Carros atropelam conversa entre Brasil e Argentina

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MInha coluna, nesta segunda, no Valor:

Era previsível. A elevação da cotação do dólar em relação ao real e a crise nas montadoras de automóveis, que chegou arreganhando os dentes na Argentina, ameaçam criar mais um ponto de atrito nas relações entre os dois maiores sócios do Mercosul.

Os argentinos querem rediscutir os termos do acordo de livre comércio automotivo com o Brasil e elegeram esse ponto como um dos principais do encontro a se realizar hoje(segunda-feira), em Buenos Aires, da Comissão Bilateral de Monitoramento do Comércio.

Mais uma vez, as diferenças nas política macroeconômicas dos vizinhos e a divisão das unidades de produção de multinacionais automotivas impõe obstáculos ao livre comércio entre os dois países. Em Buenos Aires, o secretário-executivo do Ministério do Desenvolvimento, Ivan Ramalho, e representantes de associações industriais, entre elas a Anfavea, das montadoras brasileiras, vão se reunir com os autoridades e empresários na Argentina, para contornar os problemas que podem surgir do flagrante desequilíbrio nas relações comerciais dos dois países.

Neste fim de semana, em Washington, no encontro dos governantes das principais economias mundiais, agrupadas no G-20, todos concordaram em evitar, por 12 meses, qualquer nova barreira contra o comércio internacional de mercadorias. Na reunião, a presidente da Argentina, Cristina Fernandes de Kirchner atrasou-se para a foto oficial e obrigou os presidentes voltar e repetir a pose. Ainda não está claro se Cristina Kirchner também insistirá para que o Brasil dê um passo atrás no compromisso recém-firmado no G-20.

Além de questões bilaterais, Brasil e Argentina discutiriam hoje a proposta argentina de elevar tarifas no Mercosul para têxteis (especialmente fios), produtos de couro, madeira e móveis (cadeiras de plástico também são um dos alvos principais). A idéia já era combatida por um sócio menor, o Uruguai, e a decisão de ontem do G-20 impõe aos dois países um novo constrangimento.

Na agenda do encontro bilateral estão também pleitos argentinos para acordos "voluntários" de restrição de exportações brasileiras de geladeiras, e a manifesta intenção de incluir aparelhos de televisão com telas de cristal líquido fabricados no Brasil na lista de televisores já sujeitos a sobretaxas por acusações de dumping.

O Brasil estava disposto a aceitar o aumento na tarifa externa comum para fios, móveis, madeira e produtos de couro, sob o argumento de que afetariam pequeno conjunto de produtos. Com a decisão do G-20, porém, o efeito simbólico das medidas será desmoralizar o papel do Brasil nessas articulações para evitar o agravamento da crise financeira. Os argentinos certamente lembrarão que, no ano passado, concordaram com um pedido do Brasil para aumentar a tarifa externa para têxteis e calçados, protegendo a indústria da competição asiática.

No caso dos automóveis, a dificuldade argentina está no fato de o setor exportar entre 50% e 60% da produção no país, grande parte aos brasileiros (no Brasil, esse índice beira os 20%). A queda nas vendas levou a fechamento de fábricas, férias compulsórias aos trabalhadores, ameaças de desemprego e manifestações na rua. Já às turras com o setor agrícola, o governo de Cristina Kirchner não pode se arriscar a contrariar fortemente a indústria.

Não está claro, porém, o que querem os argentinos, que se recusaram a aceitar o livre comércio de produtos automotivos programado para iniciar neste ano, e firmaram recentemente um acordo postergando o início da liberação para 2013. Hoje, o Brasil pode exportar à Argentina o equivalente a US$ 1,95 para cada US$ 1,00 importado em produtos automotivos. Já houve pressões, no passado, para reduzir esse índice. A Argentina concentra a produção de carros mais caros no Mercosul, enquanto os de menor preço são fabricados principalmente no Brasil.

"Com a retomada dos financiamentos nas montadoras no Brasil, a Argentina pode se beneficiar", ensaia Ivan Ramalho, que também enfrentará na Argentina - e no Uruguai, onde se reúne com autoridades amanhã - queixas da brusca desvalorização do real, que torna muito mais competitivos os produtos brasileiros na vizinhança. "O que direi é que é cedo para tirar conclusões, o processo de ajuste do câmbio não se estabilizou", comenta Ramalho. "Temos de aguardar um pouco mais para ver o que acontece".

Não é preciso descobrir se o dólar vai valer R$ 2,00 ou R$ 2,50 no próximo ano para saber que a desvalorização da moeda brasileira promete fazer um estrago na já deficitária balança comercial da Argentina com o Brasil. Com o dólar bem abaixo de R$ 2,00, em média, o Brasil já havia exportado ao mercado argentino, até o fim de outubro, US$ 4,1 bilhões a mais que importou do vizinho, valor superior ao déficit registrado em todo o ano de 2007. As vendas argentinas, embora tenham crescido mais de 37% nesse período, em relação ao mesmo período do ano passado, aumentaram em ritmo inferior ao das demais importações brasileiras (52%).

A tentação na Argentina para aumentar as barreiras é forte, e, para alguns empresários, apresentada como questão de sobrevivência. As negociações da comissão de monitoramento de comércio, coordenadas, pelo lado brasileiro, por Ivan Ramalho, foram bem-sucedidas em criar um clima de confiança e em evitar medidas unilaterais capazes de travar o comércio entre os dois sócios.

Os argentinos têm em mãos, no entanto, um poderoso instrumento de contenção de importações, e tudo indica que já começaram a lançar mão dele também contra produtos brasileiros. São as licenças não-automáticas de importação, pelas quais as alfândegas retém na fronteira as mercadorias importadas, para verificação. Os atrasos na liberação funcionam como sobretaxas informais capazes de deter as vendas ao mercado argentino.

O setor de confecções foi o primeiro a notar que as liberações de licenças estão mais lentas, retendo a entrada de mercadorias. Já reclamaram ao governo brasileiro. Disso não se falou no G-20, neste fim de semana.

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Cuidado com a nomenclatura. O acordo automotivo é de tudo, menos de livre comércio.

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