Pisando enojado na faixa de Gaza

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É um terreno minado, causa mais danos colaterais que as diabólicas balas de fósforo do exército israelense, mas, nesses tempos modernos, um blogueiro, especialmente um dedicado a assuntos internacionais, não tem como ficar à parte nessa discussão sobre o tema.

Ando pensando em umas mudanças no blogue, por isso tenho tido dificuldade em postar aqui, perdão leitores. No Valor, dei minha parca contribuição para o entendimento do conflito. Busquei o Itamaraty e o Planalto para informar aos leitores como o governo brasileiro está tratando do caso, e fizeram algum sucesso, pelo visto, a declaração feita a mim pelo Marco Aurélio Garcia, de que Israel pratica "terrorismo de Estado" com essa invasão à Faixa de Gaza.

Ou, como reusmiu O Globo, com base na minha matéria de véspera:

A ofensiva de Israel contra o Hamas na Faixa de Gaza, que já dura 11 dias, é "terrorismo de Estado" e se segue a um histórico de descumprimento de resoluções da ONU contra o país no que se refere à questão palestina, afirmou em entrevista ao "Valor" o assessor especial da Presidência da República, Marco Aurélio Garcia, elevando o tom da reação brasileira ao ataque de Israel ao grupo radical islâmico. Garcia diz que a crítica ao governo israelense não deve ser vista como oposição a Israel, país que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva quer visitar este ano.

- Israel é intocável, mas o governo de Israel não pode permitir que isso seja uma justificativa para qualquer tipo de ação - afirmou Garcia, que acrescentou não querer favorecer nenhum dos lados no conflito, mas buscar uma alternativa aceitável para a paz na região, destacando que o governo brasileiro tem sido enfático em condenar as ações terroristas contra o Estado de Israel e o anti-sionismo.

Mais moderado, o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, criticou a perda de vidas humanas e o uso " desproporcional " de força na ofensiva israelense contra os palestinos. Em conversa telefônica na segunda-feira com a ministra de Relações Exteriores israelense, Tzipi Livni, Amorim defendeu a um cessar-fogo imediato e sugeriu o envio de uma missão observadora

Meu querido amigo Idelber Avelar, sabedor da radicalidade com que trata o assunto e seu ódio contra a política torta do governo israelense, nem abre comentários para seus posts sobre o tema, em que sobram mísseis para a categoria do que ele chama de "jornalistazinhos". Pedro Dória, um jornalistazão que honestamente abre aos leitores sua ligações afetivas com Israel, tenta, a partir daí, construir um relato sóbrio e, na medida do possível, imparcial, sobre o tema.

Nessa discussão, é complicada a situação de quem opina, como já disse algum blogue por aí: ou você é a favor de terroristas islâmicos e anti-sionista ou é um filossionista cego ao massacre de inocentes palestinos. Eu, que me refugiei neste Sítio para não tratar tão a sério das coisas sérias que me dão dor de cabeça no jornal, cheguei a pensar em dar ao Oliveira, o canalha da redação, a tarefa de comentar o caso. Mas desisti quando conversei com o crápula sobre o assunto:

O Oliveira, que, às vezes, se acredita um jornalista da década de 50, vizinho de mesa do Cony, com Arnaldo Bloch no colo e colega de copo do Samuel Weiner, me sussurrou: "cherchez la femme! Cherchez la femme!"

"Que femme Oliveira? Procurar que mulher, ô infeliz?"

"Ora, como em toda história, sempre há uma dona por trás de tudo", me respondeu o velhaco. "E, nesse caso, é a água".

"Que águia?" , perguntei

"Água, ó incréu", respondeu, bíblico,o cínico colega de redação. "Lá naquele fim de mundo, água é mais preciosa que petróleo, e Israel conseguiu botar a mão nas únicas fontes de água, não vai abrir mão daquilo nunca. Se ussasse os mísses para cavar poços o Hamas teria mais sucesso".

Ia repreender o Oliveira, porque o assunto é sério para ser tratado com deboche, mas ele me interrompeu, com uma ensebada cópia xerox: "Olha isso, AQUI".

O Oliveira quase me convencia a abrir o Sítio para ele falar sobre esse tema da femme, digo da água, mas continuou o discurso:

"E tem o maior culpado de tudo, Deus. Brigando por água e terra, um lado se acha o povo escolhido; o outro imagina que está numa guerra santa", comentou o Oliveira. "Você viu o líder do hamas que assassinaram lá em Gaza? Tinha quatro mulheres, é irracional!! Só acreditando em Deus quatro donas aceitam uma coisa dessas. Se Deus existisse, você não acha que nós também teríamos cada um direito a quatro mulheres no Brasil?"

Era demais. Felizmente, após repentes de lucidez, o Oliveira logo revela porque nunca o deixaram assumir a chefia da redação.

Longe da região do conflito, sem acesso aos relatos obrigatoriamente parciais sobre o que está acontecendo, como jornalistazinho que sou, achei mais sensato reproduzir aqui a opinião do Valor, expressa em editorial que subscrevo, integralmente:


Pouco mais de dois anos após a desastrada aventura militar no Líbano, as tropas de Israel escrevem mais um capítulo sangrento na história do Oriente Médio. A invasão da Faixa de Gaza, antecedida por pesados bombardeios em uma das regiões mais densamente povoadas do mundo, trará inevitavelmente dor, revolta e uma grande perda de vidas. Em sua ofensiva, Israel conta com o apoio explícito do governo Bush, da complacência garantida das ditaduras dinásticas árabes e da estupidez terminal do fanatismo islâmico.

Não há dúvidas de que Israel foi atacado por militantes do Hamas, assim como é certo que o severo bloqueio econômico imposto pelos israelenses à Faixa de Gaza, em meados de 2007, fatalmente traria reações radicais de descontentamento. Israel tratou uma região miserável com menos que pão e água e a isolou do mundo em retaliação a um governo livremente eleito. A tentativa de asfixiar o Hamas foi seguida pela União Européia, pelos EUA e, em alguma medida, pela Autoridade Nacional Palestina, que perdeu o controle da região. Cercado, o Hamas não procurou ampliar seu espaço pela negociação, mas pela força das armas. Toscas diante das modernas armas israelenses, elas podem causar muitos estragos quando disparadas aleatoriamente sobre a população civil, seu alvo principal. Erro de cálculo ou não, o Hamas atraiu para a população palestina mais uma vez o triste cortejo de fogo, sangue e destruição aos territórios ocupados por Israel. O Hamas nada ganhou com suas provocações, sairá militarmente machucado dessa empreitada irresponsável e pode perder o comando administrativo de Gaza, no final.

Outros ingredientes se uniram para trazer aos lares palestinos a tempestade perfeita. Há eleições em Israel, época segura para demonstrações grosseiras de belicosidade e salvacionismo nacional. A eleição de fevereiro foi particularmente propícia à disputa sobre qual partido defende melhor o país de seus inimigos. O governo de Ehud Olmert, do Kadima, foi desmoralizado por escândalos de corrupção e pela inépcia militar da aventura libanesa. Para resgatar suas credenciais de segurança nacional, o trabalhista Ehud Barak, candidato e atual ministro da Defesa, esmerou-se na preparação do brutal e sanguinário ataque a Gaza. Ele disputa com a chanceler Tzipi Livni, do Kadima, a chance de impedir nas urnas a volta ao poder do Likud, cujo candidato é Binyamin Netanyahu. Todos os disputantes pregam a solução armada contra o Hamas e não é à-toa que o apoio à escalada militar conte desta vez com o apoio esmagador da população israelense.

Ironicamente, o Kadima volta à Gaza armado até os dentes, quando foi a saída unilateral e sem condições de lá, patrocinada pelo falcão Ariel Sharon, que provocou a ruptura no sistema partidário do país, criou novas chances para a paz e o novo partido. O Kadima fez um governo medíocre e voltou a gravitar em torno do velho e fragmentado sistema político israelense. Para ganhar as eleições, precisa fazer uma política semelhante às mais radicais do Likud e também obter uma vitória esmagadora - altamente destrutiva - em sua incursão à Gaza, ainda que para isso desfigure os poucos traços distintivos do partido. Esse é um dos motivos pelos quais as tentativas diplomáticas tendem ao fracasso. As disputas internas em Israel contam bem mais.

Israel não resolverá nenhum de seus problemas pela via militar, como a história está cansada de mostrar. A estratégia do terror e do uso indiscriminado da força, que se tornou o modus operandi de Israel, aumenta a destruição, o número de mortes e, também, a indignação dos sobreviventes. Israel parece ter apenas estratégias de ataque, e nenhuma de defesa, enquanto que sua diplomacia produz ultimatos em série. O Hamas será punido, mas não destruído, atentados e bombas continuarão infernizando a vida dos israelenses enquanto não houver um acordo de paz entre todos os envolvidos. O trágico destino da região é que todas as partes sabem disso há muito tempo e caminhem cegamente para o confronto. A saída é um cessar-fogo imediato, com uma força internacional de paz nas regiões de fronteira para garantir a trégua e a supervisão de observadores internacionais. Longe de ser uma solução duradoura, ela pode pelo menos interromper o banho de sangue em Gaza.

A "saída", no caso, seria só um começo. De uma difícil negociação para o futuro.

"E não esqueça da água", me cutuca o Oliveira.

2 comentários

Comentário perfeito, Léo! A maioria dos analistas -- a depender do lado em que militam -- fica estagnada aqui:

Não há dúvidas de que Israel foi atacado por militantes do Hamas, assim como é certo que o severo bloqueio econômico imposto pelos israelenses à Faixa de Gaza, em meados de 2007, fatalmente traria reações radicais de descontentamento.

Tentando construir a legitimidade quer da invasão israelense, quer dos ataques do Hamas. Você observou e seguiu em frente, pois, de fato, a questão central é o drama da população civil palestina. A impressão que se tem é que eles, os civis, como sempre estão entre a indiferença étnica israelense e a indiferença estratégico-militar do Hamas. Encarcerados no meio do fogo cruzado. Claro, o estrago que Israel produz é muito maior. Salvo engano, a IDF matou mais soldados israelenses, em fogo amigo, do que o próprio Hamas. E a propósito, a expressão "terrorismo de Estado" é bem adequada!

PS.: A tag html "i" (ou "em") não está fechada :)

Porra!!!! Não é que o oliveira já tava certo desde ontem, eu que não tinha visto. O cara é demais. Veja no blog no idelber os mapas que ilustram um dos artigos que ele postou hoje...o avanço de israel sobre as terras ocupadas pelos palestinos (desde 48) vai sempre em direção à água.

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