"Só tem no Brasil e não é jabuticaba? Boa coisa não é."
O Delfim Netto, que no resto é uma das mentes mais brilhantes do debate político brasileiro, costuma essa besteira. Certos chavões têm uma vida exagerada na cultura pátria.
Essa da jabuticaba é o que o Albert Hirchmann (copiado depois, mas fora do contexto, pelo Fernando Henrique Cardoso) chamava de "fracassomania", essa idéia de país em desenvolvimento de que solução feita em casa não presta, o bom mesmo é o pacote importados dos sábios especialistas do exterior, testado em outras paragens com carimbo de exportação.
"Complexo de vira-lata", diria o outro. Mas aí, também, o cachorro torce o rabo, Isso de complexo de vira-lata é outra bobagem sesquipedal. Quem tem complexo é cachorro de raça.
Eu tinha um casal de cocker spaniels, mas ela, quando entrou no cio, desdenhou do macho e teve uma ninhada de viralatinhas, maldita seja a cerca com falhas lá de casa. O meu cachorro nem viu o nascimento dos filhjotes, talvez por desgosro jogou-se debaixo denum carro no condomínio.
Esse drama pessoal reforçou a idéia que sempre me veio à cabeça quando ouço essa inexplicável expressão "complexo de vira-lata". O vira-lata é antro´pofágico, mangue beat, tropicalista; ele não quer saber do que pode nçao dar certo, não tem nada a perder. É confiante, tinhoso, furão, malandro, virador, ousado e safado. É arrogante, desrespeitoso, debochado, É diplomático e esperto; sabe quando deve fingir que cedeu, para arrancar o que quer, e sabe sempre o que quer, não desiste nunca.
Complexo de vira-latas, só se for de superioridade. O vira-lata sabe que propriedade é uima ficção humana, que tudo é uma questão de vigilância e punição, e que quem corre mais rápido deixa o vagaroso para os leões. O vira-lata não vacila, não se rende, não se deixa prender, ele sabe dos caminhos e dos desvios do mundo.
O vira-lata é miscigenado, é multicultural, é plural e complexo. Não é previsível, e é amistoso, quando lhe convém. É simpático, é charmoso, é simples e adorável.
Já o cão de raça é amestrado, domesticado, condicionado. Sabe quem é seu dono, é manhoso e idiossincrático. De saúde frágil, e caráter simplório. Ele é quem tem complexo, de inferioridade, de submissão ao detentor da coleira, da focinheira, do enforcador, do terinador, da feira de cães. É um pobre lacaio, ou segurança, ou serviçal. É bonito, como uma sebe bem aparada. É um animal desanimalizado.
Tenhamos todos complexo de vira-lata. E mordamos sem dó a canela de quem atravessar nosso caminho.

belo post. Sempre me irritei com esta história da Jabuticaba - os caras que falam isso são os mesmos que acham que o Brasil só tem vocação para exportador de produtos primários - a tal das 'vantagens comparativas'.
Quanto aos vira-latas, bem sacado. Vou olhar de outro jeito para o meu, lá em casa.
abs
Magnífico texto. A história do seu cocker, aliás, é meio Nelson Rodrigues - ou tou viajando também?
Delícia de post...quase faz valer a pena ter acordado tão cedo! No mais só uma coisinha: concordo que o delfim tem uma mente brilhante, o problema é que ele não usa muito!
Concordo plenamente com o lado "canino" da história.
Já quanto ao País acho que é um caso de "complexo de cão de raça". Usando suas palavras: amestrado, domesticado, condicionado, submisso ao detentor da coleira...
Abraço,
Marcelo