perguntas muito perguntadas

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Acho que devo voltar a esse assunto.

Algumas pessoas afirmam não entender certas tiras - selecionei esta aí em cima porque foi uma campeã de reclamações.

Tiras, assim como esfihas, podem ser abertas ou fechadas - segundo o Umberto Eco, que estabeleceu este modelo, tão mais abertas serão quanto mais possibilidades de leitura oferecerem, e tão mais fechadas quanto mais estrito for o campo de interpretação.

Na minha produção, tem de tudo, com vários índices de abertura.

Nestas "de almanaque", em especial, tive uma intenção mais ou menos clara, que alcança seu éxito (na leitura) conforme os códigos de quem lê são parecidos com os meus, que as fiz.

Exemplo é a do surfista (ver em almanaque 02), onde o "papai, no vaca" precisa da informação sobre o adesivo que alguns motoristas usam, com fotos dos filhos e de S. Cristóvão, e a frase "papai, não corra" - além da informação sobre o "no vaca", jargão de surf para não cair da prancha.

Sem essa conexão de repertório, algumas piadas "se perdem".

Outras vezes, essa perda acontece por imperícia minha, mesmo.

A do boliche requer mais clareza sobre o que acontece.
A bola é atingida por um míssil, que é disparado pelos pinos no caça, patrulheiros e defensores dos pinos em terra etc.

Agora já foi, acho que não vou reformar a tira.

Em 1971, o Grêmio da Poli organizou o Concurso Universitário de Desenho de Humor - foi o primeiro do gênero que depois frutificaria no Salão do Mackenzie e no Salão de Piracicaba.

Foi também o primeiro prêmio que alcancei.
Quer dizer, antes dele houve um outro, um concurso interno d'O Pasquim, mas não lembro direito quando foi e não achei nenhuma reprodução do desenho que mandei.

O original deste aqui sumiu; escaneei a reprodução que a revista Grilo publicou, em 72.

Lembro que o prêmio consistia numa quantia - acho que de 500 cruzeiros (equivalia a uns 100 dólares) - em produtos da Casa Michelângelo.

Fiquei maluco ao entrar naquele templo das artes - comprei papéis lindos - que, de tanta reverência, jamais usei.

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Fui emedalhado com a Ordem do Mérito Cultural, numa cerimônia singela e cheia de gente. Revi meu velho conhecido Luiz Inácio, e chorei sem remédio só de ficar perto da Ângela Maria - a qual tinha colocado no episódio 44 da Muchacha sem saber que iria encontrá-la em seguida.

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Às vezes me citam como autor do personagem João Ferrador, que é símbolo dos metalúrgicos de São Bernardo.
Não sou.
Quando comecei a trabalhar no Tribuna Metalúrgica, jornal daquele sindicato, o personagem já existia - tinha sido criado pelo jornalista que o fazia, Antonio Carlos Félix Nunes, em 72, segundo me disseram.
Havia uma vinheta que ilustrava a coluna "Recado do João Ferrador" que, também segundo me disseram, fora feita pelo chargista Otávio.
Eu criei a figura do João de corpo inteiro, para figurar em quadrinhos - e fiz alguns materiais de campanha do sindicato, como este folheto, de 1978, em parceria com o Henfil.
É um manual sobre as resoluções do 3º Congresso da categoria.
(desculpem a má qualidade da cópia - perdi o original...)

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Por que eu parei de desenhar personagens?
E por que mudei de registro na forma de fazer as tiras?
Porque senti que se cumpriu um ciclo.
Senti que, continuando no mesmo caminho - um caminho muito prazeiroso, seja dito - eu estaria deixando de abrir essa outra porta que se apresentava.
Essa nova maneira de trabalhar não é muito clara (até hoje não o é), e a busca de sua veia principal me levou a pesquisar caminhos abandonados há muitos anos, do tempo em que eu não tinha feito ainda do desenho e das histórias uma profissão.

(a atualizar)

O Luiz Pedro me perguntou sobre isso, aproveito pra postar aqui no PMP.
Qual o melhor material para desenhar?
O "melhor material" - tipo de material - é aquele que melhor se ajeita com seu modo de trabalhar.
Nesse sentido, lápis pode ser "melhor" que nanquim, ou pior que aquarela e pincel.
Agora, "melhor material" entre várias marcas, em geral é o mais caro.

Papel?

Uso, em geral, papel ofício, desses comuns de impressoras.
Quando é preciso que seja uma arte maior, uso papel de blocos de lay-out.
Já faz muito tempo que não uso papéis mais finos, como schoeller (nem existe mais).
Não curto o Canson para trabalhar com bico de pena, ele esfiapa.
Também é ruim quando tenho que usar borracha pra apagar o lápis, o que acontece quase sempre.
Não tenho muita paciência pra pesquisar material, essa que é a verdade - mas acho que é preciso fazer isso.

(a atualizar)

Sempre me espanto com essa questão que algumas pessoas fazem de que as histórias tenham "sentido".
Nunca consegui entender qual era exatamente o sentido desse sentido.
Moral, filosófico, algum tipo de lição de vida?
Algo que nos "acrescenta" - como se fôssemos porquinhos com uma fenda às costas?
Faço histórias para crescer, não para acrescentar.

(a atualizar)

Tenho um modo simplificado de produzir as tiras diárias:

- papel A4 (cabe no scanner)
- rascunho em lápis vermelho, tinta preta por cima
- scanneio em .psd (um formato do photoshop)
- no computador, seleciono o vermelho (vem em CMYK), passo pra grayscale, ajusto Curves e mudo pra RGB.
- trabalho as cores
- salvo em .psd no meu arquivo, em .jpg pra mandar pro jornal

As tiras - da Folha e dos outros jornais - têm um tamanho mais ou menos padrão. No comprimento da folha A4, faz com que o original meça 28 X 8 cm. Esses 24 cm eu divido conforme a necessidade - 3 quadrinhos, 4, 5, duas linhas, um só espaço etc.

Faço muitas exceções a esse modo de trabalho: uso papéis maiores, desenho sem rascunho, com canetas variadas, pincel, bico de pena.

Gosto muito de uma caneta da Faber Castell alemã chamada PITT artist pen - tem um tipo Brush cuja ponta, de nylon, simula um pincel.
Ela gasta meio rápido, a ponta fica fofa, mas dá pra conseguir uma sobrevida dando um picote e criando uma chanfra nova na ponta.

No mais, sou bem tosco de técnicas. Já experimentei aquarela, acrílico, lápis de cor...mas sempre de maneira improvisada.

Meu sonho é desenhar sem fazer rascunho. Uma vez, em Piracicaba, conversando com o Crist (Cristóbal Reinoso) e com o Fortuna (Reginaldo Fortuna), disse isso e eles se espantaram: ué, mas não precisa de rascunho!
Fiquei humilhadinho, e fui tentar em casa, de novo.
Até hoje.

E ATENÇÃO! - meu amigo Benett - http://blogdobenett.blog.uol.com.br - me informa que usando a tal PITT artist pen da Faber Castell, quando a ponta gasta, você pode PUXÁ-LA pra fora e INVERTÊ-LA, de forma a ter uma ponta totalmente nova!
Obrigado, Benett! Quando eu conseguir mexer nessas ferramentas, vou botar o seu blog aí nos "blogs queridos".

(a atualizar)

Trabalhos e autores (sem muito rigor cronológico) que eu curti, (sobre os quais) babei, chupei, venerei, algumas vezes plagiei sem querer ou "sem querer":

Norman Rockwell - eu queria ser como ele, ai de mim!
Disney - nos quadrinhos, as histórias do Carl Barks (só descobri que era o Carl Barks muitos anos depois); animações, tudo.
Ziraldo - Pererê em particular e todo o resto em geral
Maurício de Sousa - Bidu e Franjinha
Quino - Mafalda
Garry Trudeau - Doonesbury
Robert Crumb
Tomi Ungerer
Zélio
Fortuna
Henfil
Jaguar
Millor
Luiz Gê
Angeli
Pessoal do HaraKiri e Charlie Hebdo: Wolinski, Reiser, Fred
Altan
Giancarlo Berardi
Ivo Millazzo
Bill Watterson - Calvin


(a atualizar)










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