Havia, faz tempo, no Congresso de um certo país, um deputado que presidiu uma comissão de defesa do Consumidor. Fez carreira com essa bandeira. Nos bastidores, comentava-se que ele fazia também muito dinheiro, cobrando de empresas que ameaçava chamar para depor na comissão, denunciar à imprensa e avacalhar com a imagem da companhia, caso seus executivos não colaborassem no financiamento de campanha.
Tentei por muito tempo que alguém desse detalhes da chantagem, informações que permitissem uma matéria, dados que sustentassem uma denúncia. Em vão; o sujeito continua por aí sua bem sucedida carreira política, acho que até tem programa de rádio.
O caso desse sujeito me vacinou contra paladinos da moralidade pública. A justa indignação contra a bandalha é manipulável pelos bandalheiros. Tem denúncia? Quero provas, e disposição do denunciante para ir até o fim. A maior parte das denúncias é feita por bandidos contrariados, santo não sabe o que se passa no bordel. Mas se a denúncia não tem resultados públicos, fique certo de que alguém, privadamente, aproveitou-se dela para tirar alguma vantagem.
Quando os jornais _ ou os blogues,o público, nós, otários, enfim _ embarcam nas denúncias vazias, ou mesmo nas denúncias cheias que fazem alarde mas depois não dão em nada, estão só servindo de alavanca para os espertalhões abrirem os cofres dos outros, ou a porta para a boa vida.
Vejamos, agora, o caso das CPIs dos fundos de pensão. Há duas maneiras de cobrir esse caso, uma a mais ingênua, cobrir a busca de assinaturas e as conversas com o governo como se o deputado Eduardo Cunha estivesse mesmo disposto a abrir uma CPI para investigar alguma coisa.
A outra maneira é a que o Noblat indicou hoje: o deputado, ele mesmo interessado em indicar nomes para fundos de pensão, parece querer outra coisa com sua CPI, uma CPI que vai investigar uma conhecida bandalha, o uso mal intencionado dos fundos de pensão _ mas que é bandalha já alvo de CPIs passadas que não deram em nada.
Vejo matérias tratando a CPI como se fosse coisa séria. Jornalismo seria desocobrir o que o deputado pede em troca do arquivamento da dita-cuja.
Diz o Noblat:
A CPI da chantagem
O deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) ganhou fama no Congresso como o mais pragmático dos parlamentares a por os pés ali nos últimos anos. Por pragmático, entenda-se o que cobra caro, caríssimo, por seu voto e pelo voto dos que o seguem.
Nada Cunha vota de graça. Com ele não tem essa de votar levando em conta "os superiores interesses do país", nem mesmo os mais legítimos interesses do governo que apóia sob condições. A Cunha, como a ninguém, aplica-se com perfeição a máxima de São Francisco: "É dando que se recebe".
Ocorre que para dar ele quer receber adiantado. Como o governo demorou muito a dar a presidência de Furnas para para Luiz Paulo Conde, indicado por ele, Cunha demorou mais ainda para emitir o parecer que permitiria a votação na Câmara da proposta de prorrogação da CPMF.
No que atrasou a votação na Câmara, atrasou no Senado - e ali animou a oposição a tentar barrar a proposta. O governo debitou na conta de Cunha parte da responsabilidade pelo sepultamento da CPMF, mas nada ousou fazer contra ele.
O PMDB de Cunha perdeu na semana passada a batalha pela troca de dois diretores do fundo de pensão dos funcionários de Furnas. Pois Cunha resolveu retaliar o governo: saiu à caça de assinaturas para montar a CPI dos Fundos de Pensão. É a CPI da chantagem.
Cunha não está nem um pouco interessado em passar a limpo as mutretas passadas, em curso ou futuras dos fundos de pensão das empresas estatais. Ele nada ganharia com isso. Talvez até se arriscasse a perder. A intenção da Cunha é amedrontar o governo e, se possível, extrair vantagem disso.
Não o subestimem.
Se ele desistir da CPI é porque foi beneficiado pelo governo de algum modo. Se ele insistir com a CPI é porque ainda não foi.
Pois é, a última notícia do dia, também registrada no Noblat, é que o indigitado Cunha parou de coletar assinaturas para sua CPI de bolso.
Agora é que está na hora de apurar o destino da CPI (ou do deputado que desistiu). Algum blogueiro se habilita?

Vcs tbm podiam cobrir o assunto abordando que se trata de uma briga da quadrilha do PT contra a quadrilha do PMDB. Mostrar a bandalheira que fazem uns e a bandalheira que outros pretendem fazer. Mas os jornalistas brasileiros continuam calhordas e vão continuar cobrindo parcialmente o fato.
Calhordas, edinho? Nossa, quanto ódio em seu coração.