Agora falando sério - contas do governo

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O Estadão deu melhor que a Folha; o Globo ignorou.
Ontem, os jornais trazem em manchete os resultados das contas do governo, que servem de argumento aos que acusam os gastos de crescer incontrolavelmente, dizem que esse é o calcanhar de Aquiles da política econômica. Mas, na mesma página, nos jornais paulistas (não no carioca _ e o JB não chegou hoje na redação), há uma notícia sem tanto destaque, contando que o FMI acaba de divulgar um relatório babando-se em elogios à política fiscal brasileira.
O FMI, quem diria, agora serve de argumento para os defensores do governo Lula. Diz que mesmo com a queda na atividade econômica, o governo tem feito uma política "sólida", e tem espaço para manter equilíbrio nas contas; se cair a receita com impostos, sempre pode usar mecanismos de escape nas despesas, como descontar do déficit investimentos de estatais.
Me pergunto porque não deram com destaque esse apoio do FMI ao governo no momento em que o próprio governo, como diz o Globo, anunciar o pior resultado nas contas da Era Lula. Se é porque a análise do FMI está atrasada, deveriam contar isso.
Hoje a Miriam leitão fala do assunto na TV, e vem com o velho raciocínio simplista: as contas com pessoal estão aumentando, e isso é ruim; bom seria se aumentassem os investimentos, que caíram subiram menos do que se gostaria. Se for só por essa lógica, pagar melhor a professores e médicos é ruim; mas é positivo construir prédios de hospitais sem equipamento ou estradas do nada a lugar nenhum para gerar comissões de campanha.
Falta uma análise mais séria, mais sofisticada das contas públicas. As pequenas sacanagens com o dinheiro público não têm relevância econômica, mas são indícios da má administração, má gerência que de fato existe em ministérios capturados pels necessidades da articulação política do governo. O debate feito só em grandes números, com base em modelos econômicos que se desmoralizaram, não ajuda a melhorar a gestão, e acaba avacalhado por manifestações como essa, do FMI.
Essa discussão vai ser grande na campanha eleitoral; mas só pega na classe média; os ricos sabem onde lhes apertam os calos e os pobres não estão vendo problema nessa política fiscal, muito pelo contrário. Estão com o FMI, que já admite que as políticas de transferência de renda (bolsa família, salário mínimo) foram fundamentais para amansar a crise no Brasil..

14 comentários

Parabéns Sérgio,

É o primeiro artigo que vejo abordar com clareza a questão dos gastos correntes x investimentos e a simplificação burra que existe hoje em dia.
Não suporto mais esse lenga-lenga de que "investimento é bom, custeio é ruim". Gasto bom é aquele cujos benefícios superam os custos. Marginalismo puro. Toda empresa faz essa conta. Mas, quando se trata de governo, ninguém se preocupa com isso, preferem ficar repetindo os velhos bordões.
Certos economistas parecem defender que existe um cálculo econômico para o governo e outra para o setor privado.

Sérgio, você fez uma boa análise dos fatos. Mas acho que outro ponto deve ser levado em conta: investimento requer planejamento, o que, do ponto de vista do governo federal, passa pelo projeto de governo de quem ocupa a cadeira da presidência. O problema é que tal projeto inexiste, seja no governo ou na oposição. Existem muitos ministérios que inclusive não conseguem cumprir suas dotações orçamentárias, mesmo após os contingenciamentos feitos pelo MPOG.
Esta era uma discussão que eu queria ver na eleição do ano que vem. O cenário econômico atual já nos permite atuar em problemas de longo prazo, de modo que consigamos fazer investimentos para reduzir os gargalos existentes no país e aumentar a nossa capacidade de P&D. Mas é o tal do negócio: sem planejamento, não dá pra gastar dinheiro nisto.
Enfim, só mais uma contribuição ao debate.

Abraço,

Muito bom Sérgio. Eu só vejo na TV os comentaristas economicos falaram do descontrole do gasto público, isso em plena crise. Ora é natural que a dívida pública cresce nesses tempos, dae eu vejo todo dia de noite o Sademberg fala que o governo está gastando demais, que a relação dívida volto a subir. O cara quer que o governo faça politica fiscal austera em plena crise, onde já se viu isso. Eu acho que o estado precisa de uma reforma e o gasto ser racionalizado, agora fala em elevação da relação dívida/Pib ou da queda do superávit primário nessa hora é ridículo.

Eu acho mto engraçada essa história de que custeio é ruim e investimento é bom. Falta só os gênios esclarecerem que aumentar investimento significa, necessariamente, aumentar o custeio. Adianta construir um hospital e não ter médico? Constrói uma escola e corta os professores?
Sinceramente, não dá mais pra ler notícias/análises de contas públicas desta galerinha de sempre.

Parece que o pessoal do FMI já começou a fazer média com o seu futuro presidente...

Pois eu não tenho visto os comentaristas economicos falarem besteira...é simples: quando eles aparecem eu mudo de canal!
Brincadeirinha a parte, concordo plenamente com nosso blogueiro. Agora, tem que ver quem tem coragem e conhecimento para peitar uma análise detalhada dos gastos e investimentos públicos no brasil. Seria bom, inclusive, descer ao nível dos governos estaduais e de alguns municipais.
Mas, enquanto isso não acontece joga pedra no sarney e viva o fmi kkkkk

O que se espera de um PIG a não ser intermináveis grunhidos?

Nada contra o aumento do custeio. O problema é boa parte dele está vindo na forma de aumento nos salários das camas elevadas do funcionalismo que já recebem DEMAIS (demais memso. Juiz, Promotor, Delegado da PF, Fiscal e tudo mais, recebem muitomuitomuito mais que a renda per capita do Brasil. Isso não transfere renda. E funcionário é ou deve ser estrato médio da sociedade, classe média não elite financeira) ao invés de congelar estes (mas isso é politicamente feio) buscar aumentar os mais de base.

E calma ai, FMI agradável vale e é esperto? Antes não era também? Ou ele é errado ou é certo. Precisa-se decidir.

Caro Leozilio, sua opinião não é o que se vê nos comentários de economistas. Aómta-se gasto de custeio como se fosse um mal em si, necesariamente danoso por ser incomprimível em períodos de crise. Esses aumentos que voc~e apontam não são o que pesa nas contas de pessoal; a parte gorda da folha é dos bagres que ganham pouco mas são legião, como professores, médicos e quejandos.

Não há aqui nenhum comentário sobre "esperteza do FMI. Apenas a estranheza com a falta de menção à avaliação do Fundo, que amtiza esse noticiário extremmente negativo sobre o estado das contas públicas. E olha que, seguramente, os sujeitos do fundo devem ter reclamado dos gastos de custeio, está na cartilha. O aso é que, apesar de todos os vícios reais e imaginários, o Brasil vai muitíssimo bem, orbigado. E até o FMI, esse guardião da ortodoxia, diz que não há problema em reduzir o superávit primário, ainda que poucos leitores tenham sido informados disso...

E, cá pra nós, marola, dessa vez eu deixei passar, mas fiquei meditando sobre esse "pig" aí, tentado a fazer um comentário irônico. Mas, como estou em dívida com os leitores do Sítio, pela falta de posts decentes, desta vez vai.

Vai SLeo, não se avexe não. não prive os leitores de sua proverbial ironia. Do pessoal que escreve regularmente sobre economia só livro a cara do Celso Ming e do J P Kupfer, o resto pra mim não passa de um monte de dedicated followers of the PIG.
Antes que vc me acuse de generalizações inconsequentes, quero lhe dizer que considero o seu trabalho jornalístico de grande qualidade, primando sobretudo pela honestidade no enfoque (o artigo postado acima é um exemplo). O mesmo não posso dizer de boa parte do que se lê na imprensa brasileira hoje em dia.

"Esses aumentos que voc~e apontam não são o que pesa nas contas de pessoal; a parte gorda da folha é dos bagres que ganham pouco mas são legião, como professores, médicos e quejandos."

Não é bem assim, Sérgio.

Há 2 MPs q tratam de extratos mais elevados do funcionalismo, com aumentos programados para os próximos 3 anos. O impacto desse aumentos é relevante. Ao menos, foi o q eu vi em uma reportagem do PIG - o impacto destacado desse aumentos.

Ademais, médico não pode ser contabilizado na categoria de "bagres q ganham mal" - normalmente, conseguem ter 2, 3 empregos e compor uma bela remuneração. Há q se ver a relação ($$/hora trabalhada).

É claro q nem todo gasto de custeio é necessariamente ruim, mas a crítica genérica vale: ficar comprometendo o orçamento futuro com custeio do tipo salário, q é engessado e não reduz, é preocupante, e pode, após uma análise minuciosa, passar a temerário.

Bom, pedindo perdão a vocês pelo mau humor, caros Marola e Franl, começo dizendo qeu acho esse negócio de PIG uma babaquice sem tamanho. Era ao ser inventado, é mais ainda ao ser repetido. Pode-se acusar os jornais de serem mal feitos, de serem parciais em algumas matérias, de atravessarem a linha da imparcialidade e relevarem tendências... Mas esse negócio de falar em golpismo da midia tem, só duas funções: marketing para o jornalista que inventou o termo e campanha ideológica para satanizar a imrpensa que ainda serve como instrumentro democrático de controle dos poderes.
Se quiserem discutir argumentos, recebo as críticas com prazer até. Mas neste Sítio não pretendo dar trela a campanha ideológica. Nem à direita, nem à esquerda.

Quanto à discussão sobre gastos correntes, a crítica minha é genérica porque os comentários também são genéricos; o que aponto é a falta de profundidade nessa lógica que atribui a todo aumento de gasto corrente qualidades negativas e a todo aumento de investimento qualidades positivas. recentemente, a Unctad publicou estudo afirmando que gasto em educação e saúde deve ser considerado investimento (em capital humano) essencial para os países em desenvolvimento. Mais que a Cidade da Música do César Maia, por exemplo, rubricado como investimento pelos burocratas do pensamento econômico.

Me socorro do Ribamar Oliveira, que não o meu Oliveira canalha da redação, mas um dos repórteres que mais atentos às questões fiscais. Ele conta que, entre 1999 e 2008, os gastos correntes do governo subiram de 15,7% do PIB para 18,6%, um aumento equivalente a 2,9 pontos percentuais do PIB. Numa época em que o PIB cresceu consideravlemnte, o aumento em termos absolutos foi bem grandino. Mas Riba conta também que um grande aumento se veriricou nas despesas da Previdência, que respondem, sozinhas, por 2,21 pontos percentuais do PIB nessa conta.

(A alta do funcionalismo, toda, respondeu por mais 0,7% do PIB. O aumento no Judiciário, o mais escandaloso, correponde, segundo a Folha, a quase RS$ 150 milhões mensais a mais, cerca de 10% do total dos aumentos, que alcançam professores nas Universidades, onde doutor no ápice da carreira ganha R$ 7 mil, salário de gerente mediano ou de jornalista sem diploma no meio da carreira na grande midia).

Entra nesse aumento de gastos da Previdência a política de recuperação do salário mínimo, que os ortodoxos insistem em condenar mas que foi responsável pela criaçãod e um emrcado de consumidor de bens de baixa renda que está entre os segredos do bom desempenho do Brasil nessa crise financeira mundial.

Por muito temopo quando pobre começacva a consumir no Brasil, ou a inflação (preços) estourava, ou havioa uma crise cambial (empurrada pelo aumento de importações excessivo. Agora, não. Por que? A indústria viu a tendência de consumo e passou a produzir para pobre. Mudou o foco da estrutura produtiva, mais condizente com uma sociedade com distribuição de renda melhor.

Por trás do discurso sobre despesas correntes está uma agenda liberal que não ousa dizer seu nome. Ela implica, por exemplo, com o SUS, que garante atendimento médico, ainda que precário e ineficiente à toda população. Ela implica com a previdência pública, porque acha que deve-se privatizar esse serviço.

É uma opinião. No Chile, deu certo, imposta por uma ditadura, mas deixou de fora milhões de pessoas, que, recentemente, foram postas pra dentro com uma reforma para aumentar o caráter público da previdência.

Mas me desculpem, o adorável Chile, com sua população três milhões de pessoas menor que a da Grande São Paulo, e economia baseada na venda de cobre, peixe e vinho, não é modelo para Brasil nem para ninguém.

Sléo,

Um ponto:

"E olha que, seguramente, os sujeitos do fundo devem ter reclamado dos gastos de custeio, está na cartilha"

Não estou seguro disso.

Acho que o FMI não repetiria o discurso, dos nossos "especialistas", como diz a Miriam Leitão. Há um artigo da instituição, "corruption, public investment and growth", que demonstra que elevado investimento aliada a baixo gasto em custeio, indica alto grau de corrupção (apesar do artigo questionar, também, gastos em salários). Veja:

http://www.imf.org/external/pubs/ft/wp/wp97139.pdf

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