Não li ainda o novo livro do Affonso Romano de Santanna. Fui a um seminário dele, esperando uma boa polêmica, algo assim como o "A Palavra Pintada" do co-inventor do novo jornalismo nos EUA, o Tom Wolfe, que faz uma crítica bem montada e muito sacana da arte contemporânea, a partir do expressionismo abstrato e seus gurus.
Mas não. Dr. Affonso pareceu menosprezar seu público. Depois de alinhar credenciais (soubemos que editou Otávio Paz, deu um jantar ao Michel Foucault, traduziu Roland Barthes, viajou a pampa pelos museus do mundo), ele jogou, entre piadinhas de filisteu, uma coleção de sofismas como que dizendo: olha, eu que sou intelectual pacas, acho uma empulhação essa arte contemporânea; vocês podem ficar aliviados em ter dificuldade de gostar desse negócio hermético, irritante, vazio, ofensivo. Vocês não gostam é porque é ruim mesmo.
Ah, mas ele diz gostar de certos autores, como Vik Muniz. O problema é que quis argumentar por quê. Poderia dizer que se encanta com o maneirismo da técnica bonitinha do cara, como a maioria. Mas disse que o mérito do Vik é não repetir coisas já feitas por outros artistas no passado e produzir obras trabalhosas a partir do lixo da sociedade de consumo. Affonso não deve ter lido o belo livro "Reflex, Vik Muniz de A a Z", em que o próprio Vik conta que a viagem dele é outra Essa história de usar dejetos para montar imagens e criticar a sociedade industrial um outro artista já fez, e mostrou até no mesmo MAM onde Vik Muniz encantou o Affonso. Foi Tony Cragg. Há quase 25 anos.
Falei dos sofismas do Dr. Affonso, vamos a alguns deles:
1) Por 2,5 mil anos, houve uma base comum ao que chamamos arte, e só no século XX esses conceitos básicos foram deixados de lado. É muita arrogância achar que estava errado o que se fez nos últimos 2,5 mil anos.
Ora, o Dr. Affonso parece desprezar as mudanças radicais por que passou o mundo no século XX. Mal comparando, fala como um faraó que se queixasse quando lhe disseram que, apesar de ter funcionado por quase quatro mil anos, esse negócio de escravizar gente para fazer pirâmide não é bem o ideal a ser mantido. Tempo não é documento, as coisas e os costumes mudam, às vezes radicalmente, caro Dr. Affonso. Claro, sempre haverá lugar ao sol para uma imagem bacana, renascentista, impressonista ou hiperrealista. Aliás, o Flickr está cheio delas.
2) Fizeram uma pesquisa e apontaram o urinol de Duchamp como a obra de arte mais importante do século XX; é como se nada mais do que se fez no século passado tivesse importância.
Ora, concorde-se ou não com esse ranking, dizer que uma obra de arte é A MAIS (e não a única) importante não signiica que não se considere a importância de outras obras. O urinol duchampiano influenciou legiões. Gente boa e gente que merecia estar na privada; mas não há como negar importância da "obra" (que não é o urinol em si, mas o ato, a performance, da qual o urinol é o resíduo).
3) Pelo que descreveu do próprio livro, Dr. Affonso critica a "hiperinterpetação" feita das obras de arte. Mas escolhe para a crítica não autores dedicados à popularização da teoria, ao público em geral, como Arthur Danto, ou Hal Foster, ou críticas jornalísticas da Art Forum, a referência do gênero (onde até, buscando, acharia textos herméticos, mais delirantes).
Ele vai pelo caminho fácil, metendo o pau em gente que, assumidamente, faz textos poéticos como exercício crítico: Otávio Paz, Roland Barthes, Giles Deleuze. Os dois últimos defendem que o texto flosófico escape da lógica cartesiana, forma, para que suas ambiguidades permitam visões que subvertam o lugar comum.
Perguntei o que o Affonso acharia se, como ele fez com o Barthes, alguém decidisse criticar a poesia da Marina Colassanti pegando o texto ao pé da letra e ridicularizando cada imagem poética porque não têm vínculo com a realidade. Minha pergunta ficou longa e ele me mandou calar a boca. Não respondeu.
4) Essa não é sofisma, é ignorância mesmo. Para atacar um texto em que Deleuze (ou Barthes?) compara Duchamp a Leonardo Da Vinci, Affonso reclamou que o filósofo usou até "folclores" sobre a suposta homossexualidade de Leonardo.
Ora, o "folclore" é tema de debate até hoje; está defendido por um dos textos mais famosos de Sigmund Freud, e um dos mais divertidos, em que ele aponta uma boilice platônica no gênio usando até a lista de compras do enterro da mãe como "prova"; e menciona um quadro famoso do Leonardo, "Sant'anna, a virgem e o menino". Coincidência, Sant'anna, no caso, é a avó do Cristo, não o Affonso Romano de.
4) Dr. Affonso comenta que nas várias vezes em que viu em exibição o Grande Vidro de Duchamp, não tinha ninguém em volta, interessado na obra. "A arte contemporânea é para ser lida, não para ser vista", sentenciou, solene.
Touché. Mais um pouco, ele seria capaz de descobrir por que o Michel Onfray disse que, depois de Duchamp, acabou o reinado do Belo na arte, e começou o do Sentido. Não se vê mais a arte apenas como produção de objetos para contemplação e elevação espiritual, há algum tempo.
Mas vamos ao argumento de sofista do dr. Affonso. Nas seis vezes em que visitei o mencionado "Sant'anna, a virgem e o menino", no Louvre, no corredor que dá acesso à muralha de japoneses fotografando a Monalisa, nunca vi ninguém apreciando o quadro. E olha que mereceu até capítulos do Freud, é uma das obras mais notáveis de Leonardo e, reparando bem, tem até um meio sorriso enigmático na avó do Cristo, manha de sombreamento que era uma característica do da Vinci. A obra, por isso, não tem importância?
Pelo critério de popularidade como medida de valor, do dr. Affonso, obra importante mesmo é a Xuxa, que reúne multidões à volta, em qualquer lugar em que esteja.
O dr. Affonso termina a palesta defendendo a procura de um "novo paradigma" para a arte. Defende que o paradigma dominante é o do pós-modernismo, como se a maioria dos apreciadores amadores e da população, em geral, não julgasse a arte de hoje pelo paradigma fundado no Renascimento, de cinco séculos atrás.
Claro, dr. Affonso não diz que "paradigma novo" pode ser esse. Pelo que disse no resto da palestra, acho que ficaria em algum lugar entre o Barroco e o Modernismo, com exceções abertas para alguns amigos contemporâneos da casa lá dele. Ele parece desconhecer todo od ebate sobre a ate contemporânea travado nos grandes centros e nas puiblicações especializadas. Não cita uma revista como a OPctober, onde uma crítica política e e filosófica forte vem sendo feita em relação aos ruimos da arte contemporânea. Dr. Affonso joga para a retranca, faz malabarismos dizendo atacar os sofismas e sofisma ele mesmo, sugerindo uma confortável inérica mental aos leitores, a qum sugere menosprezar arte e críticos contemporâneos.
Cansei. Meu teclado está uma merda, o Wordpress está me sacaneando; se quiserem conto depois outras do dr. Affonso. Creio até que ele não aja de má fé. Intrigado e incomodado com a arte contemporânea, quis entendê-la, criticá-la, produziu até obras para isso; mas, com a popularidade de seus panfletos, passou a dar palestras engraçadinhas, reduzindo a gracejos irresponsáveis o que poderia ser uma séria apresentação de seu livro.
Pela palestra de apresentação/resumo do livro, vou deixar aos amigos a leitura da obra affonsiana. E continuar recomendando, a quem quiser meter o pau na arte de hoje em dia, a leitura do velho "A Palavra Pintada", do Tom Wolfe. É mais sólido, e tem bem menos páginas.

Oi Sérgio, já assisti a uma palestra do Affonso Romano Sant'Anna aqui em BH e te confesso que essa cruzada dele contra a arte contemporânea é uma das coisas mais bizarras e mal-informadas que eu já assisti. Quando ele fala que existiu um debate de dois mil e quinhentos anos, em minha opinião, ele despreza completamente que esse debate foi o tempo todo marcado por rupturas e por buscas bastante específicas.
Ainda na seara dos poetas que buscaram as artes visuais como referência, um dos meus livros favoritos é o do João Cabral sobre o Miró. No ensaio ele trata muito desse desenvolvimento e, ao meu ver, de uma forma muito apropriada.
O Renascentismo tinha uma base científica grande, busca descobrir uma fórmula do pintar, instituir uma linguagem em que a perspectiva era o centro de tudo. A medida que essa descoberta foi sendo esgotada, a arte foi buscar o conhecimento em outras searas. Foi explorar outra busca.
O engraçado é que na ciência isso também aconteceu. O questionamento dos paradigmas científicos, a relativização de referenciais, isso tudo é coisa de gente que ama a tradição que foi construída anteriormente, mas que quer avançar com o pensamento, quer ir mais longe.
Fora que quem nega a beleza do Warhol, de um Beuys e mesmo de um Duchamp, para mim é gente que tem muito amor ao ego pra ter qualquer abertura pra se maravilhar pras coisas.
Concordo que no mundo das artes existe muita picaretagem valorizada por um mercado altamente rentável e supervalorizado, mas ao mesmo tempo, mas é muito triste como todos esses polemistas da arte colocam a polêmica em torno da compreensão ou não de uma obra de arte, como se isso fosse o valor de qualidade, é muito populismo.
E o pior é que muitos desses ataques atualmente vem de gente da literatura. Dá vontade de perguntar pra eles por que o Ezra Pound é tão pouco lido e menos compreendido? Ele era também um falsário das palavras? Os que dizem que gostam de Grande Sertão Veredas também devem estar mentindo, afinal o livro também demanda esforço? Não é possível obter prazer com essa dificuldade, com essa descoberta?
O que eu não entendo é gente preguiçosa que só aceita a arte pelo viés da contemplação fácil. Já que é assim, em minha opinião o sr. Romano Sant'Anna deveria estar alugando a coleção de DVDs do Hugh Grant ou da Julia Roberts. Faria melhor a ele. É uma fórmula que se não é milenar, pelo menos é bem mais consagrada que a dos Leonardos da vida.
Muito obrigado pelo comentário, Lauro. O pior é que dr. Affonso confia na ignorância da platéia, o que torna ouvir a palestra experiência ainda mais humilhante. Imagine que ele acusou o Yves Klein de ser uma imitação tardia do Maliévich, porque o russo criou no início do século o "quadrado preto sobre fundo branco" e o Klein fez enormes telas monocromáticas e, segundo o dr. Affonso, ó se fez notar na arte como provocador, inventor de uma cor azul própria.
De fato, Klein era um provocador, e tornou notável seu "azul klein internacional". Malievich, operando num mundo de arte figurativa, abriu um novo caminho com seus quadrados monocromáticos sobre fundos também de uma só cor, ao buscar o que chamou de suprematismo, uma tentativa meio mística de fugir necessidade de representar o real, o visível, das finalidades práticas, e produzir obras puramente intelectuais, o que chamou de "criação pura da arte".
O Klein, que também era meio místico, parte daí, claro, mas vai além. Propõe criar estados imateriais, a partir enormes campos de cor; transforma a cor, de elemento da obra, na obra em si; mistura pintura e performance ao usar pessoas vivas como pincéis (chamando atenção para um tipo de pintura "realista" que contraria as noções acadêmicas).
Há um profundo humor no Klein, que tem de ser compartilhado por quem vê suas obras; mas o dr. Affonso não tem humor, ele quer o artista-amanuense, que bate ponto na pedreira e emite recibos estéticos para a contabilidade dos críticos ...
Pois é, e parece que o douto poeta não entende de ironia e de bom humor em nenhum sentido. O interessante no caso do Klein é que esse humor sempre tem a ver com a imagem. A piada é essencialmente para os olhos e isso para um cego funcional como o Romano Sant'Anna é complicado.
A conversa dele é sempre no sentido de que ele desmontou o discurso do Duchamp com técnicas de análise do discurso. Numa boa, parece papo de picareta de livro de auto-ajuda. Eu fico meio com pena.
O que me incomoda mais é que é um discurso pra pessoa se imobilizar. Nunca é uma crítica pesada pras pessoas pensarem um modelo novo de arte, pra elas irem buscarem coisas novas. Não, é um discurso pra elas se manterem na ignorância delas.
Eu tava conversando com o meu irmão, o Tiago, que também colabora aí. E ele que é crítico de arte tava me falando como boa parte dos escritores brasileiros sempre simpatizaram com o que havia de mais conservador na arte. Segundo ele, as exceções principais seriam o já citado João Cabral, o Murilo Mendes e os concretos. O Ferreira Gullar também pode entrar no time, mas mais pelo passado do que pelas suas opiniões sobre arte hoje.
O mais curioso é que isso se repete mesmo em escritores jovens.