fiz uma entrevista no banco ICICI, o maior do setor privado na Índia, e falei com uma senhora nervosa, tensa, que minimizou minhas perguntas sobre os boatos de que o banco dela estava em dificuldades, com corrida aos caixas e coisa e tal. O Marcelo Ninio, da Folha, comigo, dizia : o clima está estranho, o pessoal está esquisito. Depois de saírmos de lá fui ver na Internet que, naquele dia, a boataria comeu solta; as ações do banco caíram uns 20% naquela mesma manhã em que a senhora que entrevistamos, vice-presidente para assuntos com investidores e o público, devia estar amaldiçoando o dia em que tiopou botar na agenda uma entrevista com uns jornaloistas do terceiro mundo. Naquele dia, a cara da moça não saiu da tv, garantindo que o banco não quebraria. Não quebrou até hoje, mas teve muita gente esvaziando conta à toa: o banco aumentou o lucro mesmo com as operações que tinha com o Lehman Brothers _ e que desataram a boataria.


No caminho, um rapazinho triste vende livros. Exibe um para o Marcelo Ninio, que tira a foto. Paulo Coelho. Estou no olho do furacão, mas tenho uma sensação estranha, de beira do apocalipse.

SABADOS - 25-10-2008

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Literatura
O Zé Rezende acaba de publicar na rede seu livro de contos que já elogiei aqui, o A Mulher Gorial e Outros Demônios. E é com um dos contos que abrimos a revista, neste fim de semana:...

"Espero que estas linhas expliquem tudo, ou, pelo menos,a parte que importa do todo. Quando terminar deescrevê-las, olharei uma vez mais o olhar do meu pai congeladona tela da tevê. Depois, sob o chuveiro, áspera, esfregareicomo nunca a bucha entre minhas pernas, até extirparpara sempre o cheiro corrosivo que há meio século me devorafeito bicho. Límpida e nua, caminharei então pela casavazia até o quarto de casal, até a cama de casal onde meu paiagoniza, à espera de sua segunda morte, os olhos esgazeadosgirando sem rumo, o pijama que eu mesma engomei (jamaisdeleguei a outra pessoa a tarefa de engomar o pijama do meupai)."...
O resto do conto _ e do livro _ está na seção ficção, do sítio dele, AQUI.

Sudoku

Esses eu pesquei no Tiagón. Que os capturou DAQUI. Clique para alimentar os peixes.



huMOR
É com o inefectível Almirante Nélson. Devo dizer que não li mas apoio o Pedro Cardoso, que, enquanto estive na Índia, divulgou um manifesto contra a bandalheira gratuita no cinema nacional. Eu, que vi a Xuxa em Amor Estranho Amor numa das quartas-feiras de pornochanchada no saudoso cine Dom Macelo, em Campos dos Goytacazes, temos inocentes antes daquela imoralidade que foi a chegada dos Garotinho na política, devo dizer que ele tem toda a razão. O Almirante pegou o lance filosófico da coisa:

O filósofo Pedro Cardoso, mais conhecido por seu papel de Santo Agostinho na série A Grande Família Escolástica, divulgou semana passada um contundente manifesto contra a freqüência com que a Verdade vem sendo obrigada a mostrar-se nua e crua em filmes, novelas e minisséries filosóficas, que – segundo ele – não escondem o propósito puramente comercial. “Tudo virou uma grande pornoepistemologia”, afirma Cardoso.
Vale ler o resto, AQUI.

Política

O Tales Faria, que, na década de 90 escreveu um romance nunca publicado sobre a democracia direta via Internet, comenta a democracia da Internet real, experimentada no Rio do Gabeira e do Paes. Este Sítio, fiel ao lema que defende as coisas irrelevantes para seus leitores com tempo de sobra, se abstém de comentar a campanha, em que o apoio de César Maia ao Gabeira é o que se pode considerar abraço de afogado. Troço pesado, sô. Fala o Tales:

No Jornal do Brasil, promovemos quinta-feira um debate entre Gabeira e Paes. Foi transmitido ao vivo pelo site do JB Online e, junto, montamos um chat, onde os internautas podiam se manifestar acerca do debate e, ainda, votar em quem se saiu melhor. Terminado o evento, 62% dos internautas apontaram Paes como vitorioso e 38% ficaram com Gabeira. Qual não foi nossa surpresa, no fechamento da edição impressa, às 20h, quando vimos que o resultado tinha virado para exatamente o oposto: O candidato do PV com 62% dos votos e o peemedebista, 38%. Resolvemos então citar no jornal os resultados dos dois horários e fomos em frente. Mas a idéia era usar a enquete mais adiante. Pedi ao JB Online que a mantivesse no ar até a noite de sexta-feira para publicarmos no sábado ou no domingo o resultado definitivo. Feito isto, fui dormir. Novo espanto:
O espanto do Tales e do JB você lê AQUI.

Sociologia e meio ambiente

A Lucia Malla, minha bióloga favorita, e o André Seale, marido, fotógrafo e aventureiro, no bom sentido, andaram registrando os estertores de uma espécie em extinção, os orelhões. O relato, AQUI.

Economia

O Zé Paulo Kupfer fala da medida provisória do governo, para botar o governo dentro dos bancos e outras empresas. E nada contra a corrente geral, com elegância:
Tem mais. Tem, por exemplo, uma comparação malandra com o Proer – aquele programa que “salvou os bancos, mas não os banqueiros” e que “propiciou a atual solidez do sistema nacional”. Comparação, claro, desfavorável ao governo atual: “o Proer, tão atacado pelo PT, era mais transparente”.Além da falta de comprovação dessa suposta maior transparência, falta algo mais. Nenhum dos que hoje louvam o Proer parece ter idoi às fontes para conferir o que aconteceu com os banqueiros “condenados” pelo programa, que evitou, com dinheiro público, a quebra de bancos, nos primeiros tempos do Plano Real. Se tivessem ido lá, verificariam que, por conta de liquidações defeituosas e advogados cheios de truques processuais – como, aliás, é a praxe geral e ocorre também nos casos cabeludos de crimes do colarinho branco –, não há um único – repetindo, um único – ex-banqueiro alcançado pelo Proer que não tenha ficado mais milionário do que já era, à custa de dinheiro público obtido em ações judiciais contra o Banco Central.
A íntegra, AQUI.

Aos cuidados de Ganesha - conexões

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"Raios, com esse engarrafamento, vou acabar perdendo o vôo!"

O aeroporto de Dubai é como qualquer outro do mundo com palmeiras artificiais no saguão de vinte metros de pé dieito, um Porsche Carrera de sorteio para os consumidores das trocentas lojas espalhadas entre os portões de embarque e livros do Paulo Coelho na livraria ao lado do fast food. É mais um delírio árabe plantado no deserto que existe em cima das gigantescas reservas de petróleo locais. Os emires acabam de comprar uma sociedade com o Cirque de Soleil, que deve montar suas barracas por lá. Não no aeroporto, claro, embora eu não estranhe se acabarem montando um hangar anexo para os espetáculos.

O mundo da aviação tem seus mistérios, que só um insider da Infraero poderia desvendar. Por que as companhias aéreas dão talheres de metal aos passageiros da primeira classe, se os da econômica ganham garfos de plástico por causa do terrorismo? Por que o pessoal da segurança acha que um terrorista usaria uma bisnaga de líquido de 150 ml para seus propósitos malignos e não seria capaz de fazer o mesmo com uma de 100 ml? Se uma cadeira inclinada não pode continuar assim no pouso e na decolagem por motivos de segurança, como deixam as companhias apertarem tanto o espaço entre os assentos? E, mais importante, quem é o responsável pelas livrarias de aeroporto que decidiu não valer a pena vender que não sejam best sellers ou obras para descerebrados?
Como já disse, a Emirates dá talheres de metal para todos os passageiros, viva ela. Mas a lanchonete do aeroporto só tem talheres de plástico; comi alguns dentes de garfo com a pizza. Quem sabe t~em efeito terapêutico. Você pode também sentar no Café Costa (tem um Starbuck's, também, mais longe) e apreciar a passagem de tipos e culturas. Jovens nórdicas rechonchudinhas a moças de olhos com longas pestanas saindo da burka. Pessoas de cor indefinida. Pessoas de sexo indefinido. Só em cenas de restaurante da Jornada das Estrelas e no Pensilvania Hotel em Nova York já vi fauna tão variada.

O que mais chama atenção, além do kitsch reinante, é a quantidade de gente que, como estivesse numa parada de camelos, se abanca em volta dos coqueiros artificiais, ou embaixo dos bancos dos aeroportos estende um pano, tira os sapatos e se derrama num cochilo. São esperas de três, quatro, cinco horas pela próxima conexão. Não sou eu quem vai condenar esse pessoal.



Não mesmo.

Fora daqui, só o FMI



Falei da irrelevância do FMI? devia ter olhado pela janela a fila que vem se formando na porta do Fundo, depois que os caras criaram uma linha de emergência para ajudar países em dificuldades com seus US$ 207 bilhões limpinhos em caixa. Como lembra o analista Win Thin (não é sacanagemm o nome do homem é esse mesmo, e é chefão de análises na Brown Brothers & Co), é uma das únicas instituições com dinheiro disponível em caxia, e tem só US$ 19 bilhões emrpestados por aí, a maioria para a Turquia.


Já estão lá, de pires na mão, a Ucrânia, a Hungria e a Islândia, e o grupo não demora muito deve ter a companhia de Estônia, Latvia, Lituânia, Romênia e Bulgária. O Thin acha que são candidatos também nossos maigos latino-americanos Argentina, Bolívia, Equador e Venezuela, mas esses são acpazes de fazer pacto com o capeta antes de se dobrar ao FMI.


Quando o pessoal já está de cuíca e cavaquinho cantando a derrocda do capitalismo, ele vem, de cheque em punho e conta que a coisa não é bem assim. Filme catástrofe é desse jeito, sempre recorrendo ao velho truque do vilão ressuscitado.

Essa crise é pura sacanagem

Que me perdoem pelo título os leitores deste Sítio, ainda de família; especialmente meu pai, que sempre considerou a palavra acima algo impronunciável num lar decente. Mas essa crise econômica é indecência pura, e vem levantando ondas de luxúria no noticiário econômico, como nunca antes nesse país. Nesse mundo, digo.

Para começar, a Piroska do FMI. Piroska Nagi, ex-alta funcionária do departamento de África do Fundo, que andou recebendo missões de avaliação e injeção de fundos do atual diretor-gerente, Dominique Strauss-Kahn. Washington não é exatamente virgem em matéria de escândalo sexual com favorecimento a amantes; no prédio ao lado, o ex-presidente do Banco Mundial, Paul Wolfowitz perdeu o emprego por coisa parecida. O que não dá para admitir é ver o FMI, instituição já avacalhada pela atual crise financeira, ser desmoralizada desse jeito: não dá para levar a sério um lugar onde os protagonistas de um escãndalo amoroso se chamam Piroska e Dominique. Ainda por cima, o homem da história é quem se chama Dominique, e Piroska, no caso, é ela.




No setor privado, a fofoca é com a nova estrela do cataclisma dos mercados, o economista que previu tudo, o sombrio Nouriel Roubini.


Eu disse sombrio? Levado pelo Hermenauta ao blog Gawker, descubro que o homem é da pá virada. Tem um apartamento em Nova York decorado com uma obra contemporânea que exibe reproduções em gesso de um perseguido detalhe da anatomia feminina, e comanda festas do balacobaco. Grande Roubini. Ficou chateado com a história toda de contarem a farra dele, disse que era perseguição anti-semita, coisa e tal.



Numa coisa dou razão ao Roubini. Esse negócio de se referir a ele como "judeu-iraniano", como faz o Nick Denton, do Gawker, me parece o tipo de panaquice preconceituosa, que só passa por humor para quem gosta de uma discriminaçãozinha. Mais ou menos como a que invariavelmente faz acompanhar o nome de Luis Favre do epíteto "franco-argentino". Ora, quando deram o Nobel ao Paul Krugman não passou pela cabeça de ninguém chamá-lo de judeu-americano. Como o laureado Krugman não se encaixa no estereótipo tradicionalmente vinculado aos filhos de Israel, a origem dele, denunciada só no sobrenome, foi ignorada nas biografias que acompanharam o prêmio.

Mas o Denton marcou um pontaço jornalístico, de encantar o Roland Barthes. Aí embaixo, reprodução das reproduções dele. À esquerda, a foto do "Mr. Doom" escolhida pelo New York Times para ilustrar a matéria sobre o homem que, há anos, prevê o desastre iminente. E, à direita, um derivativo exuberante e mais verdadeiro do sujeito em seu loft de Manhattan.

Aos cuidados de Ganesha- I


A Emirates tem fama de ser uma excelente companhia aérea. Talvez porque, diferentemente da KLM, por exemplo, ainda considera a possibilidade de os passageiros terem pernas, e deixa um lugar para elas entre o assento da poltrona e o recosto em frente. Talvez porque é uma das únicas que não vê potenciais terroristas em todos passageiros da classe econômica, e permite a eles usar os mesmos talheres de metal que as outras companhias dão apenas aos insuspeitos passageiros da classe executiva e da primeira classe. Um ponto favorável a Emirates é a simpatia dos comissário de bordo; me fez lembrar o tempo da velha Varig, de um tempo em que as aeromoças não pareciam se preocupar somente com a resistência dos passageiros em colocar o assento da poltrona na posição vertical, antes da decolagem.

A sobremesa da Emirates segue o padrão execrável de toda companhia aérea, uma espécie de bolinho com base farinhenta meio úmida em baixo e algo coloidal com gosto artificial por cima.
Viajei sob os auspícios da India Brand Equity Foundation, à Nova Déli e Mumbai, conhecer a moderna Índia. A classe média, num país de 1,2 bilhão de habitantes, é do tamanho de dois Brasis. O país ainda é excessivamente burocrático, flagelado pela corrupção política e policial, pela desigualdade social, pela carência crônica de infra-estrutura, pelo analfabetismo (coisa difícil de combater num país de 16 línguas, 600 milhões de pessoas na área rural e muita pobreza). Esse país cresce a taxas de 9% há três anos, tem uma taxa de poupança superior a 30%, um setor de serviços vigoroso, cientistas de classe mundial e a crença generalizada de que será uma das maiores potências mundiais em meados do século.

No vôo da Emirantes, ao meu lado, um japonês, que descobri ser paulista, de volta à terrinha. A terrinha do Sol Nascente, para onde a família toda emigrou e não quer sair mais, embora a crise esteja deixando a turma preocupada. Edir é o nome dele. Me contou como os japoneses gostam tanto da cordialidade brasileira que os amigos continuaram frequentando a casa dele, mesmo enquanto ele passeava por São Paulo. Em Sampa, foi parado por uma blitz que lhe pediu carteira de motorista. Entregou a carteira de identidade japonesa, toda em ideogramas, e o guarda liberou, agradecido: "foi bom conhecer essa; agora ninguém mais me engana quando eu pedir carteira de motorista a outro japonês". O ingrato ainda criou problema para algum pobre japa, no futuro.
O vôo da Emirates parece ser o mais curto para a Índia, do Brasil. Quase 30 horas, cinco das quais se passam esperando conexão no inacreditável aeroporto de Dubai, um luxuoso monumento à ostentação com cara de oasis bérbere. Sobre isso falo no próximo post.


Perdão leitores, e obrigado aos que manitiveram a freqüencia deste abandonado Sítio. Estava na Índia, num ritmo de trabalho pior que o de um carregador de rinquinxá _ ainda que mais bem remunerado.

Meus planos de relatar a experiência de lá mesmo foram boicotados pelo cansaço e pelo fuso horário; acordava pelo fuso de lá e ia dormir pelo fuso daqui. Mas hoje, ainda, começo a contar história da terra de Shiva e Amartya Sen.
Isso é uma ameaça.

Enquanto isso, em Wall Street...

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Para quem lê em inglês, um comentário sobre por que não tem tanta gente saltando dos prédios com a crise como nos bons tempos do crash das bolsas em 29, AQUI.

Já que o mundo liberal anda se desmoralizando por si mesmo, vamos falar de comunista. E quem fala é um seriíssimo think tank liberal dos EUA, sobre o sistema educacional de Cuba. Os cubanos tem melhor desempenho latino-americano nos testes de matemática e ciência, e, nos de linguagem só perdem para os do Brasil (Brasi-i-i-l!). Os experts do InterAmerican Dialogue concluem que iso se dá por causa do comunismo.

Pais mais bem educados, menos crime, disciplina rígida nas escolas, acompanhamento estatal e severo sobre os professores, que ganham salários equivalentes aos de outras profissões. estabilidde no ministério da educação, nas escolas, nas relações professoes-alunos. Ah, e proibição absoluta de greves, coisa de traidor contra-revolucionário.

O chato é que não dá para copiar a receita, por aqui. Detalhes, em inglês, AQUI.

Fazia tempo que não falava de Bolívia

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Se você é daqueles que, como eu, fica incomodado quando ouve a balela de que o governo Lula abriu as pernas para Evo morales, na Bolívia, tem de ler a opinião irritada do ex-ministro Soliz Rada, condutor da nacionalização do gás por lá, até que os acertos com o governo brasileiro o catapultaram para a oposição. É um radical. Muito inteligente. E combativo. Recebo periodicamente as cartas dele para os correligionários, grande cara. Foi o Oliveira, aqui da redação quem me botou na mailing list dele.

O Soliz é um o pensador independente. Mete o pau na Constituição boliviana, de Evo Morales, pela maluquice das autonomias indígenas por lá. E mete o pau no que considera uma submissão de Evo aos interesses do Brasil e da Petrobras. Imagine se o Evo estivesse satisfazendo os críticos na Bolívia, como estaria aqui o prestígio da política externa brasileira.

Ah, o Soliz escreve AQUI.

Quando a imprensa vê o que quer ver

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Se você não cansou da novela equatoriana sobre a Odebrecht, vamos aos últimos capítulos:


Correa expulsou a Odebrecht do Equador, em plena campanha eleitoral, que ganhou. Agora rpecisa de uma saída honrosa para voltar atrás, já que até seu aliado Hugo Chávez fez rasgados elogios à Odebrecht e ao BNDES no encontro de ambos com Lula, em Manaus.


A saída é providencaida pelo governo brasileiro, que faz a empresa mandar uma carta reiterando a proposta de acordo que havia sido gorada, em parte pela exigência do Equador de pagamento de uma "indenização" pelas obras mal feitas da Odebrecht em uma usina.

A Odebrecht aceitava pagar, desde que depositasse em uma instituição estrangeira enquanto uam auditoria independente verificava se a indenização era mesmo devida. Essa idéia da auditoria está na carta enviada pela Odebrecht, agora apontada como razão para possível mudança de atitude de Correa.



É essa a história contada pelo estadão, jornal brasileiro:




Correa mantém expulsão da Odebrecht do Equador
Da Agência Estado

O presidente do Equador, Rafael Correa, não recuou um milímetro em sua decisão de expulsar a construtora Norberto Odebrecht de seu país ao conversar reservadamente, ontem, com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em entrevista à imprensa, ao final do encontro bilateral, Correa afirmou que os executivos da Odebrecht erraram ao imaginar que o Equador poderia regatear sua soberania ou até mesmo aceitar suas “pressões, violações e propinas”.
O tom nada diplomático de Correa desmontou a expectativa do Palácio do Planalto e do Itamaraty de que, passado o referendo sobre a nova Constituição do país, aprovada com ampla maioria no domingo, o governo equatoriano adotaria uma posição mais conciliadora sobre o impasse com a Odebrecht. Na última quinta-feira (dia 25), em Nova York, o próprio presidente Lula havia atribuído ao ambiente eleitoral a intransigência de Correa em relação à companhia brasileira.
"Em princípio, não vamos revogar nada. Mas veremos os novos elementos que estão na carta por meio da qual a Odebrecht aceitou todas as condições do governo equatoriano", afirmou Correa. "Em princípio, a Odebrecht está fora do país."





Já o jornal El Universo, na oposicionista cidade de Guayaquil, relatou a mesma história assim, com despacho da France Presse:


Correa mantiene en espera a Odebrecht

Octubre 01, 2008MANAOS, Brasil AFP-AP
Empresa entregó al Gobierno una carta en la que acepta condiciones de compensaciones.

El presidente de Ecuador, Rafael Correa, dijo ayer que en los próximos días resolverá si puede regresar a su país la constructora brasileña Odebrecht, expulsada hace una semana por no pagar compensaciones por fallas técnicas en la central hidroeléctrica San Francisco.

Correa, luego de entrevistarse con su colega brasileño Luiz Inácio Lula da Silva en la ciudad amazónica de Manaos, informó que Odebrecht aceptó las exigencias del Gobierno ecuatoriano para que siga operando en la nación andina.“La decisión se mantiene. Odebrecht está fuera del país”, declaró Correa a la prensa, al destacar que Lula trató el tema en Manaos con respeto.

“No tengo dudas de que Ecuador es un gran socio de Brasil; Rafael (Correa) es un gran amigo de Brasil, y Brasil es amigo de Ecuador, y si hubo un problema con una empresa, será solucionado y continuaremos siendo socios como siempre fuimos”, expresó Lula.

Pero el presidente venezolano Hugo Chávez elogió a Odebrecht, a la que calificó como “un ejemplo de transparencia y confianza absoluta por su actuación en Venezuela”.

O estadão ficou na aparência e apostou que não houve nem "um milímetro" de recuo de Correa. A France Presse _ e a imprensa equatoriana _ preferiam falar que a Odebrecht ficou na expectativa. Vários sinais indicavam que o equatoriano buscava uma saída, salvando a face.

Hoje, a notícia é que Correa e a Odebrecht se acertaram. Correa recuou um pouco e a Odebrecht também topou estender gfarantias para a parte dos equipamentos, que era de rsponsabilidade de sócias estrangeiras. Quem apostou no impasse vai ter de esperar a próxima crise. E não conte com Chávez para isso, pelo menos contra a Odebecht.

A capa que não tapa com peneira

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E segue internacionalmente a avacalhação com a precipitada e pouco crítica capa da Veja da semana passada. Não tinha visto ainda a The Economist dessa semana. (Agora sei de quem a Carta Capital copiou a mania de fazer uma imagem merreca da capa no site da Internet. Tive de ampliar na marra essa aí.)






O careca da capa é o secretário do Tesouro americano, que usará o dinheiro do contribuinte americano ( e o seu, brasileiro, que guarda as reservas internacionais do país em títulos do tesouro dos EUA) para tentar consertar a caca global que os gênios de Wall Street fizeram nas finanças do mundo.

A matéria da Economist, mostrando como se faz jornalismo a favor, mas sem perder a compostura, infelizmente em inglês, está AQUI.



sitio do sergio leo

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