O pintor que gerou o Taxi Driver

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Antes de Robert de Niro, houve Robert de Niro. Pintor expressionista, pobretão e benquisto, frequentador da vida boêmia do Greenwich Village quando a boemia ainda estava criando a fama do bairro.

A última Modern Painters, revista que custa uma nota e que o idiota aqui descobriu só agora poderia ler na Internet, fala do pai do ator consagrado, uma figuraça pouco conhecida aqui abaixo do Equador. De Niro pai acabou menos famoso que o filho a quem deu o mesmo nome, mas conviveu com gente como Henry Miller e Anais Nin, De Kooning, Jackson Pollock (ambos trabalharam como vigias no museu que se transformaria no Guggenheim).

Talentoso desde criança, De Niro Sr. estudou no famoso Black Mountain College na Carolina do Norte, para onde foram muitos dos professores da Bauhaus emigrados aos EUA, e de onde saíu uma penca de artistas que hoje dominam a arte contemporânea lá e além. Teve aulas com Josef Albers (alvo de umas exposições no Brasil, recentemente; quem não viu perdeu uma espetacular mostra de Albers não faz muito tempo, na PInacoteca e na Tomie Ohtake, em Sampa). Mas não gostou do cerebralismo do professor e partiu para uma linha de maior espontaneidade, com Hans Hoffman, uma das estrelas do expressionismo abstrato, do gênero pinceladas soltas, cores fortes, total recusa das figuras bonitinhas e bem acabadas.

De Niro tornou-se um bicho raro, um expressionista figurativo no começo do reinado do expressionismo abstrato. Clement Greenberg, papa dessa última corrente, encheu a bola dele, comparando seus trabalhos aos mestres da Escola de Paris (modo como gente como Greenberg se referia a uns caras como Pablo Picasso, Miró, gente assim). Teve algum sucesso em meados dos anos 40, mas, depois, ficou meio no ostracismo, morando em lofts na Lower Manhatan quando isso ainda não era chique (o filho lembra que era meio esquisito, na época, ter pais criativos e um pai que morava nesses locais quase abandonados na parte baixa da cidade).

De Niro pai casou com uma colega de escola, Vrigínia Admiral, que não tem como nos impedir o trocadilho, era uma mulher admirável. Trotsquista, ela fundou uma revista literária com Robert Duncan, sujeito bonitão e bissexual que depois se vangloriaria com o casal de ter traçado os dois, separadamente. Ela foi amiga, como de Niro, da Anais Nin, a mulher mais marcante de Henry Miller, feminista avant la lettre, que, na época, escrevia contos pornôs para um milionário anônimo. Miller faz dela personagem e fala desse trabalho de escriba erótica no Trópico de Câncer, acho.

Virgínia Admiral chegou a ter sucesso como pintora, assim como de Niro, em meados dos 40, mas ela, depois, aproveitou o trino como escritora de sacanagem e passou a ser ghost writer, ganhou dinheiro, virou especuladora imobiliária e sustentou o filho que se tornaria ator, além de encotnrar grandes lofts abandonados na baixa Manhattan para servir de estúdio ao ex-marido. Ele continuou solitário e cada vez mais caladão; seu último estúdio ´pe mantido pelo filho intacto, como uma espécie de mausoléu privado. O De Niro jr fala do pai com adoração na matéria da Modern painters, disponível em inglês, AQUI.. O fato é que o senhor De Niro não deixou muitas marcas na história da Arte; uma ligeira consulta nos índices onomásticos dos livros de arte moderna traz resukltados nulos, o cara mal é mecionado nas obras que realmente importam. O Robert De Niro, filho, deve ficar deprimidíssimo.


(2º clichê: acrescentei um "ela" no texto, porque estava confundindo bons leitores, e parecia que o senhor De Nior é que tinha sido s´pocio do Ducan, e não a admirável Virgínia)

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acabei de ver, na mesma revista tem um texto ótimo sobre o cornelius cardew
http://www.artinfo.com/news/story/31550/cornelius-cardew-and-the-freedom-of-listening/

Sérgio, o que voc~e achou da declaração do Lula na OIT?

Quem era a feminista avant la lettre que escrevia os contos pornôs: Virginia ou Anais?

Ambas, Gustavo. A Anais, se não estou confundindo as coisas, aparece nos livros do Miller como Mona, ou Mara, e é um personagem a quem ele ajuda a escrever contos eróticos pagos por um mecenas. No começo, ela romanceia, até que o empresário manda que ela corte os prolegômenos e entre direto no sexo, hardcore.

Na matéria da Modern painters, eles dizem que a Virgínia fazia exatamente o mesmo que o Miller diz ter feito, no livro (Trópico de Câncer, se não me engano). E também reproduz essa história do descontentamento do mecenas com as literatices da Anais, que foi uma mulher notável, feminista, liberada, com obras interessantíssimas. Tem um filme idiota que retrata a relação dela com o Miller, e o pinta como um imbecil auto-centrado machista e sem graça. Ele era auto-centrado e machista, mas imbecil e sem graça nunca.

Caramba, interessantíssimo!

Traduzi há pouco tempo um livro para a Cia. das Letras, New Art City, Nova York, capital da arte moderna, de Jed Perl, que fala muito sobre o Robert de Niro, pai. Sobre a Escola de Nova York, Hofmann, etc. Muito bom.

Parabéns pelo texto, conciso e "au-point". Coloquei no meu marcador.

Abraço

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