Blogues e jornalismo, um não pode ser outro. Ou não.

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Um grupo andou, na semana passada, na Campus Party, evento de interneteiros, nerds e blogueirosm, onde fez um "blogumentário" que, me diz o Estadão, "desmistificou" os blogues e mostrou que não mudaram tanto assim a comunicação na Internet.

Como diria o Marco Maciel, data vênia, datíssima vênia. Não mudou uma pinóia.

A conclusão apocalíptica sobre a suposta banalidade dos blogues desconhece, para começar, a força dos blogs comor ede de relacionamentos. Esqueça os blogues comerciais strito sensu, aqueles patrocinados por jornais com o pessoal de sua folha de pagamentos. Blogues são uma vitrine de personalidades, com uma interface pessoal jamais vista no mundo da comunicação em massa.

No jornalismo convencional, ou na midia de entreteniemnto, o leitor/espectador podia sempre mandar uma carta, telefonar, comunciar-se com o emissor das mensagens. mas não com a velocidade e facilidade que os blogues permitem hoje.

E os blogues pessoais, os dignos do nome, não têm uma equipe de burocratas por trás da informação ou da opinião. É com o próprio autor que o leitor se comunica. Isso provoca uma reação mais rápida às demandas dos leitores, e uma sensação de comunidade mais forte (veja o bem-sucediod exemplo do Pedro Dória, do idelber, do Inagaki,

O poder dos blogues como ferramenta de mobilização de massa ou fornmação de opínião, ou disseminador de informações já é evdiente nos EUA, onde Obama usou esse fator como ferramenta da vitória; ainda é incipiente no Brasil, daí talvez a conclusão equivocada do Blogumentário.

Mas o jornalismo tem obrigações _ por mais que os críticos não acreditem _ que o diferenciam do modo de ser dos blogues. Blogues são pessoais, escancaradamente opinativos, interativos, e acima de tudo, de nicho. Dirigem-se a pessoas que pensam como o dono ou dona do blogue.

Quando um blogueiro de sucesso como o Idelber, por exemplo, resolve falar do massacre dos palestinos por Israel, não se dá ao trabalho de reproduzir os argumentos do governo israelense. Ele tem uma opinião, bem fundamentada, forte, e enfoca os argumentos, fatos, ações que justificam e ilustram essa opinião. Chega a fechar a caixa de comentários, e não vacila em tratar duramente frequentadores do blogue que lhe testam a paciência.

O blogue do idelber, um bom exemplo, é informativo, traz dados novos e divulga opiniões nem sempre representados devidamente na chamada grande imprensa. Isso é uma das características e novidades da blogosfera que trazem algo de novo para a comunicação de massa. A possibilidade do indivíduo de propagar como nunca sua visão do mundo, e encontrar semelhantes, ou aderentes. E, eventualmente, discutir em tempo real essa visão de mundo, acompanhado por milhares de pessoas.

O jornalismo, por seu lado, tem uma pretensão amarrada nas circunstãncias da produção industrial, empresarial, que se obriga a fazer um equillíbrio entre a necessidade de financiamento (daí seu impossível desligamento do status quo) e a visceral dependência de manter um público numeroso, que lhe dê atratividade comercial e relevância social.

Como a democracia representativa, a imprensa é repelta de promessas de igualitarismo que não consegue cumprir, princípios de imparcialidade aos quais não consegue se ater completamente, contradições que conspiram contra suas promessas e compromisso com a ética.

Mas as características da imprensa a obrigam a manter uma variedade e amplitude de cobertura às quais os blogues não se sentem obrigados. Por isso dificlmente você verá no blog do Luíz favre um post com elogios à administração Kassab em São Paulo _ e nem por isso a qualidade do blogue estará em questão. Mas você poderá ver no conservador Estadão artigos de analistas com opinião discordante da média do jornal, ou notícias sobre movimentos sociais a ponto de serem reproduzidas em sítios de ONGs simpáticos a causas habitualmente criticadas no jornal.

Por isso, frequentemente as notícias dos grandes jornais, emissoras de rádio e tv são citados para endossar opiniões nos mesmos blogues que criticam a grande imprensa, e chegam a adotar o termo "partido da imprensa golpista", ridículo apodo criado por um ex-estrela da TV Globo dos tempos do regime militar, o competente Paulo Henrique Amorim.

Os jornais são, como dizia Althusser, aparelhos ideológicos de Estado, e estão imersos no jogo de forças da sociedade. Sujeitos aos humores do poder econômico, mas subordinados aos interesses de seus leitores. Por isso é ridículo falar de midia golpista, generalizar as acusações, condenar a imprensa in totum. Cabe, sim, denunciar os momentos em que os jornais e emissoras rompem o compromisso com a ética, com a propalda imparcialidade jornalística.

E aí entram os blogues, que, diferentemente do jornalismo tradicional, são mecanismos de comunicação de massa dos cidadãos, de aglutinação de interesses comuns, de manifestação de grupos sociais.

Blogues e imprensa não são antípodas, nem sequer adversãrios. São complementares, e cabe aos blogueiros perceber essa responsabilidade. Que não é a de indispor seus leitores contra uma das armas da democracia, que é a midia, mas a de vigiá-la, e apontar seus erros, para evitar que sirvam apenas de instrumento a interesses dos poderosos.

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O post ficou grande demais. Num próximo, falarei sobre o uso dos blogues para fazer dinheiro. A tal de monetização, que pode gerar bons trocadilhos engraçados, mas não é piada.


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SEGUNDO CLICHÊ : O idelber e o Pedro Dória fizeram posts relacionados com esse tema _ e com esse post. Vale conferir, para quem não chegou aqui exatamente por causa dos posts deles...AQUI e AQUI.

Que cabeça a minha. O Marco, nos comentários aí abaixo foi quem me lembrou.

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Mais uma vez o Estadão manipula a informação que vende aos seus clientes. Talvez, por isso, nos EUA o pessoal prefira buscar informação na Internet. Aqui no Brasil será questão de pouco tempo... Poderá ser a redenção dos jornalistas honestos.

Acho que o marco tocou na dúvida que eu tive ao ler seu texto: é o blogumentário que desmistifica os blogues, ou o estadão que quer passar essa idéia?

Pelo que li, e acredito, aiaiai, o Estadão cita logo no primeiro parágrafo frase do autor do blogumentário, que não é negada no sítio deles, dizendo que "os blogues não revolucionaram nada". Então, Marco, não foi o estadão quem manipulou aí.

Peguei exemplos do Estadão mais adiante exatamente para mostrar que o compromisso jornalístico da publicação faz com que haja boas matérias informativas que até contrariam o que parece ser sua linha política.

Considero o Estadão um bom jornal, com excelentes matérias, Marco, embora, como todos (e como os blogues), às vezes erre na mão, e na notícia. Trabalhei lá por dois anos, e tive liberdade para coordenar a editoria de Nacional, fizemos boas matérias sobre o movimento dos sem-terra, sobre a seca, sobre as queimadas na Amazônia (foram manchete, em plena crise financeira, em 97).

A questão é: os bons jornais _ como o Estadão _ podem ser conservadores, mas a pressão dos leitores e dos próprios jornalistas impoem limites ao que muitos chamam, como o Marco, manipulação da notícia.

E quanto mais o leitor exigir de seu jornal esse compromisso com os fatos, menos espaço para adulteração dos fatos haverá. Os jornais precisam disso, é uma questão de sobreviv~encia para eles próprios.

A informação que se busca na Internet, caro marcos, acaba sendo produzida em grande parte pelas mesmas empresas jornalísticas do jornal impresso e da tv.

Olha, o interessante dos blogs é que em torno deles crescem espontaneamente grupos e sistemas de méritos independentes. Dentro desses grupos há diálogo, discussão, aperfeiçoamento de idéias -- mas nem sempre há intersecção entre os grupos. Há os grupos de tecnologia, jornalismo, literatura, etc. E mesmo os de temas bastante variados. Por exemplo, acho que você, Hermenauta, Idelber entre outros, formam um grupo bem ilustrativo que compartilha aspectos em comum, dialoga, mas se opõe radicalmente a outros.

Apesar de todo mérito, vocês não se arriscam a esses grandes saltos típicos do jornalismo industrial -- como "desmistificar" os blogs. Há sim muitas teses polêmicas sendo pautadas e defendidas no círculo de blogs que eu frequento -- que é bastante enxuto -- mas há também muita competência, certa "tradição" e o respeito consolidado por parte daqueles que se arriscam em gestos mais ousados.

A "blogosfera desmistificada" parece uma grande bobagem, de princípio, mas talvez eu me permitisse a leitura caso a proposta fosse apresentada por Pedro Doria, por exemplo. Apontar para esses meninos que escrevem o Blogumentário e para essa tese da desmistificação é já perder de vista o aspecto mais "conservador" dos blogs -- eles parecem ainda assentar sobre um sistema de mérito, uma "tradição", bastante flexível e subjetiva, mas nem por isso menos forte e influente. Um sistema constituído de dentro, através de laços sociais, interesses comuns, idéias e valores partilhados.

Enfim, vamos deixar o Estadão brincar de promover o diálogo entre as diferentes culturas de publicação. Estranho mesmo é que as vias só se estreitem quando há um diagnóstico tão nefasto.

Então tá então.

Pergunte aos donos do New York Times, que acabam de vender parte do seu prédio e provavelmente arrendarão a alma a Carlos Slim ainda este ano, se eles acham que os blogs não tiveram impacto nenhum sobre a mídia...

Aliás, se não tivesse tido, ninguém acharia interessante dizer que não, não tiveram. :)

Belo texto! Mas não se esqueça também de investigar toda uma discussão que se dava no fim dos anos 90, sobre as possibilidades efetivamente democráticas do hipertexto.

É interessante que a noção de "hipertexto", anteriormente tão comentada, hoje em dia é pouco enunciada. E naquela época, falava-se muito sobre a possibilidade da "vida real" ser contaminada pelas virtualidades do hipertexto, ou do hipertexto ser "colonizado" pelas relações já cristalizadas da dita realidade.

Até argumentos filosóficos circulavam, para se ter uma idéia. Mas algo aconteceu, e na mesma medida em que evoluíram as linguagens dinâmicas, esse debate vívido foi apagado.

Seria interessante ver em uma reunião de blogueiros discussões sobre hipertexto, e não falsas querelas sobre "rigidez jornalistica" versus "maleabilidade dos blogues", "parcialidade" x "imparcialidade", caráter pessoal ou público, e assim por diante.

Boa tarde Sergio. Ja tinha ouvido falar de vc, mas so agora entrei em seu site. Como me interesso muito pelo trabalho dos jornalistas e como vc fez uma observaçao sobre a qualidade do Estadao, gostaria de saber o que vc pensa sobre a Folha de S.Paulo. Estendendo para o lado das revistas, o que pensa sobre as semanais e qual a que pratica o melhor jornalismo em sua opiniao?
abraços a todos os frequentadores deste blog

Ricardo, trabalhei na Folha, e em nenhum outro jornal vi tanta preocupação emr espoder aos leitores, em corrigir erros apotnados em cartas da redação, em fazer crítica interna, diária, do que é produzido. Se isso é sempre bem-sucedido, tenho dúvidas, mas é um esforço, um compromisso, e traz alguns resultados. É uma estrutura administrada por seres humanos, falíveis e liimitados como todas as organizações humanas.

Gosto do jornal, acho que ele é dinâmico, insatisfeito, procura ser crítico, embora confunda às vezes a crítica com mera oposição. A quem estiver no poder. Acho também que a cobertura política especialmente em São Paulo deixa transparecer uma simpatia maior que o próprio jornal desejaria em relação aos tucanos. O Ombudsman já apontou isso.

Ah,o jornal se preocupou em ter ombudsman. E, acredite, o cara tem independência. O que está lá, atualmente, tem feito críticas acérrimas à qualidade da cobertura. E o anterior, marcelo beraba, foi presidente de sindicato, sujeito seríissimo, referência em ética. É ou foi presidente da Associação dos Jornalistas Investigativos.

Tem defeitos a Folha, como têm os outros jornais. Sim, os preconceitos e partipris dos editores afetam a qualidade da informação, e a pressa e limitação de espaço às vezes prejudicam o esforço de imparcialidade ou de abrangência.

Já li jornais em todos os continentes, não acho que estejamos mal, apesar de faltar, no Brasil, uma imprensa regional de qualidade, como nos EUA.

Alerta ao leitor: não só trabalhei lá, onde tenho bons amigos, como sou casado com uma repórter da Folha. Vejo ela trabalhando em busca de matérias que são críticas ao governo e à oposição. Vi gente do governo FFHC e do governo LUla se queixarem de como as matérias dela infernizaram a vida deles, e, ainda assim, continuarem como fontes, por respeito e admiração ao trabalho dela, imparcial, sim. Vi como ela saiu voluntariamente da cobertura dos tapetes do Congresso para se meter na Amazônia ou no Piauí em busca de informações de gente real, do povo de verdade, para verificar in loco o resultado das políticas públicas, de analfabetos aportadores de hanseníase. Aliás, ela foi uma das idealizadoras do site Contas Abertas, que é um dos melhores instrumentos da cidadania que temos atualmente na Internet. Tenho uma visão viesada do jornal,portanto.

Sérgio Léo,
O Idelber (http://www.idelberavelar.com) escreveu um texto opinativo sobre os 200 anos da imprensa no Brasil. Recomendo a você e aos seus leitores. Principalmente pela atualidade do "case" que ele usou como mote para sua fundamentação.

Gostei do que li. Voltarei. Abraço.

Muita arrogância esse tipo de declaração! Justo porque é uma pessoa que não fala pelos blogueiros ou mesmo um doutor no assunto, existe?
Acompanhei todo o desenrolar do documentário e achei um desrespeito com os entrevistados. Entrevista e depois fala mal?
Sobre este assunto dei o meu parecer, logo após a declaração. Seria petulância minha pedir que lesse?
http://luzdeluma.blogspot.com/2009/01/afinal-os-blogues-servem-pra-qu-pra.html
Obrigada!!

Luma, que susto me deu, achei que tinha achado arrogante as minhas afirmações. Petulância nada, bem dado seu pitaco no assunto!

e volte sempre!

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