Na crise, pode gastar mais. Mas só nos EUA.

| 9 comentários


Como o grande alvo atual da oposição é a política de gastos do governo, os liberais estão se contorcendo para explicar por que, ao contrário do que recomendava o FMI à América Latina e à Ásia duirante as crises do século do passado, os Estados Unidos aumentaram seu déficit público para 12%.

O Sardenberg, na CBN, enrolou-se para justificar o rombo orçamentário no líder espiritual do que se chama de economia científica. Eles podem porque garantiram que é temporário e estamos em crise, argumentou.

Mas aí se atrapalhou. Obama não promete que o déficit será temporário. Diz que, no fim do mandato dele, o rombo no orçamento votla a 3%. Nada de fazer superávit para reduzir a dívida que se acumulará nesse período. Em curto-circuito com mais esa demonstração de que, na hroa do aperto, os manuais que valem para o terceiro mundo são rasgados no primeiro, Sardenberg chegou a dizer que o Obama prometeu "equilíbrio" nas contas ao fim do mandato.

Ainda acho o Sardenberg o melhor âncora de rádio do país, o cara é bom. Fiz questão de dizer isso para ele quando fui à notie de autógrafos, comprar o livro "Neoliberal Nâo, Liberal", lançado há pouco. Mas hoje, o déficit de imensos 12% do Obama desnorteou o comentarista.

Para justificar o rombo (nós, no Brasil estamos discutindo se reduzimos o superávit
para fazer frente à crise, e já há ganidos histéricos por todo o lado com a irresponsabilidade fiscal do governo), Sardenberg apelou para o complexo de vira-lata: eles podem porque o Congresso lá é mais sério, mais equipado, tem centenas de técnicos competentes para preparar e fiscalizar o orçamentodeles. E para garantir a inclusão de emendas dos poderosos lobbies americanos, e os interesses paroquiais dos poderosos congressistas, digo eu.

Não vejo muita diferença entre um parlamentar de Yowa e um do Mato Grosso, e se o Sardenberg os conhecesse acho que concordaria.. OK, eles têm, mesmo, instituições mais sofisticadas de análise e acompanhamento do orçamento.

Mas Sardenberg, atordoado com os gigantescos 12% de déficit nos EUA (só para a guerra são US$ 130 bi, fora os US$ 75 bi a mais pedidos para o ano fiscal que acaba em outubro e os quase US$ 540 bi paera defesa), seguiu catando argumento, e comentou que, no caso dos EUA, o orçamento é diferente daqui, é impositivo, o que significa que o que está no papel tem de ser gasto. Não é como o daqui, que é autorizativo, e pode não ser executado integralmente pelo governo.

Não percebeu o comentarista que o argumento só favorece uma política fiscal mais frouxa no Brasil, já que, como o orçamento não é impositivo, o governo pdoe simplesmente não executar despesas que se revelem incomaptíveis com a arrecadação.
.
O Sardenberg poderia dizer simplesmente que eles, nos EUA, podem jogar no lixo o senso comum dos economistas, porque emitem a moeda mundial, e garantem uma inflação baixa importando alucinadamente do mundo todo. Mas aí teria de dizer que, quando a coisa fica preta, começam as pressões protecionistas para proteger os empregos americanos num mercado encolhido, jogando no lixo outro princípio liberal, o do livre comércio a qualquer custo, porque, em longo prazo, a economia ganha competitividade.

Para se tornar a potência farmacêutica que é hoje, a Suíça desprezou direitos de propriedade intelectual, até que teve uma indústria com criação própria e passou a ser a maior defensora desses direitos (como, aliás, também fez os EUA). A maioria dos países desenvolvidos foi protecionista, até que sua produção os incentivou a abrir os mercados dos outros, e então passaram a defender com unha e dente o liebralismo. Nas crises, são testadas as convicções econômicas. E os Estados Unidos estão mostrando que a receita cantada pelos economistas que estudaram em suas escolas não vale quando o fogo está no rabo deles.

O que, como ouvi na CBN, é uma covardia com os comentaristas que acreditaram no ideário pré-crise. Ficam gaguejando no ar. Tremenda maldade.

9 comentários

OFF -TOPIC: A curiosidade falou mais alto... onde é a foto do seu novo banner?

Ora, Sérgio, até parece que você não sabe que o nosso superávit é primário e o déficit deles é nominal. O nosso déficit nominal é bem parecido com os 3% que o Obama quer em 2010.

E eles têm quem compre os títulos da dívida deles mesmo se o déficit chegar a 20%. Já nós...

Lucia, querida, ao fundo você vê a cacimba do meu Sítio, muito, mas muito parecida com uma das maiores crateras da ilha de Rapa Nui, o extinto vulcão Rano Kau, aí nem tão longe dessa outra ilha paradisíaca onde você está...(-;

Será que têm mesmo, Manuel, que estão dispostos a financiar até um déficit de 20% do PIB nos EUA, indefinidamente? Uma das previsões do Nouriel Roubini é o colapso desse esquema de financiamento dos seguidos déficits americanos, o pessoal um dia cansa de bancar um devedor renitente, principalmente se ele deixa de comprar mercadorias como vinah comrpando da China, seu principal financiador.

Mas você tem razão ao apontar um exagero em meu argumento, quando comparo déficit nominal com déficit primário (o nominal, descontada a inflação). Grosseiramente falando, o déficit primário é o excesso de despesas em relação às receitas do governo, sem contar os juros; o déficit nominal bota a despesa com juros nesa conta. Comparar contas primárias com contas nominais é sempre exagerar em favor da primeira, quando se fala de déficit. A essência do que digo, porém, permanece: estamos com as contas próximas ao equilíbrio, e a turma chia quandos e fala em gastar para evitar o pior; os EUA anunciam o maior déficit público desde a segunda guerra e os colunistas conservadores aplaudem a criatividade de Obama...

Só que você se equivoca em relação ao déficit nominal brasileiro, que, em 2008, foi de 1,5% do PIB, metade do que o Obama promete só para o fim do mandato dele, que,e spero, não será em 2010...


Não existe uma certa contradição entre o que você defende no post "Virando a folha" e que você narra neste?

Rodrigo, não.

O que motiva meu post Virando a folha é a idéia de que condenações generalistas e totalizantes à imprensa são nocivas à democracia, mistificadoras e equivocadas.

MInha briga é com essa tendência de, ao se ver um erro na imprensa, alardear que a imrpensa sempre está errada. Mas admito que a imprensa tem problemas, e saúdo críticas contra esses problemas da midia, quando surgem.

Neste post, aponto um: as crenças, legítimas, de um jornalista experiente podem levá-lo a dificuldades para relatar um fato que contraria essas crenças. Mas há leitores, sempre, para apontar esses episódios de derrapada na ideologia.

Grande post, como habitual. Nada tenho a comentar, quero apenas parabenizá-lo.

Esse é o tipo de coisa que eu guardo numa gaveta chamada 2010. Caso a oposição invente de pular aquela parte em que se fazem propostas.

Rafael,
A imensa maioria dos economistas profissionais (sardemberg nao eh um deles) recomenda politicias anti-ciclicas. Ou seja, no tempo das vacas gordas, seguram-se os gastos; na hora do aperto, aumentam os gastos. Nao tem (quase) nada de ideológico disso. Apenas os extremos da distribuição a direita (esquerda) acham que vc nunca (sempre) deve gastar mais do que arrecada.

A propósito, em escalas diferentes, nem o Bush nem o Lula adotaram politicas fiscais sensatas. Com a recessão atual - que não é o fim do mundo, diga-se de passagem - a margem de manobra de ambos governos ficou mais apertada. Soh isso.

Leo.

PS. O comentario do Mateus Bueno eh importante.

Cacildis, elogiar o congresso norte-americano é o cúmulo do complexo de vira-lata. Mas até aí vai, todos conhecem alguém que fala "é importado!"... mas falar que "é mais sério, mais equipado, tem centenas de técnicos competentes para preparar e fiscalizar o orçamento deles" é explodir o termômetro da bizarrice. Lá se tem tantos provincianismos, horrores paroquiais e máfias de troca-troca quanto os centros de coronelismos por aqui. Nem democrata, nem republicano, nem congressista acharia isso - mas nem de longe.
------

"OK, eles têm, mesmo, instituições mais sofisticadas de análise e acompanhamento do orçamento."

Eu diria apenas que eles tem think tanks para fabricar "estudos" com mais grana no cofre. Aqui, a mídia faz tal trabalho (e em maior parte, apenas vira papagaio de tais think tanks).

Conheces o escritor Ha-Joon Chang? Essencialmente escreve sobre como os países desenvolvidos sempre quebraram as regras de mercado impostas pelos de cima para subir a escada -- e quando subiram, chutam a escada e impõe as regras pros debaixo, e como sempre intervém no mercado quando esse (e seu poder estabelecido) não os favorece. Nada muito diferente do que Chomsky ou outros críticos tem a dizer do liberalismo, porém é de um foque mais centrado (e menos sobre as propensões da mídia ocidental e aventuras imperialistas etc).

O mais bizarro é ver uma figura como Lula descer o pau nos neoliberais e, um minuto depois, descer lenha em protecionismo.

Comente


Type the characters you see in the picture above.



sitio do sergio leo

últimos comentários


Add to Technorati Favorites