Sempre defendi a necessidade de diploma para o exercício da profissão de jornalista. Não por um corporativismo rasteiro. ou por uma reserva de mercado (são tantos os alunos das escolas de Comunicação que me parece até ridículo falar em reserva de mercado nesse tema). Mas porque eu acreditava e acredito que o ambiente acadêmico é o melhor lugar para se adquirir formação intelectual necessária ao jornalismo, e as escolas de Jornalismo o melhor lugar para aprender e discutir o jornalismo de modo crítico, ainda que nem sempre se faça isso nas escolas convenientemente mal equipadas e marginalizadas pelas cabeças mandantes na Universidade.
Nos jornais, aprende-se o jornalismo como é praticado naquela publicação específica, nem sempre, quase nunca, algo próximo ao ideal. Há outros argumentos razoáveis em defesa das escolas de Jornalismo, também; estão escritos por aí, em algum lugar da Internet.
Cansei desse debate. O jornalismo está mudando para sei lá o quê, as discussões sobre o tema dificilmente se desenrolam racionalmente, perdi o gosto e a crença de que minhas opiniões poderiam ser úteis a essa discussão.
Agora há outro que já me cansa, de frustração. O debate sobre o jornalismo dos grandes jornais, seus compromissos com a verdade, com os interesses estabelecidos, a bronca dos leitores com a má qualidade _ alguns dirão o cinismo e a mentira _ da midia tradicional.
Cansaço, terrível cansaço, quando vejo, a propósito de uma derrapada feia de um jornal, meu amigo Idelber Avelar condenar, mais uma vez, os jornalistas que trabalham em empresas, em conjunto, atacando, do alto de sua sapiente torre acadêmica, "o paupérrimo, o assombrosamente rasteiro nível intelectual da grande mídia brasileira". Os jornalistas, diz ele, "além de mentirosos, venais e pouco transparentes, são fraquíssimos", os donos têm "suas corjas de servidores", cúmplices da enganação do povo.
E o povo segue, lendo surpreendentemente mais jornais que antes, já que aumentou a renda. Como se sabe, a imprensa publicou o aumento de renda no governo Lula. E os intelectuais e militantes seguem, lendo jornais, sentindo-se justamente traídos quando não veem correspondidas suas expectativas, em jornais que se habituaram a ler para buscar informações. E onde não raramente encontraram informações preciosas para sua atuação profissional, política, pessoal.
Mas me cansei desse debate. Trabalho num jornal que é propriedade, em partes iguais, das famílias Frias e Marinho, que nunca me censuraram, e me estimularam a trabalhar com bastante liberdade. Minha mulher trabalha na Folha. Tenho orgulho do trabalho dela, assim como levo a sério a responsabilidade do meu. Qualquer coisa que eu fale em defesa desse trabalho, porém, ou dos jornais onde trabalhamos já está préviamente classificada: somos parte de uma corja que se acumplicia no projeto conspiratório dos jornais contra o interesse do povo.
Claro que Idelber não quis dizer isso, nem ofender os jornalistas que conhece e de quem sabe a seriedade. Mas esse tipo de ataque maniqueísta, virulento, totalizante deixa pouco espaço aos que, dentro dos jornais, tentam e muitas vezes conseguem fazer um trabalho de qualidade, contratados e não raramente incentivados pelos donos, vilões do imaginário daqueles que só enxergam manipulação nas empresas jornalísticas.
Também fiquei chocado com o editorial da Folha que classifica de "ditabranda" o regime militar repressivo e torturador que vigorou no país, e mais chocado ainda, eu que trabalhei com prazer por dois anos no jornal, ao ver uma resposta na carta ao leitor completamente contrária ao espírito do manual de Redação da Folha, com calúnias contra dois leitores professores universitários. Não deve ter sido mera coincidência o fato de que os textos infelizes tenham saído em plena época de plantão na redação.
Não creio que, para defender a democracia no Brasil, seja necessário atacar a ditadura em Cuba, e não entendo por que singularizar Cuba, que, pelos critérios do editorialista da Folha, seria uma "ditabranda", onde as pessoas têm garantida educação, comida, saúde básica de qualidade. Tenho certeza de que tanto o editorial quanto a carta ao leitor foram severamente discutidos dentro da própria Folha.
Se, para atacar a ditadura ou qualquer violação à democracia no Brasil, os intelectuais são obrigados a condenar outras ditaduras no mundo, vai ser difícil a crítiica, porque, na minha opinião, a lista teria de ter à frente os regimes autoritários do Oriente Médio (convenientemente excluídos da agenda pela intelligentsia americana e inexplicavelmente ignorados entre os democratas brasileiros anti-Cuba). Teria de haver a condenação de vários regimes africanos com boas relações com o chamado Ocidente, haveria de se lembrar Guntánamo toda vez em que se falase em liberdades civis no Brasil. Não creio que isso seja aceitável, nem desejável.
Entendo a ira dos que se sentem violentados por erros da midia tradicional, até mesmo por interpretações que, embora não estejam erradas, são entendidas como tal. O leitor se sente indefeso frente ao (mais imaginado que real) enorme poder dos grandes meios de comunicação. E reage com violência.
Parte dessas pedras acaba caindo na nossa cabeça, dos jornalistas. No governo FHC, ouvi e acompanhei críticas ao "petismo" da Folha. No governo Sarney e Collor, escrevi e vi escreverem críticas sérias com repercussão contra os governos Sarney e Collor.Considero a Folha um bom jornal, com problemas, às vezes sérios, aqui e ali. Como o Globo. Como o Estadão. Como blogues de pessoas que respeito muito.
Não me sinto obrigado a responder cada vez que algum jornal fizer algo questionável e algum blogueiro se achar no direito de, pegando esse erro, tirar conclusões definitivas sobre as empresas de comunicação e convocar um boicote total à midia. Enquanto não convocarem a turma para dar pau em jornalista e empastelar jornal, têm o direito de manifestar insatisfação com o que leem nos jornais. Quando não alcançarem seus curiosos objetivos de sufocar o jornal que criticam, devem rever as opiniões apaixonadas e reconhecer que, afinal, o jornal que nos enche de ódio quando escreve coisas que consideramos estúpidas também é aquele em cujas informações nos apoiamos para defender nossas idéias e lutas.
Não tenho saco para seguir na discussão onde, de cara, já seria classificado de jornalista assalariado pelos grandes grupos de midia (o que sou, orgulhoso da retribuição que dou a esse salário).É um debate perdido, de saída.
Mas, manifestando meu justo direito e liberdade de comentarista de blogue, a única coisa que tenho a dizer mesmo, é transmitir um recado do Oliveira, esse sim, integrante da corja de canalhas de redação, dirigido a um grande amigo meu:
"diz para o Idelber aí que nível intelectual rasteiro ele até sabe que você tem mesmo, mas mentiroso e venal é a p@ta que o pariu".

Sergio,
Na mosca. Subscrevo integralmente o que você disse
Um abraço,
Marcos
SL
As generalizações são sempre condenáveis. Críticas devem ser como a pena criminal, que não pode ir além do apenado. Idelber cometeu um excesso indevido, e você sentiu-se atingido por uma crítica que certamente não lhe era dirigida, a princípio, mas que acabou por abranger-lhe. Essa generalização é uma atitude comum na blogosfera, bastante frequentada pelos desencantados com a chamada grande mídia. Basta ler os comentários para confirmar. Sou um deles. Simplesmente abandonei-a.
Pedro Dória tem um post sobre a questão da credibilidade da grande mídia, que estaria em baixa. Deixei lá meu comentário:
-A credibilidade vem da honestidade. No Brasil, a baixa credibilidade da grande mídia decorre da sua absoluta falta de honestidade. A FSP apóia Serra? O apoio é legítimo, mas que seja declarado. Os grandes jornais americanos fazem isso, e sua credibilidade sem dúvida é maior do que a dos nossos jornalões, que sustentam uma neutralidade que não engana ninguém. Como foi dito acima, todos têm lado. Se compro informação, quero saber de que lado vem. É simples, é meu direito de consumidor de um produto que sofre, sim, a influência de quem comanda a sua produção. Alegar neutralidade quando ela não existe é mentir, é enganar, é ser desonesto.-
Você afirma que seu trabalho não sofre a influência de seus patrões, e eu sinceramente acredito. O resquício de credibilidade que que ainda resta à mídia tradicional deve-se a profissionais como você, e por isso interessa a ela mantê-los. Luis Fernando Veríssimo, por exemplo, continua manifestando sua opinião contrastante com a de quem lhe paga. Há outros exemplos, é óbvio. Mas me permito observar que cada vez mais tais exemplos são exceção.
Abraço
Obrigado, Marcos, ainda bem. Se discordasse, como escrevi, ficaria sem resposta, não discuto mais esse tema (-;
Caro Navegador, agradeço seus comentários, e, especialmente, a confiança. Pode acreditar, nunca me pediram para escrever alguma matéria para atender a tal ou qual interesse. E sempre que meus editores tinham opinião diferente da minha e apresentei dados concretos, fatos bem documentados, escrevi sem pressões, e algumas das matérias até tiveram destaque na edição _ mérito dos editores, cargo de confiança dos donos de jornal.
O jogo nas redações é mais complexo do que se pinta. E não me considero melhor que grande parte dos jornalistas nas redações, muitos compromissados com a qualidade da informação, mesmo sem o destaque que dá uma coluna em jornal. O conservadorismo que vejo em certos colunistas não destoa tanto do que sinto nas ruas, em conversas de família, no comércio, nos taxis... Temos uma imprensa com defeitos, como uma academia com defeitos, uma esquerda com defeitos. A imprensa é um bom retrato do país, tem falhas que têm de ser sandas, claro, mas sua qualidade ou falta dela não fica abaixo da maioria do que leio em outros continentes.
Meu querido, ao escrever o post eu pensei muito em você, em Marta, em Mário Magalhães, nas exceções que conheço. O problema é que não dá para ficar fazendo exceções quando a imprensa que escreve que os editoriais, que dá as manchetes, que escolhe as notícias, é a outra.
Você diz que o conservadorismo da imprensa não destoa tanto do conservadorismo da sociedade. Que no fundo, a imprensa é um espelho da sociedade. Com todo o respeito, isso é balela. Em primeiro lugar, porque o problema ali não era o conservadorismo, mas a mentira (a ditadura brasileira nunca foi "chamada" ditabranda coisa nenhuma). Em segundo lugar, se a imprensa realmente fosse o espelho da sociedade, deveria, suponho, haver um jornalão que refletisse o que sente pelo presidente 84% da população. Não há.
Eu sei que para profissionais como você a discussão é cada vez mais inglória. Mas, com a liberdade que tenho com você, vou me permitir uma palavrinha que talvez caísse melhor na boca do Oliveira: essa história de "não participo mais dessa discussão", "cansei", "joguei a toalha", me desculpe, é uma viadagem. Você sabe que não vai abandonar essa discussão -- para sorte de todos nós, diga-se.
O comentário sobre a fraqueza intelectual do nosso jornalista não era feito da "altura da torre acadêmica". Na altura da torre acadêmica não se lê jornais. O que escrevo parece estar em sintonia com o que pensa a maioria que reflete sobre os nossos jornais. Eu realmente acho, Sergio (e aqui excluo você, Mário Magalhães, etc.), os jornalistas da grande mídia de uma ignorância pavorosa. Além de ignorantes, não estão acostumados a ouvir. Na hora que os blogs proporcionam o alto-falante, eles reagem com ad hominem. Já vi o filme 100 vezes.
Agora o outro lá (um dos Fernandos) discordou da resposta da Folha só para levantar a bola para um fechamento que acusava o Comparato de querer usar táticas de Mao. Cara, quando você tem que explicar para um colunista o que é uma metáfora, é porque está braba a coisa.
Talvez você ache -- e alguns jornalistas acham isso, eu sei -- que essa radicalização é responsabilidade dos blogs. Eu acho que essa indignação sempre esteve lá, e os blogs só estão dando vazão.
E, de verdade, a Folha já há tempos não é "aquele em cujas informações nos apoiamos para defender nossas idéias". Para mim realmente não é. Nem no futebol, nem nas artes, nem no Mais!. Na política, talvez, ainda um restinho. Mas a informação sobre a subida do público dos jornais, por exemplo, eu li no IBGE antes de ler na imprensa -- que a publicou, diga-se, sem qualquer menção à recuperação econômica que a tornou possível.
Enfim, entendo, simpatizo, mas com esse episódio um limiar importante foi atravessado. Você terá notícias mais completas que eu sobre o que está acontecendo na redação da Folha agora, é claro. Mas pelo que apurei, a coisa ficou feia por lá.
OK, Sergio, mas há setores da imprensa onde só escreve o amigo do dono, sempre dentro da linha do jornal.
Em ZH, não se lê críticas à Yeda Crusius, por exemplo. É impossível que elas não existam. Já no esporte é aquela gandaia, claro.
Sobre as ditaduras: ou a linha do jornal é Anistia Internacional geral ou não.
Sobre o nível intelectual rasante: é o mesmo DE TODO O MEU BRASIL...
Abraço.
Caro Sérgio,
Para mim, a grande imprensa abdicou quase que totalmente da sua função de buscar e transmitir a informação e passou a, descaradamente, manipulá-la. O caso de corrupção no governo tucano do Rio Grande do Sul, que já produziu inclusive a morte de um ex-assessor da governadora, é um exemplo acabado disso. Leia a Folha de hoje e veja se há uma mísera linha sobre o assunto. Você vai verificar, no entanto, que praticamente todas as matérias do caderno Brasil têm um viés desfavorável ao governo e ao PT, inclusive o artigo de Janio de Freitas. Agora, como se informar de maneira confiável e minimamente isenta com esse nível de parcialidade? Fico desconfiado se você realmente acredita que essa imprensa serve de apoio para formarmos nossos juízos e opiniões e, mais ainda, que ela seja um bom retrato do País. Aqui, sinto muito, acho que você forçou a barra.
Geralmente discordo de tudo, mas nesse caso concordo com tudo! Ou seja, acho que quem se levanta contra a falsidade/mentira/manipulação da ainda poderosa grande mídia, está certo, assim como estão certos também os jornalistas que ponderam a questão dizendo que eles não são pau mandado, fazem um trabalho honesto, etc.
Acrescento a minha modesta e pessoal visão sobre o assunto: no fundo o que sinto é uma imensa tristeza por ver como icones do jornalismo brasileiro vão indo um a um para um buraco lamacento, de forma inexplicável. O que aconteceu com o JB, com a Veja e agora com a folha não foi igual, mas produziu resultados parecidos. Os três veiculos - que um dia me incentivaram a ir para a faculdade de jornalismo - hoje são um lixo que eu não tenho a menor vontade de ler.
Bom meus caros, o Idelber está certo ao dizer que é viadagem dizer que não discuto mais _ só que esse termo é preconceituoso, e, para mim, preconceito contra o homossexualismo é coisa de viado.((-;
Agora falando sério, quando cito meu exemplo e o da Marta não é para dizer que somos mocinhos num faroeste de canalhas. É para mostrar que, ao contrário de uma opinião bastante disseminada, a imprensa não é um valhacouto de conspiradores, todos decididos a atender a sei lá quais (atualmente tucanos) interesses escusos. Há muito mais gente do que se conhece com boa formação, boa vontade e dignidade. Só na Folha, tão condenada, há dezenas ou até centenas, gente como o Cláudio Ângelo, editor de Ciência, a Cláudia Antunes, editora de Internacional, o Nélson de Sá, o Fabiano Maisonnave, só para falar de gente que conheço, não vejo citada com frequencia por aí e que faz um trabalho inteligente, competente e honesto.
E as empresas, como tal, estão sim contaminadas por ideologia, como tudo na vida, e parte desa ideologia as obriga a dedicar-se ao melhoramento do produto jornal. Há mecanismos para corrigir rumos, que são postos em rpática quando os desvios começam a comprometer a credibilidade.
Por isso, gosto quando leitores criticam os jornais, e respondo com agrado a cartas, mesmo as mais insultuosoas. Nem todo mundo em jornal é assim; e a frequencia com que chegam às redações cartas sem pé nem cabeça cria mesmo uma certa arrogãncia nos jornalistas, que, infelizmente, às vezes extravasa, erradamente, para as respostas aos leitores.
Ruy, tenho certeza de que, se os leitores manifestarem essa sua opinião, com constãncia e regularidade, os caras vão acabar mudando o (des)equilíbrio da cobertrua, se ele existe de fato. Jornal não sobrevive sem leitor, e se obriga a autocrítica quando os leitores manifestam sua insatisfação.
Imprensa regional, de menor porte, é mais problemática, assim como a cidadania no país é complicada, basta ver o nível das assembléias legislativas, Milton. É nesse sentido, Idelber, qeu falo que a imprensa reflete a sociedade. E é melhor do que a média da classe política, o que é um fator positivo.
Quanto a nível intelectual, gostaria que vocês dessem uma passada no blogue do programa de trainees da Folha, um jornal que sempre teve a preocupação em treinar repórteres e estimular sua formação, com permissão de sabáticos e o iscambau.
Coordenado pela competente Ana Estela, o programr eúne uma quantidade impressionante de gente com mestrado em história, economia e outras disciplinas.
Concordo que os jornais ainda estão muito aquém do que poderiam oferecer, e que, especialmente na política e na economia, certas idéias hegemôncias abafam a diversidade intelectual. Mas considero isso um processo, e vejo na imprensa brasileira, diferenteemnte da de outros países e mesmo em algumas pu8blicações de esquerda, uma certa abertura para mudanças, e a autocríticas.
Mas, quando digoque cansei, idelber, é porque essa discussão é mais longa do que permite um blogue, e mais chata do que poderia para conquistar coração e mente de alguém. Discussão perdida, disse eu logo no início.
Ah, mas a Folha (o Globo, o Estadão, o JB) tem problemas? Claro, por isso na Folha tem até ombudsman, os outros jornais têm críticas internas. Ele não é ouvido? Às vezes não. POde estar errado e aí não há problema. Pode estar certo, e aí a arrogãncia dos qeu não o ouvem vai se refletir mais cedo ou mais tarde nos índices de leitura do jornal, e eles vão ter de mudar, como já mudaram no passado.
Desiste não, aiaiai.
Ruy, para fechar a manhã, depois de lidos os jornais, não tenho missão de defender a Folha, ams discordo de sua opinião: o caderno Brasil tem poucas páginas, uma matéria sobre o MST financiado pelo governo e a decisão do Lula de cortar a festa no fundo de pensão de Furnas. Se o viés ´pe desfavorável, é porque o governo e o PT pisaram na bola nesses assuntos. Já a página 3 tem como peça principal um artigo assinado pela Ideli Salvati, líder da tropa de choque do PT. E as colunas de opinião não falam do aprtido ou do governo com viés negativo.
SLeo,
Eu cresci lendo a FSP. Hj ela enoja. Simples assim. O Otavinho tá destruindo ela. Sinto por muita gente boa que ainda tem lá.
Concordo tb que esse grito sempre esteve aqui, agora a internet deu voz a todo mundo (quase) no mesmo tom. E aqueles que sempre se achavam no comando, agora estao inseguros.
Tanto que coloca o futuro da midia impressa em xeque. Vc pode ficar tranquilo. O Valor vai ser um dos ultimos bastioes (mas recomendo, manter o blog ativo, ok).
Mas a Marta pode tomar cuidado. A FSP nao dura muito tempo.
PS.: Qdo um editorial comete um erro é um deslize. Qdo um politico toma uma decisão errada é pena capital (cassação). Isso eu não entendo em vcs jornalistas.
Discodo um pouco do Idelber sobre não haver um jornal para os 84% que apóiam o Lua, até porque jornal não existe desta forma efêmera ou para dar vazão a uma conjuntura. Mas o que acho que ele quis dizer, e passou batido nesta caixa, é que não há um jornal claramente de esquerda da forma como você vê na França (ou viu, já que lá a crise também tá pegando), na Inglaterra e até nos EUA. Eu só acho que isso não é muito problema da Folha ou do Globo. A existência deles não impede o surgimento de um jornal de esquerda, do qual sinto falta, aliás.
É que talvez domine esta mentalidade da isenção e neutralidade a todo o custo, que faz uma Folha pretender ser O jornal do Brasil, aquele que aglutinaria jornalistas de todos os matizes e que nos transmitiria A realidade sem filtros, uma espécie de Datena sem a oratória mundo cão (embora ela tenha um estilo uspiano de que falar mal do Brasil por falar mal, ser pessimista e alarmista é sinal, por si só, de agudeza intelectual). Isso só tem levado à pasteurização. Objetividade e integridade podem conjugar com orientação, desde que clara, política ou ideológica. O Guardian é trabalhista e, pelo menos até 2001, declaradamente republicano, o que não quer dizer que não tenha publicado, como eu mesmo li, matérias e mais matérias negativas sobre o governo Blair.
Isso remete, então, ao nível de certos jornalistas. Com certeza há repórteres, redatores e editores, inclusive na Folha, de qualidade e tudo o mais. Mas um bom jornalismo não é a soma dos bons e a subtração dos maus. É a orientação geral, esta tentativa de ser tudo, que marca também o Globo. Isso leva a esta falta de profundidade dos jornalões. Hoje folheei a Folha e o Estadão, que meus pais trouxeram em sua visita, em uns vinte minutos. Nada para ler! Notícias já sabidas, o que revela pouca apuração e pouco ímpeto de selecionar algo que a internet e a TV não podem selecionar, e essa mania de notícias de três linhas, do tipo que revive os jornais da época do telégrafo: "HAVAS - casal romeno tem octogêmeos no meio de tempestade de neve e governo de Barbuchescu afirma que ministro da saúde continuará no cargo"; "Recife - entre os 32 mortos por afogamento no Carnaval estava a filha mais velha do presidente do Country Club de Pernambuco". E tem as colunas sem o menor interesse. E aqui, voltamos a algo que já debati lá no Idelber: fora talvez mais uns dois ou três colunistas, quem tem um texto bom no colunismo, algo que destoe ou marque? Para mim, só Jânio de Freitas e Elio Gaspari. Cabô. Isso independe da orientação do sujeito. É sair do lugar comum, é propor uma leitura diferente da realidade. Quem mais faz isso? Cantanhêde? Clóvis Rossi? Zuenir Ventura? Nem o Veríssimo faz mais, já que abdicou de criticar o PT e o Lula e prefere falar da neta...
Os jornalistas, creio, se pasteurizaram. Não há caderno cultural que preste (o do Globo consegue ser constrangedor, só falta entrevistar um BBB), com a possível exceção dos cadernos de sábado e domingo do Estadão. Os jornais não conseguem sequer convidar intelectuais para escrever decentemente, dando colunas de meia dúzia de toques (como historiador, é duro ver o Kenneth Maxwell com aquele espaciozinho na Folha) para gente que tem mais a contribuir do que isso.
Isso tudo para não mencionar um fato essencial, que também destaca o jornalismo ruim feito no Brasil: temos UM canal de TV com algum pendor para o jornalismo, isto é, que tem repórteres investigativos e acesso a boas fontes (a Globo, apesar dos pesares) e três jornais (será que dá para incluir o Correio Braziliense?) que não são meros panfletos ou baba-ovos de governantes e oligarquias estaduais. Isso é grave, é um péssimo sinal do jornalismo brasileiro como um todo.
Bom, é isso. Acho que ficou meio confuso, mas é que talvez o campo esteja assim mesmo.
Caro Sérgio,
Tomo a liberdade de enviar-lhe uma carta da Prof. Marilena Chauí a seus alunos, de agosto de 2005, que trata de sua relação altamente conflituosa com a imprensa. Julgo ser um texto altamente instrutivo sobre o debate provocado pelo seu comentário.
Quanto ao meu comentário e suas réplicas, apenas duas ressalvas:
-se o PT e o governo federal fazem bobagens, o PSDB e, principalmente, o governo Serra, também as cometem. No entanto, a forma de noticiá-las é amplamente desfavorável aos primeiros, isto quando se dá alguma notícia das cometidas pelos segundos;
-você trabalha em um jornal que se destina a um público muito específico e selecionado, que precisa de uma informação objetiva e isenta para tomar suas decisões empresariais. É um público muito diferente da classe média imbecilizada e preconceituosa que, cada vez mais, é quem lê a Folha e o resto.
SE você tiver tempo, vale a pena ler o texto abaixo.
Um abraço.
Marilena Chaui
Carta de Marilena Chaui aos seus alunos
São Paulo, 31 de agosto de 2005
Prezados alunos,
Soube, por alguns colegas professores, que muitos de vocês estão intrigados ou perplexos com meu suposto "silêncio". Digo suposto porque, como lhes mostrarei a seguir, essa imagem foi construída pelos meios de comunicação, particularmente pela imprensa. Na verdade, tenho falado bastante em vários grupos de discussão política que se formaram pelo país, mas tenho evitado a mídia e vou lhes dizer os motivos. Antes de fazê-lo, porém, quero fazer algumas observações gerais.
1. vocês devem estar lembrados de que, durante o segundo turno das eleições presidenciais, a mídia (imprensa, rádio e televisão) afirmava que Lula não iria poder governar por causa dos radicais do PT, isto é, pessoas como Heloisa Helena, Babá e Luciana Genro. Você não acham curioso que, de meados de 2003 e sobretudo hoje, essas pessoas tenham sido transformadas pela mesma mídia em portadores da racionalidade e da ética, verdadeiros porta-vozes de um PT que foi traído e que teria desaparecido? Como indagava o poeta: "mudou o mundo ou mudei eu?". Ou deveríamos indagar: a mídia é volúvel ou possui interesses muito claros, instrumentalizando aqueles podem servi-los conforme soprem os ventos?
2. vocês devem estar lembrados de que, desde os primeiros dias do governo Lula, uma parte da mídia, manifestando preconceito de classe, afirmava que, o presidente da república, não tendo curso universitário nem sabendo falar várias línguas, não tinha competência para governar? Cansando dessa tecla, que não surtia resultado, passou-se a ironizar e criticar os discursos de Lula e seus improvisos. Não tendo isso dado resultado, passou-se a falar o populismo presidencial, isto é, a forma arcaica do governo. Como isso também não deu resultado, passou-se a falar num país à beira da crise, alguns chegando a dizer que estávamos numa situação parecida com a de março de 1964 e, portanto, às vésperas de um golpe de Estado! Como o golpe não veio (ele veio agora, sob a forma de um golpe branco), passou-se a falar em crise do governo (as divergências entre Pallocci e Dirceu) e em crise do PT (as divergências entre as tendências). Penso que um dos pontos altos dessa seqüência foi um artigo de um jornalista que dizia que, na arma do policial que matou o brasileiro em Londres, estava a impressão digital de Lula, pois não criando empregos, forçara a emigração! Além de delirante, a afirmação ocultava:
a) que aquele brasileiro estava na Inglaterra há cinco anos (emigrou durante o governo FHC);
b) estavam publicados os dados de crescimento do emprego no Brasil nos últimos dois anos. Eu poderia prosseguir, mas creio ser suficiente o que mencionei para que se perceba que estamos caminhando sobre um terreno completamente minado.
3. as duas primeiras observações me conduzem a uma terceira, que julgo a mais importante. Vocês sabem que, entre os princípios que norteiam a vida democrática, o direito à informação é um dos mais fundamentais. De fato, na medida em que a democracia afirma a igualdade política dos cidadãos, afirma por isso mesmo que todos são igualmente competentes em política. Ora, essa competência cidadã depende da qualidade da informação cuja ausência nos torna politicamente incompetentes. Assim, esse direito democrático é inseparável da vida republicana, ou seja, da existência do espaço público das opiniões. Em termos democráticos e republicanos, a esfera da opinião pública institui o campo público das discussões, dos debates, da produção e recepção das informações pelos cidadãos. E um direito, como vocês sabem, é sempre universal, distinguindo-se do interesse, pois este é sempre particular. Ora, qual o problema?
Na sociedade capitalista, os meios de comunicação são empresas privadas e, portanto, pertencem ao espaço privado dos interesses de mercado; por conseguinte, não são propícios à esfera pública das opiniões, colocando para os cidadãos, em geral, e para os intelectuais, em particular, uma verdadeira aporia, pois operam como meio de acesso à esfera pública, mas esse meio é regido por imperativos privados. Em outras palavras, estamos diante de um campo público de direitos regido por campos de interesses privados. E estes sempre ganham a parada. Apesar de tudo o que lhes disse acima, fiz, como os demais (no mundo inteiro, aliás), uso dos meios de comunicação, consciente dos limites e dos problemas envolvidos neles e por eles. Exatamente por isso, hoje, vocês perguntam por que não os usei para discutir a difícil conjuntura brasileira. Tenho quatro motivos principais para isso.
O primeiro, é de ordem estritamente pessoal. Os que fizeram meu curso no semestre passado sabem que mal pude ministrá-lo em decorrência do gravíssimo problema de saúde de minha mãe. Aos 91 anos, minha mãe, no dia 24 de fevereiro, teve um derrame cerebral hemorrágico, permaneceu em coma durante dois meses e, ao retornar à consciência, estava afásica, hemiplégica, com problemas renais e pulmonares. De fevereiro ao início de junho, permaneci no hospital, fazendo-lhe companhia durante 24 horas. Cancelei todos os meus compromissos nacionais e internacionais, não participei das atividades do ano Brasil-França, não compareci às reuniões do Conselho Nacional de Educação, não participei das reuniões mensais do grupo de discussão política e não prestei atenção no que se passava no país. Assim, na fase inicial da crise política, eu não tinha a menor condição, nem o desejo, de me manifestar publicamente.
O segundo motivo foi, e é, a consciência da desinformação. Vendo algumas sessões das CPIs e noticiários de televisão, ouvindo as rádios e lendo jornais, dava-me conta do bombardeio de notícias desencontradas, que não permitiam formar um quadro de referência mínimo para emitir algum juízo. Além disso, pouco a pouco, tornava-se claro não só que as notícias eram desencontradas, mas que também eram apresentadas como surpresas diárias: o que se imaginava saber na véspera era desmentido no dia seguinte. Mas não só isso. Era também possível observar, sobretudo no caso dos jornais e televisões, que as manchetes ou "chamadas" não correspondiam exatamente ao conteúdo da notícia, fazendo com que se desconfiasse de ambos. A desinformação (como disse alguém outro dia: "da missa, não sabemos a metade"), não permitindo análise e reflexão, pode levar a opiniões levianas, num momento que não é leve e sim grave.
Além disso, a notícia já é apresentada como opinião, em lugar de permitir a formação de uma opinião. Por isso mesmo, a forma da notícia tornou-se assustadora, pois indícios e suspeitas são apresentados como evidências, e, antes que haja provas, os suspeitos são julgados culpados e condenados. Esse procedimento fere dois princípios afirmados em 1789, na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, quais sejam, todo cidadão é considerado inocente até prova em contrário e ninguém poderá ser condenado por suas idéias, mas somente por seus atos. Ora, vocês conhecem o texto de Hegel, na Fenomenologia do Espírito, sobre o Terror (em 1793), isto é, a transformação sumária do suspeito em culpado e sua condenação à morte sem direito de defesa, morte efetuada sob a forma do espetáculo público. Essa perspectiva, como vocês também sabem, é também desenvolvida por Arendt e Lefort a respeito dos totalitarismos e seus tribunais, e para isso ambos enfatizam, na Declaração de 1789, o princípio referente à não criminalização das idéias, assinalando que nos regimes totalitários a opinião dissidente é tratada como crime.
Assim, na presente circunstância brasileira, a impressão geral deixada pela mídia é da mescla de espetáculo e terror, tornando mais difícil do que já era manifestar idéias e opiniões nela e por meio dela. Meu terceiro motivo será compreendido por vocês quando lerem os artigos de jornal que inseri no final desta carta. Um artigo foi escrito antes da posse de Lula, alertando para o risco de uma "transição", isto é, um acordo com o PSDB. Os outros dois foram escritos em 2004, quando do "caso Waldomiro". Ambos insistem na necessidade urgente da reforma política. Os fatos atuais (ou o que aparece como fato) não modificam em nada o que escrevi há quase um ano, pelo contrário, reforçam o que havia dito e por isso não vi razão para voltar a escrever, pois eu escreveria algo ridículo, do tipo: "Como já escrevi no dia tal em tal lugar...". Ou seja, se meu segundo motivo me leva a considerar que não há a menor condição para opinar no varejo sobre cada fato ou notícia, o meu terceiro motivo é que, no que toca ao problema de fundo, já me manifestei publicamente.
Resta o quarto motivo. Aqui, há duas ordens diferentes de fatos que penso ser necessário apresentar. A primeira, se refere ao ciclo "O silêncio dos intelectuais"; a segunda, à atitude da mídia. Há 20 anos, Adauto Novais organiza anualmente ciclos internacionais de conferências e debates sobre temas atuais. Sempre com um ano de antecedência, Adauto se reúne com alguns amigos para discutir e decidir o tema do ciclo.
Participo desse grupo de discussão. Em abril de 2004, quando nos reunimos para decidir o ciclo de 2005, alguns membros do grupo (entre os quais, eu) preparavam-se para um colóquio, na França, cujo tema era "Fim da política?", outros iam participar de um seminário, nos Estados Unidos, sobre o enclausuramento dos intelectuais nas universidades e centros de pesquisa, e outros iniciavam os preparativos para a comemoração do centenário de Sartre, símbolo do engajamento político dos intelectuais. Nesse ambiente, acabamos propondo que o ciclo discutisse a figura contemporânea do intelectual e Adauto propôs como título "O silêncio dos intelectuais". Uma vez feitos os convites nacionais e internacionais aos conferencistas, recebidas as ementas e organizada a infra-estrutura, Adauto fez o que sempre faz: com muitos meses de antecedência, conversou com jornalistas, passou-lhes as ementas, explicou o sentido e a finalidade do ciclo. Ou seja, no início de 2005, a imprensa tinha conhecimento do ciclo e de seu título.
E eis que, de repente, não mais que de repente, durante a crise política, alguns falaram do "silêncio dos inocentes", referindo-se aos intelectuais petistas! Curiosa escolha de título para uma matéria jornalística... Veio assim, sem mais nem menos, por pura inspiração. Mais curiosa ainda foi essa escolha, se se considerar que, ao longo de 2005, praticamente todos os intelectuais petistas (talvez com exceção de Antônio Cândido e de mim) se manifestaram em artigos, entrevistas, programas de rádio e de televisão!!! Onde o silêncio?
Como eu lhes disse, notícias são produzidas sem ou contra os fatos. E com as notícias vieram as versões e opiniões, os julgamentos sumários e as desqualificações públicas, culminando no tratamento dado ao ciclo, quando este se iniciou. A mídia decidiu que o ciclo se referia aos intelectuais petistas, apesar de saber que fora pensado em 2004, de ler as ementas, de haver participantes que não são petistas, para nem falar dos conferencistas estrangeiros. O ciclo virou espetáculo. Uma revista afirmou que, entre os patrocinadores (MINC, Petrobrás e SESC), estavam faltando os Correios. Uma outra afirmou que os participantes eram intelectuais do tipo "porquinho prático" (não explicou o que isso queria dizer). Um jornal colocou a notícia da primeira conferência (a minha) no caderno de política, sob a rubrica "Escândalo do Mensalão", com direito a foto. Etc..
A segunda ordem de fatos está diretamente relacionada comigo. Quando publiquei o artigo sobre o "caso Waldomiro", um jornalista escreveu uma coluna na qual me dirigiu todo tipo de impropérios e usou expressões e adjetivos com que me desqualificava como pessoa, mulher, escritora, professora e intelectual engajada. Não respondi. Apenas escrevi o segundo artigo, sobre a reforma política, e dei por encerrada minha intervenção pública por meio da imprensa. A partir de então, além de não publicar artigos em jornais, decidi não dar entrevistas a jornais, rádios e televisões (dei entrevistas quando tomei posse no Conselho Nacional de Educação porque julgo que, numa república, alguém indicado para um posto público precisa prestar contas do que faz, mesmo que o meios disponíveis para isso não sejam os que escolheríamos). A seguir, veio a doença de minha mãe e, depois, a crise política como espetáculo.
No entanto, paradoxalmente, não fiquei fora da mídia: houve, por parte de jornais, revistas, rádios e televisões, solicitações diárias de entrevistas e de artigos; a matéria jornalística "O silêncio dos inocentes", não tendo obtido entrevista minha, citava trechos de meus antigos artigos de jornal; matérias jornalísticas sobre o PT e sobre os intelectuais petistas traziam, via de regra, uma foto minha, mesmo que nada houvesse sobre mim na notícia.
Finalmente, quando se iniciou o ciclo sobre o silêncio dos intelectuais, um jornal estampou minha foto, colocou em maiúsculas NÃO FALO (resposta que dei a um jornalista que queria uma entrevista quando da reunião dos intelectuais petistas com Tarso Genro, em São Paulo) e o colunista concluía a matéria dizendo que o silêncio dos intelectuais petistas era, na verdade, o silêncio de Marilena Chaui, o qual seria rompido com a conferência. Resultado: jornais e revistas, com fotos minhas, não deram uma linha sequer sobre a conferência, mas pinçaram trechos dos debates, sem mencionar as perguntas nem dar por inteiro as respostas e seu contexto, transformando em discurso meu um discurso que não proferi tal como apresentado. E entrevistaram tucanos (até as vestais da República, Álvaro Dias e Artur Virgílio!!!), pedindo opinião sobre o que decidiram dizer que eu disse! E os entrevistados opinaram!!! Num jornal do Rio de Janeiro e num de São Paulo, FHC disse uma pérola, declarando que por não entender de Espinosa, não fala nem escreve sobre ele e que eu, como não entendo de política, não deveria falar sobre o assunto. Como vocês podem notar, o princípio democrático, segundo o qual todos os cidadãos são politicamente competentes, foi jogado no lixo.
Qual é o sentido disso? Deixo de lado o fato de ser mulher, intelectual e petista (embora isso conte muitíssimo), para considerar apenas o núcleo da relação estabelecida comigo. A mídia está enviando a seguinte mensagem: somos onipotentes e fazemos seu silêncio falar. Portanto, fale de uma vez! É uma ordem, uma imposição do mais forte ao mais fraco. Não é uma relação de poder e sim de força. Vocês sabem que a diferença entre a ordem humana, a ordem física e a ordem biológica (para usar expressões de Merleau-Ponty) decorre do fato de que as duas últimas são ordens de presença enquanto a primeira opera com a ausência.
As leis físicas se referem às relações atuais entre coisas; as normas biológicas se referem ao comportamento adaptativo com que o organismo se relaciona com o que lhe é presente; mas a ordem humana é a do simbólico, ou seja, da capacidade para relacionar-se com o ausente. É o mundo do trabalho, da história e da linguagem. Somos humanos porque o trabalho nega a imediateza da coisa natural, porque a consciência da temporalidade nos abre para o que não é mais (o passado) e para o que ainda não é (o futuro), e porque a linguagem, potência para presentificar o ausente, ergue-se contra nossa violência animal e o uso da força, inaugurando a relação com o outro como intersubjetividade. Num belíssimo ensaio sobre "A experiência limite", Blanchot marca o lugar preciso em que emerge a violência na tortura de um ser humano. A violência não está apenas nos suplícios físicos e psíquicos a que é submetido o torturado; muito mais profundamente ela se encontra no fato horrendo de que o torturador quer forçar o torturado a lhe dar o dom mais precioso de sua condição humana: uma palavra verdadeira. NÃO FALO.
Vocês já leram La Boétie. Sabem que a servidão voluntária é o desejo de servir os superiores para ser servido pelos inferiores. É uma teia de relações de força, que percorrem verticalmente a sociedade sob a forma do mando e da obediência. Mas vocês se lembram também do que diz La Boétie da luta contra a servidão voluntária: não é preciso tirar coisa alguma do dominador; basta não lhe dar o que ele pede. NÃO FALO. A liberdade não é uma escolha entre vários possíveis, mas a fortaleza do ânimo para não ser determinado por forças externas e a potência interior para determinar-se a si mesmo. A liberdade, recusa da heteronomia, é autonomia. Falarei quando minha liberdade determinar que é chegada a hora a vez de falar.
Prezado Sérgio, opino como leitora, porque já vai muito longe meu tempo de repórter. Certamente, há jornalistas competentes, honestos e fixados na busca da difícil objetividade. E há os preguiçosos, acomodados, ignorantes e incultos, gente que não sai da frente do computador e copia, copia, traduz (mal e procamente), faz e escreve o que a chefia manda sem discutir, ou se conforma em ver seu trabalho modificado pela chefia (para não perder o emprego, que a vida está dura) e deve haver, inclusive, os venais. E até os muito venais. Como em todo lugar e em todas as ocupações. Mas o que me espanta, como disse um leitor acima, é que os grandes ícones (inclusive alguns que conheci nos meus tempos de jovem repórter) vão caindo, um a um, com incrível velocidade.E fica a impressão geral - quando não a certeza, no caso da Veja,por exemplo - de que o órgão, o jornal ou a revista, não me têm mais utilidade alguma, não me informa, não me explica, não me esclarece, ao contrário, procura manipular minha opinião das maneiras mais infantis e ridículas, ou das maneiras mais sutis e enganosas. Como não sou jornalista, não sei distinguir quem é quem, aliás nem conheço ninguém mais, mas me irrita profundamente ver que o título é desmentido pelo corpo da matéria, que o dado é falso (basta ir à fonte e comparar), que o português é péssimo, que o desinteresse do redator é imenso, que a deslealdade do editorialista é enorme, que as perguntas do entrevistador são desonestas. Isso eu leio e ouço ou vejo. Assim, acho, como o Idelber, que o jornalismo brasileiro é assustadoramente pobre e intelectualmente reles. Com raras exceções. Será que, para ser justa, eu deveria pensar, dizer, escrever sempre que "muitos jornalistas, alguns jornalistas, são pouco honestos e venais" - para não incorrer no erro da generalização. Será que estes são muitos, a maioria, poucos ou quase todos, dependendo do órgão? Acontece que os bons, hoje em dia, me parecem ser exceções e não mais a regra, e aí é que eu sucumbo ao pecado da generalização. Você, pra mim,pelo que tenho acompanhado do seu trabalho é exceção, junto com a Maria Inês Nassif, um tal de Romero, do Valor Econômico. Nem a Carta Capital me inspira mais confiança. Também com exceções. Perdão se me alonguei demais.Um abraço.
Sérgio
Está na internet a informação de que o jornalista Inaldo Sampaio, colunista do Jornal do Commercio de Pernambuco há 22 anos, foi demitido por ter criticado em sua coluna a "denúncia" de Jarbas Vasconcelos. Demitido por ter criticado uma "denúncia" hipócrita do senador comprometido com o projeto político da direita. Ou não é verdade ?
Pois é, esta é a Liberdade de Imprensa exercida pelas empresas de comunicação.
Vai aqui um desafio para você: faça uma matéria demonstrando os órgãos de imprensa que mentiram sobre o Ministro Amorim e revelando a verdade factual que você presenciou (caso da moça Paula na Suíca).
Vai aqui outro desafio. Agora para sua esposa que trabalha na Folha: fazer uma matéria descrevendo como foi decidida a compra de centenas de milhares de revistas da Editora Abril pelo governo Serra (assinatura COMPULSÓRIA para os professores).
Meu caro Marco, escrevi sobre esse episódio Amorim na minha coluna, no Valor. Minha mulher trabalha em Brasília. Faz matérias constantemente, críticas ou elogiosas ao governo, atualmente deve estar com umas quatro pautas sendo tocadas simultaneamente, a partir de informações que colheu ou que chegaram a ela. Não sei detalhes, somos casados em regime de separação de notícias e não conversamos sobre o que se passa em nosas respectivas redações, porque há temas mais interesantes para tratarmos em casa.
Como disse, ela faz matérias, a partir da sucursal de Brasília sobre qualquer governo, no âmbito federal. E é muito respeitada pelas autoridades do governo Lula, como foi no FHC. Secê tiver dicas boas, com informações confiáveis, sbre matérias a serem feitas em Brasília, serão bem vindas.
Te comento uma coisa: a imprensa, em geral, é muito reticente em fazer matérias sobre outras empresas de comunicação concorrentes e suas estratégias de marketing, a menos que haja informações muito concretas de irregularidades. Foi o caso, v. deve se lembrar, da matéria da Folha sobre o uso de verbas do governo tucano paulista para financiar publicações simpáticas ao governo local, entre elas a Primeira leitura, do reinaldo Azevedo. Foi assunto tratado em destaque pela Folha, e, coincidentemente, a primeira Leitura ficou sem condições de sobreviver financeiramente pouco depois. Fechou.
O Olivieira pode ser o canalha da redação, mas pelo menos não é sangue de barata e sabe responder no nível adequado.
Mas me obriga a fazer o meio de campo, João. Eu já disse ao idelber que ele exagera (acho até que erra a mão) às vezes, quando se empenha em algumas das cruzadas dele, mas continua sendo um de meus maiores amigos nesta blogosfera. O Oliveira sai dizendo o que lhe vai à cabeça e eu tenho de explicar que não é para tomar as palavras literalmente, é força de expressão...
Ah, esses malditos radicais...
Dizem que inteligência vem da capacidade de ligar as coisas, de modo a fazer sentido, a partir dos elementos que estejam a disposição.
Da mesma maneira que com esse mecanismo, é possível elaborar teorias como a da Relatividade, ou a Física Newtoniana, também é por isso que surgem as superstições, ao unir coisas que não fazem o menor sentido.
Para conduzir as coisas para o lado racional, é indispensável que se promova o acesso à informação, e é este o lado mais pobre do nosso país.
Não só há o viés das fontes de informação, como também, não existem políticas públicas de acesso a informação.
Assim, ficamos a mercê de alinhamentos de pensamento perigosamente uníssonos, que provoca tanto a condução de opiniões, como também a reação de se levantar contra essa hegemonia, ainda mais quando esta é exercida de maneira tosca e deselegante.
Assim, muito tempo é perdido entre "situacionistas" e "oposicionistas", cada qual apenas com sua opinião enviezada, e levando isso como se fosse uma rinha de torcidas organizadas.
Aquela pergunta difícil, aquela informação que falta, a pecinha do quebra cabeças ausente é o espaço onde se espera (talvez demais) de um trabalho jornalístico. E é aí onde vão surgir as soluções, e se afastam as crendices e mitos.
Só para assinalar, é por conta de um processo da criticada Folha de São Paulo que se disponibilizaram o acesso às Verbas Indenizatórias (Eita nome farso) da Camara Federal. Aquela uma do "Senado secreto", essa ainda se encontra no umbral da inacessibilidade. Nunca vi nenhuma pessoa defender tão ardorosamente a abertura dessas "caixas pretas" como se digladiam as opiniões - a quem esperam alguma atitude? Da mesma Folha??
O dia em que nos erguermos além da visão de torcedores de futebol, maniqueístas e dicotomizados, talvez estejamos fazendo finalmente um grande avanço na nossa maturidade política coletiva. Esta, por sua vez, talvez padeça ainda da imaturidade de uma democracia tão jovem, ainda praticamente na adolescência, ainda acreditando em histórias de carochinha contadas pela TV, ou por lideranças partidárias e "formadores de opinião".
A questão é muito simples: a escola superior (de qualquer área) forma futuros empregados.
Toda a estrutura acadêmica, salvo exceções raríssimas, faz questão de dizer que prepara os jovens "para enfrentar o mercado de trabalho".
Empregado, funcionário "com carteira assinada" é pago para obedecer ao patrão. No caso dos jornalistas, o que vemos é que os funcionários dos jornalecões, almanaques semanais e redes Goebbels simplesmente são extensão ideológica dos seus patrões. Para isso não é preciso diploma.
Além disso, o nível de português da grande maioria destes profissionais, mormente os do rádio e TV, é deplorável. É comum você ouvi-los dizer "pegar ele", "adêvogado", "pra mim fazer", etc.
E para terminar, o nível intelectual dessa turma está no rodapé. As matérias que se lêem nos jornais estão cada vez mais pobres, rasteiras, sem graça.
Então, na prática, acho totalmente dispensável o diploma. Até porque a mídia está mudando de mãos, os jornalecôes estão em processo de extinção e os milhares e milhares de blogs estão cada vez mais fortes. A grande maioria, diga-se de passagem, administrados por não-jornalistas.
Essa é uma visão cínica do jornalismo que é compartilhada por alguns jornalistas mas não por mim, caro Roberto. Não me considero nem à minha mulher (que também é jornalista) nem à maioria dos amigos que tenho "simplesmente exptensão ideológica dos patrões". Encontro mais inteligência nos jornais do que em muitos dos ambientes que frequentei e frenquento (e frequento bons ambientes, te asseguro). E acho que há coisas muito ruins nas rádios e tvs, como também há coisas muito boas.
Os jornalistas são mais expostos, seu trabalho é mais aparente. Muitas das críticas que v. levanta contra eles poderiam tranquilamente ser dirigidas aos professores universitários (troque "patrões" por "colegiado") ou aos médicos, ou aos advogados. Gostaria que essa fúria contra os jornais fosse dirigida para um alvo mais produtivio: pela melhoria do ensino nas escolas de Comunicação, e pela criação de observatórios imparciais de imprensa, com financiamento público mas independentes de orçamentos do Executivo.
Pois é Sergio,
Não sei se entro novamente de gaiato, mas é ainda o contexto daquela pergunta que fiz a você (sobre os jornalistas, e não você) que parece estar em jogo. Naquela ocasião, o caso do blogue da Petrobrás: como podem os holofotes da imprensa resumirem a cobertura a meros juízos de gosto (aprovando ou reprovando a criação do blogue), sem nenhuma análise que tente responder "porque esse blogue, nesse momento"? Ora, dizer apenas que é um "ataque à imprensa" ou o mecanismo de alguém "acuado" não responde nada sobre as funções da criação do blogue.
O mesmo para o caso Sarney. Acabei de postar no Catatau a seguinte frase dele, que "explica" a "crise": "Estamos num período de exaustão do modelo de democracia representativa". Não é grave vermos um Senador da república explicar uma situação na qual é agente como se fosse mero paciente, espectador dos acontecimentos? Certamente espectador ele não é. Mas não há ninguém para direcionar os holofotes a isso, tentar analisar que tipo de mecanismo é esse, o que implica dizer isso? Enfim, tudo novamente se resume a juízos de gosto (o Senado agrada/desagrada, Sarney agrada/desagrada, tem/não tem briografia), e ninguém se põe a analisar, problematizar, e eventualmente deixar o rei nu.
Alguns dias atrás, sobre a mesma crise, um senador dizia na Globo News: "se houver pressão popular, provavelmente haverá mudança". Novamente, não é grave um senador assumindo que se o Senado se auto-regula de direito, não o faz de fato? Que as funções que a priori cabem aos senadores apenas se exercem sob pressão externa? Que, enfim, o senado não cumpre de fato suas funções de direito? Aí está uma perfeita discussão pública que poderia ser explorada por jornalistas, mas pelo menos eu quase nunca encontro links do gênero.
Aí podemos encontrar alguns textos exemplares e analíticos, garimpando muito os links. Mas isso não é regra. Os grandes "holofotes" da mídia não se assemelham mais à lanterna de um vigia sonolento do que ao olhar de um atento cirurgião? ;)
(espero ter sido compreendido melhor!!)
A melhor coisa dessa discussão toda, até agora, foi o "valhacouto", Sergio! Justificou seu diploma :) Mas vai dizer que você aprendeu a escrever, ou a pensar, ou a ter ética na faculdade? Antes de me formar em psicologia (outra profissãozinha bem corporativista, por sinal), cursei 2 anos de comunicação na PUC (rio) e achei o curso fraquíssimo no geral, apesar de ter conhecido 2 professores fundamentais pra minha formação. Então imagino que, com o fim da reserva de mercado, as faculdades não vão acabar, pelo menos não todas. Mas terão que oferecer mais que um diploma vendido a prestações (ou paqo pelo governo), terão que investir em atualização, em bons professores e num conteúdo que justifique o investimento. E os jornalistas éticos, competentes, e não necessariamente formados em jornalismo, continuarão a surgir como desde muito antes do curso ser regulamentado.
Como em qualquer área, o mercado há de separar o joio do trigo, nem sempre pelos melhores critérios mas enfim. E aposto que você vai continuar a nos alimentar com seu trigo de primeira em forma de pão quentinho. Porque não há nada que substitua um jornal - de papel - pra começar o dia, e duvi-de-o-dó que os "altos acadêmicos" dispensem este saudável hábito diário, perfeito pra acompanhar a "meditação" matinal.
Beijos.