maio 2009 Archives

Sinto que perco amigos em potencial cada vez que minha pulsão para a polêmica me leva a defender aqui uma tese extremamente impopular. A que defende a imprensa contra a tese de que existe, no país um "partido da imprensa golpista".

Não quero defender algum órgão de imprensa ou jornalista em particular. Nem nunca defendei que não há erros na imprensa. O que me incomoda, e apavora, é o maniqueísmo implícito em certas análises sobre a imprensa, que simplificam de forma rasteira a realidade e repetem velhos erros da esquerda.

Me assusta o grau de dogmatismo nas caixas de comentários de certos blogues (e nisso a esquerda até se sai melhor; é franca a maioria de descerebrados salivorréicos entre comentaristas "de direita" na blogosfera). É assustadora a incapacidade mostrada pelos comentaristas de entender a diferença, aceitar que haja visões distintas da realidade.

Não considero que uma pessoa com idéias opostas às minhas esteja agindo necessariamente de má fé. Não creio que grupos com opiniões e convicções distintas das do meu grupo sejam necessariamente conspiradores mal intencionados decididos a apagar da face da terra os valores que defendo.

Creio que uma democracia (é, acredito na possibilidade de democracia) exige a capacidade de lidar com a diferença. Há limites, e há conflitos, mas o benefício da dúvida é um direito que dou a todo oponente. É o que me guia no trabalho jornalístico. Sou uma pessoa com muito poucas convicções, uma delas é a certeza de minha enorme ignorância sobre as coisas do mundo. Poucas de minhas certezas são inabaláveis. Prefiro assim.

E, quando vejo pessoas rilhando dentes em caixas de comentários, atribuindo aos erros dos jornalistas (e aos vícios de alguns) intenções de organização criminosa, articulações de conspiradores golpistas, lembro sempre de um autor interessante, o Ariel Dorfman.

E porque amanhã é sábado...

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Una Mujer desnuda y en lo escuro

Una mujer desnuda y en lo oscuro
tiene una claridad que nos alumbra
de modo que si ocurre un desconsuelo
un apagón o una noche sin luna
es conveniente y hasta imprescindible
tener a mano una mujer desnuda.

Una mujer desnuda y en lo oscuro
genera un resplandor que da confianza
entonces dominguea el almanaque
vibran en su rincón las telarañas
y los ojos felices y felinos
miran y de mirar nunca se cansan.

Una mujer desnuda y en lo oscuro
es una vocación para las manos
para los labios es casi un destino
y para el corazón un despilfarro
una mujer desnuda es un enigma
y siempre es una fiesta descifrarlo.

Una mujer desnuda y en lo oscuro
genera una luz propia y nos enciende
el cielo raso se convierte en cielo
y es una gloria no ser inocente
una mujer querida o vislumbrada
desbarata por una vez la muerte.

Esse é o Mário Benedetti, que morreu pra voce, filho ingrato.

O texto, roubei daqui.

Umberto, o Eco original

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"O formato de disquete de computador já desapareceu. Não durou 30 anos. Se tenho de deixar uma mensagem á posteridade, o farei em forma de livro e não em suporte eletrônico".

Esse é o Umberto Eco, falando de meio e de mensagem. Cheguei na entrevista (AQUI), por um blogue mágico, sobre literatura, espanhol. Esse AQUI.

Ele defende umas idéias estranhas, como a de que a onda de blogues se assemelha a das rádios livros de décadas passadas, que começaram muito vibrantes e acabaram todas um pouco parecidas umas com as outras. Foi numa palestra, mas o que temos é apenas um aperitivo do que ele falou, numa reportagem divertida do Publico, jornal espanhol.

Nas décadas de 70 e 80, o Eco marcou época com um livro _ lembrado na matéria do Público _ em que dividia os teóricos de comunicação em Apocalípticos e Integrados _ os primeiros com uma visão pessimista sobre o avanço tecnológico, defendida especialmente pela chamda Escola de Frankfurt; e os segundos, gente como Marshal MacLuhan, autor dos famosos A Galáxia de Guttenberg e O Meio é a Mensagem, em que fazia uams teorias esquisitas sobre as diferença entre meios tradicionais de comunicação e meios eletrônicos, e previa a aldeia global em que estamos cada vez mais reunidos.

Hoje, numa melange bem pós-moderna, teóricos são ao mesmo tempo apocalípticos e integrados, peocupam-se com o poder corruptor da indústria cultrual e dos grandes grupos de comunicação e, ao mesmo tempo, acreditam na revolução midiática proporcionada pela cooperação coletiva no ambiente virtual.

Alquimias da Internet, projeto que nasceu nos frios úteros do aparato militar norte-americano e hoje se espalha pela terra, como praga e como benção.

A China e a polifonia no Estadão

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Rolf Kuntz e Giles Lapouge são ambos, enormes intelectuais. O Giles já foi matéria de capa da Magazine Literaire revista de peso nas letras francesas, que o cobriu de elogio. O Kuntz é professor prestigiado na USP, tradutor de Keynes, uma cabeça.

Hoje, como costuma fazer, o Rolf mete o malho na política externa, e o alvo são o que considera ilusões do Planalto e do Itamaraty com a China:

Madeira, um parente querido de farta experiência na indústria química e farmacêutica, cobra nos comentários de um post abaixo meus pitacos sobre patentes, propriedade inetlectual, esas invenções liberais desvirtuadas pela ganância. Não, Madeira, não defendo um liberou geral; mas acho que há sérios abusos nesses sistema de direitos de propriedade intelectual, que prejudicam pesquisas em universidades, aumentam custos para usuários e consumidores e reduzem a competição.

A excelente revista Serrote, recém-lançada pelo Instituto Moreira Salles, traz um artigo sobre essa questão, no mundo das publicações científicas e bibliotecas universitárias. Mundo em que o Google promete fazer um terremoto, com um virtual monopólio na distribuição virtual de dados hoje guardados em bibliotecas.

É um caso que já vem sendo tratado nos blogues e jornais, o do acordo firmado pelo Google com os detentores de direitos de autor nos EUA, que pode afetará sem ginga nem finta a vida de todos nós, leitores. Para quem não acompanhou, a Serrote dá um belo resumo:

Depois de ler o acordo e compreender seus termos - o que não é uma tarefa fácil, já que ele tem 134 páginas e 15 apêndices de "juridiquês" - pode-se ficar embasbacado: eis uma proposta que poderá resultar na maior biblioteca do mundo. Seria, é claro, uma biblioteca digital, mas poderia fazer sombra à Biblioteca do Congresso e a todas as bibliotecas nacionais da Europa. Mais ainda, na busca dos termos do acordo com os autores e editoras, o Google conseguiu se tornar também o maior negócio de livros do mundo - não uma cadeia de lojas, mas um serviço de fornecimento eletrônico capaz de superar a amazônica Amazon.

Uma empresa em tamanha escala está fadada a provocar reações dos dois tipos que estamos discutindo: de um lado, entusiasmo utópico; de outro, lamúrias sobre o perigo de concentrar poder de controlar o acesso à informação.

O resto, AQUI.


Em mais uma semana, apesar da falta de apoio dos leitores deste blogue, estarei falando sobre Argentina para argentinos, e, claro, aproveitarei para um café com minha amiga Janes Rocha, correspondente do Valor e blogueira de primeira. Ela conta no "Cesta Básica" dela que encontrou uma mulher dirigente de banco árabe, e ouve dessa executiva detalhes sobre o funcionamento de bancos em uma religião que os proíbe de cobrar juros.

Leitura prazeirosíssima, AQUI.

O egípcio da Unesco brinca com fogo

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Não fosse o desejo do senador Cristóvam Buarque de defender a nobre causa da educação instalado com salário e mucamas às margens do rio Sena, duvido que o Brasil estivesse acompanhando com tanto interesse as eleições para dirigir a Unesco, cargo que poucos brasileiros sabem ao certo para que serve, mas que eu não recusaria, mesmo com aquele trânsito todo de Paris..

Há pouco tempo, criticavam o governo por candidatar brasileiro a todo tipo de posto em organização mutilateral. E criticavam por perder _ botaram na conta do Itamaraty até a candidatura ao BID, lançada pelo ministério da Fazenda contra a vontade da diplomacia, que via na disputa um fracasso certo.

Agora Celso Amorim diz que tem de apoiar o candidato egípcio porque ele tem o apoio da maioria dos árabes e africanos na Unesco, o que lhe garante a vitória, e os árabes são os únicos que ainda não presidiram a instituição.

Bom argumento, mas o cara vai ser pior que piano de cauda levado ans costas, um peso de rachar coluna. Não faz muito tempo, para se contrapor às críticas que o apontavam como brando demais com Israel, disse que queimaria os livros em hebraico que encontrasse na biblioteca de Alexandria.

Ontem, chegou ao Rio, encontrou o experiente Zé Meirelles Passos e tentou consertar a frase infeliz. Mas é pior que remexer esterco, quanto mais toca na coisa, pior fica.

Porque o PSDB vem voando para a direita

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Certa feita, o ex-governador Leonel Brizola disse que "o PT é a UDN de macacão". Essa frase não se explicava apenas pela notória destreza verbal do caudilho gaúcho e pela histórica rivalidade de seu trabalhismo decadente com o obreirismo emergente do PT. Ela também se justificava pela crítica à postura de oposicionismo contumaz e desleal, associada a um empedernido moralismo, que marcava o partido de Lula na época em que a conquista do governo federal ainda se encontrava algo distante. Chegava-se ao ponto de que mesmo nos estados e municípios em que o partido conquistava governos, certos petistas reivindicavam que se fizessem "governos de oposição" à administração federal do dia - priorizando a desestabilização dos adversários no plano nacional em detrimento da condução de sua própria administração.

Poder-se-ia concordar com Brizola e notar neste traço uma real semelhança com a velha UDN. Afinal, o partido de Magalhães Pinto, Milton Campos e, sobretudo, Carlos Lacerda, não poupava esforços na desestabilização de seus adversários varguistas no governo federal - em particular o próprio Vargas, levado ao suicídio. Mas a orientação para o oposicionismo contumaz do PT - afora o mesmíssimo oportunismo na busca do poder - provinha de uma matriz ideológica distinta daquela da UDN.

Esse é o Cláudio Gonçalves Couto, no Valor de hoje, com um artigo, "A udebnização do PSDB" excelente, que está fazendo sucesso. Blogueiros mais ilustres já reproduziram o texto nas páginas deles, mas não resisto a botar aqui no Sítio também. Enquanto espero leitores piedosos que atendam a meu apelo no post abaixo.

Segue o Cláudio:

E dos argentinos, que me dizem?

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Parto na semana que vem a Buenos Aires, a convite da Universidad Tres de Febrero para participar de uma mesa sobre opinião pública e política externa. Fiquei curioso em saber o que os frequentadores deste Sítio pensam de um dos temas da mesa: como a opinião pública brasileira vê a Argentina, e a política externa do governo Kirchner.

No ano passado, chamado para o mesmo seminário, resolvi fazer uma enquete com a opinião publicada, e entervistei sobre o assunto os editores dos maiores jornais do país. Lá em Buenos Aires, contei aos participantes que a opinião pública brasileira, pelo menos a que edita os jornais, ficaria surpresa se descobrisse que a Argentina tem uma política externa. Pelo jeito, franqueza da Ibope; me chamaram de novo.

Então, que me dizem? Não precisa ser especialista para comentar. Quero saber, sem firulas, que imagem têm da Argentina. Estou gostando dos comentários que pingaram até agora.

(2º clichê:corrigi e ampliei esse post, depois que minha pressa deixou aqui umas linhas cheias de erros de digitação e mereci até gozação do Luis Favre _ que, claro, só podia ser argentino.... (-;)

O meu, o seu, o nosso copo americano

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Copo.JPG foto: "copo", sergio leo
Visita que bebe lá em casa costuma receber, com o copo, um discurso em defesa do legítimo copo de boteco, uma das manias da Marta, que me comprou umas duas dúzias do bichinho; o supra-sumo do design, diz ela.

E não é que é mesmo? Ela hoje veio eufórica me mostrar essa matéria da Folha:

Designers do Brasil expõem e vendem criações na loja do Museu de Arte Moderna de Nova York; alguns produtos são comercializados aqui

DÉBORA MISMETTI
DA REPORTAGEM LOCAL

Uma visão americana do estilo de vida brasileiro está exposta na loja do Museu de Arte Moderna de Nova York, o MoMA. A mostra "Destination: Brazil" reúne mais de 75 produtos criados por designers brasileiros. Os objetos estão à venda e também podem ser comprados pelo site da loja do museu (www.momastore.org). Alguns são vendidos no Brasil.
A seleção da mostra foi feita por uma comissão de diretores do MoMA, que visitou feiras de design e showrooms no Brasil.
Marco Pulchério, dono do showroom de design Marco 500, de São Paulo, auxiliou na curadoria. Algumas peças precisaram de adaptações para atender o mercado americano. "Havia vasos muito grandes, então recomendamos que o designer fizesse uma versão menor. As casas lá não são tão amplas", diz Pulchério.
A seleção do MoMA inclui uma bolsa com a bandeira do Brasil, mas símbolos nacionais e artesanato não predominaram. "A comissão se encantou com a cerâmica, com as peças de resina e com a mistura de materiais", diz Pulchério.
O estilo de vida brasileiro surge em citações discretas de trabalhos manuais, como no brinco Colmeia, de Camila Sarpi, com bordado sobre o metal. O banco Bate-Papo, de Flávia Pagotti, é inspirado nos tradicionais móveis caipiras cujos assentos são próximos do chão. O copo "americano" Nadir Figueiredo está lá também, por US$ 3 a unidade.


E tem gente que ainda acha chique comprar no Moma aquele inviável espremedor de fruta do Phillppe Starck...

Patentes, remédios e o Mickey Mouse

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Patentes.jpg

As patentes são uma invenção liberal. Para disseminar o conhecimento produzido por gênios de quintal na revolução industrial, os anglo-saxões desenvolveram um sistema pelo qual o inventor receberia uma remuneração para deixar que outros usassem seus inventos, espalhando tecnologia e inovação, e aumentando a competitividade da economia.

Mas, na prática, a patente é uma concessão de monopólio, uma aberração num mundo que defende a livre concorrência como a melhor maneira de promover a eficiência.

Assim como o mito da livre concorrência esbarra na realidade dos monopólios, oligopólios e cartéis defendidos por lobistas influentes, as patentes há algum tempo passaram a ser um privilégio, que chega a perturbar o clima colaborativo nas instituições acadêmicas, aumentando custos, estimulando o sigilo em pesquisas, e a ocultação de descobertas.

A coisa degringolou e as empresas, poderosas, sempre usando o argumento do custo para desenvolver seus produtos, conseguiram progressivamente estender alcance e prazos de patentes, algumas vezes aproveitando-se de conhecimento tradicional acumulado por gerações, outras surfando nos resultados de pesquisas básicas financiadas por governos.

Quando o Brasil começou a brigar com os grandes laboratórios, quebrando patentes de remédios essenciais e promovendo a indústria de genéricos, não faltaram comentaristas liberais, papagaios de interesses alheios, dizendo que era uma estupidez, que o país iria afastar investimentos importantes do setor, que estávamos na contramão. Para essa turma, nada como o tempo, velho sacana.

Carnavalito e Borges

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Jorge Luis Borges é que gostava de duplos, caminhos bifurcados, mundos oníricos; mas suspeito que tenho um duplo borgiano divertindo-se pelo globo, sem preocupações com política externa, a não ser em relação ao mercado para a música tradicional andina.

Ele se chama Sergio Leo, toca vários instrumentos (quase como eu que sou especialista em não tocar vários instrumentos), usa óculos e porta uma barba, que suspeito ser disfarce. Como a Marta tem um trauma não explicado com esse tipo de música, não corro risco de ser abandonado por meu xará hermano, mas ele é uma simpatia. Não entendo por quê o vídeo dele no Youtube teve, até hoje, só 23 exibições.

Apresento a vocês, o insuperável Sergio Leo:

El Carnavalito

Por via das dúvidas, recomendo a ele fazer como eu e pasar bem longe da polícia de orlando, Flórida. Vai que confundem com esse AQUI.

Falei Borges? Poderia ter citado o Lorca. Grande Sergio leo:

In concerto

Itamaraty no You Tube

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Eu cobro constantemente que se busque o contexto das declarações divulgadas à imprensa para que se entenda exatamente o que foi dito, e quais as intenções de quem disse; e com frequência nas minhas discussões sobre jornalismo, recebo comentários no blogue de leitores cobrando esse contexto. Bom, nas entrevistas coletivas realizadas no Itamaraty, a blogosfera já tem onde buscar detalhes sobre os encontros das autoridades que rendem manchetes nos dias seguintes.

O Itamaraty, ainda sem muita tecnologia (legendas de identificação, essas coisas), está botando tudo que se passa nas salas de briefing de lá no You Tube. Tem muita coisa que fica de fora, como as entrevistas do Celso Amorim quando ele é abordado no saguão do Palácio, após se despedir de alguma autoridade. Mas já é uma bela iniciativa.

Difícil vai ser conseguir alguma declaração mais descontraída durante essas coletivas televisionadas; e os repórteres que se cuidem com as brincadeiras e bobagens que escapam nessas horas. Tem muita gente de olho, agora.

Capitao_Gancho.jpgE se v. descobrisse que os famosos piratas da Somália não são nem de longe, os maiores vilões dessa história? É o que conta o catatau, digo, o Independent, espalhado pelo Catatau na blogsfera:

"Alguém está jogando lixo atômica no litoral da Somália. E chumbo e metais pesados, cádmio, mercúrio, encontram-se praticamente todos." Parte do que se pode rastrear leva diretamente a hospitais e indústrias européias que, ao que tudo indica, entrega os resíduos tóxicos à Máfia, que se encarrega de "descarregá-los" e cobra barato. Quando perguntei a Ould-Abdallah o que os governos europeus estariam fazendo para combater esse 'negócio', ele suspirou: "Nada. Não há nem descontaminação, nem compensação, nem prevenção."

Ao mesmo tempo, outros navios europeus vivem de pilhar os mares da Somália, atacando uma de suas principais riquezas: pescado. A Europa já destruiu seus estoques naturais de pescado pela superexploração - e, agora, está superexplorando os mares da Somália. A cada ano, saem de lá mais de 300 milhões de atum, camarão e lagosta; são roubados anualmente, por pesqueiros ilegais. Os pescadores locais tradicionais passam fome.

Mohammed Hussein, pescador que vive em Marka, cidade a 100 quilômetros ao sul de Mogadishu, declarou à Agência Reuters: "Se nada for feito, acabarão com todo o pescado de todo o litoral da Somália."

O resto, AQUI.

Ó o Ahmadin de novo aí, gente!

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Mahmoud Ahmadinejad, o polêmico presidente do Irã, cancelou a visita que faria ao Brasil nessa semana porque sua reeleição corre sério risco. "Ele está em apuros", afirma Abbas Milani, nascido na antiga Pérsia há 60 anos, professor da Universidade de Stanford e expert em política iraniana. Nos EUA, Milani tornou-se um analista tão respeitado que, ao longo da campanha para a Casa Branca, em 2008, serviu de assessor ao então candidato Barack Obama. Está sempre de olho nas trepidações de Teerã.

Começo a ler essa matéria, sem nem notar o autor, no Aliás, do Estadão, um espetacular jornal conservador brasileiro, que hoje traz um material imperdível sobre o Irã, a figura do Ahmadijead e sua utilidade para Israel. E descubro que o autor é da raça dos blogueiros. O Pedro Dória, quem diria. Que faz uma excelente entrevista, acessível à leitura, AQUI.

Com a entrevista do Dória, tem um bom material do The Guardian, sobre o candidato que ameaça Ahmadinejad, AQUI.

Mentiras do Rio

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vinheta1-mentiras.JPGÉ aventuroso e, ao mesmo tempo, bastante desconfortável ver textos seus andando independentes por aí. Diferentemente do que escrevo para jornal, em que a elaboração do texto é só um suporte e uma roupagem agradável para as informações do mundo, os textos de ficção são, de fato, uma criação minha, algo pretensamente novo que botei no mundo com vida própria. Sou o tipo do pai que reconhece os defeitos dos filhos, mas tem enorme amor por eles, e não gostaria de vê-los apanhando por aí pelo que não fizeram.

Esse sou eu, brincando de escritor, na revista do Sesc Rio. A íntegra, AQUI. (e, ao lado, uma das gravuras/vinhetas feitas pelo Rubem Grilo, para os contos do livro _ com lançamento marcado para 29 de junho, às 17h30min, na ABL, no Rio, e dia 4 de agosto na Cultura, em Brasília, onde aguardo os frequentadores fiéis do Sítio).

Irã, Israel, Ahmadinejad

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ahmadinejad.jpg

COMENTA-SE ÀS vezes que, se o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, não existisse, os israelenses teriam que inventá-lo. Que prova melhor é preciso da ameaça grave que o país enfrenta do que um homem que afirma que o Estado de Israel deveria ser extirpado do mapa do Oriente Médio?

Israel é obcecado pelo Irã. Basta conversar com qualquer israelense, ouvir qualquer discurso de um político israelense ou estudar a política de segurança que está sendo desenvolvida pelo novo governo de Binyamin Netanyahu: o Irã está sempre presente.

A razão dessa obsessão é evidente. Embora o Irã possa não ameaçar Israel diretamente com uma invasão armada, seu desenvolvimento nuclear desafia a segurança de Israel, como única potência atômica na região. Some-se a isso o apoio dado ao Hamas e ao Hizbollah, e fica fácil ver por que o Irã pode ser visto como motivo principal dos temores israelenses.

Esse é o Andrew Hamilton, do The Independent, traduzido e publicado na Folha de S. paulo. Acho que nenhum blogue fez esse trabalho de tradução, felizes de nós que, ao lado da combativa blogosfera, temos uma imprensa empresarial pluralista. Não costumo reproduzir textos de jornais na íntegra, mas esse vale a pena.

A TV do futuro, You Tube e o tempo

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O registro do tempo é algo manipulável, e, desde a invenção do videotape,é possível fazer coincidir, na reprodução, imagens e sons de fatos/ações que ocorreram em momentos distintos. Mas foi a invenção do You Tube que mostrou o potencial disso como material artístico e de entretenimento. A todo momento a gente esbarra em algum vídeo comovente que explora essa peculiaridade do tempo registrado, a de coincidir com outros tempos, a de fazer o que já foi ser novamente, e atuar com o que está sendo.

É, andei bebendo. Em comemoração aos vinte anos de meu filho e, numa prévia do dia das mães, abri um modesto Marques de Casa Concha merlot, que me orienta enquanto falo de um fenômeno interesante, do qual o Pedro Dória acaba de me apresentar uma das últimas manifestações.

Comecemos pelo Lars Gjertsen, geniozinho nórdico que já mostrei aqui no blogue, começou com trabalhos de faculdade e já deve estar bombando na indústria cultural com vídeos como esse aqui:

O Yo Yo Ma tem um vídeo maravilhoso com uma das suites para violoncelo do Bach, em que ele grava a performance numa igreja medieval, e depois encaixa a imagem dele tocando em uma gravura do Piranesi. Dá para baixar na Internet. Ou ver no You Tube, AQUI.

Mas o que vemos no You Tube é diferente. Em contraste com a sofisticação técnica do vídeo do Yo Yo Ma, qualquer um pode usar programinhas de edição de vídeo disponíveis até de graça, e produzir, sozinho, algo notável. Como o cara que já mostrei aqui, que precisou de tempo, algum ouvido e muita disposição para fazer coisas assim:

E chegamos à moça apresentada pelo Dória, que bota as Susan Boyle no chinelo, porque tem repertório melhor e é bonitinha mas de um jeito que não garante par na festa de formatura. Ela fez um vídeo tosco na sala de casa, e arrasa. Atravessa todos os mecanismos de validação da indústria fonográfica e garante seu lugar na glória efêmera dos ídolos do Youtube; quem sabe sobrevive e arranca um verbete na enciclopédia das cantoras contemporâenas. Voz ela tem. Tem mais que isso, vozes. E que vozes.

É o admirável mundo novo da produção para a indústria cultural. Uma produção feita, agora, artesanalmente mas veiculada em escala planetária. Que a força esteja com todos nós. Já está com esse sujeito aqui:

Reza uma lei não escrita no jornalismo: jamais comente uma idéia de pauta com um repórter concorrente; ele pode ser mais eficiente que você e publicar a notícia primeiro. Sou avaro com minhas idéias de reportagem, mas certas coincidências já me fizeram levar furo de amigos, muy amigos.

Temo que entendam como provocação: mas o novo vilão da praça, deputado Sérgio Moraes, que saiu da obscuridade com a declaração "estou me lixando para a opinião pública", estava, na verdade, usando um raciocínio muito parecido com o que vem se espalhando entre vozes bem à esquerda na Internet.

Fosse outro parlamentar, dos desbocados que abundam na casa, ele poderia ter partido para o popular: "estou cagando e andando para a opinião pública manipulada pela imprensa". Mas foi esperto, iria ficar eternamente conhecido como o deputado cagão. Escapou do apelido, mas não de emerdalhar-se com sua verborréia. Sem problemas: deve ser expulso discretamente do Conselho de Ética e conduzido ás sombras, onde sempre operou tranquilamente.

Mas falei da esquerda, e explico: se colocadas no contexto as declarações do deputado, o que ele disse, na íntegra, foi que não ligava para a pergunta de uma repórter, sobre o efeito das ações dele na opinião pública, porque "parte da opinião pública não acredita no que vocês escrevem. Vocês batem, mas a gente se reelege".

Esse raciocínio tem afinidades com o dos que comemroam a queda de tiragem da imprensa escrita _ por motivos muito diferentes, claro. O povo não liga para o que se escreve na imprensa, daí o que vale é a vontade popular, alheia à midia manipuladora.

Não estou forçando a barra. Passeie no Congresso e converse com qualquer parlamentar. Vão reclamar que há distorção dos fatos, uma campanha de midia com interesses escusos. Estou falando dos parlamentares do PSDB, PMDB, DEM, e outros alvos da esquerda. Esquerda esa que acusa os jornais de sevrir ao status quo.

Claro, há uma saída para esse paradoxo: até os parlamentares conservadores atacam a imprensa porque ela está a serviço de golpistas que querem desmoralizar o Congresso para facilitar a ação dos lobbies poderosos de Daniel Dantas. (Ops, alguém já chegou perto). O chato é que a imprensa atrapalha também a vida dos parlamentares aliados de Dantas no Congresso _ essa midia incompetente.

Mac Lanche Feliz

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Deu no UOL:

A Polícia investiga como uma camisinha foi parar na caixa do lanche que uma menina de sete anos tinha comprado em uma loja do McDonald's, no cantão de Freiburg, na Suíça.

O estranho incidente, revelado hoje por jornais suíços, foi descoberto quando uma mãe foi denunciar à Polícia que sua filha de sete anos tinha encontrado um preservativo entre as batatas fritas do lanche comprado em um McDonald's da cidade de Granges-Paccot.

História esquisitíssima. Confesso que, como pertenço à organização criminosa que os incautos chamam de imprensa burguesa, quando leio essas coisas, fico logo pensando em maquiavélicas chantagens de consumidores epsertos contra empresas que tem, na imagem, seu maior patrimônio.

Mas, claro, como foi na Suíça, sempre pode ter sido coisa de neonazistas que, depois de machucarem com navalhas uma brasileira indefesa no metrô, foram comemorar realizando suas fantasias com garçonetes de fast food, antes de começar o expediente.

"Isso parece coisa da vaca louca; pelo menos, é sinal de responsabilidade", analisou Oliveira, o canalha da redação. "Mais que saber de onde veio a camisinha, fico preocupado é com a origem do hamburguer", disse, soturno, o patife.

Um paranóico, o Oliveira.

Ahmadinejad e as agendas alheias

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Foi um erro convidar Ahmadinejad, um presidente pollêmico e contestado no próprio Irã, para visitar o Brasil um mês antes das eleições que podem _ e, pelo jeito, irão _ tirá-lo do poder. Não trouxe ganhos políticos e trará limitados ganhos econômicos ao país. O Brasil precisa, sim, aproximar-se do Irã, mas a maneira como isso foi tentado está longe da maestria. Mão pesada mesmo.

Mas a histeria em torno do caso e a demonização do iraniano é impressionante pelo contraste: os vilões, entre os colunistas conservadores e certos segmentos da população são somente aqueles autorizados pelas agências internacionais de notícias e pela agenda de países como os Estados Unidos.

Por exemplo, não há dúvida de que o regime presidido por Ahmadinejad reprime as mulheres e mata homossexuais. É o que fazem também a Arábia Saudita e vários outros regimes árabes baseados na interpretação radical e anacrônica do Alcorão. Mas ninguém fala da Arábia Saudita, parceiro fiel dos Estados Unidos na região, governado por uma das ditaduras familiares mais conhecidas do Oriente Médio. Acreditam expressar uma justa indignação, e funcionam, na prática, como papagaios de agendas alheias.

Essa cegueira seletiva me faz imaginar se os gays e mulheres entram no debate como bucha de canhão, como arma contra o Irã, não porque seu sofrimento por lá realmente incomoda os acusadores dos governantes iranianos.

Bresser enterra Margareth Tatcher

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A experiência neoliberal fracassou sob todos os ângulos: as taxas de crescimento econômico diminuíram, a renda concentrou-se em toda parte, a instabilidade econômica aumentou, e agora essa experiência termina de forma inglória com a crise global.

A tese de que as políticas neoliberais tornavam os países mais competitivos, porque ao diminuírem os salários os faria mais dinâmicos, não se confirmou. Os dois grandes países que as adotaram no limite foram a Rússia de Mikhail Gorbatchov e Boris Ieltsin e a Argentina de Carlos Menem. Sabemos quão desastroso foi seu resultado.

Esse é o Bresser Pereira, tucano, escrevendo na Folha de S. Paulo, numa demonstração, também, de que é balela dizer que é preciso acabar com a exigência de curso superior de jornalismo aos repórteres para que a sociedade se manifeste de maneira crítica na imprensa tradicional.

Quem ler o artigo interessantíssimo,que continua AQUI, terá uma evidência de que se desmancham no ar as análises rasteiras e maniqueístas do conteúdo dos jornais brasileiros.

Falando com estudantes

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Neste Sábado, estarei em Sampa, falando às 17h no ENERI. Quem quiser me ouvir dizendo pessoalmente as temeridades que escrevo, apareça por lá. AQUI.



sitio do sergio leo

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