dezembro 2008 Archives

Gol contra

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Essa é só para registro: faria bem a Anac em acompanhar de perto das operações da Gol nesta arribação de fim de ano. No Natal, viajei para o Rio num voo (grafia moderna, vou aderindo aos poucos à nova gramática) que deveria sair às 19h20min. Só decolou às nove da noite. E, surpresa, ao meu lado viajou uma mulher que havia partido de Curitiba, e que pegou a conexão em Brasília, o mesmo voo meu, mas cujo bilhete previa partida de Brasília às 19h30.

Ou seja, a Gol já previa de véspera o atraso na decolagem em Brasília, só não previu que a demora seria maior que a planejada.

Minha conclusão: estão rearranjando as decolagens para aproveitar ao máximo as conexões e fluxos de passageiros. E nessa brincadeira, quando se atrapalham, tocam o caos nos aeroportos.

Cicero Rodrigues, fotógrafo

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O Joaquim, no Globo, conta que o Cícero Rodrigues está lançando livro, de fotos com autores de novelas. Cícero é um dos talentos da turma que se formou na ECO-UFRJ em 1983 (um outro é o Ricardo Linhares, ele próprio novelista da Globo, mas o Joaquim não publicou foto dele) e é meu ex-colega de república, em Botafogo. Todos os dias, bebia metade de um litro de leite tipo C (isso existia naquela época) e deixava a outra metade apodrecer na pia da cozinha, que não tinha geladeira.

No fogão, ao lado, camadas de matéria orgânica acumulavam, como sambaquis, indícios dos hábitos alimentares dos ocupantes que nos antecederam na república, onde se entrava abrindo a porta por uma portinhola, já que ninguém tinha a chave da porta. Bons tempos que não voltam mais. Felizmente.

Cícero, como se vê na foto acima, subiu bastante na vida. Incorrigível bom-caráter, é também fotógrafo excepcional. Mas isso vocês podem ver no portfólio dele, aqui.


***

Com o Cícero, amigo querido, retomo o blogue, antes que meus estimados leitores me abandonem. Amanhã, já de volta das férias e numa pausa do plantão de fim de ano do Valor, capino o mato que cresceu aqui neste Sítio e abro de novo as porteiras. Isso é uma ameaça. Até!

2º clichê: Encontro o Cícero na Flip, em Paraty, e ele reclama com razão, por ter lido esse post. Como é que, ao falar justo do cara mais organizado e cuidadoso da república onde moramos, eu cito o fogão do qual ele nem chegava perto, e exagero (só um pouco) na história do leite?
Mas Cícero, argumento eu, para que servem os amigos, se não for para criar folclores em torno do passado em comum? Amecei inventar histórias escabrosas se ele não fizer o livro de fotogrfias que deve a todos os apreciadores da arte. Basta dar uma olhada no site dele para ver se não é um absurdo não aplicar o talento na feitura de uma obra que possamos levar para estante.

Olho no Correa

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Enquanto leio na Folha mais uma bela análise do Newton Carlos, ouço na CBN um incompreensível embaralhamento dos fatos, mais inexplicável por vir de um dos mais experientes diplomatas brasileiros, Luis Felipe Lampreia.

Ele diz que encontros como o de cúpula da América do Sul e da América Latina e Caribe realizado nesta semana não servem para nada; e que o presidente da Venezuela, Hugo Chávez é uma grande ameaça ao Brasil, que lidera os outros presidentes, como Rafael Correa, do Equador. Uma bobagem.

Encontros de cúpula sempre têm um lado público e um de bastidores. servem para que presidentes ou autoridades se encontrem regularmente, troquem figurinhas e digam na cara coisa que nem sempre se diz por telefone ou e-mail. Alguins são inúteis. Outros utilíssimos.

Num momento de crise entre governos da América do Sul, como agora, um encontro como o desta semana é fundamental, aidna que não tenha resultados visíveis. A isso se chama diplomacia.

Aí entra o Correa. Ouço de diplomatas estrangeiros e altos funcionários da Cepal que o presidente do Equador é, hoje, o mais preparado entre os governantes de esquerda no continente, e uma influência crescente entre os que andam tentando combater o capitalismo a golpes de retórica e nacionalizações. Dizer que é um liderado do Chávez é desconhecer o voo próprio do equatoriano, e subestimá-lo.

Newton Carlos, América Latina

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Num ambiente em que jornalistas com poucas luzes se acreditam analistas internacionais, é refrescante ler e ouvir o veterano Newton Carlos, um dos raros que falam com dedicação e conhecimentod e causa. Lamentei saber que foi demitido da tv num desses passaralhos sem rumo que começaram a sobrevoar as redações. E comemorei hoje ao ver que a Folha publica artigos dele, desta vez falando sobre a recente cúpula sul-americana.

Pretendo escrever aqui em breve sobre o tema. Enquanto isso, copio o Newton, que ainda tem o bom gosto de ser o pai de uma das melhores correspondentes internacionais do país, a Janaína Figueiredo:


Cerco à OEA se delineia há tempos
NEWTON CARLOS
ESPECIAL PARA A FOLHA

A OEA (Organização dos Estados Americanos) naufraga num mar de alternativas regionais cujo acento maior é a exclusão dos EUA. É o caso da proposta de uma nova organização de países da América Latina e e do Caribe, que se junta a outras iniciativas do mesmo teor, como o Grupo do Rio e a Unasul.

Washington já fora avisada por instituições acadêmicas americanas de que a OEA corre o risco de perder vigência.

Seria a quebra do mais importante elo da cadeia de ações coletivas envolvendo América Latina e EUA, com predominância histórica dos americanos. A OEA chegou a ser chamada de ministério das colônias dos EUA.

O primeiro golpe foi dado com o Grupo do Rio, inspirado no fracassado Grupo de Contadora. Em 1984, países latino-americanos se reuniram na ilha panamenha de Contadora para encontrar soluções para a guerra na América Central, que se tornara sangrenta com aberta intervenção americana.

Uma OEA sem os EUA? Contadora chegou a concluir um texto de proposta de paz. Mas sofreu operação de bloqueio conduzido por Constantine Menge, na época o encarregado da América Latina no Conselho de Segurança Nacional dos EUA.

A revista "Current History" divulgou documentos que estabeleciam como "estratégia do governo Reagan" impedir negociações de paz na América Central.

O único que importava era derrubar os sandinistas na Nicarágua e com isso, na visão reaganiana, traçar uma "linha de contenção do comunismo em território americano". Deu no escândalo de contrabando de armas para o Irã e num quase impeachment de Reagan.

O Grupo do Rio procura resgatar o espírito de Contadora. Ou buscar soluções latino-americanas para problemas da América Latina. Cuba formalizou seu ingresso na cúpula na Bahia, o que marca mais distância da OEA.

Bush ainda tentou resgatar algo dessas relações empoeiradas em benefício próprio, com o seu "Pathways for Prosperity", um discurso sobre os caminhos para a prosperidade. Foi lançado em setembro ante representações de alto nível de apenas 11 países latino-americanos, nem todos presidentes. Em pouco tempo não se falava mais nisso.

É Bush, está na hora de vestir as galochas

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A política internacional é um eterno aprendizado. Já sabiamos que presidente em fim de mandato é chamado lame duck, pato manco, nos EUA. Mas os trocadilhos na imprensa americana me ensinaram que existe o verbo to duck, o mesmo que dar um mergulho, uma desviada para evitar um golpe. Como o lame duck George Bush fez quando um jornalista iraquiano, gênio do marketing político tentou plantar-lhe a sola na testa _ marcando um gol de calcanhar no terreno do discurso simbólico, já que mostrarv sola de sapato para alguém lá no Iraque é pior que botar a mãe no meio.

Nunca é demais mostrar a imagem do fim de ano, o evento mais patético de uma trágica administração nos EUA. Mas, além de anti-ético, contra todas as regras da profissão, o jornalista irquiano que tentou acertar o Bush com um sapato mostrou ser péssimo de arremesso. Até tinha pontaria, mas faltou força: não contava com os surpreendentes reflexos do pato manco ainda alojado na Casa Branca.

Claro, chovem na Internet contrafações do vídeo das sapatadas no Bush. O melhor que vi, até agora, é o do printmeister, que foi buscar no Matrix a explicação para o invejável jogo de corpo do derrotado mandatário americano.

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Baseados nos reflexos e no risinho logo após o primeiro sapato, já estão dizendo que Bush filho é um dos vigilantes do filme, aqueles encarregados de policiar o mundo virtual, e que teve de se revelar para não levar um bico nos cornos. No You Tube, há outro vídeo com tese diferente: os sapatos não chegaram ao destino porque nada pára na cabeça do Bush.

Alguns nerds, claro, lembraram também do Austin Power:

Ao lado do Bush matricial, há outros menos votados nesse vídeo aqui:


E o vídeo original, sem cortes, está aqui para quem ainda não viu:


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Sei, prometi um post sobre o jazz em niórque. A ameaça está de pé. E pretendo escrever um também sobre como o discurso político está presente no´ambiente artístico americano _ enquanto aqui impera a arte pretensamente alheia à política. Conto em breve uma exposição espetacular em Chicago, que nada tem a ver com o Obama ou a corrupa no Estado. Ou tem.
A democracia americana é algo espetacular, com trocadilho e sem ele. Mas já falo disso, em breve.

Nuiórk, nuiórk

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No quarto do hotel, um cartãozinho simpático recomenda que não mandemos as toalhas usadas à lavanderia, para evitar a poluição que contamina os mananciais de água no paneta ( e economizar uma grana de lavagens para a multinacional dona da cadeia hoteleira). Na déli do outro lado da calçada, onde tomamos café da manhã, a quantidade de embalagens plásticas e guardanapos de papel que acompanham cada refeição, nossa e dos outros, formaria um monumento progressivo à sociedade do desperdício. Estamos em Nova York, um dos centros imaginários do planeta.

Claro que planejei a viagem quando o dólar estava a R$ 1,60, e o Henrique Meireles era saudado como um sábio da administração macroeconômica pátria. De lá para cá, o governo age como um neurótico bipolar e mantém os juros mais altos do globo para evitar a inflação enquanto reduz impostos para estimular o consumo. E o rebolado esquizofrênico das cotações das moedas estrangeiras tornam impossível qualquer planejamento decente em qualquer empresa que dependa do comércio externo, para seu fornecimento ou como consumidor. Praticamente todas. Um atestado da incompetência eqüestre do Banco Central do Brasil. Ainda hão de pagar. Como eu, para quem já chegou a fatura do cartão de crédito, dólar a R$2,50..

Como anuncia a Miram Leitão e o Merval, que chegaram depois, o frio, no primeiro mundo, é a versão literal do desquecimento econômico. De gangrenar ponta de dedo. Mas as ruas e lojas estão cheias. Na liqüidação de thanksgiving, quando estivemos na cidade, as lojas em Manhattan estavam lotadas.

Esqueci qual o filósofo que falou sobre a notável capacidade do capitalismo de fomentar o consumo criando a onipresente impressão de escassez em meio à abundância. Compre agora, ou perderá a oportunidade de sua vida. É assim na sexta-feira pós- Dia de Ação de Graças, quando, já de madrugada, arrotando peru, milhões de americanos fazem filas histéricas nas portas das lojas para a liqüidação tradicional desse dia.

Nessa sexta, num Wall Mart em Long Island, a turba em fúria consumista pisoteou e matou um funcionário que guardava as portas. Às cinco e meia da matina. Uma grávida foi parar no hospital e entrevistados se mostraram escandalizados. Com o fato de ela ter ido grávida a um evento tão perigoso. Compras. Entendi o completo significado da expressão capitalismo selvagem. A coisa começa na velhinha na fila do supermercado.

Reiniciamos nossas transmissões. Ou quase.

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Cheguei ao país, mas ainda de férias. Todos os jornais anunciam às redações cortes de custos. A crise é braba. Desabafo com Oliveira, o canalha da redação, que encontro no Shopping Brasília, na hora do almoço, quando ele costuma paquerar as vendedoras da loja de lingerie:

_ Não sei se deveria ter saído de férias logo agora...
_ Mas por que? _ me pergunta o canalha, com ar enfastiado.
_ Com tudo isso, problemas com Equador e Paraguai, impasses no Mercosul, a recessão batendo às portas, a OMC num beco sem saída...
_ E qual é a novidade? _ me pergunta o Oliveira, me dando um tapinha nas costas
_ Fica tranqüilo vai estar tudo aí te esperando, quando você voltar, depois do Reveillon.

O canalha tem razão. Mas, por e-mail levo uma bronca de um poderoso editor meu conhecido; diz que não posso deixar o blogue parado como estava, ele quer saber do Oliveira,não de mim. Enquanto decido o que contar a vocês primeiro, compartilho minha estréia como cineasta no You Tube, com um curta a partir de uma visão em profundidade do blogueiro, todo produzido em Paint e editado no Windows Video Maker após orientação intelectual do Rafa, filho do Ruy Nogueira, meu cumpadre. Ele queria me ensinar a botar som no troço, mas minhas férias não são tão longas assim.



sitio do sergio leo

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