"Duchampiana" Foto:Sergio Leo
Oliveira, o canalha da redação, disse que a apresentação da Sabados, nos parágrafos aqui embaixo, está cheirando a conversa de cineasta bêbado no Amarelinho. Portanto, se você está sem disposição para cascata, passe direto às seções, logo adiante.
Soterrado, neste ano, pela exuberância barroca do Carnaval, o aniversário de cem anos do futurismo, em fevereiro, passou meio sem festa por aqui. Uma (boa) matéria ou outra, algum comentário, e ficamos assim, sem falar da extraordinária ligação entre a euforia utópica e otimista da turma do Marinetti e a situação que vivemos agora. Essa situação de esfrangalhamento da utopia liberal, que previa a chegada ao paraíso pelos caminhos da cobiça e da maior lucratividade dos fatores de produção _ fatores de produção é aquilo que se bota para produzir, para gerar riqueza, coisas como nós, seres humanos.
Para os modernos, os do século passado, o futuro nos reservava o progresso, a humanidade tendia necessariamente à evolução, toda transformação obrigatoriamente melhoraria o mundo. É mais ou menos a mesma crença dos que defendem a qualquer custo a agricultura transgênica e as tecnologias que nem dominamos direito, pela fé cega de que seus riscos não são nada perto das vantagens imediatas.
A crise, a Argentina, o funk e o Big Brother Brasil estão aí para mostrar que nem sempre a humanidade caminha para a frente. O que se chamava de atraso (na economia, bancos que não especulavam no mercado de derivativos, por exemplo), se revelou essencial para garantir o futuro; o que se imaginava perdido no passado (certos políticos de má história) voltam e dão as cartas no presente.
Nesta sábados, trazemos um sítio curiosíssimo, com um post ainda mais interessante sobre futurismo, temos mais uma análise percuciente do nosso Maurício Santoro, falamos de aborto....
E 2009 também é o centenário do nascimento de Patativa do Assaré, que achamos muito porreta aqui no Sítio, mas de quem não temos nenhum disco. Em homenagem ao cabra, falamos de cearenses, numa seção mais abaixo.
CULTURA
9. Ridicularizemos a necedade dos discursos bélico e totalitário, o fanatismo da concorrência, do mercado livre e do deus e dos seus profetas crucificados ou barbudos. Glorificaremos o pensamento solidário independente e a liberdade de podermos ser queer.
10. Nós queremos que a arte seja uma força capaz de transformar a vida, queremos a abolição da separação entre arte e comunicação de massas. Exigimos que os executivos entreguem o poder sobre os meios de comunicação aos agentes criadores e que o acesso à cultura, à informação e à educação seja livre e gratuito. Lutaremos contra o moralismo, o patriarcalismo, contra toda a cobardice oportunista ou oligárquica.
Como todo manifesto, esse, feito por um grupo original, os paratradutores, tem um quê de ridículo e de arrogante. Eles pratraduzem uns dois outros manifestos históricos, num blogue que tem posts surpreendentes, e uma proposta que pega muito bem em certos altos círculos intelectuais: não basta traduzir as palavras, tem de encontrar alternativas que tragam, junto, o ambiente cultural do texto original. Ou coisa parecida. Ssuspeito que tem a ver com essas idéias do Idelber AQUI.
Vale começar o passeio no blogue pelo texto sobre o futurismo, AQUI.
POLÍTICA
Havana não está entusiasmada com o novo presidente dos Estados Unidos, porque acredita que seus ganhos diplomáticos em outros tabuleiros - América Latina, União Européia, China e Rússia - superam em muito eventuais concessões que teriam que ser feitas para consolidar a abertura em Washington.
O que fará Obama de Cuba? Maurício Santoro comenta, AQUI.
NOSSA GENTE
Passei a infância em Fortaleza, onde, além de ter injetado nas veias o ódio a José de Alencar, com quem nos torturavam todas as professoras de Português no primário e no ginásio, aprendi, criança, sobre as plurifacetadas maneiras de usar a carnaúba e pude ver de perto obstinação combativa do povo cearense. Já naquela época, a Florinda Bolkan estava aí para mostrar que o destino dos meninos réios amarelos que deslizavam nas dunas em frente ao Iate Clube era, um dia, pertencer à elite mundial. Entrar no universo das celebridades globais, enfim.

Mas eis que na blogosfera um sítio novo se dedica há algum tempo a mapear esses cabôco arretados, que deixaram para trás seus buchudinhos para tentar a sorte bem longe de Itapipoca, Hidrolândia, Ibaretama, Groaíras... Dois desses cabras da peste estão com foto aqui, nesta seção da revista. Mas tem muito mais, para provar que cearense, para o mundo, é como canadense para os Estados Unidos: arriégua, quando você menos suspeita, estão ali os macho véio.
Respeite: são os Cearenses Internacionais. Ôxe.
JORNALISMO
A imprensa era fundamental por uma razão simples: a propriedade dos meios de produção e distribuição de informação pertencia a poucos. Era caro ter uma prensa, como ainda hoje é caro possuir uma emissora de TV ou mesmo uma rádio. Mas a partir do momento em que, como definiu bem o Pedro, puseram uma rotativa nas mãos de cada cidadão, esse monopólio deixa de existir.
Essa mudança tem sido muito mais rápida do que jornalistas gostariam, e isso é mostrado por uma certa reação à novidade. Por enquanto, os momentos em que blogs trouxeram à tona casos importantes ou mesmo derrubaram jornalistas consagrados como Dan Rather são levados em consideração como casos isolados. São, mesmo. Mas é preciso ter uma coisa em mente: essa é uma mídia que mal completou dez anos. Qual outra teve impacto tão grande em tão pouco tempo, no aspecto da defesa da democracia e de influência política?
O Rafael Galvão está querendo briga com jornalista. Eu já entrei nela. AQUI.
ARTE
O que acontece quando encomendam a uma designer umas imagens para ilustrar o ano da França no Brasil; e suas referências são sofisticadas demais para os leitores acostumados até a saborear comida de avião? A Joana conta, AQUI.

Religião
"Por que raios todo cara que é contra o aborto é gente com quem não querermos transar pra início de conversa?"
O Rodrigo Afhganistan (sei não, tenho uma vaga desconfiança de que é pseudônimo) entra nesse debate chatíssimo e terrível sobre direito ao aborto e outras histerias da direita com um arrasador comentário do George Carlin, infelizmente em inglês corrido, coisa de Hermenauta. Uma boa razão para se matricular no Yazigi (ou em alguma escola que o Idelber considere melhorzinha).
"Conservadores querem bebês vivos, porque podem crescer para tornarem-se soldados mortos".
Esse Carlin é mau. Muito mau.
JUSTIÇA
o Radiohead está sem tocar ao vivo há quase dois anos. Me pergunto se isso não opera como uma geração artificial de escassez pelo bem "show do Radiohead" de modo a aumentar as receitas dos "tours" de forma a compensar a perda de receita com a pirataria.
O hermenauta pontifica sobre direito autoral. AQUI.
ECOLOGIA
Uma comunidade perto de Chennai, na Gangaikondan, já realizou grandes protestos contra uma fábrica da Coca-Cola. No estado de Kerala, na aldeia de Plachimada, a Coca-Cola não pôde abrir as suas instalações de engarrafamento pois a comunidade não permitia. A empresa é responsável por criar escassez da água e poluir o restante da água e do solo.
Curioso: no blogue dos paratradutores, que cito lá em cima, tem um post sobre a briga dos indianos contra a Coca-cola, que serve de pretexto para um vídeo imperdível de um poema concreto do Décio Pignatari sobre o refrigerante. Agora é o coletivo do Faça a Sua Parte, aqui do Verbeat, com minha querida Lucia Malla, que conta a históriada água da Índia afetada pela multinacional. Essa eu acho que não vão mostrar na novela. AQUI.
TURISMO
Na Islândia comemora-se o aniversário de 20 anos da liberação da cerveja. Antes do dia primeiro de Março de 1989 cerveja era ilegal na Gelolândia, e o pessoal por aqui costumava a beber principalmente vodka e a bebida nacional islandesa chamada Brinivin, que recebe dos bêbados locais o carinhoso apelido de "morte negra".
Nos dias da ditadura anti-cerverja era também comum os islandeses misturarem cerveja não-alcoólica, a única variedade permitida, com vodka para tentar chegar à algo próximo à cerveja que os estrangeiros de terras mais liberais tinham acesso. Essa mistura era chamada "bjorliki", ou "parecido com cerveja".
Encontrei esse pobre exilado brasileiro na terra gelada, que faz um blogue merecedor de visitas. Fala da rotina isladesa, em que, pelo jeito, por falta do que fazer, eles ficam inventando dia para tudo que é coisa. Hilariante. AQUI.
****
Essa edição de Sabados teria mais seções, mas estou exausto de tentar lidar com esse wordpress, que, depois de bagunçar os comentários do post, passou a se comportar de forma estranhíssima na edição de textos, já me obrigou a reescrever o post umas dez vezes. . Ficamos por aqui, e voltamos no próximo fim de semana. Até lá, contrato um exorcista para tirar daqui o ectoplasma do Clodovil, que vem nos secando. Sai desse blogue que não te pertence, coisa ruim!
######
2º clichê
Música
A Olívia e o Tiagón me explicam que andaram bolinando os blogues neste fim de semana, quem sabe veio daí a bagunça nas postagens. Mais uma vez, sou injusto com abesta do Clodovil, pobre finado. Então sinto a obrigação de acrescentar um link para o excelente Hipopótamo Zeno, que bem podia ser aqui do condomínio, só por causa desse atalho para a Betty Davis:
Aos 23 estava casada com um tal de Miles Davis, que tinha o dobro de sua idade, e a quem apresentou Jimi Hendrix, Sly Stone, o rock psicodélico e um guarda-roupa novo. Um ano depois estavam separados. Na sua biografia o trumpetista sukita reconhece que a Betty era "too young and wild" pro caminhãozinho dele.
O resto, AQUI.