Um dia me mudo para Buenos Aires. E acho que se o Lula fizesse o mesmo seria bem feliz. "O que há com os brasileiros que viajam? Todos se queixam do Lula!" me pergunta um taxista perplexo que, como a maioria dos argentinos que conheço, diz francamente sentir inveja da qualidade do governo brasileiro e da cena política do país. Pra você ver como estão nossos vizinhos.
(aliás, descobri finalmente por que o idelber defende o governo Cristina Kirchner. Ele considera o Página 12 o supra-sumo do jornalismo sul-americano, e foi nesse jornal que li um de seus melhores articulistas defender a tese de que o Hugo Chávez não contou nada aos Kirchner quando os visitou semanas antes de nacionalizar a Techint, um grupo ítalo-argentino, cuja estatização provocou umas notas débeis de protesto da Casa Rosada)
Visto de fora, o Brasil é o que é: uma grande potência e um dos países com instituições mais modernas do mundo. Me ufano desse país. E aqui leio, rindo, os analistas desesperados dizendo que a política externa é um fracasso proque não conseguiu emplacar a Ellen Gracie no órgão de solução de controvérsias da OMC nem garantir o empreguinho em Paris aos brasileiros que queriam o cargo de direção na Unesco.
Janto com o emblemático Jorge Castro, e com jornalistas, e participo de um momento mágico na história da América Latina: a um canto da mesa, eu, o Alexandre Pinheiro e o Ariel Palácios descobrimos, surpresos, que somos todos brasileiros que odeiam futebol. Há esperança paraa civlização. Ainda que eu desconfie do Ariel, ele sabe quem disputou a final das útlimas copas. Eu só sei sobre a de 1982, em que saí às ruas com uma camisa da Itália. Como ia advinhar que a seleção ia perder logo da squadra azzurra??
Bom, em Buenos Aires, apesar de ter recebido reduzida contribuição, de poucos e bons frequentadores deste blogue, até não fiz feio. E aproveitei parte do que disse lá na coluna do Valor, mas isso deixo para um argentino boa praça contar AQUI. Sim, chamei as Galerias Pacifico de Shopping Pacífico na coluna, mas quequiá, é quase a mesma coisa.
E, nessas mesmas Galerias Pacífico (o Atheneo está uma porcaria, acho que sacrificaram as estantes de livro para investir na lanchonete para os turistas que vão lá sacar fotos e falar alto em portugues), encontrei preciosidades, a começar pela espécie inecistente no Brasil: o vendedor de livros que lê livros.
Fico sabendo, por uma dessas avis rara do Cone Sul, que existe uma coletânea dos artigos jornalísticos do Roberto Arlt, o cara que influenciou uma parte grande dos autores atuais argentinos, com quem já brinquei neste sítio, e que se costuma contrapor a Jorge Luis Borges, um o intelectual erudito e de texto elaborado; o outro politizado, popular e de texto reto.
Já faz parte da biblioteca, "Cronicas en el Mundo", com um livro inacreditável do Ricardo Piglia, "Crítica y Ficcion", de quem descobri que terei de chupar páginas inteiras quando estiver falando na OFFFlip, em julho, dois livros do Martin Kogan, por influência do idelber, e um do Bolaño. Tem mais um de um autor uruguaio, de quem falarei em breve por aqui.
E volto a postar, que está uma vergonha o Sítio, mato pra todo lado.

Lá pelo século passado, encontrei alguns argentinos na praia e descobri que eles achavam um desastre o Alfonsín, que eu considerava o cara.
Pior, consideravam o Sarney um grande presidente.
Mas a decepção maior mesmo é descobrir que um cara aparentemente gente fina como você, além de gostar de arte conceitual, detesta futebol.
Caramba, Dourivan, pense no lado positivo: jamais teremos discussão por causa de seu time de futebol.
Sua experiência na praia com os argentinos nos mostra que temos de receber com cuidado as avaliações do lado de lá. Afinal, os caras trocaram o Alfonsin pelo Menem...
oi Sergio, eu adoraria ouvi-lo (vê-lo) na offflip, mas acho que a programação é ainda mais confusa do que a da flip. pode me ajudar a saber qndo e onde? bjs
vai ser no sábado, 4 de julho, à tarde, no restaurante O Café, onde se não me engano, programam as atividades literárias dessa Flip alternativa, Carla. Vai ser um prazer enorme te encontrar lá! Claro, se não conflitar com alçguma mesa mais interessante na Flipropriamente dita, compreenderei ausências justificadas. (-;
provavelmente eu vou trocar o Gay Talese por vc, pq ele fala às 17h de sábado, mas de fato é tão irritante assisti-lo num telao que é bastante provável que eu prefira vc ao vivo...
Sérgio, minha avaliação do governo Lula é muito boa, agora, não consigo entender porque a Argentina não consegue superar o peso do peronismo
abração
Carla, tremendamente lisonjeira sua troca, mas não vai ser necessário esse sacrifício (ao vivo, consigo ser mais chato que ver o Talese por telão). Devo falar antes do cara.
Tiago, estávamos no fim de semana em Buenos Aires conversando sobre isso, a dificuldade do país de se livrar do peronismo. Uma das razões apontadas foi a de que o peronismo hoje é mais um oportunismo político que propriamente uma bandeira, e reúne as mais variadas colorações ideológicas ( de Menem a trotskistas que acreditam em cristina Kirchner, por exemplo). A outra foi o massacre feito pela ditadura em toda uma geração, arrasando com potenciais ventos renovadores na política argentina. Havia outras razões, mas o vinho estava espetacular, e elas acabaram diluídas em álcool...
Triste saber que o Ateneo está priorizando a lanchonete sobre a livraria. Será que sua crítica decorre do fato da lanchonete ocupar o que foi o palco, na época do teatro?
De minha última visita à livraria, comprei três livrinhos (o diminutivo vai apenas pelo formato tipo "Mafalda") do Roberto Fontanarrosa:
"Las Aventuras de Inodoro Pereyra, el renegau", Ed De La Flor, 2001. São quadrinhos muito interessantes e, pelo menos para mim, dificílimos de entender porque Inodoro fala um castelhano deformado, por ser o último gaucho, que se recusa a viver as mudanças em sua pampa. Tive que ler em voz alta para descobrir de que se tratava e, mesmo assim, voei muitas vezes. Contudo, valeu a leitura.
O personagem se auto define:
"Inodoro Pereyra, el renegau, es tan argentino como el dulce de leche, la birome o el colectivo. Y no porque use vincha, ande bien montao y sea bueno pa'payar. Esas son sólo apariencias y -se sabe- las apariencias engañan."
Vale dar uma olhada. Fontanarrosa morreu no ano passado.
Kid
- - - - - - - - - - -
Abraços do mesmo
= = = = = = = = = = =
Caro Kid, quando estive em Tucuman, para a reunião do Mercosul, também comprei um llivro do Fontanarosa, mas a coleção completa das hiostórias do Boggie, el aceitoso, ou Boggie, o seboso, como traduziram por aqui.
Me entristeci quando morreu o cara, até falei disso aqui, mais ou menos na mesma época em que morreu o ACM: http://tinyurl.com/pezanz .
E, mais recentemente, reproduzi uma das historias do Bogie, para falar de um troço engraçado (para quem não se chama Rony) na venezuela: http://tinyurl.com/oeevts .]
Boa dica, a do Inodoro Pereyra, que só tem essa dificuldade, mesmo, de entender. Grande Kid.
A grama e a mulher do vizinho são sempre melhores...
Então, mas todas as vezes que um grupo não peronista chegou no governo as coisas acabam mal. Será que não existe uma burocracia peronista e uma estrutura de estado, apesar do desmonte do Menem, que ainda funciona ao modo dos anos 30?
E, Pax, fale por você, camarada! Minha grama, de fato, é uma porcaria; mas a minha mulher, vizinho nenhum tem nem quem chegue perto... (-: