Aos cuidados de Ganesha

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Uma alarido histérico de buzinas estrila nos tímpanos, quase ao mesmo tempo em que me abraça o bafo quente da tarde. Cheguei em Nova Déli, e o inacreditável trânsito indiano dá as caras logo à saída do aeroporto.

Dias depois, eu encontrei, na revista Outlook, indiana, uma descrição do tráfego na Índia, que só quem experimentou pode apreciar, pela exatidão do texto. O artigo comentava que, nas ruas de Nova Déli, você deve manter a esquerda, a menos que venha um carro em sua direção, nessa mão (algo muito comum), que, nesse caso, o obrigará a ir para a direita (teoricamente a contra-mão), onde, se você encontrar também alguém vindo em rota de colisão, é recomendável tentar algum caminho pelo meio ou pelos lados. Se você não tem uma idéia de muito clara de como se comportar, saiba que o cara dirigindo em sua direção não está em situação muito melhor. A não ser pelo fato de que ele acredita em reencarnação.
É um país de gente simpática e sofisiticada, e também de hordas de mendigos (como o Nordeste brasileiro, by the way) que não adotam o tom ameaçador dos pedintes e flanelinhas do Rio de Janeiro, mas são insistentes ao ponto de te obrigar a ser generoso ou grosseiro. Suman Berry, um daqueles indianos de extrema inteligência que povoam a burocracia internacional, me contou, da última vez em que estive aqui, que a Índia faz, hoje, o que o Brasil fez nos anos 50: um processo de rápida industrialização, investimentos em infra-estrutura e incorporação de massas de emigrados aos centros urbanos. Daí o crescimento extraordinário, 9% nos últimos anos _ agora com a recessão global, deve ajustar-se para 7%, 7,5%.

Já falei aqui sobre o ridículo dos cronistas de crise, que insistem em ver todo mundo no "olho do furacão", como se esse olho fosse o lugar mais movimentado do mundo. Não é, pelo contrário, é a região de menos vento e pressão, no centro do tornado, de onde se vê tudo rodopiando à volta. Me senti no olho do furacão, visitando a Índia a convite do India Brand Equity Foudation, um instituto da confederação das indústrias deles. Lia nos jornais o derretimento das bolsas, análises preocupadas, histórias de como a Europa começava a tomar à frente dos EUA na tentativa de segurar a brutal rceessão que vem aí, e, nas conversas com autoridades, empresários, jornalistas, só ouvia comentários tranquilizadores, de como as reservas de US$ 300 bilhões dos indianos os botam a salvo da crise, de como por fazerem tudo errado na cartilha ortodoxa (controle de capital, bancos estatais, economia relativamente fechada) não sofreriam como os outros.

Fui a Mumbai, e fiz uma entrevista no banco ICICI, o maior do setor privado na Índia, e falei com uma senhora nervosa, tensa, que minimizou minhas perguntas sobre os boatos de que o banco dela estava em dificuldades, com corrida aos caixas e coisa e tal. O Marcelo Ninio, da Folha, comigo, dizia : o clima está estranho, o pessoal está esquisito. Depois de saírmos de lá fui ver na Internet que, naquele dia, a boataria comeu solta; as ações do banco caíram uns 20% naquela mesma manhã em que a senhora que entrevistamos, vice-presidente para assuntos com investidores e o público, devia estar amaldiçoando o dia em que tiopou botar na agenda uma entrevista com uns jornaloistas do terceiro mundo. Naquele dia, a cara da moça não saiu da tv, garantindo que o banco não quebraria. Não quebrou até hoje, mas teve muita gente esvaziando conta à toa: o banco aumentou o lucro mesmo com as operações que tinha com o Lehman Brothers _ e que desataram a boataria.


No caminho, um rapazinho triste vende livros. Exibe um para o Marcelo Ninio, que tira a foto. Paulo Coelho. Estou no olho do furacão, mas tenho uma sensação estranha, de beira do apocalipse.

5 comentários

Adorei a postagem !Coloquei chamada e publiquei trechos no Animot.

Maravilha, meu caro.Sempre que leio sobre a Índia sinto uma identificação muito forte com relação às mudanças que o país está vivendo. Parece que vejo por lá situações semelhantes àquelas que meus pais e avós experimentaram. Abraços

Fantástico post. E não adianta, Deus é Paulo Coelho, ambos onipresentes.

Que bacana a sua viagem! Adorei a foto do menino vendendo o livro do Paulo Coelho. Incrivel como ele e' sucesso no mundo inteiro com aqueles livros sofriveis. E ai', voces nao compraram o livro para ajudar o garoto?

. Se você não tem uma idéia de muito clara de como se comportar, saiba que o cara dirigindo em sua direção não está em situação muito melhor. A não ser pelo fato de que ele acredita em reencarnação.Se o texto só falasse disso, já teria valido a pena lê-lo. Impossível conter o riso!Abs



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