Tua etiqueta vai te dedurar

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No livro de ficção científica que escreverei, o Grande Irmão atende pelo nome de Google, e o controle da empresa sobre a intimidade dos cidadãos é alvo de uma disputa violenta entre gangues de oligarcas russos ex-funcionários da KGB, que, a essa altura, dominarão o mundo, a começar pelas empresas de comunicação.

Quando o Google lançou um programa que transforma os celulares em coleiras eletrônicas, vendendo esse instrumento de vigilância como se fosse uma maravilha para permitir o contato constante entre amigos, logo alguém descobriu que a invenção era uma boa maneira de espionar a pessoa amada. Era botar o programinha no celular da/do cara-metade e acompanhar pelo Google para ver onde estaria o portador por todo o dia.

É a minha tese: o Grande Irmão entrará em nossas casas a convite da família. Duvida?

dedo.JPGfonte da imagem:AQUI.

O David Brin, autor do livro The Transparent Society, em que fala desse espalhamento das tecnologias de vigilância em tempo real, tem uma visão positiva da coisa; acha que o cidadão será mais vigiado, mas a mesma tecnologia também permite à sociedade uma maior vigilância sobre os tiranos.

O Umberto Eco, num livro famoso nos anos 80, dividia as opinões dos teóricos sobre a comunciação de massa em apocalípticios e integrados; os primeiros, como Theodor Adorno, vendo as novas midias como instrumentod e controle e perpetuação de poder e os segundos, como marshall McLuhan, saudando a nova aldeia global.

Cada vez mais os relatos sobre a Internet desenterram McLuhan. E eu, cada vez mais, me sinto paranoicamente apocalíptico.

Especialmente depois de ler textos como esse abaixo, do David Brin, que citei há pouco, falando da evolução dos protocolos de internet, esses endereços numéricos que dizem qual computador você andou usando quando entrou neste Sítio procurando foto da Lilian Ramos (para quem não lê inglês, arrisquei uma tradução embaixo):

"...a new Internet protocol (IPv6) will vastly expand available address space in the virtual world.
The present IP, offering 32-bit data labels, can now offer every living human a unique online address, limiting direct access to something like 10 billion Web pages or specific computers. In contrast, IPv6 will use 128 bits. This will allow the virtual tagging of every cubic centimeter of the earth's surface, from sea level to mountaintop, spreading a multidimensional data overlay across the planet. Every tagged or manmade object may participate, from your wristwatch to a nearby lamppost, vending machine or trash can -- even most of the discarded contents of the trash can.

Every interest group will find some kind of opportunity in this new world. Want to protect forests? Each and every tree on earth might have a chip fired into its bark from the air, alerting a network if furtive loggers start transporting stolen hardwoods. Or the same method could track whoever steals your morning paper. Not long after this, teens and children will purchase rolls of ultra-cheap digital eyes and casually stick them onto walls. Millions of those "penny cams" will join in the fun, contributing to the vast IPv6 datasphere.

Oh, this new Internet protocol will offer many benefits -- for example, embedded systems for data tracking and verification. In the short term, expanded powers of vision may embolden tyrants. But over the long run, these systems could help to empower citizens and enhance mutual trust.

(Um novo protocolo de internet, o IPv6 vai expandir enormemente o espaço disponível para endereços no mundo virtual.
O atual IP, com etiquetas de 32 bits, pode, atualmente, oferecer a cada humano vivo um endereço de Internet único, limitando o acesso direto a algo como 10 bilhões de páginas da Web ou comptuadores específicos. Em contraste IPv6 usará 128 bits. Isto permitirá a etiquetagem virtual de cada centímetro cubico da superfície da Terra, do nível do mar ao pico das montanhas disseminando uma camada de informação multidimensional sobre o planeta. Cada objeto fabricado pelo homem ou etiquetado pode participar dessa cobertura virtual, de seu relógio de pulso ao poste de rua próximo, caixa eletrônico* ou lata de lixo _ até a maior parte do conteúdo descartado da lata de lixo.

Cada grupo de interesse encontrará algum tipo de oportundiade nesse mundo novo. Quer proteger florestas? Cada árvore na Terra pode ter um chip implantado em sua casca, por via aérea, alertando uma rede de vigilância se madeireiros furtivos começarem a transportar madeira roubada. O mesmo método pode rastrear quem rouba seu jornal matinal. Não muito depois disso, adolescentes e crianças poderão comrprar rolos baratíssimos de olhos digitais e pregá-los nas paredes ou muros, casualmente. Milhões dessas cãmeras de R$1,99 vão entrar na brincadeira, contribuindo com a vasta "dataesfera" do IPv6.

Oh, esse novo protocolo de Internet trará mutos benefícios, por exemplo sistemas embutidos de verificação e rastreamento de informação.No curto prazo, poderes expandidos de visão podem facilitar a vida dos tiranos. mas em longo prazo, esses sistemas podem ajudar a dar mais poderes aos cidadãos e ampliar a confiança mútua.)


Um mundo com olhos pregados nas paredes, em que um computador conectado à Internet pode identificar por onde você andou, que coisas consumiu e onde vão parar papéis, documentos ou qualquer coisa que joga fora. É um sonho para um jornalista investigativo. Mas não sei porque me dá arrepios.


(*nota do tradutor: achine" não é caixa eletrônico, mas não temos tantas maquinas de venda automáticas por aqui).

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Boa! E a posição de Brin parece ser aquela velha, onde benefício é confundido com tecnologia, e não com o uso dela. É sempre um bom argumento: diz-se que a acessibilidade beneficiará a todos; ao mesmo tempo, cria-se milhões de modulações onde a acessibilidade varia conforme o capital... como ocorre com tudo o mais ;)

Mas Sergio, que investigação sobra quando tudo está sobre a mesa?

Acho que o arrepio que dá é exatamente disso, de ver tudo assim posto. O que me lembra o F. Pessoa: "Passo por uma rua e estou vendo na face dos transeuntes, não a expressão que eles realmente têm, mas a expressão que teriam para comigo se soubessem da minha vida, e como eu sou, se eu trouxesse transparente nos meus gestos e no meu rosto a ridícula e tímida anormalidade da minha alma."

O arrepio vem de algo semelhante.. da anormalidade universalmente mascarada, exposta em praça pública através das pequenas coisas que toda essa novidade pode revelar. Mas não se engane, podemos nos acostumar a isso também, desde que não inventem leitores de mentes.

A tecnologia da informação tem o potencial de servir como elemento de controle social e, por conseguinte, também tem o de ser instrumento de libertação. O fato é que para concretizar algo não basta poder, mas é necessário querer. O que ou quem se esconde por detrás da Internet? Hoje, o governo estadunidense. Para onde ele irá nos próximos anos? Para onde irá a Internet nos próximos anos? Dependendo das respostas, temos uma miríade de possibilidades para o futuro e elas envolvem desde o apocalipse até a utopia. Dependerá muito da vontade de quem exercer o poder - e o desastre pode vir mesmo que sejam as maiorias a exercê-la, afinal, elas também erram.

Ainda bem que quando essa tecnologia estiver implantada, assegurada e funcionando, eu já terei partido desse mundo.

Jamais conseguiria conviver com isso, não é só uma questão de dar medo ou de arrepios... Eu já me sinto antecipadamente sufocada, com toda a minha claustrofobia...

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